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A Conspiração de Ashworth Hall – Série Pitt 17 – Anne Perry

Pitt contemplou o corpo do homem que jazia sobre os paralelepípedos do beco. Era um cinza entardecer de outubro. Em Oxford Street, a só uns passos dali, circulavam apressadamente as carruagens e cabriolés, ouvindo o assobio das rodas na rua molhada e o cascatear dos cascos dos cavalos. As luzes estavam já acesas, luas pálidas na crescente escuridão. O agente enfocou o rosto do cadáver com sua lanterna. — É um dos nossos, senhor – disse com a voz tensa por causa da ira. — Ou ao menos o era. Conhecia-o. Por isso mandei buscá-lo pessoalmente, senhor Pitt. Agora estava metido em algo um tanto especial. Não sei exatamente do que se tratava. Mas era um bom homem, Denbigh. O asseguro. Pitt se agachou para observá-lo de perto. O homem – chamado Denbigh, segundo o agente aparentava uns trinta anos e tinha a pele clara e o cabelo escuro. A morte não tinha apagado suas feições. Só parecia um tanto surpreso. Pitt pegou a lanterna e percorreu lentamente com o feixe de luz o resto do corpo. Vestia uma calça comum de tecido barato, uma simples camisa de algodão e uma jaqueta de má qualidade. Poderia ter sido peão de pedreiro ou operário de uma fábrica, ou inclusive um jovemchegado de uma zona rural em busca de emprego. Era bem magro, mas tinha as mãos limpas e as unhas belamente cortadas. Pitt se perguntou se teria esposa e filhos, parentes, alguém que lamentasse sua perda com a dor profunda e penetrante do amor, mais intenso que o que sentia por respeito o agente que se achava junto a ele. — Em que delegacia de polícia trabalhava? – perguntou Pitt. — Na Battersea, senhor. Foi ali onde o conheci.


Nunca esteve destinado a Bow Street, e por isso não o conhecia, senhor. Mas este não é um assassinato comum. Morreu de um tiro, e os ladrões de ruas não levam armas de fogo. Usam navalhas ou paus. — Sim, sei. – Pitt revistou os bolsos da vítima introduzindo os dedos neles com delicadeza. Só achou um lenço, limpo e cuidadosamente cerzido em um canto, e umas moedas, dois xelins e nove peniques. Não havia cartas nem documentos que identificassem o cadáver. — Tem certeza de que este homem é Denbigh? — Sim, senhor; tenho certeza. Conhecia-o bem. Não nos encontramos muito tempo Anne Perry – Thomas Pitt 17 – A Conspiração de Ashworth Hall Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções em Battersea, mas lembro essa marca que tem na orelha. É pouco comum. Procuro me fixar nas orelhas da pessoa. A pessoa pode mudar muito o aspecto se quer passar despercebido, mas quase todo mundo esquece que as orelhas continuam iguais. A única coisa que a pessoa pode fazer é deixar crescer o cabelo para as tampar. Tomara pudesse dizer o contrário, mas não; esse é Denbigh, o pobre desgraçado. Pitt se ergueu. — Nesse caso fez bem em me avisar, agente. Assassinar a um policial, mesmo se não estiver de serviço, é um delito muito grave. Iniciaremos a investigação assim que o legista chegar e levantar o cadáver. Não acredito que encontre testemunhas, mas pergunte a quantos possam saber algo. E volte a tentá-lo amanhã à mesma hora. É possível que haja pessoa que passe por aqui com regularidade a caminho de suas casas. Interrogue aos vendedores ambulantes, os cocheiros. Experimente nos botequins da vizinhança e também, claro está, em todos os edifícios com janelas para o beco.

