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A corrente da vida – Walcyr Carrasco

Chamava-se Nelson. Mas ainda me lembro dele pelo apelido: Nel. Ele não gostava muito, é verdade. Achava estranho. Reclamava que seu nome estava sendo cortado pela metade. — Nome é nome — dizia. — É como se fosse a marca registrada da gente. Eu brincava. Respondia que existem pessoas com nomes pavorosos, e preferem mudar. Ele não se abalava. — Cada caso é um caso, cada pessoa tem sua cabeça — teimava. — Gosto de ser Nelson. É o nome do meu pai. Em seguida ficava de um jeito triste, pois o pai morrera há muito tempo. Nem se lembrava bemcomo ele era. Mas por que estou falando tudo isso? Talvez porque sempre seja tão bom me lembrar de Nel, ou Nelson, como ele preferia. Dos momentos bonitos que vivemos juntos. Repare: eu não estou falando de acontecimentos felizes, absolutamente felizes. As pessoas valorizam apenas a alegria, como se a tristeza não tivesse sua importância. Claro que é bom estar contente. Dar boas risadas, se divertir. Mas o ser humano não é um robô programado para dar risadas o tempo todo. Não! A gente tem tristezas, melancolias, horas de sofrimento e ansiedade. Tudo faz parte da vida. Quando a tristeza chega, não acho que a gente deva fugir dela.


Contar piadas para disfarçar. Tentar esquecer. Eu aprendi a viver a tristeza como se vive a alegria. Enfrentar as dificuldades têm uma beleza que nem dá pra explicar com simples palavras. Deixar o sentimento brotar como água da fonte. Chorar e aceitar que nem tudo na vida é como se quer, traz um alívio. Um sentimento de realização que é um tipo de felicidade. Por isso quero falar de Nel, de Nelson. Neo. New. Neo. Eu brincava tanto com seu nome, e escrevia de tantas maneiras! É assim que vou começar. Falando dele. Contando o quanto foi importante na minha vida. Tudo começou de forma tão casual! Até hoje me espanto quando lembro a maneira como as coisas foram acontecendo, uma depois da outra. Na escola, estávamos na mesma turma. Gostava de fazer trabalhos em grupo com ele. Tinha quem dissesse que éramos namorados. Nunca fomos, realmente. Nem sei se eu sonhava com isso. Nossa amizade foi nascendo sem compromisso. Era o tipo de amizade que às vezes acontece entre uma garota e um rapaz. Conversávamos sobre tudo, como dois amigos. Não nos víamos todos os dias porque Nel morava um pouco longe do meu prédio. Há pouco tempo, meus pais realizaram seu grande sonho: comprar um apartamento.

Quer dizer, fizeram a dívida. Depois de anos de economia, conseguiram dar a entrada neste pequeno apartamento onde moramos. O resto está sendo pago em prestações, e, às vezes, atravessamos o mês na corda bamba! Só para dar uma ideia, estamos até sem telefone, para economizar na conta. Mas também é a primeira vez que tenho um quarto só para mim. Armário embutido para minhas roupas. Escrivaninha para fazer as lições. Onde morávamos antes, era bem mais apertado. A única mesa disponível no quarto e sala ficava na cozinha. Bem… nem era bem uma cozinha. Parecia um corredor, com o fogão e a pia de um lado, e a mesinha de fórmica do outro. Muitas vezes era obrigada a estudar com mamãe fritando peixe. Agora, sou obrigada a pegar duas conduções para chegar na escola. Meus pais até pensaram emme transferir de colégio. Não quis. Gosto da turma. E também da escola. Entrar em faculdade hoje em dia não é fácil. Principalmente as públicas. Acho bom continuar perto dos professores em quem confio. Puxa, eu escrevo, escrevo e pareço estar dando voltas como um redemoinho. Só falei do apartamento para explicar que morava longe de Nel. Quando ele faltou três dias seguidos na aula, não fui correndo saber o que acontecia. Como disse, estamos sem telefone. O único aparelho público perto do meu prédio vive quebrado. Há uma turma de vândalos no meu bairro que tem prazer emdestruir os aparelhos.

Arrancar os fios. Não sei o que passa na cabeça dessa gente. Cada vez que são consertados, duram uma semana. Alguém quebra de novo. Dá até raiva. Acho uma bobagem, para que destruir um telefone? Só prejudica gente como eu, que precisa ligar para alguém e não tem onde. Comecei a ficar preocupada quando ele faltou no quarto dia. Conversei com o Marcelo, que morava perto da casa dele. Os dois sempre vinham juntos para a escola. Também não sabia de nada. Até brincou. — O Nel já está numa legal, foi bem o ano todo. Pode se dar ao luxo de faltar. Não concordei. Faltar por faltar? Não combinava com o Nel. Ele queria rachar direto até a época da faculdade. Queria entrar em Medicina. Justamente, um dos cursos com mais candidatos. Combinamos que Marcelo passaria na casa dele. Saber notícias. No dia seguinte, chegou com a novidade: — O Nel está doente. — Doente, como? — Não sei. Falei com a avó dele, que está passando uns dias com a família. Parece que foi parar no hospital. Hospital é o tipo de palavra que deixa a gente assustada.

