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A Comedia Humana – Vol. 7 – Honore de Balzac

Ilusões perdidas (em francês: Illusions Perdues) é a narrativa mais extensa de Balzac, sobretudo se considerarmos que o romance Esplendores e misérias das cortesãs lhe forma a continuação. Essas duas obras constituem na realidade uma só, a história de Luciano de Rubempré, uma das maiores e mais impressionantes da literatura do século xix. Nesse imenso livro Balzac trabalhou, por assim dizer, durante toda a sua vida, ou, pelo menos, toda a sua carreira literária. Ilusões perdidas traz a data de 1835-1843; Esplendores e misérias das cortesãs, a de 1838-1847. O autor deu esses dois romances várias vezes como acabados, vendeu-os a diversos editores e reescreveu-os vezes sem conta. Em ambas as obras, porém, aparecem resíduos mesmo da primeira fase clandestina do escritor; umdos poemas atribuídos ao poeta Luciano, por exemplo, foi publicado pelo próprio Balzac em 1824. Além de formar o mais vasto dos romances de Balzac, este conjunto é, na verdade, o mais balzaquiano de todos os seus romances, embora não seja o mais apreciado nem o mais conhecido. A fama do romancista é assentada em obras menos extensas, como Eugênia Grandet, O primo Pons, A prima Bette, O pai Goriot, e até em obras tão fracas como A mulher de trinta anos. O relativo desconhecimento da história de Luciano de Rubempré é devido provavelmente a uma impressão dos contemporâneos de Balzac, adotada sem muito exame pela posteridade. Pois os contemporâneos de forma alguma podiam formular julgamento equânime a respeito de uma obra que saiu aos pedaços, publicados com intervalos enormes, uns em folhetim, outros em volume, não somente sob títulos diversos, sem nada para lhes indicar a ligação, como também sem que fosse observada a ordemcronológica dos episódios. (Ver Paul-Émile Cadilhac, “Le Centenaire d’Illusions Perdues”, emL’Illustration, 5 de novembro de 1938.) Balzac levava o seu imenso plano na cabeça e pouco lhe importava que lançasse primeiro ora esta, ora aquela parte; trabalhava sempre tendo em vista o conjunto; assim, o fim de Ilusões perdidas saiu depois do começo de Esplendores e misérias das cortesãs. Nada surpreendente, pois, que o público da época tenha perdido o fio desses enredos emaranhados e preferido as obras que saíram de vez completas. Hoje, porém, nada nos impede de apreciar devidamente a epopeia de Luciano de Rubempré e de colocá-la entre as obras mais significativas do romancista. Não fosse o nosso respeito à ordem de publicação determinada por Balzac e seguida à risca na presente edição, daríamos Esplendores e misérias das cortesãs logo após Ilusões perdidas e não no volume 9, onde está inserido emconformidade com o critério adotado desde o início. Por esse motivo limitamos o comentário presente a Ilusões perdidas, assinalando desde já que Esplendores e misérias das cortesãs é a sua continuação direta. Luciano de Rubempré é uma das criações mais completas de Balzac. Na representação dessa personagem, o romancista mostra-se digno sucessor dos clássicos, criadores de grandes tipos, e, ao mesmo tempo, pinta um indivíduo caracteristicamente romântico. Luciano encarna, antes de tudo, o tipo universal do talento provinciano seduzido pelo brilho da capital; mas também é a personagemcaracterística de determinada sociedade e época, um desses moços influenciados pelo exemplo de Napoleão, “tão fatal no século xix pelas pretensões que inspira a tanta gente medíocre”. Roland Chollet, em seu excelente prefácio a Ilusões perdidas (na edição da Gallimard na Biblioteca Pléiade), cita vários casos reais de fracasso parecidos com o contado nesse romance, amplamente comentados pela imprensa da época. Ao mesmo tempo dá toda uma relação de narrativas publicadas entre 1820 e 1840 que têm como assunto o desmoronamento de ambições intelectuais exageradas e de sonhos de glória frustrados. O estudioso mostra a repetição nessas obras de certas situações estereotipadas, que Balzac não se pejou de aproveitar; por exemplo, a do jovem poeta arruinado, forçado pela miséria a escrever, a toda a pressa, um punhado de canções licenciosas, para custear o enterro da amante. Mesmo o mais importante desses romances, O vermelho e o negro, de Stendhal, não teve em 1831 o impacto que a posteridade lhe atribuiria mais tarde; foi o tipo do talento ambicioso de Balzac, triunfante como Rastignac ou derrotado como Luciano, que se gravou logo na imaginação dos leitores. Afinal, é, também, uma individualidade inconfundível, delineada sob todos os seus aspectos com perfeito relevo, vista por dentro e por fora com seus próprios olhos, os de Balzac e os dos amigos e inimigos. Chegamos a conhecer-lhe todas as fraquezas e, no entanto, como o próprio romancista, não conseguimos subtrair-nos à estranha sedução que emana dessa criatura frágil e perigosa, “bela como um deus grego”.


