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A Conspiração do Rei James – Phillip Depoy

Sangue! — Essa palavra tão significativa amolgou o tampo da mesa; o punho bateu repetidas vezes na madeira, de forma arrasadora e sem parar. — Queremos sangue. A sala secreta, menor que um quarto de dormir, devolveu um débil eco da palavra final. Nas sombras ao longo da parede de pedra fria, um pequeno besouro negro correu sem fazer barulho para a quina. — Mas, Sua Santidade — gaguejou o cardeal Venitelli, a manga trêmula ao erguer a mão tão de leve, retorcendo duas vezes o solidéu roxo —, esse livro é em inglês. Quem dará atenção a ele? — O livro é circunstancial! — interrompeu o Papa, aos berros. — Se queremos reconquistar aquela ilhazinha imunda, chegou a hora. Jamais teríamos tentado fazer isso com Elizabeth, mas entregaram o trono a James. Ele é um homem orgulhoso, e agora pôs os poucos talentos literários que possui para trabalhar nessa obra. É ao mesmo tempo muito seguro de si e desequilibrado mental. Chegou a hora. — Mas… quando o senhor diz sangue… Venitelli não fazia idéia de como terminar a frase. O manto rubro do Papa Clemente subia e baixava a cada trabalhosa respirada. Um colarinho branco e translúcido aflorou da roupa de baixo no pescoço. O fogo chiou na lareira do outro lado do quarto. — O sangue deterá o livro. Essa parada revelará o plano de James para a Inglaterra. O plano revelado constrói a ponte de Roma a Londres. Essa ponte trará a Inglaterra de volta à Igreja. O senhor deve ver pelo menos o humor de Deus, senão o plano, nisso tudo. O quartinho de pedra no qual os dois se sentavam ficava bastante oculto. Ninguém o conhecia, alémdos visitantes mais íntimos do Papa. Pelo lado de fora, não se via a porta, escondida pelas pedras no longo corredor. Do lado de dentro, mal havia móveis, a não ser uma mesa e duas cadeiras. Duas grandes velas presas ao teto iluminavam as paredes, cobertas por grossas tapeçarias de seda, que faziam o possível para absorver todo o som: cenas de caça de espantosa violência.


As personagens pareciam movimentar-se aos arrancos à luz vacilante. No piso, estendia-se um pesado tapete de complicados desenhos roubado durante as Cruzadas, diziase, do próprio Saladino. O cardeal Venitelli sempre imaginava sentir o cheiro do acampamento dele tão logo pisava ali. Muitas vezes esforçara-se para explicar a sensação a si mesmo. O motivo ficavalhe sempre pouco além do alcance da mente. O próprio quarto parecia acostumado a palavras ásperas. — Sim — conseguiu responder o cardeal —, mas o sentido exato… — Não precisa se preocupar com sentidos exatos. — O Papa Clemente gostava de julgar-se impaciente: isso despertava rápida ação nos subordinados. —Já pusemos em andamento um certo plano, que envolve, em parte, o anfitrião dos tradutores na Christ Church, em Cambridge: um pastor chamado Marbury, protestante. Infelizmente, um homem inteligente num pântano de idiotas. Mas vamos ao que importa: um acadêmico do grupo de Cambridge vai ser esta noite… qual a melhor palavra? Eliminado. Quando isso acontecer, nós introduziremos no meio deles nosso anjo vingador. Essa frase era um código bem conhecido para o cardeal, mas, querendo assegurar-se, ele começou a perguntar: — Com o que o senhor quer dizer… — Essas tapeçarias são elegantes, não são? Clemente desviou os olhos. O outro compreendeu. Sua Santidade não devia dizer o nome do principal assassino — o anjo vingador. Assim, poderia afirmar com toda a honestidade, em futuras conversas, que não o identificara — e que certamente jamais falara com ele. Essa tarefa cabia ao cardeal; tarefa de que não gostava, ficou, portanto, com o rosto pálido e com a voz trêmula. — Eu devo pedir… pedir ao homem em questão que vá à Inglaterra e mate… — Decerto que não. — O Papa girou a cabeça em torno dos ombros. — Basta dizer-lhe que vai haver uma missão para os tradutores da Bíblia do rei James. Enfatize Bíblia. Depois diga estas palavras exatas: “A volta da roda na moagem do trigo”. Venitelli sentiu um punho apertar-lhe a barriga. Quantas vezes já havia transmitido essas frases em código ao tal homem, o que depois resultava em escabrosos assassinatos. — A volta da roda na moagem do trigo — repetiu, balança ndo a cabeça.

