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A decima segunda noite – Luis Fernando Verissimo

Mon Dieu, mon Dieu, um gravador. Deus dos papagaios, me acuda. Já ouvi minha voz gravada. Quase silenciei para sempre. É o som do caldeirão rachado com o qual pretendemos comover as estrelas e só conseguimos fazer dançar os ursos, como escreveu Flaubert sobre a linguagem. Tente dizer qualquer coisa séria, ou profunda, com voz de papagaio. Mesmo em francês. Impossible. Foi por isso que não me deram atenção, e a comédia que vou contar quase virou tragédia. Eu avisei, me esganicei, mas me ouviram? Diziam “Le perroquet, qu’est-ce qu’il dit?”. E riam. Eu avisando que não era comédia, era drama, era tragédia. Tinha paixão, traição, perfídia, sociologia. E riam, riam. Culpa da voz, minha sina. Com voz de papagaio, nada é importante, nada é trágico. Dizem que Shakespeare lia suas comédias com voz de papagaio para seus atores, que nunca entendiam o que ele escrevia. Só assim eles sabiam que não era tragédia. Não havia gravadores no tempo de Shakespeare. Quantos não devem sua fama póstuma ao fato de não haver um gravador por perto? O mundo talvez fosse outro se descobrissem que Péricles tinha a voz fina, Napoleão a língua presa e… Mas vamos à entrevista. Sei o que vocês queremouvir. É sobre a santa que era santo, nespá? Sobre o passado. Pelo menos estão interessados no que eu tenho para contar. Só o que ouço aqui é “Le perroquet, qu’est-ce qu’il dit?” e “Tais-toi, Henri!”. Fazem pouco das digressões de um caldeirão rachado.


Esse é outro terror do gravador: ele não permite digressões. E o que é um papagaio sem digressões? Essa fita girando, girando, como a vida se aproximando do fim, nos obrigando a ser sucintos e breves. É contra a natureza dos papagaios serem sucintos e breves. Durante séculos, milênios, gerações e gerações, vivemos com a capacidade de falar sem saber que a tínhamos. Imaginem. Uma espécie inteira que se autodesconhecia. Imitávamos uns aos outros, imitávamos os outros bichos e os sons da floresta, mas só quando ouvimos um humano falar, pela primeira vez, descobrimos este nosso talento para articular palavras. E descobrimos o que nos faltara durante gerações e gerações de loquacidade desperdiçada e sons desconexos: assunto. Até hoje, em florestas desabitadas, papagaios selvagens voam em bandos cacofônicos sem conhecer a delícia de fazer uma frase completa, os prazeres da prosódia. É em nome deles que eu falo tanto assim. E para recuperar o tempo perdido, o nosso tempo sem assunto. Eu estaria traindo a minha ascendência se fosse sucinto e breve. Eu… Está bem, a história que vocês querem ouvir. Vamos a ela. Está gravando? Isso é um gravador ou uma caixa de pílulas? Ridicule. Mas vamos lá. Antes, alguns dados autobiográficos. Un peu de moi même. Como cheguei ao salão Illyria. Não é digressão, é background. Como aconteceu de eu estar aqui, pintado de verde e amarelo, como parte da decoração de um salão de beleza em Paris, para ver e ouvir tudo e viver para contar o que vi e ouvi. Dois pontos. Sou descendente de um daqueles papagaios que vieram com os índios tupinambás do Brasil para a recepção a Henri II em Rouen, no norte da França, em 1550. Quando armaram uma falsa maloca, com cinqüenta tupinambás emplumados e cinqüenta franceses pintados de índio, para mostrar ao rei como era a vida na recém-descoberta Terra dos Papagaios. Nosso papel na encenação era sermos coloridos e exóticos e providenciarmos o som ambiente tropical, mas meu antepassado direto, que já tinha o meu espírito crítico, escapou da maloca, voou sobre a multidão e cagou na cabeça de Montaigne, inspirando-o a escrever seu ensaio sobre o primitivo, depois pousou no ombro do rei, que o achou “charmant” e o levou para o aviário da sua favorita Diane de Poitiers, no castelo de Chenonceaux.