Sendo Luciano uma pessoa sumamente influenciável, cuja evolução é modificada por todos aqueles com quem convive, seu criador empenha-se em descrever a fundo os ambientes por onde ele passa: a fastienta, ridícula e limitada sociedade de Angoulême, e o brilhante meio literário de Paris, espantosamente imoral e cinicamente espirituoso, no qual se vive com vertiginosa intensidade. No fim do romance, ao reconduzir Luciano, já famoso, ao cenário de sua estreia, o autor completa comum último toque o quadro da sociedade provinciana, a qual condena e almeja, a um tempo, emLuciano, o encanto deletério de Paris. Esses fidalgotes tolos e desocupados que gastam a vida em questões de etiqueta e mesquinhas intrigas pessoais, esforçando-se por manter inacessível o seu mundinho às castas mais “baixas”; esses pequeno-burgueses que escalam o reduto pelas armas ora do comércio, como os Cointet, ora das profissões liberais, como Petit-Claud; esses operários astutos e obstinados, como Cérizet e o velho Séchard, que se infiltram sorrateiramente na burguesia; esse salão provinciano onde reina a sra. de Bargeton, sedenta de aventuras intelectuais e outras, irmã espiritual de Diná Piédefer (A musa do departamento) e da sra. de Bovary, são admiravelmente colhidos ao vivo. Balzac intensifica a impressão de monotonia e pasmaceira, reconduzindo-nos ao mesmo cenário com Luciano e a sra. de Bargeton. Tudo está no mesmo lugar, como se na ausência dos dois toda a vida da cidadezinha tivesse parado. A ebulição que nela suscita a presença de um ambicioso ou de um apaixonado traz à tona daquele lodaçal toda a lama dos fundos. Menos ligada ao ambiente provinciano, pois poderia verificar-se em qualquer lugar, é a história de David Séchard, as suas lutas de industrial e de inventor. Em volta dele, como de todas as personagens honestas de Balzac, enxameiam os velhacos, e trama-se a conspiração de praxe para ludibriá-lo e despojá-lo. A personalidade de David, o gênio modesto cheio de concepções sublimes e incapaz de resolver os pequenos problemas da vida prática, é tão autêntica como a de Luciano e serve para pôr em relevo esta última por efeito de oposição. Pouco diremos de Eva, irmã de Luciano e esposa de David, “a criatura mais encantadora que eu já fiz”, segundo uma afirmação de Balzac, limitando-nos a assinalar a arte com que o romancista sabe reproduzir a oscilação de seus sentimentos entre o irmão e o marido. Nenhum desses caracteres necessita de comentário: todos se desenvolvem aos olhos do leitor, explicam-se por si mesmos. Mas talvez não seja desnecessário apontar, especialmente no episódio de David Séchard, como o mundo de Balzac é sólido, cheio, por assim dizer “mobiliado”. David é impressor. Essa qualidade não resulta de uma afirmação gratuita do autor: Balzac sente-se na obrigação de nos levar à tipografia, de nos apresentar os operários e as máquinas, os problemas administrativos e técnicos da impressão, o cálculo do custo e o do lucro e até a gíria do ramo. Depois, David se torna inventor. Balzac acompanha-o passo a passo em suas experiências para descobrir um processo barato de fabricar papel, espia-o no seu laboratório, abre-lhe os alambiques e sofre com ele as dificuldades da obtenção da patente, as possibilidades de fraude deixadas pela lei aos “aperfeiçoadores de privilégio”. Enfim, David se envolve em complicações financeiras, e lá vemBalzac, pela primeira vez na história da literatura, a entupir as páginas de um romance com as vicissitudes do protesto de uma letra de câmbio, sem esquecer a