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A Comedia Humana – Vol. 6 – Honore de Balzac

Um conchego de solteirão (em francês: Un Ménage de garçon) era o título deste romance quando, em 1843, apareceu em volume. Em suas notas póstumas, Balzac voltou ao título A gapuiadora (La Rabouilleuse), que pretendia dar ao livro desde o início. Dos dois títulos, preferimos o primeiro, que, além de já ter sua tradução em Portugal, possui a vantagem de não necessitar explicação como o outro. A oscilação do autor entre esses e mais títulos mostra que aos seus olhos se destacava ora um, ora outro dos elementos constitutivos do romance. É, aliás, uma característica do processo balzaquiano de concentrar várias ações numa narrativa. “O romance balzaquiano” — escreve Léon Daudet (em Écrivains et artistes, vol. 5) —“desenvolve, às vezes em três ou quatro direções diferentes e mirando a explosões sucessivas, catástrofes visíveis ou íntimas que constituem uma cadeia, um maciço, e não um pico. Em La Rabouilleuse existem, por exemplo, enxertadas umas nas outras: 1º, a história de um ancião enganado; 2º, a de um soldado de meio-soldo; 3º, a de uma velha tia e seu sobrinho; 4º, a da conquista de uma rapariga esperta por um homem rude; 5º, a de uma rivalidade por dinheiro; 6º, a de uma cidadezinha de província. A cada uma dessas narrativas conjuntas, mas que conservam seu movimento particular, corresponde um episódio decisivo.” Léon Daudet podia muito bem acrescentar mais uma história: a dos dois irmãos José e Felipe Bridau, de caracteres e destinos diametralmente opostos, tão importante no conjunto que Balzac, ao publicar a primeira parte do romance em La Presse, em 1841, deu-lhe o título de Os dois irmãos (Les Deux Frères). Observa com razão Maurice Allem que nenhum desses três títulos se refere ao caráter principal, o de Felipe, e que Balzac, se tivesse vivido mais, os teria ainda substituído até encontrar um que designasse o tipo espantoso que ele criou na figura do militar desocupado e perverso. Mas deve-se notar que o título A gapuiadora, embora focalizasse um protagonista menos importante que Felipe, é um achado. Na admirável cena em que Flora Brazier aparece pela primeira vez ainda menina e em ato de “gapuiar”, Balzac explica o sentido próprio desse termo regional: turvar a água com um galho para assustar os caranguejos e encaminhá-los para as armadilhas do pescador. O sentido figurado, não explicado, mas que se depreende da história (“acaparar uma herança para que outro goze dela”), aplica-se às mil maravilhas ao caso de Flora. Apesar de tantas ações, não somente o interesse não fica prejudicado como também o romance apresenta uma unidade poderosa. O que a assegura é sobretudo a evolução de Felipe Bridau. A monstruosa figura do comandante de Napoleão, posto em disponibilidade e desviado de seu rumo primitivo, revelando reservas inesgotáveis de perversidade, domina o livro e é uma das personagens mais possantes de toda A comédia humana. Foi Taine que, em Balzac, seu estudo magistral, chamou a atenção do leitor para a novidade dessa figura: “Como tornar belos o vício e a loucura? Como conquistar nossa simpatia para com animais de rapina e cérebros doentes? Como contrariar o uso quase universal de todas as literaturas e colocar o interesse e a grandeza no local preciso em que elas só viram o ridículo e o odioso? Que pode haver de mais desprezível que o sargentão grosseiro, perseguido de remoques e caiporismos, desde Plauto até Smollett? Reparai, ei-lo que se transforma; Balzac o explica: percebeis as causas de seu vício; tendes a impressão de seu poder e tomais parte em sua ação”. O caráter de Felipe grava-se efetivamente com extraordinário relevo. Interessa não somente por causa das sucessivas oportunidades de reerguimento que a sorte lhe apresenta e que só servem para atolá-lo cada vez mais no vício, mas também por se apresentar como produto fatal das circunstâncias que lhe moldaram o destino. Esse monstro que poderia, se o Império subsistisse, realizar prodígios de bravura na guerra, sente-se desarvorado na paz e passa a “agir na vida privada como nos campos de batalha”. Mas, além e antes de circunstâncias históricas, ele é produzido também por uma educação errada. Balzac faz pagar bem caro à pobre Ágata a sua injusta predileção materna que a inclina a desconhecer as qualidades do genial e bom José e a encobrir as faltas mais terríveis do devasso e imoral Felipe. É impossível não reconhecer na história dessa iníqua preferência uma reminiscência da mocidade do próprio Balzac. Em sua correspondência, o escritor queixava-se inúmeras vezes da cegueira da sra.


