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A Conspiracao do Graal – Lynn Sholes

Nínive, norte do Iraque. — Saia! — A voz esganiçada do motorista iraquiano ecoou rispidamente no interior do carro. Uma nuvem de areia e pó se formou do lado de fora depois da freada brusca. Rudemente acordada, Cotten Stone endireitou-se no banco. — Mas o que foi isso!? — Ela tentou enxergar alguma coisa em meio à poeira e a penumbra do anoitecer. — Saia já! Não levo americanos. Do rádio jorrava um palavreado incompreensível na voz de um locutor iraquiano. — O que aconteceu? — insistiu ela. — O que está errado? O motorista saltou pela porta que tinha escancarado e correu para a parte de trás do carro. Cotten forçou a maçaneta da porta empoeirada até ouvir um estalido seco. — Ei, o que você pensa que está fazendo? — gritou, saltando para fora. O motorista já abria o porta-malas, de onde tirou as duas sacolas dela, que jogou na beira da estrada. — Você não pode me deixar aqui — ela protestou, dando a volta no carro. — Estamos no meio de um maldito deserto! Impassível, o motorista indicou com a cabeça o falatório do rádio. Cotten abaixou-se para pegar a sacola de lona em estilo militar que continha os seus videoteipes e jogou-a de volta no porta-malas. — Escute, eu já lhe dei todo o meu dinheiro. Não tenho mais nada. — Virou do avesso os bolsos vazios da calça. Era uma mentira estratégica. Antes de embarcar, havia escondido os seus quase duzentos dólares dentro de uma embalagem de filme vazia. Era a sua reserva de emergência. — Não está entendendo? Veja, não tenho mais dinheiro. Eu te paguei para me levar até a fronteira. O motorista cutucou-a no ombro com o indicador. — Fim da linha para americanos.


Tornando a arrancar a sacola do porta-malas, o motorista atirou-a com toda força no peito dela, quase derrubando-a, e obrigando-a a recuar cambaleando uns passos para trás. Em seguida, ele contornou o carro, reassumiu o posto à direção, engatou a marcha e saiu em disparada, com o velho Fiat derrapando na areia pedregosa. — Não acredito que isto esteja acontecendo — queixou-se ela. Desalentada, Cotten soltou a sacola ao lado da outra e, ajeitando uma mecha dos cabelos cor de chá atrás da orelha, acompanhou com o olhar as lanternas traseiras do táxi até que desapareceram na distância. O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo, Cotten abriu a outra sacola, tirou um casaco impermeável em estilo militar e vestiu-o. Para se aquecer, saltitou no lugar, as mãos enfiadas até o fundo dos bolsos. A escuridão, brusca como o rude iraquiano, caía de repente sobre o deserto. Bem que alguém poderia aparecer… precisava aparecer, ela pensou. Passaram-se dez minutos sem nenhum sinal de outro veículo. Finalmente, ela resolveu pegar as sacolas e começar a andar. Os pedregulhos e a areia rangiam como pedaços de vidro sob as suas botas de acampamento. Relanceou o olhar para trás, desejando ver o brilho de faróis, mas nada se destacava no deserto escuro e árido. — Não sei o que me deu para confiar naquele sujeito — resmungou, a voz soando áspera no ar seco. Alguma coisa o motorista devia ter escutado no rádio para ficar tão fora de si. Cotten sabia que as forças armadas americanas se preparavam para uma invasão. Havia uma semana que corriamrumores entre os jornalistas da mídia estrangeira de que ressoavam cada vez mais alto os tambores de guerra em Washington e Londres. Não era nenhum segredo que algumas equipes avançadas das forças americanas e britânicas tinham se infiltrado no país. Podia ser que a invasão acontecesse meses depois, mas era difícil esconder a concentração de tropas nos países árabes que faziamfronteira com o sul do Iraque. O noticiário árabe local vivia coalhado de imagens das Forças Especiais e dos fuzileiros navais aparecendo e desaparecendo no meio da noite. Testemunhavam-se até mesmo sobrevôos estratégicos de caças, assim como a presença de aeronaves do tipo Predator, avião guiado por controle remoto que não leva tripulação, e de reconhecimento de alta altitude, para testar os graus de vulnerabilidade das instalações de mísseis e de radares iraquianos. Cotten acomodou a alça de uma das sacolas no ombro. — A culpa é toda sua — queixou-se. — Quem mandou ser tão cabeça-dura? Algumas semanas antes, ela se encontrava na sala do chefe de reportagem da SNN, Ted Casselman, implorando que a designasse para cobrir os efeitos das sanções econômicas sobre as mulheres e as crianças do Iraque. Seria uma história marcante, pensava, e não a incomodava a instabilidade crescente da região.