especificação pormenorizada das despesas. Com tudo isso, o interesse do leitor não se cansa, e essas infiltrações da complexa realidade cotidiana num gênero até então puramente psicológico trazem conquistas definitivas e possibilidades infinitas de enriquecimento, tornando o romance, daí em diante, a síntese de todos os gêneros e a expressão peculiar do século xix. A parte mais importante do livro é o segundo episódio, as vicissitudes de Luciano em Paris, onde ele passa por uma série de ambientes. O dos jornalistas é aquele que leva Balzac a usar os traços mais incisivos e as cores mais sombrias, e lhe transforma as páginas numa sátira virulenta. No prefácio que antecedia a primeira edição de “Um grande homem da província em Paris”, o romancista fez questão de salientar que não se tratava de um acaso e que o seu libelo obedecia a umintuito bem definido: Os costumes do jornal constituem um desses assuntos imensos que exigem mais de um livro e de um prefácio. Aqui o autor pintou os começos da doença que atingiu nos dias de hoje o seu completo desenvolvimento.

Em 1821, o jornal encontrava-se em suas vestes de inocência comparado com o que é em 1839. Se, porém, o autor não pode abraçar a chaga em toda a extensão, tê-la-á, pelo menos, enfrentado sem medo. É preciso, porém, observar com Antoine Adam, prefaciador do romance na edição Garnier (1956), que em seus retratos tão admiráveis do jornalista, Balzac não visava a identificabilidade; seu fito não era vingar-se nesse ou naquele indivíduo, mas esboçar um quadro geral exato e fiel. A comparação entre o texto impresso e o manuscrito mostra como ele procurava obliterar os indícios identificadores. Para cada uma dessas personagens tão vivas, dez pessoas reais contribuíram com umtraço de caráter ou um dito revelador. Elas eram mais que verdadeiras: eram reais. Sua observação divinatória permitiu-lhe antever o imenso poder concentrado nas mãos do jornalista, e com o seu pessimismo inato descobriu todos os abusos a que esse poder se prestava. Mais uma vez, o escritor pegou in statu nascendi uma das instituições essenciais do século xix, quando ninguém lhe percebia ainda a importância transcendental. É curioso notar quais os termos da gíria jornalística — então neologismos — que Balzac acha necessário explicar: chantage, canard, réclame, três palavras emque se resumem precisamente as maiores ameaças da imprensa imoral. No mesmo prefácio, o autor proclama bem alto que está em ótimas condições para pronunciar esse requisitório contra os jornais, pois “pertence ao reduzido número daqueles que não devemagradecimentos ao jornalismo e nunca lhe pediram nada; fez o seu caminho sem se apoiar nesse bastão pestífero; uma das suas vantagens consiste em ter sempre desprezado essa hipócrita tirania, em não ter implorado artigo algum a pena alguma, em nunca ter sacrificado em reclamos inúteis escritores imortais para deles fazer o pedestal de algum livro que, nas condições atuais, não tem seis semanas de vida”. E continua nesse mesmo tom, sem papas na língua, qualificando os jornais de “câncer que talvez devore o país”, para depois chamá-los, dentro do romance, “lupanares do pensamento”. Muitos perceberão com espanto que o escritor, longe de reclamar a liberdade da imprensa, exige rigorosas medidas coercitivas do governo contra ela. Além do ressentimento de talento vilipendiado e das reminiscências de monarquista neófito, que não esqueceu ainda o papel preponderante da imprensa na queda dos Bourbon, há nessa atitude uma convicção quase mística de que o jornalismo