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A conexão Bellarosa – 4 novelas – Saul Bellow

Saul Bellow nasceu em 1915 em Lachine, no Canadá francês. Filho de imigrantes judeus de São Petersburgo, a cidade cosmopolita que viu surgirem Gógol, Dostoiévski e Nabokov. Falava-se russo e iídiche em casa, inglês e francês nas ruas. No fim da Primeira Guerra a família muda-se para a maior e mais afluente Montreal, porém o Velho Mundo continuava com eles: recém-chegados como os Bellow viviam em guetos, instalados de forma precária, lutando contra outro inimigo que não os cossacos que irrompiam nas aldeias do Leste Europeu, mas a miséria do Novo Mundo. A promessa de uma vida novinha em folha parecia não se cumprir. As coisas iam mudar em breve, contudo. Em 1924, com nove anos, o pequeno Solomon entrou de forma clandestina nos Estados Unidos com o resto da família. O pai estava em Chicago havia alguns meses trabalhando na padaria de um primo. Bellow-pai, que era severo, neurótico, dado a surtos de violência verbal, tentou uma série de negócios antes de conseguir se estabelecer. Seria em Chicago, “essa cidade sombria”, como diz o narrador de As aventuras de Augie March (1953), o grande abre-alas (estético, ficcional) da obra de Saul Bellow, que o filho de imigrantes iria se fazer americano. Frequentou por um período o curso de letras, mas, acossado pelo suposto antissemitismo do departamento de literatura — até a Segunda Guerra o estudo da literatura inglesa era ainda um domínio de patrícios americanos que sonhavam levar a existência de Henry James —, optou pela antropologia. Outra escolha, dessa vez pela língua inglesa como seu veículo literário, foi o elemento fundamental dessa nova vida. Até pelo menos a escrita de seu primeiro livro, Dangling man (1944), Bellow oscilava, dubitativo e talvez com uma pontinha de sentimentalismo, para a língua iídiche. Mas logo isso parece ter passado. O seu inglês — suntuoso e esperto, irônico e cadenciado — iria vencer. Em uma carta da década de 1970 à tradutora e professora canadense Bracha Weingrod, Bellow fala sobre a questão, a partir, possivelmente, de um convite para escrever um texto teatral em iídiche: Sua ideia é boa mas eu tive que decidir muitos anos atrás se iria escrever em inglês ou em iídiche, e quando optei pelo inglês meu iídiche começou a murchar. Com membros da minha família (da minha geração) eu continuo falando iídiche e às vezes leio um livro em iídiche, mas duvido que conseguiria escrever uma peça na minha língua materna. O curioso, ainda no capítulo Bellow e o iídiche, é o fato de ele ter sido em parte o responsável pelo enorme êxito de Isaac Bashevis Singer no mercado americano. É sua a primeira tradução do conto “Gimpel, o tolo”, de 1953, que abriu caminho para que o escritor nascido na Polônia (antes conhecido apenas entre imigrantes e leitores do iídiche) começasse a ser apreciado por toda uma audiência de língua inglesa em revistas como Partisan Review e (sobretudo) New Yorker — que iriam formar o gosto do leitor de ficção para o mundo místico e erótico das pequenas comunidades judaicas europeias pré-Holocausto. Contudo, o encontro entre dois grandes autores, como parece ser bastante comum, teve algo de amargo. Singer temia que Bellow, já um tanto famoso, levasse a maior parte do crédito pelos méritos literários da tradução, e depois dessa experiência com “Gimpel” iria se cercar de tradutoras quase anônimas (“o harém de Singer”, como o próprio dizia). Nunca ficaram próximos. Tanto que no grosso volume Letters (no qual apareceu a carta reproduzida acima), edição com a correspondência de Bellow que saiu em 2010, há apenas uma carta a Singer, um bilhete curto de felicitações pelo Nobel de Literatura em 1978 — dois anos depois que seu primeiro tradutor havia sido escolhido pela Academia Sueca. Bellow foi, acima de tudo, uma voz. Muitos de seus livros costumam ter um fiapo de história: intelectual é traído pela mulher e embarca num delírio epistolar; professor universitário acompanha a esposa numa viagem ao Leste Europeu durante a Cortina de Ferro e passa a examinar a condição humana; um professor eventual e sobrevivente do Holocausto observa a loucura da babel do século XX, Nova York.


