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A Comedia Humana – Vol. 5 – Honore de Balzac

Modesta Mignon, Úrsula Mirouët, Eugênia Grandet, Pierrette… Quantos romances de Balzac que têm, como título, nomes de moças! Tal semelhança, sobretudo no que diz respeito às três últimas dessas obras, corresponde a outras analogias, mais orgânicas, que explicam por que o romancista julgou oportuno colocá-las em seguida no vasto edifício de sua A comédia humana. Foi ele mesmo que chamou Úrsula Mirouët de “irmã feliz de Eugênia Grandet”. Após a leitura dos três últimos dos quatro romances em apreço, os leitores verificarão facilmente que em nenhum deles a personagem feminina, cujo nome fornece o título, é propriamente protagonista. Contrariamente à Modesta Mignon, a quem uma imaginação fogosa — herdada, aliás, de mãe alemã — leva a urdir uma intrigazinha, Úrsula, Eugênia, Pierrette, três lindas representantes da virgem francesa, caracterizam-se de maneira igual pela sua extraordinária passividade. Elas não agem; deixam que os acontecimentos as levem. Sem defesa contra os golpes do destino, dependemunicamente do acaso das circunstâncias em que se veem envolvidas. Que é que Úrsula faz durante todo o decurso do romance? Ora sorri, ora verte lágrimas; fala pouco, age menos, quase não pensa; toda a sua vida reside no sentimento. É a moça típica do mundo de Balzac, bela, frágil, apagada, pintada em tons cinzentos. Nem poderia ser de outra maneira, afirma Paul Flat em Essais sur Balzac, pois “aos olhos de Balzac… a mulher é criada integralmente pelo amor e não existe, por assim dizer, antes que esse sentimento lhe tenha desenvolvido o ser”. E é justamente por isso que o romancista se compraz em representar a moça no momento decisivo de sua transformação, isto é, quando encontra o amor. Sem dúvida, ela corresponde, até certo ponto, a um tipo eterno de moça em todas as literaturas, e neste sentido talvez lembre a Gretchen de Goethe, “perseguida por Goupil com o sorriso mefistofélico” — (Baldensperger, Orientations étrangères, chez Honoré de Balzac, Paris, H. Champion, 1927), mas não deixa de ter traços reais, concretos, característicos do ambiente social e do momento histórico, como os têm todas as grandes personagens. Desde 1836, Balzac vinha anunciando em suas cartas, e até no prefácio de um dos seus romances, o livro intitulado Os herdeiros Boirouge , livro que, como tantos outros, nunca terminou. O capítulo único dessa obra projetada, encontrado nos manuscritos do romancista depois de sua morte, mostra que se trata de uma forma embrionária da narrativa que atualmente leva o título de Úrsula Mirouët. Num trecho de carta à condessa Hanska, Balzac, com sua modéstia habitual, qualifica esse novo trabalho de “obra-prima do romance de costume”. Bem se vê, pois, que na concepção primitiva do autor o objetivo central do livro não era o retrato de moça salientado no título, mas sim um quadro de costumes, revelados na luta provocada por uma herança. (No catálogo das obras que deviam compor A comédia humana, redigido por Balzac em 1845, ao lado de Úrsula Mirouët, já publicado, aparece Os herdeiros Boirouge , por fazer. Talvez o artista, verificando a importância que a figura de Úrsula acabou por adquirir, em parte justamente por causa do título, resolvesse escrever outra história, exclusivamente dominada pelas intrigas que produz a expectativa de uma herança numa cidadezinha francesa.) Mais uma vez, pois, num só romance Balzac desenrola várias ações, cada uma de caráter diferente: à narrativa do primeiro amor de Úrsula, que exigia um romance de análise sentimental, alia-se a das escaramuças dos herdeiros, pormenorizada pelo realismo do observador de ambientes. Nenhum desses romances entrelaçados ficou isento de censuras; assim, o grande pintor romântico Delacroix, em seu Diário, critica Balzac, em parte por apresentar caracteres “arrumados e de umbloco” (como o de Úrsula), em parte por pintar “quadros de pigmeus de que mostra todos os pormenores” (como os da luta dos herdeiros). É curiosíssimo ver, porém, como, escrupulosamente, anota poucos dias depois no mesmo diário: “Devo render justiça a Balzac… Há na pintura dos remorsos de seu chefe de posta traços de uma grande verdade. Escrevo isto em Champrosay após a morte da mãe Bertin. A agitação que notei num de seus herdeiros lembrou-me certos movimentos da Mirouët de Balzac”. O quadro dos remorsos do chefe de posta mereceu mais tarde de Alain elogios ainda maiores: “Essa variante do eterno Crime e castigo tem as dimensões da natureza. Que grande céu sobre Nemours!”.