é uma verdadeira doença, que infecciona fortemente todos os que nele se metem. Segundo uma observação sagaz de Alain (Avec Balzac), mesmo os escritores que Balzac apresenta como caracteres sem mancha, idealistas abnegados e heróis da vontade deixam-se envolver pelas praxes condenáveis inerentes à profissão. “O grande D’Arthez não é menos sofista no fundo, pois se diverte em enfeitar o romance de Luciano sem crer no que faz, e chega, nos dias mais sombrios, a levar a cabo a tarefa de sua própria destruição, tão miseravelmente tentada por Luciano.” A idiossincrasia de Balzac pelos jornalistas não era, aliás, muito diferente da antipatia que lhes manifestaram os governos da Restauração, como mostra o plano de “amortização dos jornais” do gabinete Villèle, que consistia em não autorizar mais nenhum jornal novo e extinguir os outros progressivamente, indenizando-lhes os proprietários. Um contemporâneo de Balzac, Hippolyte Castille, relata uma observação do romancista que nos mostra como ele aferrou bem o aparecimento do novo tipo da sociedade e suas múltiplas atividades. Um homem de muito espírito que interessou singularmente as gerações do reino de Luís Felipe, mas que, embora divertindo o público, fez mais mal do que se pensa, o sr. de Balzac, gostava de aproximações. Dizia que o jornalista era no século xix o que foi no xviii a personagem de comédia que se chamava o abade. O abade era um ser de pouca importância, que se introduzia por toda parte, um furão, um camaleão, um ser impossível a aferrar e no entanto sempre ele mesmo, no qual, contudo, se podiam encontrar Júpiter ou Scapin, grande homem, às vezes, financista como Terray, reformador como Sieyès ou fazedor de madrigais como Bernis. O abade trazia o cachorrinho da marquesa ou derrubava um trono. Parasita, rufião ou grande homem, encontravam-no por toda parte: na Corte, na cidade, nos toucadores, na tribuna, no fundo de uma fazenda ou na academia. O jornalista, como o abade, é no século xix uma das primeiras personagens da comédia humana. Voga através dessa sociedade como um ser sem pousada, que se sente sempre em casa.

Erra entre o palácio e a mansarda. Ministro hoje, banqueiro amanhã, filósofo sempre e, como Fígaro, superior aos acontecimentos. (Les Journaux et le journalisme sous l’Empire et sous la Restauration, 1858) Feito o desconto dos exageros resultantes do preconceito, deve-se reconhecer que Balzac conhecia admiravelmente bem os segredos do jornal e deu uma série de retratos de redatores e diretores —Lousteau, Blondet, Vernou, Finot —, cada um dos quais é uma obra-prima. Nada falta do fresco, nem as transações e manigâncias suspeitas da administração, nem as interferências externas (tanto as da Corte como as das cortesãs), nem as campanhas de vingança, nem a agiotagem sobre as entradas de teatro e os livros oferecidos aos críticos. O poder desmoralizador da publicidade — que nem tinha nome então — é adivinhado e desmascarado pela primeira vez. Pelas ramificações do jornalismo chegamos a outros ambientes: o da indústria editorial e o comércio dos livros, o dos teatros — admirável ocasião para se olhar “atrás dos bastidores” —, o da política conluiada com a imprensa, o da aristocracia conluiada com a política. Por trás de tudo, o dinheiro agindo desavergonhada e impiedosamente… Aparecem, pois, neste livro imenso, quase todos os ambientes de Balzac, e não é pouco. Quase todos os assuntos também: a ambição; a monomania; o amor sob várias formas (o da mulher madura ao adolescente, o da cortesã ao rapaz bonito, o da