Tudo isto é especulação minha, mas sinto que há vestígios de nobreza no meu legado, resquícios claros de uma “vie en château” e por que não teria sido entre os pavões entediados de Chenonceaux, no aviário da favorita do último dos Valois, o desafortunado Henri II em fim de reinado, acossado por dívidas e pela sífilis? Não deve ser por acaso que meu nome é Henri, talvez um nome herdado por todos da minha linhagem, junto com um acurado senso da nossa própria finitude, desde o encontro do primeiro Henri com o rei condenado, que sais-je? Sei que nos 450 anos que nos separam da festa em Rouen nossa plumagem foi perdendo a cor. Eu nasci em Paris, e a minha cor cinzenta é a do seu céu de inverno. Cinzenta, sim. Este verde e amarelo é tinta. Idéia da Negra. Quando o Orsino comprou o salão e disse que queria um ambiente brasileiro a Negra se encarregou da decoração e me voilà, verde e amarelo num poleiro de plástico, com fundo musical de Antônio Carlos e Jocaffi, “Você abusou” o dia inteiro, mas essa é outra digressão. Meu primeiro dono, que eu me lembre, foi um historiador francês da escola dos Annales. Um intelectual, com gola rulê, barba por fazer, asa, tudo. Aprendi muito com o Jean-Paul. História francesa, como fazer uma omelette baveuse, como economizar papel higiênico usando L’Humanité e filosofia em geral. Ele trazia mulheres para o apartamento, não para treparem, para conversarem. Conversa, conversa, conversa e eu ali, pequenininho mas ouvindo tudo, gravando e aprendendo tudo. Pensei que o que faziam era uma forma requintada de sexo oralizado até me dar conta de que “annales” não tinha nada a ver com sodomia e… Hein? A história, certo. Vamos à história. Depois do Jean-Paul, meu dono foi, deixa ver… o Jean-Paul. Outro Jean-Paul. Este era escritor, ou tentava ser. Morava sozinho e passava o tempo todo falando comigo, aos gritos, despejando em cima de mim as teorias que tinham lhe custado três esposas e todos os amigos, e eu só “oui, oui”, e “bien sûr”. Eu iria contestá-lo, para também ser atirado pela janela? Foi ele que me falou das diferentes formas de narrativa e da intervenção do narrador na narrativa. Qualquer um, qualquer coisa, pode ser o narrador. Este é o poder absoluto do autor, o de escolher seu disfarce: Deus ou um adorno na parede, um descarnado olho cósmico acompanhando a vida dos seus personagens ou um bibelô, uma planta ou umbicho. Jean-Paul dizia, ou gritava, que Flaubert sabotava sua própria teoria sobre a necessária impessoalidade do autor porque o autor dos seus livros sempre se entregava: fosse qual fosse o seu disfarce, escrevia como Flaubert. Todas as suas máscaras tinham a mesma voz. A pior forma de presença do autor é a ausência conspícua, dizia Jean-Paul Deux. Que um dia confessou que me comprara por causa da minha prolixidade, embora ele quase não me deixasse falar.

