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A Confraria do Medo – Rex Stout

OS MEMBROS da Liga da Expiação são homens possuídos pela culpa e pelo medo. Houve um tempo em que eram jovens e tinham o privilégio de serem alunos de Harvard, mas não foi o orgulho de ter frequentado a mais tradicional universidade americana que os manteve unidos. Há 25 anos, numa brincadeira de estudantes, eles causaram o acidente que vitimou um seu colega, obrigando-o a conviver pelo resto da vida com uma deficiência física. Agora, a morte de dois integrantes da Liga e o desaparecimento de um terceiro reavivam os fantasmas de cada um. Na verdade, os ex-colegas de faculdade entram em pânico. O que mais estarão escondendo? Semdar um passo na rua, Nero Wolfe vai elucidar os mistérios que envolvem a sinistra confraria. Se há uma coisa que ele odeia é sair de casa, o que se explica, ao menos em parte, pelo fato de sua obesidade lhe causar certos transtornos de locomoção. Refestelado em seu apartamento, religiosamente ocupado em amar suas dez mil orquídeas e tomar as providências para o jantar, o excêntrico detetive despachará o assistente Archie Godwin, sempre sedento de ação, para buscar os fatos que sustentarão sua intuição infalível… * * * Um WOLFE E EU estávamos sentados no escritório numa tarde de sexta-feira. E, como não poderia deixar de ser, o nome de Paul Chapino e suas engenhosas ideias sobre como obter vingança por atacado e impunemente chegariam até nós de qualquer maneira. Mas, naquela tarde de sexta, a combinação de uma chuva precoce de novembro com uma ausência de negócios lucrativos que já durava tanto tempo que começava a se tornar incômoda nos trouxe uma cena de abertura, umprólogo, não uma parte da ação principal, do espetáculo que estava prestes a se iniciar. Wolfe bebia cerveja e olhava alguns desenhos de flocos de neve num livro que alguém lhe mandara da Tchecoslováquia. Eu lia o jornal da manhã sem muita convicção. Já o lera durante o café da manhã e dera uma olhada nele durante meia hora depois de verificar as contas com Horstmann às onze horas, e lá estava eu novamente com ele no meio de uma tarde chuvosa, pensando sem muito entusiasmo em encontrar alguma coisa que me fizesse ao menos cócegas no cérebro que parecia querer secar em mim. Leio livros, sim, mas até agora nenhum deles me satisfez. Sempre tenho a impressão de que não há nada vivo neles, de que tudo está morto ou já passou, então de que adianta? Uma pessoa pode tentar se divertir numpiquenique no cemitério. Certa vez Wolfe me perguntou por que diabos eu sempre fingia que estava lendo um livro, e respondi que era por razões culturais, e ele retrucou que eu não precisava me dar ao trabalho, que cultura era como dinheiro, vem mais fácil para aqueles que menos necessitam dela. De toda forma, visto que era um jornal matutino e que estávamos no meio da tarde e que eu já o lera duas vezes, não era muito melhor do que um livro, e eu só estava insistindo em ficar com ele como desculpa para manter os olhos abertos. Wolfe parecia absorto nos desenhos. Olhando para ele, disse a mim mesmo: “Ele está numa batalha contra as forças da natureza. Está lutando para abrir caminho em meio a uma nevasca violenta, e faz tudo isso sentado confortavelmente e olhando desenhos de flocos de neve. Essa é a vantagem de ser um artista, de imaginar”. Falei em voz alta: — Não durma senhor, seria fatal. O senhor morreria congelado. Wolfe virou a página sem prestar atenção em mim. Falei: — O carregamento que chegou de Caracas, de Richardt, veio com doze bulbos a menos.


Eu sabia que ele não fazia bons descontos. Ainda sem resposta. Continuei: — Fritz contou que o peru que mandaram é velho demais para grelhar e que vai ficar duro, a menos que seja assado durante duas horas, o que, segundo o senhor, diminui o sabor da ave. De forma que o peru de quarenta e um centavos o quilo vai ficar uma porcaria. Wolfe virou outra página. Olhei fixamente para ele por alguns minutos, depois disse: — Viu a notícia no jornal a respeito da mulher que tem um macaco de estimação que dorme na cabeceira da cama e que enrola a cauda no pulso dela? E que a mantém lá a noite toda? E a outra, sobre um sujeito que encontrou um colar na rua, devolveu-o à dona e ela afirmou que ele roubara duas pérolas do colar e botou ele na cadeia? E aquela outra, sobre um homem que prestou depoimento num caso sobre um livro obsceno, e quando o advogado lhe perguntou qual era seu objetivo ao escrever o tal livro, ele respondeu que cometera um assassinato e que todos os assassinos precisavam falar sobre seus crimes e que aquela era sua maneira de falar sobre o que fizera? Não que eu tenha entendido a ideia, digo, o objetivo do autor. Se um livro é sujo, é sujo, e que diferença faz a maneira como se tornou o que é? O advogado diz que, se o autor tivesse um objetivo literário digno, a obscenidade não importaria. Da mesma forma, você poderia dizer que, se eu quisesse atirar uma pedra numa lata, não faria a menor diferença se acertasse seu olho com ela. Da mesma forma, você poderia dizer que, se meu objetivo fosse comprar um vestido de seda para minha pobre avozinha, não faria diferença se tirasse a grana de uma panela do Exército da Salvação. Da mesma forma… Parei de falar. Conseguira atrair a atenção dele. Ele não ergueu os olhos da página, a cabeça não se mexeu, não existia a menor mudança em seu corpanzil acomodado na enorme cadeira construída especialmente para ele. Mas vi seu indicador direito balançar de leve, sua varinha ameaçadora, como ele o chamara certa vez, e sabia que conseguira sua atenção. Ele disse: — Archie, cale a boca. Sorri. — De jeito nenhum, senhor. Meu Deus será que vou morrer sentado aqui? Telefono para a Pinkerton e pergunto se querem um quarto de hotel vigiado ou alguma coisa do gênero? Se uma pessoa guarda um barril de dinamite em casa, cedo ou tarde pode esperar algum barulho. É isso que eu sou, um barril de dinamite. Devo ir ao cinema? A enorme cabeça de Wolfe se moveu para frente uma fração de centímetro, o que, para ele, representava uma concordância enfática. — Não tenha dúvida. Imediatamente. Levantei da cadeira, atirei o jornal sobre minha mesa, me virei e sentei novamente. — O que estava errado em minhas analogias? Perguntei. Wolfe virou outra página. — Vamos dizer, murmurou ele pacientemente, — Que como analogista você é imbatível.