esposa ao marido); as lutas do gênio com o ambiente; a conspiração da sociedade contra o indivíduo saído de sua esfera; as alegrias e as misérias da glória; a luta das gerações; a vingança do amor-próprio ferido; o grande tema de Paris; a chaga enorme devorando a França… Bem balzaquiano também o título, tão característico do escritor que poderia formar o subtítulo de toda A comédia humana. Em todo romance de Balzac há uma hecatombe de ilusões, mortas pela experiência dolorosa do protagonista. E, quando a experiência por si só não basta, vêm os portavozes do romancista trazendo sua decepcionante interpretação do ambiente literário, de Paris, da política, das mulheres, do mundo. D’Arthez explica as tribulações dos grandes homens que não querem transigir com o vício; Lousteau desvenda a hedionda realidade da vida literária; Blondet proclama a doutrina do maquiavelismo parisiense: o relativismo da verdade e das opiniões; por fim, o misterioso cônego espanhol — no qual os leitores experimentados não deixarão de reconhecer uma figura familiar — tira as conclusões de tudo, colocando face a face sociedade e indivíduo como dois inimigos. O mais balzaquiano de todos os romances, Ilusões perdidas o é sobretudo pelo muito que nos revela acerca do próprio Balzac. Essa afirmação poderia levar-nos à desconfiança, pois já vimos o escritor sair-se bastante mal no romance autobiográfico. Em Alberto Savarus o lirismo falseou a visão do romancista, destruiu-lhe a objetividade e o fez desrespeitar a verossimilhança, porque o autor cometeu o erro de identificar-se completamente com uma das personagens. Em Ilusões perdidas ele infunde quinhão bem maior de sua experiência íntima, mas o erro não se repete, pois, em lugar de haver um procurador do romancista, aparece uma série de personagens alimentadas como seu sangue. Há primeiro o par Luciano-D’Arthez. “Ilusões perdidas são no âmago a discussão de Balzac consigo mesmo”, lemos no belo livro póstumo de Stefan Zweig sobre Balzac. “Nessa obra Balzac apresenta em duas personagens o que será ou poderá ser um escritor se este persistir rigorosa e fielmente em si e em sua obra ou se ceder à tentação de uma celebridade rápida e indigna. Luciano de Rubempré é o seu perigo mais íntimo, e Daniel D’Arthez, o seu mais íntimo ideal. Balzac conhece a duplicidade de sua natureza, sabe que nele existe latente um escritor que de maneira inviolável aspira ao máximo, recusa a si toda concessão, repele todo acordo e está inteiramente só no meio da sociedade. Mas do mesmo modo reconhece a sua segunda natureza, reconhece em si o folgazão, o pródigo, o aristocrata, o escravo do dinheiro, o indivíduo que constantemente incorre em pequenas seduções do luxo. A fim de agora se fortalecer, a fim de energicamente apresentar aos seus olhos o perigo que ameaça um escritor que trai a sua arte por desejar o êxito na época, para advertência pinta para si um desses escritores que não resistem e que, cedendo à sedução, perdem todo o controle.” O contraste, porém, é mais complexo ainda, pois Balzac, com todo o seu desprezo por esse eu reprimido que é Luciano, reveste-o de um invólucro divinamente belo e às vezes deixa-se ficar emsua presença numa atitude de involuntária adoração. A linha política adotada por D’Arthez, a sua teoria do gênio como resultado da paciência são com efeito bem características de Balzac. Quanto a Luciano, vários episódios de sua vida em Paris assemelham-se a casos acontecidos ao romancista no começo de sua carreira, coincidências apontadas em notas da presente edição.

