| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A comuna de Paris: 1871: origens e massacre – John Merriman

EM 18 DE MARÇO DE 1871, PARISIENSES QUE MORAVAM EM MONTMARTRE despertaram ao som de tropas francesas tentando se apoderar dos canhões da Guarda Nacional. As tropas estavam sob ordens de Adolphe Thiers, conservador que era o chefe de um governo provisório recentemente instalado em Versalhes, antes residência dos Bourbon, monarcas do Antigo Regime. Thiers, temendo a mobilização de parisienses irados e radicais, queria desarmar Paris e sua Guarda Nacional. Os postos da Guarda eram preenchidos, em sua maior parte, por trabalhadores que queriam uma república forte e estavam enfurecidos com a capitulação do governo provisório na desastrosa guerra contra a Prússia, que começara em julho anterior e causara a queda do Segundo Império. Apesar dos esforços do exército francês, os homens e as mulheres de Montmartre, Belleville e Buttes-Chaumont impediram corajosamente que as tropas tomassem os canhões. Ao verem a chegada a Montmartre de cerca de 4 mil soldados, que pararam para esperar os cavalos necessários para conduzir as armas morro abaixo, mulheres soaram o alarme. Trabalhadores que moravam na colina com vista para a capital francesa impediram que as tropas fortemente armadas amarrassem os canhões aos cavalos e, mantendo a tradição dos embates revolucionários, iniciaram a construção de barricadas. Os soldados começaram a fraternizar com o povo de Montmartre. Os 6 mil soldados enviados a Belleville, La Villette e Ménilmontant não se saíram melhor. Os parisienses manteriam seus canhões. Frustrado, Thiers retirou suas forças de Paris para Versalhes, onde planejou reagrupá-las e, mais adiante, retomar a cidade. Milhares de parisienses ricos se juntaram a ele naquele momento. Em Paris, enquanto isso, militantes de esquerda proclamaram a “Comuna”, um governo autônomo e progressista que trouxesse liberdade para os parisienses, entre os quais muitos acreditavam ser “donos de suas próprias vidas” pela primeira vez. Famílias de bairros proletários passeavam pelos beaux quartiers da capital, imaginando uma sociedade mais justa, e se preparavam para tomar medidas a fim de tornar isso realidade. A Comuna progressista deles duraria meras dez semanas antes de ser aniquilada durante a última e sangrenta semana de maio. O nascimento e a destruição da Comuna de Paris, um dos mais trágicos eventos que contribuiu para definir o século XIX, ressoam ainda hoje. Nas ruas de Paris, o exército de Thiers derrubou a tiros milhares de homens e mulheres, mesmo que não participassem dos combates, e algumas crianças. Soldados executaram muitos por atuarem na defesa da Comuna; outros morreram por seus trajes de trabalhadores, restos de um uniforme da Guarda Nacional parisiense, ou simplesmente pelo modo de falar. Os massacres realizados pelas tropas francesas contra seus próprios compatriotas prenunciaram os demônios do século seguinte. Você podia ser derrubado a tiros por ser quem você era, porque queria ser livre. Este talvez tenha sido o principal significado da Semana Sangrenta, de 21 a 28 de maio de 1871, o maior massacre da Europa no século XIX. PARIS ERA UMA CIDADE ASCENDENTE DE GRANDES CONTRASTES sociais e contradições durante o Segundo Império (1852-1870) de Napoleão III. Por um lado, a capital liderava uma economia francesa em rápido crescimento. A indústria continuava dominada por artesãos em pequenas oficinas que produziam os artigos de Paris – luvas de alta qualidade e outras mercadorias de luxo que vieram a simbolizar a manufatura francesa. Instituições financeiras imperiais ajudavam a impulsionar a produção industrial dentro e em torno de Paris, trazendo uma prosperidade sem paralelo para as pessoas de recursos.


