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A condicao humana – Andre Malraux

“La Condition Humaine”, de André Malraux, é sem dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, cá ouso dizer que uma duradoura obra-prima da literatura universal. Alguém já afirmou que se não e o mesmo, antes e depois de ter lido o que é uma das mais pungentes, sóbrias e penetrantes obras de que a ficção se serviu para expor uma concepção simultaneamente desesperada e nobre da “condição humana”. Foi publicado este livro em 1933, naquele período chamado de “entre duas Grandes-Guerras”, período que os historiadores do futuro diluirão justamente entre as duas hecatombes, como se ambas houveram sido a mesma, e que foi, no entanto, na ordem política e social, um período decisivo na história da humanidade. Durante ele, de facto, descobriu o conjunto dos homens, uns com entusiástico anseio, outros com ansioso temor, que civilização europeia não significava necessariamente, ou deixara de significar, um predomínio económico e espiritual da Europa política. Nessa época se consumou, de resto, a unidade humana do Globo; nela, as distâncias são definitivamente anuladas, os meios de expansão e transmissão da cultura desenvolvem-se prodigiosamente, e abre-se a todos os homens, sem distinção de classes, credo ou cor, a possibilidade de uma ascensão efectiva à consciência humana. Não se iniciara, é certo, a era atómica, não se concebia ainda um extermínio emmassa, levado a cabo com a comodidade e a simplicidade da campainha que mata o “Mandarim”. Por então, apenas o “krack” da Bolsa de Nova Iorque, em I929, lançara o mundo na confusão económica; os nacionalistas chineses triunfavam; o Japão ocupava a Mancharia; o espectro da guerra geral só era uma realidade no espírito dos fautores dela e no de alguns clarividentes. André Malraux era já um escritor conhecido, um pouco o aventureiro da literatura e da arte, que no fundo nunca deixou de ser, a par de senhor de uma perfeita, clássica técnica da linguagem escrita: a concisão fremente, a obliquidade patética, a limpidez sombria do isolado intratável Desde 1921, publicara entre outras obras “La Tentation de l’Occident, Royaume Farfelu, Les Conquérants, La Voie Royale”. Nascera em 1901, filho e neto de suicidas, seu pai, que fora um arruinado agente da “Royal Dutch”, seu avô, que fora “maire” de Dunquerque. Estivera na Indochina, e depois na China, onde assistira a guerra civil em Xangai e em Cantão, e contactara de perto com os actores e ensaiadores do drama. O êxito de “A Condição Humana” foi retumbante; e François Mauriac anotava no seu diário estas palavras subtis: “Poderia discernir-se nesta indulgência o instinto profundo de uma sociedade muito velha que diz ao filho que se levanta contra ela: – Faças o que fizeres, apesar dos ultrajes de que me embebes, és meu pela inteligência, pela cultura, pelo estilo; és meu por todos os dons do espírito. A minha herança cola-se-te a pele…” (Citado por P. de Boisdef re e in “André Malraux”.). E de facto assim. Vejamos como. O crítico norte-americano Edmund Wilson, escrevendo sobre o grande poeta Rimbaud, disse: “A carreira dele, com a sua violência, o seu interesse moral e a sua plenitude trágica, deixa-nos a sensação de assistirmos ao espírito humano levado a mais resoluta das sinceridades e na posse das mais altas faculdades, cindindo-se no esforço de fugir, primeiro, ao compromisso humilhante, depois, ao caos não menos humilhante.” (In “axel’s Castle”). Entre estes dois textos esclarecedores na sua concisão, procuremos esboçar um retrato de Malraux e um sentido da sua obra em que avulta, pela profundidade das reflexões e pela intensidade das situações, “A Condição Humana”. Malraux é, de facto, como notou Mauriac, um filho preclaro da velha sociedade europeia, daquilo a que se convencionou chamar “civilização ocidental”. Foi sempre, porém, um filho rebelado contra o muito que dessa civilização ele sente que se lhe cola à pele. E, como de Rimbaud diz Wilson, dividido entre o “compromisso humilhante” e o “caos não menos humilhante”, e a ambos tentando recusar, e recusando-os efectivamente, na medida em que supera uma antinomia que o puro individualismo (a vaidade da consciência humana individual) não pode, de resto, por si só resolver. Rimbaud, abandonando as letras que conduzira à mais extrema aventura, viveu no entanto nos fins do século XIX, quando entre o compromisso e o caos havia uma sociedade poderosa e organizada, que apenas estava trocando o espírito pela consolidação das suas conquistas económicas. Perante esse mundo que, traindo-se a si próprio, cumpria o seu destino inexorável de civilização unilateral e lançava as bases da sua própria ruína, era possível erguer a literatura, ou o altivo abandono dela, como um efectivo e agónico sinal de independência. Era mesmo possível e até natural a proliferação de inúmeras atitudes de individualismo anárquico, de consciências lúcidas à custa de se negarem e às outras: entre elas avulta, com uma nobreza inexcedível, a voz comovente de Nietzsche.