Por outro lado, um conhecimento mesmo supérfluo da biografia de Balzac permite descobrir numerosas semelhanças entre esta e as lutas do tipógrafo David Séchard, que lembra o seu criador até na aparência física. Contamos já as vicissitudes da tipografia de Balzac, onde o escritor com vinte e tantos anos se endividou para o resto de sua vida, assim como suas malogradas tentativas de inventor nos setores mais variados, pois, como seu herói, era “capaz de descobrir uma mina de ouro, mas singularmente incapaz de explorá-la”. Respondendo em suas cartas às censuras da condessa Hanska, que lhe estranhava os planos loucos e os empreendimentos irreais, Balzac negava desesperadamente que lhe faltasse senso prático; no episódio de Séchard temos, porém, a prova de que o reconhecia de si para si. Mas David Séchard é sobretudo mais um desdobramento do idealismo balzaquiano, oposto às seduções da ambição e da vida luxuosa que arrastam Luciano-Balzac à sua perda. Além dessas três projeções de sua vida múltipla, Balzac encarnou mais um de seus fantasmas íntimos em uma quarta personagem, o rev. Carlos Herrera. A moral desse discípulo de R. P. Escobar é bastante perigosa para que Balzac ache útil combatê-la no prefácio (mais de uma vez os prefácios lhe serviam para remendar o que nos próprios romances não lhe parecia concordar com as suas atitudes de político legitimista e clerical), mas é exposta com eloquência tão arrebatadora que é impossível não reconhecer nela uma manifestação do próprio autor. O cônego, em suma, reforça em Luciano suas cômodas teorias de “imperialismo estético” (Ernest Seillère), em virtude das quais o gênio é uma espécie de super-homem e está acima de todas as leis, teorias que Balzac nunca deixou de aplicar a si mesmo. Pouco importa, pois, que o autor resuma assim a moralidade de Ilusões perdidas: “Só aos espíritos de escol, às pessoas de uma força hercúlea é permitido abandonar o teto protetor da família para irem lutar na imensa arena de Paris”; cada Luciano de Rubempré se julga umdesses espíritos de escol. Para que procurar, aliás, outra moral além da que a obra de arte contém pelo fato de ser legítima? A derrota de Luciano não prova nada, pois, segundo as sugestões de uma ambição não menos ávida e pouco mais escrupulosa, Rastignac, outro espécime do mesmo tipo, venceu. Esta comparação impõese. No inteligente prefácio de sua edição crítica de “Os dois poetas”, Gilbert Mayer estabelece longo e convincente paralelo entre essas duas personagens (esquecendo, contudo, a coincidência mais surpreendente que as faz uma e outra encarar Paris do alto do Père-Lachaise, onde acabam de enterrar, com um ser querido, suas últimas ilusões) e afirma com razão que “semelhante desdobramento de personagens num autor cujo poder criador era fantástico merece exame particular. Teria ele a possibilidade de produzir-se, caso Balzac não tivesse posto, nesses destinos quase paralelos, grande parte do seu?”. As outras personagens do romance tiveram, pelo menos em parte, seus modelos na vida real. O romancista conhecia bem Angoulême, onde várias vezes fora visitar o casal Carraud; ao escrever o romance, lembra-se ainda de pedir à sra. Zulma Carraud esclarecimentos topográficos. Na época dessas visitas a cidadezinha tinha o seu salão literário, cuja dona, uma sra. de Saint-Surin, parece ter inspirado a figura da sra. de Bargeton não somente quanto às suas ambições intelectuais como também nas vicissitudes de sua vida conjugal. Em seus passeios pela cidade, o romancista conversou com um camponês chamado Séchard e alcunhado Chardon, que lhe fornecia assim os nomes dos dois amigos, cujas figuras, como já dissemos, tirou de si mesmo; os pesquisadores não encontraramoriginais de Luciano e de David. Quanto ao ambiente literário de Paris, numerosos escritores e jornalistas foram apontados como originais das caricaturas ferinas de Balzac. Embora o escritor tenha afirmado a um amigo que a figura de Lousteau lhe fora sugerida pela de Jules Sandeau, o público reconhecia nela Jules Janin, umdos críticos mais importantes da época e que teimava em menosprezar o autor de Cenas da vida provinciana. (Jules Sandeau, efebo talentoso e efeminado, a quem mais tarde sua ligação e seu rompimento com George Sand tornariam famoso, teve, no momento de sua estreia, a ajuda eficiente de Balzac, que o empregou como secretário e o alojou em sua casa, mas teve de despedi-lo devido a sua preguiça e incompetência.