Não queria um conviva, queria um ouvinte. Eu não o ajudei, obviamente, e fui passado adiante. Só posso agradecer por não ter sido defenestrado num dos ataques de frustração de JP2. Depois de Jean-Paul II, o Ramão. O começo da minha fase brasileira. E a primeira vez que ouvi falar na Negra. O Ramão era exilado político e a Negra tinha lhe conseguido o apartamento onde morava. Pobre do Ramão. Só falava no Brasil. Se queixava do frio, da França, da vida, e me contava o que deixara em Pernambuco. Aprendi o português com as lamúrias do Ramão, daí este meu sotaque franco-nordestino e esta nostalgia por uma terra que eu não conheço, esta saudade do nunca visto. A Negra tinha chegado do Brasil anos antes. Foi uma pioneira. Começou como travesti no Bois de Boulogne, se fingindo de homem, porque francês gosta muito disso. Ganhou dinheiro, abriu um restaurante brasileiro, perdeu todo o dinheiro, formou um conjunto de música e dança chamado “Candombleu” e nessa época estava abrindo uma “Clinique Astrologique” em que botava cartas, jogava búzios, fazia mapa astral e dava banho de descarrego, porque francês gosta muito disso também. Mantinha uma agência imobiliária clandestina e era uma espécie de fada madrinha da colônia brasileira em Paris. Não havia nada que a Negra não conseguisse. As pessoas diziam “Vamos falar com a Negra” quando surgia um problema, e havia o boato de que ela tinha encontros amorosos regulares com um alto funcionário do governo francês, aos quais ia vestida de homem e de mulher em dias alternados, e arranjava cartes de séjour na França para quem quisesse. Uma vez perguntaram à Negra qual era o seu sexo verdadeiro e ela respondeu “Sabe que eu não me lembro mais?”. Conheci a Negra em pessoa quando o Ramão voltou para o Brasil anistiado e me vendeu a uma exbailarina do “Candombleu” chamada Xana que casara com um francês depressivo que um dia tentou me matar só porque eu citei Kierkegaard e John Lennon na mesma frase, e ele não agüentava a idéia de um papagaio erudito, ou não agüentava mais os amigos brasileiros da Xana, mas, como não podia se meter com a Negra, que era o dobro do seu tamanho e o derrubaria com um rabo-de-arraia, avançou em mim, pobre de moi, com uma faca. Foi a Negra quem me salvou do francês depressivo e me levou para morar com a maluca da Tanira, que veio a Paris com uma bolsa para estudar ciência política na Sorbonne mas acabou com um negócio de empadinhas, financiado pela Negra, e que me recebeu aos gritos porque o cinza das minhas penas combinava com a cor do seu apartamento e… Eu sei, a história. Onde é que eu estava? Como eu vim parar no Illyria, um dos muitos salões do monsieur Orsino em Paris. Certo. Foi assim. O Orsino adora o Brasil.

Quando comprou o salão de um grupo de gangsters iugoslavos, decidiu que queria um ambiente brasileiro, com palmeiras, chapelões de palha, redes e berimbaus nas paredes e um papagaio. O Orsino é um grande cara. Diziam que ele também era gangster, da máfia, mas eu não acreditava. Eu dizia que ele era italiano mas saíra cedo. O nome do salão, Illyria, continuou o mesmo, mas ele queria que todo o resto fosse brasileiro. Procurou a Negra para providenciar a decoração, pediu um papagaio e a Negra pensou logo neste que vos fala sem parar. Só tinha um problema: minha cor. O cinza, que combinara tão bem com a tristeza do Ramão e com o apartamento da Tanira, não combinaria com os berimbaus e com os pôsteres do Rio e da Bahia. Foi quando a Negra teve a idéia. Me pintaria — tará! — de verde e amarelo. Eu continuaria a morar com a Tanira, que estaria encarregada de retocar minha maquiagem, por assim dizer, sempre que fosse preciso, e passaria os dias no salão, implicando com os cabeleireiros o tempo inteiro, ouvindo os seus gritos de “Tais-toi, Henri!”. Eu não me calava. Estava apenas cumprindo minha missão de papagaio, um competente e aplicado papagaio profissional brasileiro, e quando o Orsino visitava o salão eu cantava “Você abusou” junto com o Antônio Carlos e o Jocaffi e ensaiava uma ginga no poleiro para agradar le patron. Desperdiçada, além de desajeitada, porque ele jamais olhou para o meu lado. O que a gente não faz para sobreviver em Paris, nespá? Mas assez d’atmosphère, vamos ao que interessa a vocês. O Orsino era apaixonado pela Olívia, que freqüentava o salão e também era brasileira, mas não da nossa laia. Era rica, morava metade do tempo em Paris e metade do tempo em Ouro Preto. Tinha vindo para Paris morar com o irmão mais velho, que vocês, se são o que eu estou pensando, sabem muito bem quem é. O marchand de arte, ou contrabandista de santos barrocos e pedras preciosas, dependendo da versão. O da santa que era santo sobre a qual vocês queremsaber tudo, mas já chego lá. Os dois moravam num apartamento de cobertura no Champs de Mars. Quer dizer, classe. Autre chose. Mais distante do círculo da Negra, impossível. Eram dois mundos que raramente se encontravam, embora a origem brasileira fosse a mesma e a Paris dos dois fosse a mesma, só variando de arrondissement.