A estruturação da história obedece a um padrão bem balzaquiano. Após um começo algo lento, onde o movimento é entrevado pela apresentação das personagens e sua respectiva genealogia, a ação vai ganhando em ritmo e intensidade e, pelo fim, chega a ter um andamento quase cinematográfico. Nem falta o elemento policial: uma campanha de difamação por meio de cartas anônimas, um crime cometido sem testemunhas e cuja revelação parece impossível. Sente-se que o livro foi feito num só jato — “em vinte dias”, como afirma o próprio autor. As inquietações metafísicas do romancista que o levavam ao estudo dos fenômenos ocultos transparecem em seus “estudos filosóficos” (Seráfita, Luís Lambert, A pele de onagro, O elixir da longa vida, A estalagem vermelha etc.), escritos entre 1829 e 1835. Mesmo A mulher de trinta anos, classificado entre os “estudos de costumes”, mas que admite a intervenção de forças ocultas muito embora publicado como romance em 1842, teve suas seis partes escritas dentro desse espaço de tempo. Em 1835, o ciclo de obras “parapsicológicas” parecia esgotado. Porém, em 1841, em Úrsula Mirouët, crônica minuciosa do dia a dia de uma cidadezinha e por isso arrolada entre as “cenas da vida provinciana”, o sobrenatural irrompe de novo com plena força: sonâmbulos e videntes interferem na vida das personagens; mortos comunicam-se com vivos através de sonhos e decidemproblemas aparentemente inextricáveis. Tratar-se-ia de um expediente fácil para resolver dificuldades? Mas a correspondência do escritor mostra-nos que ao longo dos anos ele nunca deixara de crer na parapsicologia, de frequentar e consultar adivinhos e cartomantes; interessava-se pela transmissão do pensamento, julgando-se dotado, ele próprio, de forças hipnóticas. (O seu catolicismo, tantas vezes propalado e mal praticado, admitia a fé nas doutrinas nebulosas de Swedenborg e de outros místicos, olhados com desconfiança pela Igreja.) Essa “teoria da vontade”, que ele atribui a seu personagem Luís Lambert, na realidade foi escrita por ele próprio aos quinze anos. Para muitos de seus leitores entusiásticos, essa coexistência em sua obra da observação e da fantasia é, precisamente, um dos segredos de sua grandeza (ver Baudelaire, Albert Béguin), enquanto outros só veem nela resíduos do romantismo frenético, de gosto duvidoso. Um desses detratores era precisamente o primeiro tradutor italiano de Úrsula Mirouët, Ercole Marenesi, que achou necessário, num prefácio pouco leal, ridicularizar a doutrina do magnetismo segundo Balzac, por estar ela em desacordo com os ensinamentos da Igreja. Zombando do romancista, cita uma anedota extraída das memórias de um médico milanês, o qual assistiu a quatro tentativas malogradas de sugestão hipnótica feitas pelo próprio Balzac (apud Gigli, Balzac in Italia). E, ao vermos o que esse homem realizou pela força da sua vontade e como metamorfoseou a sua vida pelos poderes da imaginação, sentimo-nos menos prontos a qualificar de simples ingenuidade a sua constante preocupação com os fenômenos magnéticos. A maioria dos leitores provavelmente não concordará com Brunetière, a cujo ver “Úrsula Mirouët, um dos mais belos romances de Balzac, está completamente estragado pela intervenção do mesmerismo ou magnetismo”. Menos categórico o julgamento de Maurice Allem, com todas as suas reservas: “O emprego de tais processos tem a vantagem de facilitar singularmente a tarefa do romancista, mas Balzac, dentro de sua convicção, considerava-os normais, e em Úrsula Mirouët legitimou-as, pelo menos segundo ele julgava, consagrando o capítulo vi ao magnetismo em resumo”. Não se trata aqui, evidentemente, de examinar o fundo do problema, o que envolveria umjulgamento sobre toda a doutrina do espiritismo. Notemos apenas com que sensíveis antenas captava Balzac todas as correntes espirituais que agitavam a sua época. Embora não tenha formulado a palavra espiritismo — a qual, da mesma forma que o movimento religioso a que deu nome, apareceu pela primeira vez, nos Estados Unidos, só em 1848, isto é, alguns anos depois da publicação de Úrsula Mirouët —, indubitavelmente ele é um dos primeiros adeptos dessa doutrina na Europa, e suas digressões sobre sonambulismo, hipnotismo, sugestão são outras tantas tentativas de penetrarlhe os mistérios. Úrsula Mirouët significa, pois, em A comédia humana, arrumada segundo a ordem de leitura imposta pelo próprio autor, o primeiro salto nas trevas, a primeira quebra numa representação do universo que parecia puramente sensualista. Daí em diante desconfiaremos do realismo de Balzac e não mais perderemos essa impressão singular de que fala Albert Béguin em Balzac visionnaire, “de que tudo é conforme à nossa imagem habitual do mundo e às suas normas tranquilizadoras, e, ao mesmo tempo, se encontra rodeado de uma atmosfera estranha em que entra algo divino e algo demoníaco”. (Os espíritas, naturalmente, não deixam de considerar Balzac um dos seus. Uma prova eloquente disso é o curioso romance “psicografado” Cristo espera por ti, que o espírito de Balzac teria ditado em português ao médium Waldo Vieira, e que já teve diversas edições.