François Balzac, que, no auge da glória de seu filho Honoré, teimava em não levá-lo a sério e a preferir-lhe a boa e medíocre Laura e mesmo o vadio Henri. Há no romance vestígios de fatos reais. Balzac conhecia Issoudun, onde passou períodos felizes em casa da amiga Zulma Carraud. Conheceu a Cognette e viu na Fonte de Tivoli uma pequena gapuiadora pegar camarões. Maxêncio Gilet existiu tão bem como os Cavalheiros da Malandragem, um dos quais, o pintor Auguste Borget, se tornou amigo de Balzac. Este, aliás, deve ter conhecido mais de um desses antigos oficiais do Império, perdidos no mundo da Restauração e em parte depravados na inércia, como os do grupo formado em redor de Felipe e de Maxêncio, pois “as biografias militares de Um conchego de solteirão são documentos de primeira ordem, e… duvido que os arquivos do Ministério da Guerra contenham em suas pastas documentos mais autênticos e mais interessantes” (F. Brunetière, Honoré de Balzac). Os pesquisadores que estudaram a história de Issoudun no tempo de Balzac encontraram ainda o original que serviu para o retrato do velho Hochon e estabeleceram que José Bridau tinha muito de Delacroix, o grande pintor do romantismo. Mas o erudito balzacólogo Pierre Citron (na “Introdução” na nova edição Garnier do romance) prefere ver nele mais um dos avatares do próprio romancista, cuja mocidade fora também amargurada pela própria feiura, pelo desamor e a desconfiança da família, pela injusta preferência materna por outro filho, imprestável, e pelas dificuldades da estreia. Não se conseguiu, porém, descobrir o modelo de João-Jaques Bridau. Mesmo que o descobrissem, pouco importaria, pois todos os fragmentos que escavações pacientes possam ainda trazer à luz do dia terão realidade, mas não sentido. Este último reside não nos fatos, mas nas ligações que entre eles o gênio de Balzac estabeleceu. As peças pregadas pelos Cavalheiros da Malandragem, a paixão da velha Descoings pela loteria, as depravações sexuais do dr. Rouget e de seu filho, o episódio da Gapuiadora, o grande papel dos falatórios em Issoudun, tudo isso vem a ter sentido verdadeiro à medida que Balzac o relaciona por fios pacientemente urdidos com a perversidade do antigo comandante de Napoleão. Outro elemento constitutivo da obra-prima é a perspectiva que o autor consegue dar às cenas representadas pelos seus protagonistas, Balzac é mestre nessa arte, e em Um conchego de solteirão melhor do que, talvez, em qualquer outra obra. Graças ao contínuo crescendo em que nos revela o amoralismo de Felipe, este vai engrandecendo espantosamente a nossos olhos, e não temos a impressão de um exagero quando o autor comenta nestes termos o êxito alcançado por esse caçador de herança: “Quanto à procuração exigida pelo feroz coronel… ele a obteve quando quis, pois Flora caiu sob o domínio daquele homem como a França caíra sob o de Napoleão. Como a mariposa que prende as asas na cera derretida de uma vela, assim Rouget dissipou rapidamente suas últimas forças. Diante dessa agonia, o sobrinho conservou-se impassível e frio como os diplomatas, em 1814, ante as convulsões da França imperial.” A comparação não é desproporcionada. Também, que variedade de ambientes dentro de um único livro: o conchego de solteirão, o ateliê do pintor, a taverna do oficial de meio-soldo, a casa do avarento; a redação do jornal, a Issoudun dos falatórios, a Paris das intrigas, a Nova York dos apetites brutais. E que riqueza de caracteres: Felipe, José, Max, João-Jaques, o espanhol Fario, o velho sr. Hochon, a Descoings, a Gapuiadora, Ágata, quase todos dominados por uma paixão veemente, cuja intensidade independe da importância de seus objetos. A frase pilhérica de Bixiou resume a filosofia das paixões em que é baseada, por assim dizer, toda a obra de Balzac: “Basta entregarmos um homem a um vício para nos desembaraçarmos dele. ‘Ela gostava muito de dançar e foi a dança que a matou!’, disse Hugo. Aí está! Minha avó gostava de loteria e Felipe matou-a pela loteria! O tio Rouget gostava da farra e Lolote o matou! A sra.