Elas participavam de luxuosos eventos sociais do Império e de apresentações teatrais, transitando pela cidade e pelo Bois de Boulogne em carruagens, enquanto as pessoas comuns iam a pé para o trabalho. Trens poderosos, locomotivas vomitando vapor, levavam passageiros ricos da florescente capital para Deauville e outras cidades cada vez mais elegantes da costa normanda. A explosão econômica e a incrível riqueza que o governo trouxe a Paris desviaram a atenção da pobreza disseminada e das divisões na cidade. Napoleão III e o barão Georges Haussmann abriram bulevares espaçosos em meio ao emaranhado da Paris medieval. Restaurantes e cafés requintados recebiam aqueles que podiam frequentá-los. Nos distritos dilapidados e superpovoados do leste e do norte da cidade, trabalhadores que se apertavam em miseráveis apartamentos ou cortiços lutavam para sobreviver. Para eles, os tempos difíceis pareciam não passar nunca. No fim dos anos 1860, Napoleão III enfrentava uma oposição política crescente, a ponto de muitos parisienses preverem um fim desastroso para seu reinado. Três revoluções haviam expulsado monarcas do trono da França nos últimos sessenta anos. Até então, ninguém trouxera para o país a estabilidade que se podia encontrar do outro lado do canal da Mancha, na Grã-Bretanha. Napoleão III, porém, tinha confiança de que, diferentemente de seus predecessores imediatos, estava destinado a se manter no poder. Nascido em 1808, Luís Napoleão Bonaparte era filho de um irmão de Napoleão e fora criado num palácio na Suíça, em meio aos frutos do regime de seu tio. Certo de que seu futuro papel seria aumentar a herança dinástica de sua família famosa e fundi-la ao destino da França, ele acrescentou à sua ambição um astuto senso de oportunismo político combinado a um péssimo discernimento. A Monarquia de Julho do rei Luís Filipe, da família Orléans (uma ala nova dos Bourbon, a família real francesa), mantinha sua política de forçar a família de Napoleão Bonaparte a permanecer no exílio. Luís Napoleão tentara invadir a França com um punhado de seguidores em 1836, quando marchou para uma guarnição de Estrasburgo e foi preso, e novamente quatro anos depois, quando aportou na costa, perto de Boulogne-sur-Mer, com o mesmo resultado constrangedor. Em 1840, foi aprisionado no norte da França, de onde escapou em 1846 travestido de trabalhador. Esses fiascos ajudaram a dar ao sobrinho de Napoleão a reputação de uma espécie de parvo que se cercava de amigos imbecis e desastrosos. Baixo e cada vez mais corpulento, ele se parecia com o tio – com o qual seus inimigos o comparavam, chamando-o de “o chapéu [napoleônico] sem a cabeça” e zombando de seus “olhos de peixe”. Mas, apesar de todos os seus fracassos anteriores, Luís Napoleão era surpreendentemente otimista e acreditava que o progresso econômico sob seu regime poderia beneficiar todos os parisienses, ricos e pobres. Com sua modéstia habitual, ele escreveu da prisão: “Acredito que há certos homens que nasceram para servir como um condutor da marcha da raça humana. […] Eu me considero um deles.” [1] A Revolução de Fevereiro em 1848, uma das muitas revoluções que varreram a Europa naquele ano, levou ao fim a monarquia dos Orléans e Luís Napoleão retornou rapidamente a Paris. Ele foi eleito presidente da Segunda República em dezembro de 1848, nove meses depois de o rei Luís Filipe ser destronado. Após orquestrar a repressão da esquerda, o “presidente príncipe” encerrou a Segunda República com um golpe em 2 de dezembro de 1851, pois seu mandato de presidente chegaria ao fim no ano seguinte. Os parisienses acordaram diante de uma lei marcial; os membros socialistas-democratas da Assembleia Nacional – cujos integrantes eram eleitos pelos départements – foram presos.