) paulo rónai ÚRSULA MIROUËTà srta. sophie surville [1] É um verdadeiro prazer, minha querida sobrinha, dedicar-te um livro cujo assunto e cujos detalhes tiveram tua aprovação, tão difícil de obter de uma moça a quem o mundo é ainda desconhecido e que não transige com nenhum dos nobres princípios duma santa educação. Vós, as moças, sois um público temível, pois não se deve deixar-vos ler senão os livros puros como vossa alma, e vos proíbem certas leituras, como vos impedem de ver a sociedade tal qual é. Agradarvos não é, então, motivo de orgulho para um autor? Queira Deus que a afeição não te haja enganado! Quem no-lo dirá? O futuro, que verás, espero, e no qual talvez já não exista mais teu tio balzac I – OS HERDEIROS ALARMADOS Quem chega a Nemours, vindo de Paris, passa sobre o canal do Loing, cujas margens constituem, ao mesmo tempo, muralhas campestres e pitorescos passeios para aquela encantadora cidadezinha. Desde 1830, infelizmente, têm-se construído muitas casas aquém da ponte. Se essa espécie de bairro continuar aumentando, a fisionomia da cidade perderá sua graciosa originalidade. Mas, em 1829, as margens da estrada estando livres, o chefe da posta, homem alto e corpulento de cerca de sessenta anos, sentado no ponto culminante da ponte, podia, numa bela manhã, abranger com o olhar o que, na linguagem do seu ofício, se denomina um ruban de queue.[2] O mês de setembro ostentava seus tesouros. A atmosfera flamejava sobre a relva e os seixos. Nenhuma nuvem manchava o azul do éter, cuja pureza brilhante em todo o firmamento, mesmo no horizonte, indicava a excessiva rarefação do ar. Por isso, Minoret-Levrault, assim se chamava o chefe da posta, era obrigado a fazer uma viseira com a mão, para não ficar ofuscado. Impaciente com a espera, alongava o olhar ora para os esplêndidos prados que se desdobram à direita da estrada e onde a erva vicejava, ora para a colina bordada de bosques que, à esquerda, se estende de Nemours a Bouron. Ouvia no vale do Loing, onde ressoavam os ruídos da estrada repercutidos pela colina, o tropel de seus próprios cavalos e os estalos de chicote de seus postilhões. Não é preciso ser mesmo um chefe de posta para impacientarse diante de um prado onde erravam animais como os que pinta Paulus Potter, sob um céu de Rafael, sobre um canal sombreado de árvores à maneira de Hobbema?[3] Quem conhece Nemours sabe que a natureza é ali bela como a arte, cuja missão é espiritualizá-la. Ali, a paisagem encerra ideias e faz pensar. Mas, ao ver Minoret-Levrault, um artista abandonaria a paisagem para pintar aquele burguês, tanto era ele original à força de ser vulgar. Reuni todos os elementos de brutalidades e obtereis Caliban,[4] que certamente é uma grande coisa. Onde a forma domina, o sentimento desaparece. O chefe da posta, prova viva desse axioma, apresentava uma dessas fisionomias onde o pensador dificilmente encontra um vestígio de alma sob a violenta carnação produzida por um brutal desenvolvimento físico. Seu gorro de pano azul, em gomos e de pala pequena, modelava uma cabeça cujas vigorosas proporções provavam que a ciência de Gall[5] ainda não abordou o capítulo das exceções. Os cabelos grisalhos e lustrosos que apareciam fora do gorro demonstravam que a cabeleira embranquece por outras causas além de fadigas de espírito e desgostos. De cada lado da cabeça viam-se grandes orelhas quase cicatrizadas nas bordas pelas erosões de um sangue muito abundante, que parecia querer esguichar ao menor esforço. A tez mostrava tons violáceos sob uma camada trigueira, devida ao hábito de afrontar o sol. Os olhos cinzentos, ágeis, encovados, ocultos sob espessas sobrancelhas negras, assemelhavam-se aos olhos dos calmucos vindos em 1815.[6] E se algumas vezes brilhavam por um momento, só podia ser por efeito de um pensamento cobiçoso.

