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A Comedia Humana – Vol. 8 – Honore de Balzac

Começa com este volume a série das Cenas da vida parisiense. Tal afirmação talvez surpreenda os leitores que seguem a presente edição desde o começo, pois poderá haver cena mais parisiense do que O pai Goriot (incluído nas Cenas da vida privada) ou como a segunda parte de Ilusões perdidas (colocada entre as Cenas da vida provinciana)? Na realidade, essas subdivisões de A comédia humana não se excluem; as oscilações do próprio autor, que mais de uma vez retirava determinada cena de um dos grupos para colocá-la em outro, mostram que elas não correspondem a características congênitas inconfundíveis; frequentemente obedecem a meras conveniências editoriais, como, por exemplo, a exigência de fazer volumes de espessura mais ou menos igual etc. A reunião de três “episódios” sob o título comum de História dos Treze (em francês: Histoire des Treize) é menos casual do que o agrupamento de outros romances e novelas sob títulos coletivos, como Os celibatários ou Os parisienses na província, adotados também muitas vezes pela necessidade de juntar várias obras para fazer um volume. Desde o princípio, essa história devia constar de várias narrativas e, significativamente, o Prefácio foi escrito antes dos episódios. A ideia central destes é, pois, a sociedade de “treze homens que recomeçam a Sociedade de Jesus em proveito do Diabo”. Esses treze amigos, cuja amizade permanece um segredo aos olhos do mundo, juraram que se ajudariam reciprocamente em todas as circunstâncias da vida. Cada vez que um deles se encontra em dificuldades, os outros, esquecidos das contingências de sua própria existência, lá estão para auxiliá-lo. O imperativo da amizade é a sua lei suprema, que domina todas as outras, e impõe silêncio a quaisquer escrúpulos de caráter moral. Não há na associação dos Treze nenhum conceito superior, nenhum ideal teórico. O absoluto devotamento de todos está à disposição de cada um, não apenas para afastar um perigo como tambémpara satisfazer um capricho, transformar em realidade uma fantasia. Vê-se que a ideia não podia ser mais romântica. Aceita-se a força do indivíduo como critério moral; para torná-la maior, treze indivíduos resolvem concentrar seus recursos em proveito de cada um. Nas mãos de um romancista hábil, tal concepção se torna extremamente fértil, e bem o sentiu Balzac, pois afirma que dela poderia tirar tantos volumes “quantos a Contemporânea [alusão à aventureira Ida Saint-Elme] ofereceu ao público”. Felizmente não o fez, e evitou assim uma inevitável mecanização e monotonia. “Estes três episódios da História dos Treze”, afirma numa nota da primeira edição de Ferragus, “são os únicos que o autor pôde publicar. Quanto aos outros dramas desta história tão fecunda em dramas, podem ser contados entre onze horas e meia-noite, mas é impossível escrevê-los.” Já na época em que publicou os três episódios (1833-1835), a ambição de apresentar o panorama de toda uma sociedade atraía-o mais do que o prazer de emaranhar os fios de uma intriga. Ao dedicar as três novelas que formam a História dos Treze a três próceres do romantismo —Berlioz, Liszt e Delacroix —, Balzac como que adverte os futuros leitores que forem avançando no labirinto de A comédia humana segundo o seu plano de conjunto (adotado fielmente nesta edição) para não se espantarem com a mudança radical sobrevinda depois do imenso painel “realista” de Ilusões perdidas, plantadas (salvo os capítulos finais) no solo firme do dia a dia: ele há de nos introduzir num universo fantástico de personagens sobre-humanas e paixões desvairadas, para logo depois, em História da grandeza e da decadência de César Birotteau e A Casa Nucingen, voltar conosco à Paris de todo dia, conhecida e familiar. A ideia de sociedades secretas e de conspirações “estava no ar” naquela época. Um dos amigos de Balzac, Nodier, escreveu a história das sociedades secretas do Exército durante o Império; o romancista conhecia essa obra e a ela se refere mais de uma vez. Mais frequentes ainda as referências ao medíocre drama pré-romântico de Otway, Veneza salva; este impressionou Balzac pela apresentação de uma amizade excepcional, a qual torna um dos amigos capaz de matar o outro para impedir-lhe a execução no cadafalso. Há também inúmeras alusões, em A comédia humana, às conspirações liberais ocorridas durante a Restauração e que o governo de Carlos x sufocava no sangue. Dois de seus romances, A Bretanha em 1799 e Um caso tenebroso, revivem conspirações reais havidas durante o Diretório. Em várias outras obras de A comédia humana aparecem coligações misteriosas e terrivelmente eficazes que cercam suas vítimas e as executam sem que estas suspeitem sequer a força que as liquida. Às vezes a coligação não chega a possuir forma organizada nem toma consciência de si mesma; assim, o grupo de velhas senhoras de Tours, amigas da srta.