— Sim, senhor! — E não sabe onde trabalhava agora Denbigh? — Não, senhor – respondeu o agente — mas imagino que continuava com algum departamento da polícia ou a administração. — Então será melhor que me inteire. Pitt meteu as mãos nos bolsos. Ali de pé, imóvel, começava a ficar passado. O frio do beco, um pequeno espaço confinado pela morte a só uns passos do barulho do trânsito, penetrava-lhe até os ossos. A carruagem do necrotério se deteve ante a boca do beco e manobrou com dificuldade para entrar. Os cavalos relincharam e se sacudiram, nervosos pelo aroma de sangue e medo que flutuava no ar. — É melhor será que reviste o beco se por acaso há algo que possa nos dar pistas – acrescentou Pitt. — Duvido que a arma esteja aqui, mas tudo é possível. A bala o atravessou de lado a lado? — Sim, senhor, isso parece – respondeu o agente. — Nesse caso, procure-a. Assim saberemos no mínimo se o mataram aqui ou o trouxeram depois de morto. — Sim, senhor. Imediatamente, senhor – disse o agente, com tom ainda sério por causa da ira e da dor. O fato era ainda muito recente, muito real. — Denbigh – Cornwallis, subchefe de polícia, parecia preocupado, e seu rosto era Anne Perry – Thomas Pitt 17 – A Conspiração de Ashworth Hall Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções especialmente sombrio devido a suas pronunciadas feições, em particular o largo nariz e a longa boca. — Sim, pertencia ainda à polícia. Não posso lhe dizer qual era comexatidão sua missão, porque o ignoro; mas guardava relação com a Questão Irlandesa. Como você bem sabe, existem muitas organizações lutando pela independência da Irlanda. AAssociação Feniana é só uma delas, tristemente a mais conhecida. Em sua maioria recorrem à violência. Denbigh era irlandês. Tinha conseguido introduzir-se em uma dessas fraternidades, uma das mais secretas, mas o mataram antes de que pudesse nos revelar o que tinha descoberto, além de alguma ou outra informação que já conhecíamos ou dávamos por suposta. Pitt permaneceu em silêncio. — Este não é um assassinato comum, Pitt – prosseguiu Cornwallis com uma expressão tensa nos lábios.

— Investigue-o pessoalmente e utilize a seus melhores homens. Tenho especial interesse em achar ao responsável. Denbigh era um bom homem, e muito valente. — Sim, senhor; assim o farei. Mas quatro dias depois, quando ainda não se produziram grandes avanços na investigação, Pitt recebeu a visita do Cornwallis em seu escritório. Nesta ocasião o acompanhava Ainsley Greville, um alto funcionário do Ministério do Interior. — Compreenda, delegado Pitt, que é de vital importância que a reunião pareça em todos os sentidos uma festa campestre de finais de outono como qualquer outra. Na medida do possível, não deve escapar o menor detalhe que pudesse dar outra impressão – explicou Ainsley Greville. Desdobrando um persuasivo sorriso, acrescentou: — Por essa razão nos dirigimos a você em particular. Greville, sem ser bonito, possuía grande distinção. Era alto e tinha o cabelo ondulado, com ligeiras entradas, e um rosto alongado e estreito de feições proporcionais. Devia aquele ar singular a seu porte e olhar inteligente. Pitt o observava ainda sem compreender. Cornwallis, com expressão séria, inclinou-se em sua cadeira. O subchefe de polícia estava há pouco tempo no cargo, mas Pitt o conhecia já o suficiente para intuir que se sentia desconfortável no papel que lhe correspondia desempenhar. Em outro tempo tinha sido capitão da Armada, e a lógica da política lhe era alheia. Preferia métodos muito mais diretos mas, assim como Greville, devia prestar contas ao Ministério do Interior, e não lhe tinham dado alternativa. — Existem esperanças de alcançar resultados positivos – disse Cornwallis com Anne Perry – Thomas Pitt 17 – A Conspiração de Ashworth Hall Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções convicção. — Devemos oferecer toda a cooperação possível, e você se encontra em uma posição idônea. — Neste momento o caso Denbigh reclama toda minha atenção – respondeu Pitt. Não estava disposto a delegá-lo a ninguém por importante que fosse aquela nova missão. Greville sorriu. — Por razões que agora lhe explicarei, agradecer-lhe-ia pessoalmente sua colaboração, delegado. – Apertou os lábios. Ao cabo de um instante acrescentou: — Razões que lamento profundamente.

