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A CONJURA – Jose Eduardo Agualusa

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia 16 de junho de 1911. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda. É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveramo seu berço foi mesmo nesse esquecido ano de 1880, quando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili. Vamos pois começar deste princípio. 2 Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegado à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade. Outros teve que acharam graça, aprovaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se havia transformado num pequeno clube de ideias. Fisicamente Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de “o nosso sapinho capenga”; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso 1,60 m e o fato de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes: – É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar –, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas. 3 Durante toda a tarde de sexta-feira (na quarta Caninguili inugurara a sua loja) andou Alice atrás de Manaus repetindo-lhe a mesma repetida ladainha, a mesma palavra tantas vezes repetida: – Fraternidade, Manaus, diz fraternidade, diz comigo fra-ter-ni-da-de, fraternidade. Nada! Manaus tinha as suas teimas. E não sendo embora pelo rei (e nem pela grei) desgostava o palavrão. De resto, e nisso era igual a todos os papagaios, e também a todos os meninos, preferia os termos chulos, os vocábulos sujos e obscenos. Como as grosserias que o Velho Gama sempre estava a gritar, fosse em português, fosse em quimbundu, ou fosse mesmo em qualquer barbarismo do interior, que o ngueta 1 era homem viajado! Palavrões assim Manaus amava repetir. E com tal talento imitava o gritar do velho que, quando este ainda era carne e sangue deste mundo, acontecia Alice ralhar ao papagaio crendo assim estar a falar com o pai. E não só ela mas também muitos passantes e amigos que do largo quintalão ouviam o disparatar do bicho e logo respondiam zombando: – Que é isso, sôr Gama? Correm-lhe mal os negócios ou são negócios de cama? Morto o velho, mesmo assim logrou Manaus complicar as pessoas. Foi o caso que, na vigília do corpo, ia profunda a noite e apenas um pequeno grupo resistia ainda, trocando entre si ditos e anedotas e jogando às cartas, quando de repente se levantou na sala um fraco piar e logo depois se ouviu o rouquejar inequívoco do Velho Gama, protestando contra a Santa Madre Igreja e a puta da vida.


Foi o pânico na sala grave; enlutada e grave. O pânico, a desordem, o despertar súbito das carcomidas carpideiras: nga Mbunda rasgou de aflição a sua bofeta 2 e em seguida os panos de dentro, desnudando as mamas gordas. Dona Féfa, aliás a senhora Josefa da Purificação Ferreira, agarrou-se ao marido gritando em quimbundu (pormenor importante e depois muito troçado, revisto, comentado e acrescentado, ou não fosse a quitandeira conhecida por apenas discorrer em puro português do puto 3 , de todo em todo desprezando a língua dos seus mais velhos, língua de cães, dizia), gritando, pois, que era o mundo que acabava e os mortos estavam despertando do seu sono para comer os vivos. Esta confusão quem resolveu mesmo foi o Carmo Ferreira, cujo, separando-se a custo da chorosa esposa, se acercou do defunto e, vibrando-lhe duas puxadíssimas chapadas, pretendeu assimdevolvê-lo ao mundo das sombras. Na mesma altura saltou Manaus de dentro do féretro e só então, compreendendo o acontecido e a injustiça do seu ato, Carmo Ferreira começou a perseguir o papagaio tentando havê-lo às mãos. Manaus salvou-se de um linchamento sumário graças à sua agilidade e ao fato de, como os anjos, também ele ter asas: trepando até ao teto, esgueirou-se por uma janela aberta e desapareceu na noite. Alicinha encontrou-o no dia seguinte, depois do enterro e do furtivo combaritóquê 4 , escondido entre as folhas da grande mangueira do quintal e ainda tremendo de medo. Mas mal a viu, o ordinário, logo se esganiçou com a voz do morto: – Tuji, tuji, oh porra! Sundu ya mama ena! 5 4 Vinha isto a propósito do nome que Caninguili deu à sua loja, e de tal nome haver agradado a Alicinha mas não a Manaus, papagaio malcriado e conflituoso. Este Manaus era, apesar de toda a sua má criação, ou talvez por causa dela, a ave preferida do Velho Gama. E isto de entre toda a sua celebrada coleção de pássaros; que os tinha de muitas espécies, e coloridas formas e diversos gorjeares. Em seu armazém, no cruzamento da Rua da Alfândega com a de Salvador Correia, empilhavam-se as gaiolas – em equilíbrio precaríssimo e ruidoso. Havia de tudo: pírulas, seripipis, benguelinhas, viúvas, maracachões, bicos-de-lacre; até mesmo um gungo, perigoso e solitário em sua gaiola de ferro, afrontando com o bico forte as grades duras. Alicinha movia-se entre as pilhas de gaiolas gorjeantes com alada leveza e fosse por se saberemdependentes dela (o Velho Gama não tinha paciência para tratar dos pássaros), fosse por lhe haveremdescoberto um oculto sentimento de solidariedade, fosse, mais possivelmente, porque a moça tinha, ela própria, uma natureza de ave, o certo era que em chegando Alice logo toda aquela estrutura se levantava saudando-a numa grande confusão de cantos e xuaxualhar 6 de asas. E era um espetáculo bonito de se ver. Criada por uma velha ama, e depois quase ao deus-dará, Alice fora sempre uma criança um pouco estranha, ora alegre e até faladeira, ora bruscamente silenciosa, de um silêncio inquieto, o mesmo silêncio que antecede as emboscadas. Os outros meninos, não a compreendendo (na realidade tinham-lhe um certo medo), teciam à volta dela estórias cruéis. E afastavam-na dos seus jogos e folguedos. Alice cresceu assim conversando mais com os bichos e com as coisas do que propriamente com as pessoas. Cresceu porém saudável (que é como quem diz formosa), e aos 16 anos o seu corpo tinha já todo o perfume e encanto de um corpo escorreito de mulher. 5 Após o combaritóquê do Velho Gama (furtivo e triste pois que expressamente proibido por um sobrinho deste, vindo da metrópole para a partilha dos bens), aguardou Alice uma semana e então, quando se convenceu de que o espírito do pai estaria já demasiado longe para se preocupar com o sucedido, abriu as portas de todas as gaiolas e soltou os pássaros. Foi isto pelas duas horas da manhã do dia 26 de janeiro de 1881, toda a cidade de São Paulo de Luanda estava já dormindo. Ou quase toda. Jerónimo Caninguili, por exemplo, ainda permanecia acordado, dando os retoques finais à sua loja de barbeiro. Tinha acabado de arrumar num comprido móvel – construído segundo as suas indicações na marcenaria de Joaquim Marimont – uma porção de frascos e frasquinhos, quando de súbito lhe pareceu ouvir um revoar de asas, um abafado estilhaçar de gritos e de cantos. Abriu a porta e esticou o pescoço, tentando furar com os olhos a escuridão da noite.

O ruído vinha do fundo da Salvador Correia, mas era impossível divisar o que quer que fosse. Defronte à sua porta umcandeeiro a acetileno derramava-se num estreito charco de luz amarela; cem metros à frente, outro charco perdia-se na noite. Entre este e aquele apenas um negrume espesso, opressivo, impenetrável. Perplexo, o moço recolheu-se para dentro e fechou a porta. Depois sorriu-se lembrando as últimas palavras do seu mestre, o velho Acácio Pestana: “Tem cuidado, meu rapaz”, lhe dissera agitando o dedo magro, “Luanda tem coisas; coisas que desconhecemos; coisas que às vezes são perigosas.” Riu-se francamente. Ora, por certo não era àquilo que o velho se referia. Acácio só falava de política. Mesmo os espíritos, as miondonas, os calundus, quiandas, chinguilamentos 7 , o que fosse, tudo ele reduzia a trama política; em tudo via a mão opressora dos padres, o rabo de fora das maquinações burguesas. Anarquista, ensinara-lhe o beabá por gastos volumes de Proudhon e Kropotkine. Na época ainda um miúdo dos seus 11 anos, Caninguili nada compreendia do que estava a ler. Contudo, o fervor quase religioso que Acácio punha nas palavras lidas, a lenta gravidade com que repetia as grandes sentenças libertárias e, principalmente, a sensação de que aquelas eram ideias proibidas, tudo isso contribuía para fazer daqueles momentos, momentos mágicos e inesquecíveis. O que sabia do seu mister de barbeiro fora também Acácio quem lhe ensinara. E mesmo quando, na ânsia de conhecer outras terras e outras gentes, se decidira a partir para a capital, ainda dessa vez lhe valera a generosidade do velho anarquista. Acácio logo adiantara o capital necessário para abrir a loja e, escondendo a tristeza de o ver partir, havia sido quem mais o apoiara e quem mais coragem lhe dera. Passou-lhe cartas de recomendação dirigidas a diversos amigos e conhecidos, insistindo particularmente nos nomes de Arantes Braga, “uma das mais brilhantes estrelas do firmamento intelectual de Luanda”, e de Jacinto do Carmo Ferreira, seu parceiro de muitas caçadas famosas. Arantes Braga mostrara-se solícito e amigo. Quisera logo saber como ia o cidadão Acácio Pestana, “esse português de coração angolense”; oferecera os seus préstimos e os seus conselhos mas, sempre muito ocupado, ficara por aí. Carmo Ferreira fizera mais do que isso: percorrera com ele a parte baixa da cidade procurando um local aprazível para montar a loja. Forçara-o a instalar-se em sua casa durante as primeiras semanas e, porque amigo do meu amigo meu amigo é, aconselhara tabernas e prostíbulos, dissera-lhe das moças mais audazes e dos sabores e saberes de cada uma. Dona Féfa é que se pusera retraída, desaprovando com amuados muxoxos a amizade do marido por um benguelinha sem eira nem beira, para mais preto retinto, preto macala 8 . E foi quando Carmo Ferreira sugeriu o nome do barbeiro para padrinho da pequena Carlota que a quitandeira disparatou de todo, armando o primeiro grande pé de vento da sua curta vida de nga muhatu 9 . E o último. Com efeito desconhecia ela que, nesse exato momento, andava o comerciante embeiçado por certa moça do Bengo, menina de pouca idade mas de muitas seduções. Não fosse isto (a paixão é nzua 10 embriagante e doce), talvez Carmo Ferreira se tivesse limitado a surrar a negra.

Assim pegou nela e devolveu-a à mãe, a velha Xica da Ilha, com a recomendação de que lhe cortasse a língua. Comprometeu-se porém a pagar mensalmente vinte mil réis para o sustento das crianças e nisso nunca faltou.

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