Gamard, “instaladas na cidade de maneira a figurar os vasos capilares de uma planta, aspiravam, com a avidez de uma folha pelo orvalho, as novidades e os segredos de cada lar, absorviam-nos e transmitiam-nos maquinalmente ao padre Troubert, como as folhas transmitem ao caule o rocio que servem… congregação ociosa e operante, invisível e que tudo via”. Outra vez é um grupo de dez anciães que se reúnem, emdeterminado dia, num canto modesto do Café Thémis, junto à Pont-Neuf, e discutem baixinho os seus negócios: na realidade são os “reis silenciosos e desconhecidos de Paris”; todos usurários, senhores do dinheiro, “casuístas da Bolsa”, constituíram “um Santo Oficio onde são julgados e analisados os mais indiferentes atos de todos os que possuem uma fortuna qualquer” (Gobseck). Ao mesmo tempo, em Issoudun, um grupo de rapazes desocupados assume o nome de Cavalheiros da Malandragem e com suas façanhas noturnas atemoriza toda a cidade (Um conchego de solteirão). Por trás de Vautrin entrevemos a misteriosa Sociedade dos Dez Mil, na qual repousa o extraordinário poder do aventureiro (O pai Goriot). E, enquanto se formam tantas congregações para praticar livremente o mal, existe também um agrupamento, o dos Irmãos da Consolação, que se envolve de mistério para poder praticar melhor o bem (O avesso da história contemporânea). O escritor concebia esses clãs com tal intensidade, fazia ideia tão extraordinária do prestígio deles que ele mesmo quis criar um verdadeiro, cujos membros, espalhados pela sociedade, fizessemvaler uns em favor dos outros toda a sua influência. Léon Gozlan relata em Balzac en pantoufles [Balzac de pantufas] o caso dos Cavalos Vermelhos (denominação provinda do nome do restaurante Le cheval Rouge, no qual se reuniam), sociedade que Balzac ideou e, até certo ponto, conseguiu realizar. Ela compreendia oito escritores e jornalistas (entre os quais Théophile Gautier, Alphonse Karr e o próprio Gozlan), que se reuniam periodicamente sob o maior sigilo a fim de discutir os meios de se auxiliarem reciprocamente, aproveitando-se de suas respectivas posições na imprensa, cujo poder Balzac foi o primeiro a avaliar, e obtendo nomeações de bibliotecário, professor, deputado até. “Que produziu, finalmente, esta famosa sociedade do Cavalo Vermelho, após vários anos de existência? Muitos jantares, muitos artigos escritos nos jornais para Balzac, sobre Balzac, a favor de Balzac, que nada escreveu acerca dos outros cavalos vermelhos. Ela não conferiu o menor emprego, não trouxe a menor vantagem a qualquer dos seus membros. Balzac foi o único a acreditar muito nela e o único, também, a tirar dela, de vez em quando, algum proveito.” Note-se ainda que a História dos Treze, devorada por milhares de leitores em toda a Europa, contribuiu bastante para aumentar o número de associações clandestinas. Uma das que surgiram sob sua influência deve ter sido a confraria dos “primos de Ísis”, por volta de 1840, em Paris, e entre cujos membros se encontrava Gobineau, “esse romântico que, quase só na França, incluiu no misticismo da raça suas aspirações individuais de poder” (Ernest Seillière). Apesar da importância atribuída por Balzac às sociedades secretas, o papel dos Treze nos três episódios da obra é bem menor do que se poderia julgar pela leitura do Prefácio. A intervenção deles, sensível e motivada em Ferragus, é menos importante em A duquesa de Langeais e é puramente formal em A menina dos olhos de ouro. São, na realidade, três obras essencialmente diversas: Ferragus, um descendente do romance “negro” inglês ao mesmo tempo que um dos primeiros espécimes da literatura policial; A duquesa de Langeais, a análise psicológica de uma paixão; A menina dos olhos de ouro, um desses estudos de depravação sexual (também um dos primeiros; sempre Balzac é precursor) que, sobretudo de Freud para cá, estão proliferando nas literaturas modernas. Ferragus ou o Chefe dos Devoradores (em francês: Ferragus ou le Chef des Dévorants) teve, na época, um sucesso excepcional. Muitos escritores, a sra. de Girardin, Charles de Bernard, Émile Deschamps, leram-no com encanto; a duquesa de Berry, então detida no forte de Blaye em consequência de sua malograda tentativa de insurreição e que lia o romance em folhetim, ficou