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A Confraria dos Espadas – Rubem Fonseca

Cara senhora, Matar uma pessoa é fácil, o difícil é livrar-se do corpo. Esta frase, que poderia ter sido dita por um dos carrascos de Auschwitz mas na verdade referia-se originalmente a um elefante, veio paradoxalmente a minha lembrança quando depositei o corpo inanimado de Heloísa, que pesava menos de cinquenta quilos, num banco da praça Ataualpa. Desculpe se pareço cínico e insensível, mas a senhora pediu-me que lhe escrevesse sem artificialismos verbais, direto do coração (uso suas palavras), e é isso o que estou fazendo. No caso de Heloísa (sobre as outras falo em seguida), o mais difícil foi criar as condições que permitissem a descoberta do corpo antes que a natureza o deteriorasse. Da janela do apartamento onde moro vejo a maior floresta urbana do mundo, se abandonasse o corpo naquela mata ele desapareceria, mas queríamos, eu e Heloísa, que o corpo dela fosse encontrado imediatamente. Assim, tendo o cuidado de colocar seu endereço num papel pregado com um alfinete no vestido, deixei-o em um lugar público movimentado da zona sul da cidade, é bem verdade que de madrugada, com a praça deserta. Depois, telefonei para a polícia. Todo esse procedimento foi simplificado mais tarde, quando descobri que usando apenas metade da substância letal que injetei em Heloísa a morte não seria imediata, demoraria uma hora para ocorrer, e durante esse período a pessoa inoculada manteria completo domínio das suas faculdades físicas e mentais. Admito que Heloísa, assim como Laura e Salete, foram tecnicamente assassinadas por mim, mas não podem ser chamadas de minhas vítimas, o termo define alguém sacrificado às paixões ou interesses de outrem, o que não foi o caso de nenhuma das três, que decidiram soberanamente sobre a conveniência e oportunidade da própria morte. Se teoricamente matei as três mulheres, é preciso que se diga que o fiz com a aquiescência e, mais do que isso, com o estímulo delas. Elas realizaram seus desígnios e eu, de certa forma, também tive minha recompensa, subjetiva, merecida aliás, tendo em vista a tarefa delicada e árdua que foi encontrar Laura e Salete. Heloísa eu encontrei por acaso e ela me convenceu a colaborar, mas para descobrir as outras fiz inúmeras e cansativas pesquisas na Internet e nas páginas de anúncios de jornais e revistas, além de contatos pessoais em diversos locais públicos, tudo para poder encontrar as pessoas com o potencial certo. Certa ocasião, quando assistia a uma palestra sobre perversões sexuais na literatura, uma mulher desconhecida, sentada ao meu lado, me disse que era um espírito livre, transgressor, disposta a expandir os limites. Mas não demorei a perceber que ela não tinha o potencial certo quando, depois de dizer que as roupas que cobriam nossa nudez estavam prejudicando nosso processo interativo, desnudou-se, deitou-se na cama e pediu-me que lhe mordesse os bicos dos seios. Seja bruto, ela dizia enquanto eu a mordia, mais, mais, ela queria que doesse muito, que saísse sangue, mas na verdade isso que ela desejava não significava romper o limite. Fiz o que ela pediu, eu só fazia o que elas pediam. Uma outra que me atraiu, pálida e entediada, tinha piercings na língua e na vulva, mas depois de alguns encontros descobri que cheirava cocaína, gostava de frequentar boates e pintar o cabelo de verde, era um joguete da mídia e da moda, seguia todos os ditames. Uma delas desejava ver a morte de perto e eu pedi que esclarecesse melhor sua pretensão, e ela disse que queria botar fogo num mendigo, um gesto de extrema futilidade. Havia aquelas que se diziam cansadas de viver, mas a verdade é que as pessoas cansadas de viver não merecem morrer assim como aquelas que têminclinações suicidas, buscando, como disse um poeta maluco, antecipar as imprevisíveis abordagens de Deus, não decidem livremente e não me interessam. O que fizemos, por outro lado, não pode ser, nem mesmo remotamente, comparado à eutanásia. Não se trata de acabar com a vida de uma pessoa que sofre de uma doença incurável ou de um sofrimento intolerável, de levá-la ao suicídio, um costume da Grécia e da Roma antigas que a ética e a moral cristã tornaram infame e ilegal, quando na verdade é apenas um ato de inquietação. O livre-arbítrio no ato de encerrar a vida só é autêntico se a pessoa é tranquila, saudável, lúcida e gosta de viver. Resumindo: as três mulheres que matei eram sensatas e inteligentes e, mais importante, queriam exercer em sua plenitude o poder do livre-arbítrio, queriam escrever o seu augúrio, agir, em suma, sem que a decisão tomada fosse uma inevitável consequência de antecedentes fortuitos. Heloísa, antes de tomar a injeção intravenosa, disse que não via sentido em deixar uma mensagem de despedida que seria sempre uma justificativa rancorosa ou piegas. Não queria provar nada para ninguém, nem para ela mesma, apenas alcançar a liberdade plena.