Sua Santidade sorriu, mas não o olhou. — Vamos usar o homem em questão pelo talento especial dele; capacidade que só ele possui. Ele possui um telum secretus, se Nos permitem um ar dramático. — Mas a verdadeira tarefa de nosso irmão… a missão… — O motivo de Nós atribuirmos essa tarefa ao senhor, meu irmão cardeal Venitelli — disse o Papa, num tom tranquilizador, como a um menino de sete anos —, é que o senhor raras vezes compreende a importância de qualquer situação. Mas atua com discrição. Deve entender que nada Nos impedirá de reivindicar a Inglaterra, trazê-la de volta à Madre Igreja. É o plano de Deus. Temos em mente uma série de fatos, na verdade, embora possa levar vários anos para que se desenrolem, que Nos levarão a esse objetivo. — Sim. A voz de Venitelli demonstrava absoluta confusão. O Sumo Pontífice curvou-se para a frente, o rosto junto ao do subalterno, e mal falou acima de umsussurro, embora o som da sua voz parecesse o de um trovão. — Este será o meu legado, entende? A História me registrará como o homem que devolveu a Inglaterra à Igreja Verdadeira. E isso começa com a destruição desse livro… Essa loucura a que James aspira. O cardeal sentiu por um momento as narinas atacadas por um cheiro de camelos; ouviu fracas preces islâmicas. Embora não falasse árabe, acreditava que as rezas clamavam pelo sangue dos infiéis. Baixou o olhar para o tapete de Saladino, furioso. Seria possível uma maldição dos vencidos guerreiros muçulmanos permanecer ali, contaminando decisões tomadas naquela saleta? Talvez isso explicasse o cheiro antigo que sentia e a desconcertante veemência do Papa. — Está tentando pensar? — Clemente fuzilou-o com os olhos. — Vai pensar duas vezes em Nossas palavras? Venitelli apressou-se a empertigar-se. — Mil perdões, Sua Santidade. — Estendeu a mão o anel Papal. — O plano de Deus é glorioso, e seu nome viverá para sempre. O Papa ofereceu a mão com um suspiro — e o outro beijou o anel. O cardeal fez uma mesura, voltou-se e encaminhou-se depressa à porta secreta. Só uma vez olhou por uma fenda nas pedras, frias e cinzentas, passando a mão, para ter certeza de que não havia ninguémno corredor do lado de fora.

Como não viu coisa alguma, empurrou a porta e deixou atrás o seu Papa. Uma vez no corredor, percebeu que suas mãos não paravam de tremer e que o suor não parava de escorrer-lhe da linha dos cabelos. Esforçou-se para sufocar o pior temor: que o Papa houvesse enlouquecido. Reduziu o passo apenas um pouco, tentando decidir o que o perturbava mais: a conversa que acabara de ter com Sua Santidade ou a que teria com o mais frio homem da Itália. 2 Cambridge, Inglaterra Sem aviso, o diácono Francis Marbury teve o sono despedaçado. — Socorro! Assassinato! Alguém! Abriu os olhos. O luar, suave e claro, banhava o quarto. A noite de abril era fria, o ar ainda retinha uma forte lembrança do inverno, embora essa estação já tivesse ido embora. — Alguém! Socorro! Marbury voou de debaixo das cobertas, envolveu-se numa capa acolchoada preta e enfiou a cabeça pela janela do minúsculo quarto. Uma a uma, todas as outras em volta passaram de negras a brancas; vozes puseram-se a gritar. Ele cambaleou de volta, parou para calçar as botas e mergulhou no corredor do diaconato, aumentando o passo enquanto voava escada abaixo. Na noite do lado de fora, vários outros juntaram-se a ele; rostos borrados na escuridão. A paz do pátio comum, cercada por silenciosos prédios de pedra, fora destruída por homens que corriam emdireção aos gritos. Quando se aproximou do Grande Salão, de cujo lado vieram os gritos, Marbury viu que um dos acadêmicos, Edward Lively, barrava a porta. Vestia fino brocado, um suave tom de prata que refletia a luz do luar na direção dele. Usava um chapéu de arminho, novo e ousado, e luvas de couro negro com abotoaduras que exibiam a letra L. Tinha a barba tão limpa e macia quanto a cama de um rico. Outros cercaram a entrada quando o pastor parou diante dele. — Que foi que houve? — perguntou, sem fôlego, e tocou o ombro do outro. — Um cadáver — conseguiu responder Lively, engolindo em seco. Afastou-se e abriu a porta do salão, com uma voz que ecoou nas paredes sem vida. O restante dos homens passou por ele aos montes, velas acesas; faziam furiosas perguntas. O salão era uma caverna, fria e silenciosa. Uma obsidiana mais negra que a noite obscurecia os cantos mais distantes. O ar parecia tomado por lascas de gelo, que picavam os dedos e açoitavam as faces.