tão interessada que pediu a seu médico, o dr. Menière, conhecido de Balzac, que lhe escrevesse a fim de conhecer o desfecho de antemão; o príncipe de Metternich, segundo o duque de Fitz James comunicou a Balzac, não abandonava a narrativa e devorava-a. Entretanto, é forçoso reconhecê-lo, Ferragus é uma das obras fracas de Balzac. Toda aquela atmosfera de frenesi, aquela acumulação de crimes, de mistérios, de acasos, de coincidências, de cartas perdidas e encontradas, de luvas envenenadas, de papéis escritos em código são uma herança do romance “negro” inglês e do romance popular francês, dois gêneros devorados na época, mas completamente extraliterários, como o seriam hoje as novelas radiofônicas ou as histórias emquadrinhos. Tais foram os modelos de Balzac na sua estreia, e seus romances de mocidade — que teve a intuição de publicar sob pseudônimos — reproduzem fielmente todos os disparates, todo o absurdo de seus mestres. Tem toda razão Marcel Bardèche ao ligar Ferragus a esse grupo de obras de cordel e ao apontar a figura do bandido convertido Argow, que participa de duas delas, como a primeira encarnação da personagem do próprio Ferragus. A nossa admiração a Balzac não deverá levar-nos a dissimular tudo o que há de irreal e até de pueril nesta história fantástica.

Não proclamaremos, com Claude Mauriac, como um princípio do leitor de Balzac: “Penetremos no universo balzaquiano com submissão; não lhe rejeitemos nenhumdos aspectos; lembremo-nos de que a realidade, frequentemente, nos surpreendeu à força de irrealidade”. A comédia humana é de uma riqueza bastante grande para compensar-nos de tais imperfeições. Na própria história de Ferragus, aliás, há compensações numerosas. Todas as páginas relativas aos segredos de Paris — os mistérios de seus amantes, de seus porteiros, de seus basbaques — formam partes impressionantes do movimentado retrato que Balzac constantemente recomeça e completa desta sua personagem mais importante. O “mérito local” da história, a intensa emoção da “caça ao homem”, a referência aos encontros casuais com personagens misteriosas que o escritor tema vontade de interrogar, a visão de Paris viva através de um passeio no Père-Lachaise, a Paris morta são dignos das melhores páginas de Balzac. Se o romance em conjunto anuncia Mistérios de Paris e O judeu errante, de Sue, todos esses elementos fazem pressentir as grandes criações de Balzac. Ferragus é um descendente do pirata Argow; mas é também, ao mesmo tempo, um predecessor de Vautrin. Escrito depois de Ferragus, o episódio A duquesa de Langeais (em francês: La Duchesse de Langeais) leva-nos a um setor completamente diverso. É a história de um duelo entre uma mulher faceira e o seu apaixonado, luta mundana que se desenrola num dos salões mais elegantes do Faubourg Saint-Germain e assume, graças à arte de Balzac, intensidade excepcional. O patético reside mais ainda nos combates verbais em que a duquesa de Langeais e o general de Montriveau medem suas forças do que na tentativa fantástica por meio da qual este último procura reaver a amante perdida e reencontrada. Essa moldura romântica não deixa, aliás, de ter também sua grandeza, sensivelmente reforçada pela habilidade da construção: a história começa no ponto crítico, os antecedentes são narrados, depois de excitado o interesse, com épica amplidão e o desfecho, umdesfecho bem balzaquiano, cai como um relâmpago e enche as últimas páginas de uma atmosfera de tragédia grega. O fogo que se sente arder ainda hoje dentro desta narrativa, essa monstruosa violência de paixão, essa imagem do amor força primária, rude e irracional, aliada do destino cego, fazem de A duquesa de Langeais uma das obras mais irresistíveis de Balzac. Sente-se nela o mesmo vento de fatalidade que sopra através das páginas de A mulher abandonada. Além dos dotes do escritor, irradia-se desta narrativa o sofrimento do amante. Em A duquesa de Langeais o romancista Balzac vinga-se da ferida que a marquesa (mais tarde duquesa) de Castries infligiu ao coração de Balzac homem. Dir-se-ia que Balzac desejava que os leitores o identificassem com Montriveau, pois, ao dar o retrato físico do general, limitou-se a olhar no espelho e esboçou um autorretrato complacente. Em “A vida de