Mas alguns parisienses não estavam dispostos a se submeter a outro império sem lutar. O golpe de Estado de Luís Napoleão deflagrou uma rebelião malfadada em bairros da classe trabalhadora no centro e no leste de Paris. Mais de 125 mil pessoas, em sua maioria paysans – camponeses –, empunharam armas para defender a República, particularmente no sul, onde sociedades secretas haviam construído redes de apoio clandestino. Mas os insurgentes não tiveram nenhuma chance contra as colunas de soldados profissionais e logo estavam fugindo para salvar suas vidas. Num precursor do resultado da Comuna de 1871, quase 27 mil pessoas – quer tivessem participado da revolta ou não – foram levadas a cortes marciais, ou “Comissões Mistas”, formadas por oficiais militares superiores, autoridades judiciais e administrativas. Milhares foram condenados, recebendo sentenças que iam desde deportação para a Argélia ou mesmo Caiena, até aprisionamento na França ou exílio da região onde moravam. No ano seguinte, Napoleão III declarou o Segundo Império. [2] O imperador encontrou seus seguidores bonapartistas entre os homens ricos que haviam apoiado Luís Filipe em nome da “ordem” social durante a Monarquia de Julho orleanista que governou entre 1830 e 1848. [3] O sistema financeiro sob Napoleão III também foi constituído para enriquecer aqueles que já estavam no poder. A família do novo imperador recebia 1 milhão de francos do Tesouro todo ano. Parentes aleatórios também recebiam grandes quantias do Estado simplesmente por existirem. Além disso, milhões de francos em fundos especiais iam para os grandes bolsos do imperador; uma amante inglesa recebia uma quantia substancial também. Mas nem todos estavam satisfeitos com Napoleão III. Enquanto os ricos se tornavam ainda mais ricos, muita gente em Paris e nas províncias continuava a enfrentar dificuldades e tinha desprezo por “Napoléon le petit”, como Victor Hugo o chamava. Trabalhadores não tinham nenhum recurso legal contra seus empregadores, que eram apoiados por gendarmes [*] e soldados. De fato, um número cada vez maior de parisienses se encaixava nesse segundo grupo e não se beneficiava nem um pouco do regime de Napoleão III. A população de Paris quase dobrou durante os anos 1850 e 1860, de pouco mais de 1 milhão em 1851 para quase 2 milhões de pessoas em 1870. A cada ano, durante o Segundo Império, dezenas de milhares de imigrantes enchiam a capital vindos da bacia parisiense, do norte, da Picardia, da Normandia, de Champagne e da Lorena, entre outras regiões, na maioria trabalhadores braçais, homens ainda mais pobres do que os parisienses que já estavam ali, atraídos pela possibilidade de trabalho nos canteiros de obras. Os novos moradores, muitos dos quais haviam deixado situações econômicas precárias no mundo rural, responderam por praticamente todo esse rápido crescimento urbano. Muitos eram subempregados, se não desempregados, e abarrotavam garnis – cortiços – nas ruas estreitas, cinzentas, dos distritos centrais, ou barracos nos subúrbios industriais que emergiam. Os arrondissements centrais, sempre densamente povoados, chegaram a impressionantes 15 mil pessoas por quilômetro quadrado, como no quarto arrondissement, no Marais, onde a densidade populacional era o triplo da de hoje. Dezenas de milhares eram indigentes, dependentes até certo ponto de caridade. Alguns dormiam onde dava. Em 1870, quase meio milhão de parisienses – um quarto da população – podia ser classificado como indigente. [4] Enquanto a deterioração do velho centro medieval de Paris se tornava mais pronunciada, as elites se enfureciam com “a crise urbana”.

Na Île de la Cité, a maioria dos artesãos havia ido embora, deixando em seu lugar cerca de 15 mil homens, em sua maior parte trabalhadores diaristas, que abarrotavam os cortiços da ilha. A Notre Dame se erguia sobre esses pequenos prédios superlotados. Um relatório da polícia notara a presença de “um número enorme de pessoas desprovidas, homens e mulheres, que sobrevivem apenas por meio de saques e que encontram refúgio nos bares e bordéis que poluem o quartier”. A Rive Droite, que compunha grande parte do primeiro arrondissement, tendo como centro o enorme mercado Les Halles, no Marais, incluindo o terceiro e quarto arrondissements, e, ao norte, o 11º e o 12º arrondissements refletiam a deprimente textura da vida urbana. Boa parte do quinto arrondissement, na Rive Gauche, com seus muitos sucateiros e vendedores de panos, também era muito pobre. Miserável e infestado de doenças, o faubourg de Saint-Marceau, uma das áreas mais pobres de Paris, avançava pelo 13º arrondissement, onde trapeiros comerciavam e coureiros lançavam