Digamos que seja isso. — Está bem. Isso mesmo. Não estou tentando começar uma discussão, senhor. De jeito nenhum. Só estou sofrendo um pouco com o esforço para tentar imaginar uma terceira forma de cruzar as pernas. Já faz uma semana que venho tentando. Ocorreu-me rapidamente que Wolfe nunca se perturbaria com aquele problema, pois suas pernas eram tão gordas que não existia a menor possibilidade de que ele as cruzasse, independentemente da estratégia empregada, mas resolvi não mencionar isso. Mudei de assunto. — Mantenho o que disse, se um livro é sujo, é sujo, independentemente de o autor ter uma lista de objetivos tão compridos quanto um dia chuvoso. O sujeito no banco das testemunhas ontem era um maluco. Não era? Diga lá. Ou queria manchetes enormes, a qualquer preço? Pagou cinquenta dólares pelo desacato ao tribunal. Por esse valor, até que foi uma propaganda barata para o livro dele. Durante meio século ele poderia comprar umas quatro colunas no caderno literário do Times, fácil, fácil. Mas acho que o sujeito era maluco. Disse que cometeu um assassinato, e todos os assassinos têm de confessar, daí ele escreveu o livro, mudando as personagens e circunstâncias, como um meio de confessar sem se arriscar. O juiz era espertinho e sarcástico. Disse que, apesar de o sujeito ser um inventor de histórias e estar numa corte, não precisava se candidatar ao cargo de bobo dela. Aposto como os advogados se esborracharam de rir com essa. Hein? Mas o autor disse que não era piada, que era por isso que escrevera o livro, e que toda obscenidade que nele existisse era apenas incidental, que ele realmente apagara outro cara. Daí o juiz mandou o sujeito pagar cinquenta paus por desacato ao tribunal e o mandou embora dali. Acho que ele é maluco. O que você diz? O enorme peito de Wolfe se expandiu e se encolheu num suspiro. Posicionou um marcador no livro, fechou-o, largou-o sobre a escrivaninha e depois se recostou vagarosamente na cadeira.

Piscou duas vezes. — E daí? Fui até minha mesa, peguei o jornal, abri na página. — Talvez nada. Acho que ele é maluco. O nome é Paul Chapino e ele já escreveu diversos livros. O título desse é O DIABO VEM POR ÚLTIMO. Formado em Harvard em 1912. É aleijo. Aqui fala que ele foi depor mancando de uma perna, mas não diz qual. Wolfe apertou os lábios. — Por acaso, perguntou ele, — Aleijo é uma abreviação de aleijado e você usa a palavra como uma metáfora para mutilado? — A parte da metáfora eu não sei, mas aleijo quer dizer aleijado nos círculos que frequento. Wolfe suspirou novamente e iniciou o processo de se levantar. — Graças a Deus, disse ele, — Há essa hora não há necessidade de mais analogias e coloquialismos. O relógio na parede marcava um minuto para as quatro, hora de ele ir para os viveiros. Ele se ergueu, puxou as pontas do colete para baixo, mas, como de hábito, não conseguiu cobrir o pedaço de camisa amarela que aparecera e se dirigiu para a porta. Parou na soleira. — Archie? — Sim, senhor. — Telefone a Murger e peça que mandem imediatamente um exemplar de O DIABO VEM POR ÚLTIMO, de Paul Chapino. — Talvez não possam mandá-lo. Os exemplares foram recolhidos e se aguarda uma decisão do tribunal. — Que bobagem. Fale com Murger ou Ballard. Que outra serventia teria um julgamento por obscenidade senão popularizar a literatura? Wolfe avançou para o elevador e eu me instalei junto à mesa e peguei o telefone.

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