Seria uma operação? Meu amigo no hospital. E eu sem visitar, nem nada? Mais esquisito ainda, Marcelo não tinha descoberto o nome do hospital. — A avó dele disse que não sabia qual era. Isso sim, era ainda mais estranho! Eu conhecia a avó, dona Berta. Era esperta. Como não ia saber o nome? E a mãe do Nel, dona Mariana? Claro que teria deixado um endereço, um telefone. Francamente, tudo parecia cada vez mais estranho. Alguma coisa não combinava. Muitas vezes, tive essa sensação. É como se uma espécie de fumaça flutuasse dentro da gente. O peito fica apertado. Tento entender, mas não consigo, porque é impossível pegar a fumaça na mão. Olhar. Descobrir. Fica somente a inquietação. Foi meu primeiro sentimento. Eu sabia que alguma coisa estava errada. Eu e Marcelo conversamos mais um pouco. — Quem sabe dona Berta confundiu o nome do hospital, e não soube dizer. Não concordei. — Se tivesse confundido, teria dito um nome errado. Talvez até parecido com algum que conhecemos. Lembrei. Nel tinha uma irmã casada. Uma vez, ele tinha me dado o telefone dela.

Quando cheguei no meu apartamento, procurei. Tenho mania de anotar telefones nas capas dos cadernos. Depois, misturo todos. Fica uma confusão! Mas sim… eu lembrava. Tinha anotado o telefone dela antes das férias de julho. Quando liguei para pegar a receita de um bolo de fubá para a quermesse. Então não estava em um caderno comum. Mas em outro, que eu uso só para marcar receitas. Um dia ainda serei uma grande cozinheira, mas isso é outra história! Finalmente, achei, bem no meio da pilha. Esperei o dia seguinte. Torci para que Nel aparecesse na aula. Mas não. Era o quinto dia de falta! Na escola, há um telefone público. O Marcelo tinha um cartão. Ligamos. Foi ela mesma quematendeu. Suzana, a irmã. Perguntei o que ele tinha. Ela fez voz de surpresa. — Quem disse que o Nel está doente? Falei da ida de Marcelo à casa dele. Da conversa com a avó, dona Berta. A irmã ficou em silêncio. Demorou tanto que eu disse: — Alô, alô! Certa de que a ligação tinha caído! Mas não. Ela estava lá, do outro lado. Absolutamente quieta.

Quando finalmente falou, sua voz parecia esquisita. De repente, estava tentando ser muito simpática. Só que era uma simpatia esquisita, porque falava depressa, com um tom de voz metálico, como se a garganta estivesse rangendo. — Foi só uma gripe forte. Nada sério. Estava preparada para ouvir falar de apendicite. De alguma coisa assim. Mas gripe? — Ninguém vai pro hospital por causa de gripe! Ou será que ia? Fiquei em dúvida. Ela silenciou novamente. Depois de um instante, voltou a falar depressa. — É que ele pegou friagem. A gripe virou pneumonia. Já está passando. Não é nada. Pedi o nome do hospital. Queria tanto fazer uma visita. Quem sabe levar um pedaço de bolo, feito por mim mesma! Estava disposta a passar o resto do dia no fogão, para fazer um bem gostoso! Mas nesse instante, tudo ficou ainda mais esquisito. Suzana demorou ainda mais para responder. Finalmente, explicou: — Ele não pode receber visitas. — Por que, se não é nada sério? Posso ter pouca experiência. Boba não sou. Tive certeza de que estava acontecendo alguma coisa horrível. Bem pior do que ela estava querendo contar. — Por favor, me diz o nome do hospital! — insisti. Ela continuou falando que não era necessário.

Explicando que estava tudo bem, e eu não precisava visitar. Percebi que estava sendo enrolada. A língua dela parecia uma enorme toalha me envolvendo, me confundindo. Quis argumentar. Ela não deixou. Falava, falava, falava, sem me dar chance de responder. Os créditos do cartão foram acabando. A ligação caiu. Por um instante, fiquei paralisada. Olhei para o Marcelo. Só tinha uma certeza: era alguma coisa grave. Dias depois, o Marcelo descobriu que Nel tinha voltado para casa. Tentamos telefonar. Atendeu a mãe, dona Mariana. Foi muito, muito simpática. Mas parecia determinada a impedir que a gente fizesse uma visita. Insisti, várias vezes. Teimei. — O Nel está muito cansado. Tem que repousar. Não pode se cansar com visitas — ela repetia, a cada um dos meus argumentos. Era óbvio: nenhuma visita seria bem-vinda. A gente nem passaria da porta. Os dias foram passando e Nel não voltava para a escola. Eu e o Marcelo, que nunca fomos muito amigos, passamos a conversar mais.

Muitas vezes, a gente ficava todo o intervalo tentando descobrir a verdade dos fatos. Formulamos hipóteses. Mas é claro, por pior que fossem, a gente estava muito longe de descobrir a verdade. Fomos procurar o professor Ismael. O Nel e o professor tinham uma certa amizade, gostavam de bater papo. Ele sorriu. Disse que já andava preocupado com o sumiço. Tinha procurado saber notícias.

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