restos de animais no rio Bièvre. [5] O centro e o leste de Paris formavam, de acordo com um observador, “uma cidade gótica, preta, sombria, infestada de fezes e febre, um lugar de escuridão, desordem, violência, sujeira, miséria e sangue”. Um cheiro horrível emanava de “becos pavorosos, casas cor de lama” e de águas estagnadas, pútridas. Paris, assim como outras grandes cidades, era um lugar insalubre onde todo ano morria mais gente do que nascia. Apenas mais ou menos um quinto dos prédios tinha água corrente. Afastar invernos congelantes era um desafio perpétuo. Pessoas que viviam com relativa facilidade nos beaux quartiers do oeste da cidade sentiam que moravam sem conforto numa capital sórdida de imoralidade e vícios, seus quartiers escuros e úmidos, um refúgio das “classes perigosas e que faziam o trabalho duro”, ainda que a maioria das pessoas de recursos jamais tivesse visto realmente esses bairros. A literatura popular ajudou a fixar firmemente essa imagem na imaginação da classe alta, retratando bairros pobres de Paris como antros da “escória da sociedade”. [6] Para acomodar o crescimento exponencial da população de Paris e limitar a deterioração do centro da cidade, em 1853, Napoleão III convocou o barão Georges Haussmann, prefeito do département do Sena, para planejar uma reforma urbana. De origem alsaciana, Haussmann nascera na capital. Depois de concluir o curso de direito ele entrou na burocracia, servindo como subprefeito e depois prefeito de vários départements provinciais, nos quais, durante a Segunda República, emprestou suas habilidades administrativas à repressão política. Homem dinâmico com talento para a organização, Haussmann parecia o perfeito burocrata parisiense e estava ansioso para usar o emergente campo da estatística em seu benefício ao lançar um grande projeto. Mas Haussmann, que se vestia com extrema elegância, era também um sujeito metido a brigão, arrogante, vaidoso e agressivo, disposto a fazer qualquer coisa a sua alçada para assegurar que a França jamais fosse novamente uma república. [7] De muitas maneiras, portanto, Haussmann era o homem ideal para realizar o sonho de Napoleão de reformar a capital francesa e torná-la uma cidade imperial. O imperador e o prefeito do Sena tinham três objetivos. O primeiro era trazer mais luz e ar para uma cidade assolada pela cólera em 1832 e 1849 (e novamente em 1853 e 1854, depois de iniciados os grandes projetos de Haussmann) e, ao mesmo tempo, construir mais esgotos para melhorar o saneamento da cidade. Segundo, eles queriam liberar o fluxo de capital e mercadorias. As primeiras lojas de departamento francesas – Bon Marché, Bazar de l’Hôtel de Ville, Le Printemps, Le Louvre e La Samaritaine – ficariam nos amplos bulevares de Haussmann, juntamente com reluzentes brasseries e cafés, que se tornaram a face da Paris moderna, embora as pequenas lojas continuassem essenciais para a economia urbana. [8] Terceiro, o imperador e seu prefeito queriam limitar as possibilidades de insurgência em tradicionais bairros revolucionários. Os próprios bulevares se tornariam um obstáculo à construção de barricadas em virtude de sua largura.

Em oito ocasiões desde 1827, parisienses insatisfeitos haviam construído barricadas na cidade, mais recentemente durante a Revolução de Fevereiro e, depois, durante os Dias de Junho de 1848, quando trabalhadores se ergueram para protestar contra o fechamento das Oficinas Nacionais que ofereciam empregos, mesmo que poucos, numa época de aperto econômico. Barricadas foram erguidas novamente na capital após o golpe de Estado de Luís Napoleão Bonaparte. Na ocasião, manifestantes conseguiram bloquear o avanço de exércitos profissionais construindo às pressas barricadas nas ruas estreitas do centro e do leste de Paris, usando madeira, pedras de calçamento e praticamente qualquer outra coisa que pudessem encontrar. Napoleão III não tinha nenhuma intenção de deixar isso acontecer de novo. [9] Os bulevares de Haussmann refletiram a determinação dos líderes do Segundo Império de impor sua versão de ordem social a Paris. O prefeito do Sena não mediu palavras: “Trazer a ordem para esta Cidade Rainha é uma das primeiras condições de segurança geral.” Alguns bulevares de fato foram abertos bem dentro dos quartiers insurgentes dos Dias de Junho. O boulevard Prince Eugène ofereceu aos soldados um acesso relativamente fácil ao “habitual centro […] de distúrbios”. [10] Os novos bulevares de Paris incorporaram, assim, o “imperialismo da linha reta”, cuja intenção era não apenas reprimir revoltas, mas também exibir a modernidade e a força do império.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |