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A conspiracao Colombo – Steve Berry

Cristóvão Colombo percebeu que o momento decisivo estava próximo. Seu destacamento avançava penosamente para o sul, atravessando a densa floresta desta terra tropical havia três dias, ganhando cada vez mais altitude. De todas as ilhas que descobrira desde a primeira terra avistada, em outubro de 1492, esta era a mais bela. Uma planície estreita margeava sua costa rochosa. Montanhas formavam uma espinha encoberta, subindo gradualmente desde o oeste e culminando na tortuosa cadeia de picos que agora a cercavam. A terra era quase toda formada por calcário poroso coberto por um fértil solo vermelho. Uma incrível variedade de plantas florescia por baixo da grossa proteção da antiga floresta, todas nutridas por constantes ventos úmidos. Os nativos que viviam ali chamavam o lugar de Xaymaca, que, Colombo descobrira, significava “terra dos mananciais” — o nome fazia sentido, uma vez que havia água abundante em todos os lugares. Mas, como em espanhol o “X” é substituído pelo “J”, ele passara a chamar o lugar de Jamaica. — Almirante. Ele parou e virou-se para encarar um de seus homens. — Não está longe — disse De Torres, apontando para a frente. — Montanha abaixo até aquela área plana, passando depois pela clareira. Luís navegara com ele nas três viagens anteriores, incluindo a de 1492, quando desembarcarampela primeira vez. Eles se entendiam e confiavam um no outro. Colombo não podia dizer o mesmo dos seis nativos que transportavam as arcas. Eles erambárbaros. Apontou para dois, que carregavam um dos menores contêineres, e fez um sinal para que tomassem cuidado. Estava surpreso por, depois de dois anos, a madeira ainda estar intacta. Nenhum verme se infiltrara, como acontecera com o casco de seu navio no ano anterior. Um ano que ele passara abandonado nesta ilha. Mas seu cativeiro tinha chegado ao fim. — Você escolheu bem — disse ele para De Torres em espanhol. Nenhum dos nativos sabia falar a língua. Outros três espanhóis os acompanhavam, todos escolhidos a dedo.


Os nativos tinham sido recrutados e subornados com a promessa de mais guizos — bugiganga cujo som parecia fasciná-los —, caso carregassem três arcas para as montanhas. Eles tinham começado ao amanhecer, em uma clareira na floresta adjacente ao litoral norte — um rio próximo que jogava água gelada e cristalina montanha abaixo, formando várias piscinas e, finalmente, dando um último mergulho prateado até o mar. O zumbido constante de insetos e o canto dos pássaros estavam mais altos, atingindo um crescendo ruidoso. Carregar as arcas montanha acima exigia esforço, e todos eles estavam ofegantes, com as roupas suadas grudadas à pele e sujeira cobrindo seus rostos. Agora, desciam para o exuberante vale. Pela primeira vez em muito tempo, Colombo se sentia rejuvenescido. Amava esta terra. Ele liderara a primeira viagem em 1492, indo contra os conselhos de pessoas consideradas cultas. Oitenta e sete homens acreditaram no seu sonho e se aventuraram no desconhecido. Durante décadas, ele se esforçara para conseguir que financiassem a sua viagem, primeiro com os portugueses, depois com os espanhóis. As Capitulações de Santa Fé, que assinou junto à coroa espanhola, prometeram a ele status de nobre, dez por cento de todas as riquezas e controle dos mares que descobrisse. Um excelente negócio no papel, mas Fernando e Isabel não cumpriram sua parte. Nos últimos 12 anos, depois que ele provou a existência do que todos estavam chamando de Novo Mundo, navios espanhóis navegaram para o oeste, um atrás do outro, e nenhum deles com sua permissão como Almirante do Oceano. Putos. Mentirosos. Todos eles. — Ali — disse De Torres. Colombo parou sua descida e olhou entre as árvores com milhares de flores vermelhas, que os nativos chamavam de “Chama da Floresta”. Localizou uma piscina clara, lisa como vidro, e o gorgolejo de mais água em movimento. Sua primeira viagem à Jamaica fora em maio de 1494, na sua segunda incursão, quando descobriu que o litoral norte era habitado pelos mesmos nativos encontrados nas ilhas próximas, só que ali eram mais hostis. Talvez a proximidade com os caraíbas, que viviam em Porto Rico, a leste, fosse o motivo de sua agressividade. Os caraíbas eram canibais ferozes que só entendiam a língua da força. Com base em seu aprendizado, Colombo despachara cães de caça e arqueiros para iniciarem a conversa com os jamaicanos, matando alguns e maltratando outros, até que estivessem dispostos a agradá-lo. Ele parou o avanço da caravana. De Torres se aproximou e sussurrou: — É aqui.

O lugar. Ele sabia que esta seria sua última vez no Novo Mundo. Tinha 51 anos e conseguira reunir um número surpreendente de inimigos. Sua experiência no ano anterior era prova de que esta quarta viagem estava amaldiçoada desde o começo. Primeiro, explorara a costa do que passara a acreditar ser um continente, cujo litoral infinito se estendia de norte a sul até onde ele navegou. Após concluir essa patrulha, esperara desembarcar em Cuba ou Hispaniola, mas seus navios corroídos por vermes só conseguiram chegar até a Jamaica, onde ele os ancorou e aguardou um resgate. Que não chegou. O governador de Hispaniola, um inimigo jurado, resolveu abandonar Colombo e seus 113 homens à morte. Mas ela não chegou. Em vez disso, algumas almas corajosas remaram em uma canoa até Hispaniola e trouxeram umnavio. Sim, ele realmente tinha muitos inimigos. Eles negaram todos os direitos que Colombo um dia tivera segundo as Capitulações. Ele conseguira manter seu status de nobre e o título de Almirante do Oceano, mas isso não significava nada. Os colonos de Hispaniola se revoltaram e o forçaram a assinar um acordo humilhante. Há quatro terríveis anos, ele foi levado de volta para a Espanha, acorrentado e ameaçado de ser julgado e preso. Mas o rei e a rainha lhe concederam um inesperado indulto e lhe deram fundos e permissão para a quarta viagem. Ele se questionara sobre a motivação deles. Isabel parecia sincera. Ela tinha uma alma aventureira. Mas o rei era outro assunto. Fernando nunca gostara dele, dizendo abertamente que a viagem a oeste lhe parecia uma estupidez. Claro, isso foi antes de Colombo ser bem-sucedido. Agora, Fernando só queria ouro e prata. Putos. Mentirosos.

Todos eles. Acenou para que abaixassem as arcas. Seus três homens ajudaram, pois eram pesadas. — Chegamos — gritou ele em espanhol. Seus acompanhantes sabiam o que fazer. Espadas foram empunhadas e os nativos, rapidamente cortados em pedaços. Dois gemeram no chão, mas foram silenciados com floretes enfiados no peito. Essas mortes não significavam nada para Colombo; eles não eram dignos de respirar o mesmo ar que os europeus. Pequenos, de pele marrom, nus como no dia em que nasceram, não possuíam linguagem escrita nem crenças fervorosas. Moravam em aldeias no litoral e, pelo que percebera, apenas cultivavam algumas plantas. Eramliderados por um homem chamado cacique, com quem Colombo fizera amizade durante o ano em que ficara abandonado. Foi o cacique quem lhe ofereceu seis homens ontem, quando ele ancorou para sua jornada final no litoral norte. — Uma caminhada simples até as montanhas — dissera ele para o cacique. — Só alguns dias. Ele conhecia o suficiente da língua aruaque para fazer o pedido. O cacique demonstrou que tinha entendido e concordou, apontando para seis homens que carregariam as arcas. Ele fizera uma reverência em agradecimento e oferecera vários guizos como presentes. Graças a Deus trouxera muitos. Na Europa, eles eram amarrados às garras de pássaros treinados. Sem valor. Aqui, eram uma moeda valiosa. O cacique aceitou o pagamento e fez uma reverência também. Já negociara com esse líder outras duas vezes. Tinham criado uma amizade. Um acordo do qual ele se beneficiava totalmente.

Quando visitaram a ilha pela primeira vez em 1494, fazendo uma parada de um dia para vedar vazamentos em seu barco e repor o estoque de água, seus homens notaram pequenas partículas de ouro nas águas claras dos rios. Ao questionar o cacique, Colombo ficou sabendo de um lugar em que os grãos de ouro eram ainda maiores, alguns com o tamanho de feijões. O lugar onde ele estava agora. Mas, diferente da monarquia espanhola fraudulenta, o ouro não o interessava. Seu objetivo era maior. Fixou o olhar em De Torres e seu amigo soube o que viria a seguir. Com a espada na mão, De Torres apontou a lâmina para um dos três espanhóis, um homem baixo e robusto, com cara de urso. — De joelhos — ordenou De Torres enquanto tirava a arma do homem. Dois outros homens da tripulação levantaram suas espadas em apoio. O prisioneiro se ajoelhou. Colombo o encarou. — Você acha que sou estúpido? — Almirante… Ele levantou a mão pedindo silêncio. — Quatro anos atrás, eles me levaram de volta para a Espanha, acorrentado, e me tiraram tudo que era meu por direito. Então, de repente, me devolveram tudo. — Ele fez uma pausa. — Comapenas algumas palavras, o rei e a rainha me perdoaram por tudo que eu supostamente fiz. Eles acham que sou ignorante? — Ele hesitou de novo. — Acham. E esse é o maior de todos os insultos. Durante anos, implorei que financiassem a minha viagem pelo oceano. Por anos, recusaram. Porém, com apenas uma carta para a coroa, recebi os fundos para esta quarta viagem. Um simples pedido, e tudo foi atendido. Foi quando percebi que alguma coisa estava errada. Espadas continuavam em punho.

Não havia para onde o prisioneiro fugir. — Você é um espião — disse Colombo. — Enviado para reportar o que faço. Olhar para esse tolo o deixava enojado. O homem representava toda a traição e as tristezas pelas quais ele fora forçado a passar nas mãos dos espanhóis mentirosos. — Conte-me o que os seus patrões querem saber — mandou Colombo. O homem permaneceu em silêncio. — Diga-me. Estou mandando. — O tom de voz se elevou. — Eu lhe ordeno. — Quem é você para ordenar alguma coisa? — respondeu o espião. — Você não é um homem de Cristo. Colombo absorveu o insulto com a paciência que uma vida difícil lhe dera, mas viu que seus compatriotas não eram tão compreensivos. Apontou para eles. — Estes homens também não são de Cristo. O prisioneiro cuspiu no chão. — Sua missão era reportar tudo que acontecesse na viagem? Essas arcas que estão aqui conosco eram o objetivo deles? Ou eles estão simplesmente atrás de ouro? — Você não tem sido leal. Colombo deu uma gargalhada. — Eu não tenho sido leal? — A Santa Igreja garantirá sua condenação eterna no fogo do inferno. Então, ele percebeu. Esse agente pertencia à Inquisição. O maior de todos os inimigos. Uma chama de autopreservação cresceu dentro dele. Percebeu a preocupação nos olhos do amigo De Torres.

Sabia desse problema desde que partiram da Espanha, dois anos atrás. Mas havia mais olhos e ouvidos? A Inquisição queimara centenas de pessoas. Ele odiava tudo que ela representava. O que ele estava fazendo ali fora planejado exclusivamente para conter esse mal. De Torres já tinha lhe dito que não arriscaria ser descoberto por nenhum examinador espanhol. Ele não voltaria para a Europa. Sua intenção era se estabelecer em Cuba, uma ilha muito maior ao norte. Os outros dois homens, com espadas em punho, mais jovens e ávidos, também já haviamdecidido permanecer. Colombo deveria ficar também, mas seu lugar não era aqui, embora desejasse que as coisas fossem diferentes. Ele baixou o olhar. — Os ingleses e os holandeses me chamam de Colombus. Os franceses, Columb. Os portugueses, Colom. Espanhóis me conhecem como Colón. Mas nenhum desses é meu nome verdadeiro. Infelizmente, você nunca irá conhecê-lo e não fará nenhum relatório para seus chefes na Espanha. Após um gesto, De Torres enfiou a espada no peito do homem. O prisioneiro nem teve tempo de reagir. A lâmina foi retirada, emitindo um som nojento, e o corpo ajoelhado caiu para a frente, batendo com o rosto no chão. Uma crescente poça de sangue manchou a terra. Ele cuspiu no corpo, assim como os outros. Esperava que esse fosse o último homem que veria morrer. Estava cansado de matar. Como logo voltaria para seu navio e deixaria esta terra para sempre, não haveria repercussões com o cacique pelas seis mortes. Outros pagariam esse preço, mas isso não era da sua conta.

Todos eles eram seus inimigos, aos quais ele não desejava nada além de sofrimento. Ele se virou e finalmente analisou o lugar onde estava, encontrando cada detalhe que fora descrito. — Sabe, almirante — disse De Torres —, é como se o próprio Deus tivesse nos guiado até aqui. Seu velho amigo estava certo. Parecia mesmo. Seja corajoso como um leopardo, leve como uma águia, rápido como uma gazela e forte como um leão para cumprir a vontade de seu Pai que está no Céu. Sábias palavras. — Venham — disse ele para os outros. — Rezemos para que o segredo deste dia permaneça escondido por muito tempo.

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