Balzac” contamos a melancólica história desse amor que, apesar de todos os esforços do escritor, permaneceu platônico. A sra. de Castries, uma das mulheres mais em vista da aristocracia de então, que amou o jovem príncipe de Metternich, filho do chanceler, com uma paixão tornada famosa; que serviu de modelo a uma personagem de Stendhal, a sra. de Aumale, em Armance; que seria amada por Sainte-Beuve, Janin, Musset; esta grande dama tão interessante negouse a Balzac depois de ter-lhe dado muitas provas de afeição. O escritor, que a acompanhara até a Suíça, voltou de Genebra chorando, amaldiçoando a marquesa sem coração por havê-lo iludido, por haver-lhe exasperado os sentidos sem querer satisfazê-los. A correspondência da marquesa de Castries, posteriormente descoberta e publicada, mostra-a, na verdade, sob luz diferente; ela mesma parece haver sofrido tanto quanto o romancista por não ter podido dar-se toda. Sua recusa bem poderia explicar-se pela fidelidade à lembrança de seu grande amor, morto havia alguns anos, ou, talvez, pelo acidente sofrido por ela pouco tempo antes da morte do jovem Metternich, e que a manteria doente durante quase todo o resto da vida. Seja como for, o escritor julgava-a fria, insensível e coquete, e passou a odiá-la (o que absolutamente não o impediu de amá-la durante muitos anos ainda depois do “rompimento” e de procurá-la sob os mais variados pretextos). Quando escreveu o romance, a ferida estava ainda bem viva, bem dolorosa.

Essa dor, porém, como observa oportunamente P.G. Castex, devia estar cicatrizando-se graças a outra aventura sentimental, mais feliz, do romancista: no momento de escrever essa novela, já era amante da condessa Hanska. Balzac, que nunca teve confidentes entre os homens, ia ler as provas e procurar consolações junto à sua velha Dilecta, a sra. de Berny; lamentava-se do insucesso junto à sua amiga espiritual, a sra. Zulma Carraud; expandia a sua dor nas cartas à condessa Hanska, que vinha, em boa hora, preencher o lugar recusado pela marquesa; e anos após escreveria ainda a uma quarta mulher, certa misteriosa Louise, uma de suas inúmeras correspondentes. “Eu sou o único a saber o que há de horrível em A duquesa de Langeais”, escreveu à condessa Hanska, que devia conhecer toda a malvadez de sua predecessora (provavelmente para não cair nos mesmos excessos): “Abomino a sra. de C***, pois ela quebrou esta vida sem me dar outra, não digo comparável, mas sem me dar o que prometia”. Um pouco mais tarde, depois de acabado o romance, escreverá ainda: “Meu Deus, o livro está feito; não estou bastante rico para aniquilá-lo, mas ponho-me a seus joelhos pedindo-lhe que não o leia”. A análise dos avanços e dos recuos da duquesa de Langeais — essas dolorosas memórias sentimentais de Balzac — é uma obra-prima mesmo para quem lhe ignora a base real: “Palpitarás, estremecerás ao ler Não toque no machado (título primitivo da novela), que é, em matéria de mulheres, o que fiz até hoje de maior”, escreverá ainda à condessa; mas o conhecimento de tais elementos de biografia faz compreender melhor a inesperada inclusão no romance de uma verdadeira dissertação sobre os erros políticos do Faubourg Saint-Germain, o último reduto da aristocracia francesa. A marquesa de Castries e seu tio, duque de Fitz James, líder da oposição monarquista no Parlamento de Luís Felipe, aceitavam a aproximação de Balzac, o qual vinha oferecer a sua pena à “boa causa”; mas depois, melindrado em seus brios de amante, este achava que lhe fora negada a recompensa merecida e, sem abandonar o legitimismo, de que se tornara o defensor a toque de caixa, aproveitava a oportunidade para dar uma lição a essa aristocracia embotada que deveria “privar a burguesia dos seus homens de ação e de talento cuja ambição minava o poder, abrindo-lhes as suas fileiras”, mas que preferia combatê-los. Assim, pois, as teorias políticas expostas com tamanha virulência e sem ligação aparente com o enredo são também, pelo menos em parte, produto do despeito e da vingança do amante iludido e despeitado. Resistindo às insistências de Balzac, longe estava a duquesa de imaginar que, assim agindo, abalava o futuro do legitimismo e, portanto, da própria França.

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