Os homens avançaram devagar. Alguma coisa terrível jazia numa pilha logo em frente. Após um instante, um dos homens gritou. Outro começou a tossir, ou a vomitar. Marbury respirava forte. — Deus do céu! Um corpo ensangüentado estendia-se no frio piso de pedra perto da escrivaninha de um dos acadêmicos. O pastor lutou para controlar a respiração, repetindo na mente sem parar que o que via na verdade não estava ali; ei a um fantasma. Mas a mente sabia que não. Ao que parecia, Lively deixara cair a vela, que fora parar próximo à perna de uma escrivaninha e continuava a arder, de lado, e a lançar uma luz trêmula sobre o morto desabado embaixo da mesa. Um cadáver, apenas, não teria aterrorizado tanto os estudiosos. Por causa da peste, cada um vira em seu tempo muitos corpos sem vida. Era o rosto do cadáver que provocava o impulso de gritar; a visão revirava o estômago. Fora cortado talvez uma centena de vezes: lacerações longas esburacavam a carne até não restar traço algum; apenas músculos nus, pontas de ossos e sangue seco da cor de ameixas podres. Com aquela face desfigurada, não havia como saber a identidade do homem. — Vejam! — gritou Robert Spaulding, espantado. Segundo no comando dos tradutores, ele ocupava uma posição mais de secretário que de qualquer outra coisa. Diante de tal cena, ele parecia mais fascinado do que revoltado. Seu casaco simples, cor de folha morta, parecia ter sido lavado com tanto vigor que talvez até tivesse sentido dor. Apontou a complicada cruz de espinheira no pescoço do morto. — Creio que aquela seja a cruz de Harrison — sussurrou Marbury. — E aquele, com a máxima certeza, é o colete de Harrison — continuou Spaulding, frio como uma pedra. Não havia dúvida sobre quem era o morto. O ministro protestante apoiou-se na escrivaninha e concentrou-se na respiração. Observou emsilêncio os outros concordarem entre si sobre os detalhes das conclusões que haviam tirado. — Como foi — começou Marbury a perguntar devagar a Lively — que o senhor encontrou este horror a esta hora da noite? — Meu entusiasmo atraiu-me até aqui — apressou-se a responder o outro.

— Estava ávido para trabalhar em minhas novas páginas… Elas exercem tamanha atração sobre mim que o senhor nempode imaginar. — É, mas o que não preciso imaginar — declarou o pastor com cuidado — é a raiva que Harrison teria demonstrado se soubesse que o senhor andava olhando o trabalho. O sujeito era dado a ataques de fúria. Todos sabemos disso. Talvez estivesse aqui, os senhores tivessem discutido, ele o tenha atacado… Lively foi interrompido antes de começar a responder. — Precisamos avisar o vigia noturno imediatamente — exigiu Spaulding. — O senhor é um homem de letras, dr. Spaulding, e não saberia como proceder em assuntos deste tipo — respondeu Marbury, mal escondendo o tom de zombaria —, e nossos policiais aqui em Cambridge são todos, até o último, bastante inúteis. Permita-me cuidar deste caso de outro jeito. — Revoltante — guinchou o outro. — Não devemos deixar que isso aconteça… — Eu já pensei num método para investigar este horror — respondeu o pastor num tomtranqüilizante, quase hipnótico. — Mas… Marbury voltou-se logo para o grupo e ergueu a mão. — Com o seu perdão, cavalheiros, eu sugiro que avaliemos tudo por um instante antes de falarmos mais. Primeiramente, nosso dever cristão obriga-nos a oferecer, cada um de nós, uma prece em silêncio por nosso colega Harrison. Viu cada rosto vivo registrar seu próprio tipo de religiosidade instantânea. Olhos fecharam-se, bocas mexeram-se; vozes sussurraram. Ele usou o momento de silêncio para dar outra olhada no cadáver e tentou examiná-lo com mais atenção. O sangue no corpo não secara, mas não escorria. Quase não havia mancha no chão, na escrivaninha ou na cadeira próxima ao morto. O colete mostrava vários lugares rasgados, dois encharcados de sangue, mas era um sangue viscoso — não estava vazando, nem seco. Poderia Harrison haver sido morto em outro lugar e depois trazido para o salão? Após um momento, obrigou-se a tornar a olhar a devastação que era o rosto. Rezou, então, para que o amigo já estivesse morto antes de ser mutilado. Mas, ao terminar a prece, notou mais alguma coisa. — Agora, então — quebrou o silêncio no tom controlado de um homem de negócios —, peço aos senhores que não falem do incidente. Não o discutamos com ninguém fora destas paredes enquanto não soubermos o que aconteceu.

O trabalho dos senhores é demasiado sagrado, demasiado vital, para ser destruído por este acontecimento. Talvez minhas palavras pareçam frias, mas creio que expressem o interesse maior da nossa erudição e de nosso rei. Afinal, este salão é um lugar de aprendizado ou um matadouro? O acadêmico mais velho do grupo pigarreou com barulho. Era o dr. Lawrence Chaderton, um estudioso de hebraico, em termos amistosos, com muitos dos notáveis rabinos da Inglaterra. Irradiava a profunda calma de um homem com total confiança sobre o lugar que ocupava neste mundo – e no próximo. Tinha o casaco simples e negro, abotoado, quase chegando ao pescoço. Cabeça descoberta, os cabelos brancos emitiam raios e faíscas. — O homem que fez isso a Harrison não é, na minha definição, um ser humano. — O velho estreitou os olhos. — Devemos seguir em frente com incrível delicadeza.

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