O nariz em sela, achatado na base, arrebitava-se bruscamente. Lábios grossos, em harmonia com uma papada quase repelente, cuja barba, feita apenas duas vezes por semana, mantinha um lenço de pescoço no estado de corda gasta; um pescoço pregueado pela gordura, embora muito curto; grandes bochechas completavam os caracteres da força estúpida que os escultores dão às suas cariátides. Minoret-Levrault assemelhava-se a essas estátuas, apenas com a diferença de que elas suportam umedifício, ao passo que ele já tinha bastante trabalho em se sustentar a si mesmo. Encontrareis muitos desses Atlas sem mundo.[7] O busto daquele homem era um bloco; diríeis um touro erguido sobre as patas traseiras. Os braços vigorosos terminavam por mãos espessas e duras, grandes e fortes, que podiam e sabiam manejar o chicote, as rédeas e o forcado, e às quais nenhum postilhão se arriscava. O enorme ventre daquele gigante era suportado por coxas grossas como o corpo de um adulto e por pés de elefante. A cólera devia ser rara naquele homem, mas terrível, apoplética, quando explodia. Embora violento e incapaz de reflexão, aquele homem nada fizera que justificasse as sinistras promessas de sua fisionomia. Aos que tremiam diante daquele gigante, os postilhões diziam: “Ora, ele não é mau!”. O chefe de Nemours, para nos servirmos da abreviatura usada em muitas regiões, trajava uma veste de caça de veludo verde-garrafa, calças de cotim verde com riscas verdes, um amplo colete amarelo de pele de cabra, no bolso do qual se percebia uma tabaqueira monstruosa delineada por umcírculo negro. Para nariz chato, tabaqueira grande — é uma lei quase sem exceção. Filho da Revolução e espectador do Império, Minoret-Levrault nunca se imiscuíra na política. Quanto às suas opiniões religiosas, nunca pusera os pés na igreja, a não ser para casar-se. Seus princípios na vida privada estavam fixados no Código Civil: tudo o que a lei não proibia ou não podia atingir, ele julgava realizável. Nunca havia lido mais que o jornal do departamento de Seineet-Oise ou algumas instruções relativas à sua profissão. Passava por um agricultor hábil, mas sua ciência era puramente prática. Assim, em Minoret-Levrault, o moral não desmentia o físico. Falava raramente; e, antes de dizer qualquer coisa, tomava sempre uma pitada de rapé para ter tempo de procurar, não ideias, mas palavras. Conversador, vós o acharíeis imperfeito. Considerando que aquela espécie de elefante sem tromba e sem inteligência se chamava Minoret-Levrault, não se devia reconhecer, como Sterne, o oculto poder dos nomes, que ora ridicularizam e ora predizem os caracteres?[8] Apesar de suas visíveis incapacidades, em trinta e seis anos, com o auxílio da Revolução, havia conseguido trinta mil francos de renda em campos, terras cultiváveis e matas. Se Minoret, interessado nas empresas de diligência de Nemours e nas do Gâtinais[9] a Paris, ainda trabalhava, fazia-o menos por hábito do que por causa de um filho único, a quem desejava preparar um belo futuro. Esse filho, que, segundo a expressão dos camponeses, se tornara um senhor, completara recentemente o curso de Direito e, após as férias forenses, devia prestar juramento como advogado estagiário. O sr. e a sra.

Minoret-Levrault — pois, por detrás daquele colosso, todo mundo percebe uma mulher, sem a qual tão bela fortuna seria impossível — haviam dado inteira liberdade ao filho para escolher uma profissão: tabelião em Paris, procurador do rei em qualquer lugar, recebedor-geral não importa onde, agente de câmbio ou chefe de posta. Que fantasia podia recusarse, a que posição não devia aspirar o filho de um homem de quem se dizia, desde Montargis até Essonne: “O pai Minoret nem sabe quanto possui!”.

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