Por pouco que conseguíssemos avançar neste assunto, todo o Governo de Sua Majestade estaria em dívida com você. Pitt pensou que Greville exagerava a transcendência do caso. Como se tivesse lido a mente do Pitt, Greville moveu a cabeça em um leve gesto de negação. — O objetivo da reunião é sondar o estado de opinião a respeito de certas reformas legislativas relacionadas com a propriedade da terra na Irlanda, um passo mais na emancipação da comunidade católica. Possivelmente agora compreenda tanto a importância de nossos propósitos como a necessidade de máxima reserva. Pitt compreendeu no ato. As palavras do Greville eram de uma clareza inquietante. referia-se à Questão Irlandesa, como se costumava chamar, um problema que tinha mantido em xeque os sucessivos governos desde os tempos de Isabel I e causado o afastamento em pleno de mais de umministro. Inclusive o grande William Ewart Gladstone, firme defensor da total autonomia da Irlanda, viu-se obrigado a demitir-se fazia tão somente quatro anos, em 1886. Mesmo assim, o assassinato do Denbigh era para Pitt um assunto prioritário, e certamente mais de acordo com suas aptidões. — Sim, entendo-o – respondeu Pitt com um calafrio, — mas… — Não de todo – o interrompeu Greville. — Sem dúvida se dá conta de que qualquer esforço por resolver nosso problema interno mais difícil exige discrição. Se não alcançarmos os resultados previstos, não convém que nosso fracasso se apregoe a tambor e pratos. Devemos aguardar e ver se nossas tentativas têm êxito, e em que medida, antes de decidir que versão fazer pública. – Seu rosto se escureceu ligeiramente, um indício de intranqüilidade que foi incapaz de ocultar. — Há outra razão, delegado. Como suporá, os irlandeses estão à corrente da celebração da conferência. Se eles não assistissem, de pouco serviria; eu pessoalmente lhe facilitarei a informação que possua e você necessite a respeito de todos os presentes. Ignoramos, não obstante, até onde chegou a notícia. Há círculos aos quais não temos acesso, traições, lealdades secretas… e abrangem todos os Anne Perry – Thomas Pitt 17 – A Conspiração de Ashworth Hall Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções âmbitos da sociedade. – Sua expressão se tornou ainda mais lúgubre e na comissura de seus lábios se formou uma careta tensa. — Infiltramos um homem em uma das organizações clandestinas com a esperança de averiguar quais eram suas fontes de informação. – Exalou lentamente o ar dos pulmões. — Assassinaram-no. Pitt notou que lhe gelava o sangue.

— Conforme soube, é o caso que você investiga. – Greville olhou Pitt nos olhos fixamente. — James Denbigh, um bom homem. Pitt guardou silêncio. — Também eu recebi ameaças de morte, e de fato fui vítima de um atentado, faz já umas três semanas, mas o recordo ainda como uma experiência em extremo desagradável – acrescentou Greville, e embora afetasse um tom despreocupado, Pitt percebeu tensão em seu corpo. Suas mãos longas e finas, apoiadas uma no joelho e a outra no braço da cadeira, permaneciam rígidas e imóveis. Embora soubesse dissimular, Pitt percebeu seu temor. — Entendo – repetiu Pitt, e desta vez compreendia perfeitamente a gravidade da situação. — Assim, deseja uma discreta presença policial. — Muito discreta – confirmou Greville. — A conferência terá lugar no Ashworth Hall… – Notou um pulo em Pitt. — Com efeito – acrescentou em sinal de compreensão, — o imóvel de recreio da irmã de sua esposa, em outro tempo viscondessa do Ashworth e agora senhora Jack Radley. Entre os membros jovens do Parlamento, o senhor Radley é um dos mais brilhantes, e suporá uma valiosa contribuição às conversas. E naturalmente a senhora Radley será a anfitriã ideal. Sendo você e sua esposa da família, seria natural que também assistissem. Não seria absolutamente natural. Para Emily Ellison, as bodas com lorde Ashworth tinha representado uma considerável ascensão no escalão social. Sua irmã, Charlotte, tinha escandalizado à alta sociedade contraindo matrimônio com um homem de posição muito inferior à sua. As raparigas de boa família não se casavam com policiais. Pitt falava com correção. Era filho de um guardaflorestal encarregado da vigilância em uma grande propriedade, e o dono, sir Arthur Desmond, tinha achado conveniente educá-lo junto com seu próprio herdeiro, Matthew, para que este tivesse um companheiro e alguém com quem comparar-se. Mas Pitt não era um cavalheiro. Sem dúvida Greville estava à corrente dessa circunstância, apesar de sua promoção ao posto de delegado… ou talvez não? Pitt não devia incorrer no engano de imaginar que Greville tomava por alguém de sua própria posição simplesmente porque se achava sentado atrás daquela elegante Anne Perry – Thomas Pitt 17 – A Conspiração de Ashworth Hall Projeto Democratização da Leitura & Projeto Revisoras Traduções escrivaninha, com sua toalha de verde de couro embutido na madeira. Seu predecessor no cargo, Micah Drummond, sim era de origem nobre e procedia do exército. Cornwallis certamente o era também, embora possivelmente de mais baixa linhagem.

Tinha subido por méritos próprios em serviço ativo. Pensava Greville acaso que Pitt provinha dessa mesma extração? A idéia era aduladora… mas era obviamente uma vã ilusão. Greville necessitava de Pitt para proteger a conferência sem que se notasse. — E acredita que a ameaça que pesa sobre você guarda relação com sua participação nos preparativos dessa conferência? – disse Pitt. — Tenho a total certeza – respondeu Greville, observando ao Pitt atentamente. — Existem diversos setores e indivíduos que desejam nosso fracasso. O assassinato do Denbigh é uma prova evidente disso, não lhe parece?

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