Os americanos precisavam ser informados sobre as conseqüências das sanções econômicas sobre os inocentes. Além disso, argumentou com Casselman, se os Estados Unidos tinham planos de atacar o Iraque, ela queria estar lá, pronta para registrar os fatos, no epicentro dos acontecimentos. Cotten também não mencionou que precisava ficar um tempo afastada de Thornton Graham. Não disse nada a Casselman porque sabia que não suportaria se tivesse de se explicar. A ferida emocional ainda estava aberta. O pedido para a viagem fazia sentido por si — vindo de uma repórter ávida e ansiosa — e ela queria uma missão que ganhasse as manchetes mundiais. A Satellite News Network não enviava “focas” em missões em lugares tão instáveis, Casselman insistiu com ela várias vezes. Sim, ele admitia, ela possuía talento e prometia bastante. Sim, ele achava que conseguiria suportar a pressão. E sim, ele concordava que uma missão no Oriente Médio no momento era uma oportunidade perfeita para impulsionar uma carreira de sucesso. No entanto, ela não só era uma repórter iniciante, mas também era mulher, e uma mulher no Iraque na situação do momento estava fora de questão. Assim que a guerra começasse, os únicos jornalistas presentes seriam os escolhidos antecipadamente pelos militares e viajariam junto com as tropas. E eles deviamser apenas do sexo masculino. As regras eram claras, a resposta era não. Ela ficou furiosa e iniciou um grande discurso sobre a injustiça de tudo. Casselman cortou-a comoutro firme “Não”. Depois de se acalmar, Cotten finalmente conseguiu que ele concordasse que ela acompanhasse um grupo de repórteres até o limite máximo da fronteira com a Turquia. De lá, ela cobriria a situação dos refugiados que estavam se dirigindo para o norte desde o início do conflito. Ele ficou furioso quando soube que ela tinha ido para Bagdá. Então ligou naquela manhã, ordenando que ela saísse de lá. — As coisas estão se tornando imprevisíveis. Tire o seu lindo traseiro daí do jeito que puder. E quero conversar com você logo que chegar. Fui claro? Ela tentou discutir com ele e conseguir mais tempo, mas ele desligou antes que ela pudesse apresentar as suas razões. Quando voltasse, ele faria com que ela se cansasse de ouvir os seus “eu bem que avisei”, “devia demiti-la”, até não poder mais.

Isso se conseguisse voltar. Cotten arrepiou-se. Estava encalhada, e congelando, no meio do deserto iraquiano. * * * Charles Sinclair olhou da janela do escritório para o campus que se descortinava ao redor dos laboratórios da BioGentec vizinho à University of New Orleans. O azul do lago Pontchartrain estendia-se à sua frente. Ele observou o pequeno exército de jardineiros com as suas ceifadeiras e os carrinhos de apoio dos jogadores de golfe que cruzavam o gramado entre os jardins — todos impecavelmente aparados e em perfeita ordem. Ele gostava de tudo em perfeita ordem. O telefone tocou sobre a escrivaninha e ele teve um sobressalto, espirrando algumas gotas do café descafeinado sobre o tapete persa. — Sim? — Doutor Sinclair, uma ligação internacional na linha oito para o senhor — informou a voz da secretária. Sinclair apertou o botão piscante. Não atenderia essa ligação no viva-voz. — Sinclair falando. O ruído da ligação o aborreceu enquanto apertava o fone firmemente contra a orelha. — Descobrimos a entrada da cripta anteontem — informou uma voz de homem do outro lado da linha. — Hoje, no final da tarde, ela foi aberta. Os nós dos dedos de Sinclair ficaram lívidos de tanto que ele apertou o receptor do telefone. — Ahmed, espero que tenha boas notícias. — Fez uma pausa. — Tenho, sim. Está tudo como o Archer previu. — O que vocês encontraram? — Muitos artefatos com os ossos — prosseguiu Ahmed. — Uma armadura, quinquilharias religiosas, alguns rolos de pergaminho e uma caixa. A adrenalina fluiu pelo corpo de Sinclair fazendo as pontas dos dedos latejarem. — Como é essa caixa? — Preta, sem inscrições, com uns quinze centímetros de cada lado. A transpiração umedecia o colarinho branco da camisa cara de Sinclair.

O intervalo da conversa foi preenchido pela estática antes que voltasse a falar. — E o que há dentro dela? — Ainda não sei. — Como assim? Você estava lá, não estava? — Archer não a abriu. Ele e os outros estão fazendo as malas para ir embora neste exato momento. Devemos sair daqui… a área ficou perigosa demais. Todo mundo está muito nervoso. Não há tempo para examinar… — Não! — Sinclair apertou a base do nariz. — Você vai lá agora mesmo e pega a caixa. Espero que Archer tenha mostrado a você como abri-la. Volte a me ligar assim que confirmar o que há dentro dela e estiver com ela em segurança nas suas mãos. Entendeu o que eu disse? — Entendi. — A voz de Ahmed sumiu em meio à estática. — Ahmed — prosseguiu Sinclair, mantendo a voz baixa e controlada —, é imprescindível que você conclua a sua missão. Não preciso repetir isso outra vez. — Entendi. S i nc l a i r d e s l i g o u o t e l e fo ne e fi c o u o l ha nd o p a r a o a p a r e l ho. O á r a b e nã o p o d e r i a ne m s e q ue r c o me ç a r a e nt e nd e r.

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