Por delicadeza, e talvez um pouco de vaidade (mas Heloísa rechaçou com vigor essa minha suposição), ela não queria que a vissem depois que a sua carne perdesse o viço, poluída pela decomposição física. É mais fácil se livrar da alma do que do corpo. Assim, decidimos, como eu já disse antes, que o nome e o endereço dela seriam escritos numpapel a ser pregado no seu vestido, e que eu avisaria imediatamente a polícia e sua família, o que fiz. A polícia, normalmente suspeitosa, levantou logo a hipótese de assassinato, embora a ausência de sinais de violência e o semblante tranquilo de Heloísa causassem uma certa perplexidade. Da segunda vez, levando isso em consideração, pois não queríamos que o gesto fosse erroneamente interpretado, discuti com Laura o procedimento que devíamos adotar. Laura sugeriu deixar uma carta, que ela mesma escreveria, dizendo, laconicamente, que a liberdade de acabar com a vida era a maior das liberdades. Assim fizemos e quando descobriram o corpo, e a carta de Laura foi publicada nos jornais, os comentaristas da imprensa falaram confusamente em degeneração, solipsismo, loucura. Costuma-se associar antiteticamente a palavra liberdade a opressão, a escravidão, a cárcere, e aceita-se, convencionalmente, que a vida possa ser sacrificada num desafio heroico a esses estados. A associação de liberdade com violência é coacta, mas cara senhora, não devemos esquecer que, como disse um filósofo, liberdade é também violação disso que chamambom senso, liberdade é o direito — e o verdadeiro direito não é aquele que nos é dado, mas o que conquistamos — de pensar diferente. Depois de autopsiar o corpo de Laura e fazer os exames laboratoriais de praxe, a polícia concluiu que sua morte resultara da mesma substância que causara a morte de Heloísa, o que deixou todos ainda mais atarantados. A autópsia de Salete, ao estabelecer um nexo entre as três mortes, robusteceu, evidentemente, a tese do assassinato, uma conclusão apressada e ridícula, pois não existe assassinato sem vítima. E não havia vítimas. 12/09, sábado Cara senhora, Achei curiosos os seus comentários sobre a carta que lhe enviei. A senhora diz que não esclareci devidamente os meus motivos, e lamenta que eu seja lacunoso. A senhora quer saber como descobri que usando apenas metade da substância letal que injetei em Heloísa a morte não seria imediata, demoraria uma hora para ocorrer, e que durante esse período a pessoa inoculada manteria o completo domínio das suas faculdades físicas e mentais. Vou lhe fazer uma confidência, certo de que posso contar com o seu sigilo. Eu testei a substância numa pessoa: aquela mulher frívola que queria incendiar um mendigo. A segunda omissão, segundo a senhora: como foi encenado (estou usando uma palavra sua) o encontro do corpo de Laura. Ao deixar de mencionar esse detalhe fui apenas elíptico, pois sendo, como sou, conciso e cartesiano nas palavras e nos gestos, não queria me estender em descrições desnecessárias. Mas a senhora quer detalhes, e aqui vão eles. Eu e Laura sabíamos, conforme a experiência feita por mim com a mulher frívola, que durante uma hora Laura se manteria ativa e consciente. Laura sugeriu que logo após ser inoculada iria a um teatro, sentar-se-ia na plateia, e morreria entre um ato e outro, demonstrando para os espectadores, como disse o tal maluco cujo nome esqueci, que o teatro existe para mostrar que o mundo pode cair em cima da nossa cabeça. Mas Laura, que não gostava de teatro, depois de alguma reflexão abandonou a ideia. Poderia parecer, disse rindo, que morrera de tédio. Um restaurante também foi excluído como cenário, poderia dar a impressão de que ela morrera envenenada pelas ostras.

Veja bem, queríamos evitar que eu tivesse de telefonar para a polícia dizendo onde estava o corpo, como fiz comHeloísa. Então decidimos por uma igreja. A ideia foi de Laura, seria uma agradável ironia morrer naquele templo de um Deus antropocêntrico, no meio de pessoas ingênuas que acreditam que todas as coisas foram criadas por Ele para propiciar a vida humana. Eu estava lá na igreja, uma fileira atrás dela, e vi quando Laura se espreguiçou, sorriu, e morreu no meio do sermão. O resto a senhora já sabe. Quanto à morte de Salete, não há, novamente, muito a dizer. Como também é do seu conhecimento, o corpo foi encontrado numa outra igreja. Salete morreu no fim da missa e antes de morrer, como se pressentindo o desenlace, virou-se para trás e me fez um gesto de adeus.

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