Bridau, pobre mulher, gostava de Felipe e foi morta por ele!” A crítica moderna é unânime em reconhecer em Um conchego de solteirão uma das obras mestras de Balzac. Alguns, como Marcel Barrière, o censuraram por ter-se distraído demais com a narrativa das façanhas algo insulsas dos Cavalheiros da Malandragem, tão pouco divertidas quanto as farsas de cartório contadas em Uma estreia na vida (à qual, aliás, Um conchego de solteirão se liga por muitos laços, como se verá nas notas). Mas é fácil compreender que Balzac quisesse incluir esses episódios tão conhecidos da história anedótica da cidade para aumentar a credibilidade de toda a sua narrativa e recorrer a esses episódios para resolver a tensão às vezes quase insuportável da atmosfera. O único ponto fraco da obra é a carta-prefácio a Nodier, cuja inconsistência se torna patente quando a lemos depois de acabada a leitura do romance. Poderia causar espécie que Balzac tenha compreendido tão pouco o sentido de sua obra a ponto de ver nela uma prova dos efeitos funestos “produzidos pela diminuição do poder paterno” e da “indisponibilidade do casamento insolúvel para as sociedades europeias”. Como se o casamento de João-Jaques Rouget com Flora Brazier pudesse formar obstáculo eficaz ao domínio que Max Gilet e, depois dele, Felipe iam adquirir sobre esta mulher. Tenha-se em vista, porém, que às vezes o político Balzac se lembra, desastradamente, de acudir ao romancista e de arrolar, entre seus auxiliares, o “dedo de Deus”; desta vez ele se empenha em consertar um universo em que a monstruosa perversidade de um Felipe Bridau e o sublime amor materno de Ágata são castigados com a mesma severidade. Um dos pesquisadores que escarafuncharam com paciência beneditina a vida de Balzac, André Lorant (ver P. Citron, op. cit.) aponta oportunamente que, precisamente nos anos da elaboração do nosso romance, o escritor tinha em sua casa uma criada-amante em carne e osso, certa srta. Brugnol, que o arrastou pela rua da amargura ameaçando-o de dar à publicidade as cartas da condessa Hanska. Como quase todos os romances de Balzac, este eterno enamorado da cena que em toda a sua vida não conseguiu um único êxito teatral, Um conchego de solteirão foi adaptado ao teatro depois de sua morte. A adaptação de Émile Fabre, representada pela primeira vez em 1903, retomada em 1936 e em 1947, submete o romance a modificações e cortes bem sensíveis. A ação reduz-se à parte desenvolvida em Issoudun. Felipe, bem menos corrompido, procura obter a herança do tio não apenas para si, mas também para a mãe e o irmão; e, pouco depois de ter matado Maxêncio em duelo, é por sua vez assassinado por instigação da Gapuiadora. Vê-se que, mesmo com esse assassínio a mais, o drama perde muito da impressão sombria deixada pelo romance, pois o adaptador introduz assim uma espécie de justiça divina imediata, castigando de maneira igual Felipe e Maxêncio. Como a Gapuiadora se retrai espontaneamente, tudo volta à ordem. paulo rónai OS CELIBATÁRIOS: UM CONCHEGO DE SOLTEIRÃO AO SR. CHARLES NODIER ,[1] membro da Academia Francesa, bibliotecário do Arsenal Eis, meu caro Nodier, uma obra cheia desses fatos subtraídos à ação das leis pela inviolabilidade do lar, mas nos quais o dedo de Deus, tão frequentemente denominado acaso, substitui a justiça humana e cuja moral, embora ditada por um personagem galhofeiro, não deixa de ser instrutiva e impressionante. Dela resultam, a meu ver, grandes ensinamentos para a Família e para a Maternidade. Talvez só muito tarde cheguemos a perceber as consequências da diminuição da autoridade paterna. Esse poder, que antigamente só cessava pela morte do pai, constituía o único tribunal humano que julgava os crimes domésticos e, nas grandes ocasiões, a Realeza consentia em executar suas sentenças. Por mais terna e bondosa que seja a mãe, ela não substitui essa autoridade patriarcal, do mesmo modo que a mulher não substitui o rei no trono; e, se tal exceção ocorre, dela resulta um ser monstruoso. Talvez eu ainda não tenha composto um quadro que mostre melhor do que este o quanto o casamento indissolúvel é indispensável para as sociedades europeias, que infortúnios causa a fraqueza feminina e que perigos encerra o interesse pessoal desenfreado.

Oxalá uma sociedade baseada unicamente sobre o poder do dinheiro estremeça ao verificar a impotência da justiça ante as combinações dum sistema que endeusa o triunfo perdoando todos os meios empregados para alcançá-lo! Oxalá ela recorra imediatamente ao catolicismo para purificar as massas pelo sentimento religioso e por uma educação diferente da duma universidade leiga! Muitos belos caracteres, muitas grandes e nobres abnegações refulgirão nas Cenas da vida militar para que me seja permitido assinalar aqui quanta depravação as contingências da guerra criam em certos espíritos que, na vida privada, ousam agir como nos campos de batalha. Você lançou sobre nossa época um olhar perspicaz cuja filosofia se traduz em mais de uma reflexão amarga que transparece de suas páginas elegantes e apreciou, melhor do que ninguém, os estragos produzidos no espírito de nossa pátria por quatro sistemas políticos diferentes. Assim, eu não podia colocar esta história sob a proteção duma autoridade mais competente. Talvez seu nome proteja esta obra contra as acusações que não lhe faltarão: onde está o doente que se conserva silencioso enquanto o cirurgião lhe arranca o curativo de suas chagas mais vivas? Ao prazer de dedicar-lhe esta história alia-se o orgulho de proclamar sua benevolência por quem se declara aqui

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