Mas o mundo de Malraux é outro, é o outro que a esse sucede. Trazendo para ele a consciência de uma solidão última que só a fraternidade mitiga (e é este um dos temas fundamentais de Malraux), era inevitável que Malraux, filho de uma sociedade que inventou por um lado o individualismo e por outro o culto da arte (ao perder, na sua evolução, a fé na condição ecuménica da humanidade, e a confiança na criação permanente que é a vida), assumisse com uma coerência natural várias posições contraditórias e acabasse criando a tese do “museu imaginário” da arte universal, ou seja a solidão do indivíduo rodeado das reproduções de quanto os homens, em todas as épocas e lugares, criaram. Reparemos que o “museu imaginário” e o corolário final da difusão das artes gr ficas ao serviço do indivíduo que pode pagá-las para com elas povoar a sua solidão. As posições contraditórias de Malraux obedecem de facto a uma natural coerência; enumeremos algumas. Testemunha que foi das convulsões da nova China (e descontado quanto haja de pessoal e deformadora filosofia neles, “Les Conquérants” e “La Condition Humaine” são preciosos documentos para a compreensão de um dos mais decisivos factos políticos do nosso tempo), é Malraux quem, com André Gide, vai a Berlim protestar contra o processo subsequente ao incêndio do Reichstag, que consolidara Hitler no poder; é dos primeiros a denunciar ao mundo (“Le Temps du Mépris”, 1935) a existência dos campos de concentração nazis; se alista como aviador ao lado da Espanha Republicana (e o seu livro “L’Espoir, 1937 – é considerado pela própria crítica espanhola contemporânea um dos mais belos e sérios que a guerra civil produ-ziu); tendo recusado sempre, ao que parece, fazer parte do partido comunista, rompe com este (que aliás sempre pusera entre parênteses muito da sua obra e das suas atitudes), quando a Rússia ocupa a Polónia e os Estados bálticos; luta na Resistência, e feito prisioneiro, é libertado pelas F.F.I., e comanda depois a brigada Alsácia-Lorena cuja acção foi célebre; quem se liga ao general De Gaulle e é o ministro da Informação do gabinete de união nacional, efémero (o ministério chamado das “mangas arregaçadas”… Moch, Soustelle, Bidault, Auriol, Thorez, Plevon, etc.) a que o general presidiu; abandona, como De Gaulle, a acção política do movimento, quando este decide ingressar no jogo parlamentar; se dedica à crítica de arte e escreve a monumental “As Vozes do Silêncio” (o seu interesse e o seu conhecimento destes temas datavam já da sua estreia nas letras); se entrega à “metamorfose dos deuses”, com que prolonga à mitologia o seu “museu imaginário” de fogosa, retórica, e reaparece ao lado do general De Gaulle, na actual crise francesa. De tudo isto, a par dos textos que escreveu, e em que se revela um moralista da estirpe e da descendência de Pascal, La Bruysre e, sobretudo, Vauvenargues, se poderia concluir pela fidelidade a si próprio de um espírito ávido de dedicação individual e de aventura, para o qual a fraternidade humana é menos uma solidariedade que a consequência de um solitário culto (no sentido de cultura, também) da liberdade, e que vê na política um “compromisso humilhante” para a livre expressão daquilo que uma consciência entregue à sua própria irresponsabili-dade julga que é verdadeiro. Seria, porém, injusto não reconhecer a autenticidade de uma obra muitas vezes incompreendida ou condenada em função das atitudes do seu autor. De resto, que o tenha sido é por certo um sinal seguro dessa autenticidade dúplice.

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