Convenhamos que, vistas em seu resumo esquelético, essas não parecem as histórias mais eletrizantes do romance contemporâneo. Pura ilusão. O que está em jogo nelas é a maneira como a voz — esse timbre e esse fôlego que a um só tempo evocam as ruas da Chicago de Al Capone, o discurso erudito, a peroração rabínica e um fundinho de iídiche, sua primeira língua — dá vida a tramas e personagens. Um estilo único (que influenciaria escritores talentosos de Philip Roth a Martin Amis) mesmo em livros que exigem estâmina do autor, as narrativas longas como As aventuras de Augie March, O legado de Humboldt e Herzog, que seduz pelo que tem de encantatório e singular. Talvez o único paralelo que se possa fazer a partir da voz de Bellow esteja fora da literatura: Frank Sinatra, outro mestre do século xx americano, também nascido em 1915. Ambos usaram a voz como veículo máximo de expressão pessoal e artística. Marcaram a sua época. Atravessam quase incólumes o tempo. A produção tardia de um escritor talentoso às vezes reserva algumas surpresas em relação à obra pregressa. Tudo pode entrar em outra frequência. Em alguns autores, a maturidade traz mudanças de foco, uma nova embocadura, a destilação de toda uma obra. Philip Roth, por exemplo, para citar umautor que começou à sombra de Bellow e que por ele seria reconhecido como outro grande. Depois de romances alentados e ambiciosos tematicamente, concebeu seus últimos livros (a partir dos anos 2000) em tom camerístico, praticando a novela centrada em poucos personagens a atravessaremsituações-limite no embate entre suas personalidades e o mundo. O animal agonizante, Homem comum, A humilhação, Nêmesis: há toda uma depuração rothiana nesses textos de até duzentas páginas, uma busca de síntese que não é apenas a concentração de tudo o que preocupou o autor nos livros anteriores. É quase outra personalidade — adensada, compacta, crepuscular. Caso similar é o das quatro novelas reunidas neste volume. Foram escritas na última porção da carreira (e da vida) de Bellow, quando já era apontado como a maior expressão do romance dos Estados Unidos depois de William Faulkner. São textos mais curtos que seus grandes romances e, embora partilhem de algumas das questões que gravitaram em torno de sua obra — a nova energia da existência judaica insuflada pelo meio americano, a vida intelectual, o adultério e outras paixões —, são como versões de bolso dos largos painéis (sociais, mentais) desenhados nos textos de trezentas páginas ou mais. O que não significa, claro, um rebaixamento. É apenas a voz que adota um tom mais baixo, é Frank Sinatra gravando canções de bossa nova. “Um furto” e “A conexão Bellarosa” saíram em livro em 1989, com sete meses de diferença. A primeira narrativa fora recusada por New Yorker e Vanity Fair, publicações de prestígio no ecossistema literário americano. Vista de longe, a negativa de seus respectivos editores parece algo próximo a uma blasfêmia, mas mesmo naquele tempo pré-internet a imprensa já não tinha espaço para textos mais longos, e “Um furto” foi considerado muito grande para ocupar uma edição de revista. Bellow colocou o ponto final em “Uma afinidade verdadeira” em 1996, a publicação apareceu no ano seguinte. “Ravelstein”, seu derradeiro esforço narrativo, veio a lume em 2000.

As duas primeiras novelas trabalham a partir de uma busca. Acossada pelo mistério do desaparecimento de um anel de esmeralda, Clara Velde — a editora de moda que protagoniza “Um furto” — começa, então, a compreender do que ela é feita, depois de alguns casamentos, aventuras sentimentais, muitas decepções. A conclusão é puro Bellow: um caldeirão de sensações, emocionais e intelectuais, que borbulham na personagem às vésperas de uma implosão pessoal. Perseguição implacável através da memória e do entendimento de um ato de bondade, “A conexão Bellarosa” traz outra síntese da obra do grande ficcionista de Chicago: a tragédia e a redenção da vida judaica pósHolocausto na história do resgate de Harry Fonstein das garras de Hitler por um figurão da Broadway. Duas últimas obras do autor publicadas em vida, “Uma afinidade verdadeira” e “Ravelstein” falam respectivamente de afetos precoces e tardios. Na primeira, um vendedor de antiguidades —sujeito maduro que conheceu o mundo — volta para Chicago com o grande amor de sua juventude a assombrá-lo. Seu cliente e amigo, um nababo quase centenário, entra numa espécie de jogo para ajudar a recuperar essa paixão adolescente. Já “Ravelstein”, último romance, traz algumas questões interessantes (e que por isso causarampolêmica à sua época) sobre a matéria do romance e o tratamento da realidade. Hoje, com a quase prevalência das formas híbridas na ficção — obras como as de Emmanuel Carrère, Sebald, Roberto Bolaño, que são muitas vezes erguidas a partir de pesquisa documental e construídas retoricamente com os expedientes da não ficção —, a questão parece até irrisória, mas de fato não é. Quais seriamos limites romanescos da exposição de uma vida real? Abe Ravelstein, intelectual falastrão, dândi, esnobe e perdulário que fez fortuna com um best-seller em que vulgarizava toda uma trajetória de erudição e que levou uma vida sexual agitada e morreu em decorrência do vírus da aids, é todo calcado numa figura real, o filósofo Allan Bloom, amigo e colega de magistério de Bellow na Universidade de Chicago. Aparecem no texto questões bem particulares: a vida sexual de Bloom (tirado do armário no romance), seus gostos refinados (se houvesse um hotel de dez estrelas, ele teria reservado a suíte presidencial), sua visão reacionária da cultura ocidental diante do pop (Michael Jackson é retratado de forma grotesca e aviltante); “Ravelstein” fez algum escândalo quando foi originalmente publicado. Era impiedosa e indiscreta demais a exposição de uma vida? Pode ser. Mas também a ficção derradeira de Bellow é uma obra-prima que registra, como em poucos momentos de toda sua obra, a voz muito particular do pensamento. E uma demonstração tácita de vitalidade e aposta sensual na prosa feita por um homem que, então com 85 anos, se recusava a ficar em silêncio.

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