Os biógrafos suspeitam a existência, entre os dois, de relações homossexuais. Por encomenda de Balzac, Sandeau escreveu uma biografia fictícia de Horace de Saint-Aubin, pseudônimo com que o romancista assinara suas obras de mocidade.) Seja como for, Janin reagiu como se realmente se reconhecesse em Lousteau, e, numa análise raivosa de Ilusões perdidas, desancou o autor: “Um escritor não é um trapeiro, um livro não se enche como um cesto… Felizmente este livro é do grande número de romances que a gente não lamenta absolutamente não ler, que aparecem hoje para desaparecer amanhã num esquecimento imenso. Nunca, com efeito, o pensamento do sr. Balzac foi mais difuso, sua intenção mais fraca, seu estilo mais incorreto”. Outros reconheceram Émile de Girardin em Finot, Léon Gozlan em Nathan, Gustave Planche em Vignon. Nas notas de rodapé indicaremos algumas dessas identificações, embora para os leitores de hoje ofereçam interesse bem menor do que deviam ter para os contemporâneos de Balzac. Entre os exegetas mais recentes do livro, Claude Mauriac assinala com muita finura o que Ilusões perdidas ganha pelas suas ligações íntimas com outras obras de A comédia humana. O leitor versado em Balzac compreende melhor a recepção inesperadamente boa que a orgulhosa marquesa d’Espard faz a duas pessoas tão pouco interessantes como Luís de Bargeton e o barão du Châtelet: a primeira se beneficia de seu parentesco com o marquês d’Espard, a quem a esposa está processando (pois tratando bem aos parentes do marido poderia fazer crer que não moveu o processo por simples antipatia ou capricho); o segundo, de sua qualidade de antigo companheiro de Montriveau, a quemseu caso com a duquesa de Langeais conferiu imenso prestígio; quer dizer, A interdição e A história dos Treze esclarecem melhor certos trechos à primeira vista indiferentes de Ilusões, mostrando neles complexidades e profundezas insuspeitadas. Poder-se-ia continuar essa demonstração assinalando também o que este último romance traz de revelador para outras partes do ciclo. Como, por exemplo, compreendemos melhor, depois de conhecer o retrato de Lousteau em Ilusões, seu procedimento coma sra. de La Baudraye em A musa do departamento! Tudo em A comédia humana se esclarece e é esclarecido; as diversas partes ligam-se como perfeitas engrenagens. Há alguns balzaquianos, aliás, que gostariam que essa interdependência fosse menor. Gilbert Mayer elogia Ilusões precisamente porque nele “Balzac não prefere ainda o mundo fictício de A comédia humana ao mundo real… A ficção ainda levou vantagem e a história das personagens e de suas aventuras não se impõe ainda totalmente… aqui não se sente Balzac mais preocupado com as suas personagens do que com a representação da sociedade do seu tempo”. Vê-se que esses dois críticos elogiam o romance por motivos diametralmente opostos. Os leitores concordarão com um ou com outro, o que pouco importa se eles também chegam a sentir a admiração pelo autor e pela obra, único traço comum nas duas interpretações. Que o gênio de nosso escritor, além de um afresco grandioso do ambiente literário de sua época, criou tipos universais prova-o um artigo espirituoso de Guilherme Figueiredo (“Um dia depois do outro”, O Jornal, 17 de abril de 1966), em que compara aos ambiciosos de Balzac os membros audaciosos do “exército do Pará” de nossos dias; ao assalto das editoras do Rio. Terminemos com Antoine Adam: “Esse romance, tomado em seu conjunto, forma uma das culminâncias de A comédia humana. Em parte alguma aparecem melhor, com mais força e pureza, as características do gênio balzaquiano, o dom de compreender o real, de penetrar até as forças secretas que o dominam e de reconstruí-lo depois num universo novo”.

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