O irmão, que era bem mais velho do que ela, tinha morrido, e a Olívia estava de luto, o que só aumentava sua beleza. Mulher de luto, sem pintura, só vestindo preto para realçar sua palidez, é a mulher reduzida aos seus componentes básicos. Ossatura, olhos e mistério. As pessoas pensam que as viúvas se vestem de preto e rejeitam os adornos para sinalizar sua renúncia do mundo, mas é o contrário. Estão se reapresentando ao mundo em estado puro, virgens de novo, disponíveis de novo. O preto é o branco das debutantes adaptado às circunstâncias. Sei disso por ouvir falar, como tudo o que sei, porque minha experiência com fêmeas e sexo é limitada. Inclusive com fêmeas da minha própria espécie, os psitacídeos, que espanto com a minha garrulice e meu romantismo de segunda mão, quando só o que elas querem é procriar. A Negra, que consegue tudo, me consegue parceiras sexuais, mas elas não demoram em se aborrecer com meu pedantismo e certa vez uma arara de Madagascar, ou coisa parecida, ficou tão impaciente com a poesia em vez de ação que tentou me matar a bicadas. E esta tinta endurecida cobrindo minhas penas naturais também não tem ajudado minha vida sentimental. A Tanira sempre renova a pintura, mas raramente me dá banho, o que significa que já tenho camadas e camadas de verde e amarelo cobrindo minhas penas e envenenando meu organismo. Moi aussi, je ne serai plus. Não terei descendência. Serei o último dos Henris. Não haverá outro para observar e comentar, de um poleiro metafórico, o rico cortejo tragicômico da humanidade rumo ao… Como? Ah, certo. Onde eu estava? A Olívia. Ela não era, tecnicamente, uma viúva. Estava de luto pela morte do irmão. Mas que luto. Que elegância, que tristeza bem carregada, que tesão de abatimento! O Orsino era louco por ela e ela não lhe dava bola. E isso que ele não é de se jogar no lixo. De se jeter à la poubelle. Faz o gênero bandido fidalgo e é um romântico, como eu, além de rico como ela. Lembro do dia em que ele entrou no salão com a cabeça empinada e um meio sorriso triste no rosto, certamente pensando na Olívia e na sua rejeição, e em vez de Antônio Carlos e Jocaffi estava tocando uma música do Chico Buarque, e ele parou na porta, ficou ouvindo por instantes de olhos fechados e disse: “Se a música é o alimento do amor, toquem mais, e mais, para que o amor se empanturre e morra.” Depois abriu os olhos, notou o efeito que sua frase tivera nos cabeleireiros, todos víboras com almas sensíveis agora transformados em estátuas boquiabertas, e ordenou que voltassem ao trabalho e que se abaixasse o volume da música.

O Orsino só emprega rapazes nos seus salões. Diz que não é discriminação sexual porque seus rapazes representam todos os sexos conhecidos e alguns ainda em fase de experimentação. Foi naquele dia que eu me dei conta da intensidade do sentimento de Orsino por Olívia, ele que podia ter qualquer mulher em Paris com sua estampa de consigliere semi-respeitável, seus olhos cor de azeitona, seu séquito de amigos e subalternos — “sua Corte”, como diziam nos seus salões, mas longe dos seus ouvidos — e seu dinheiro. Sua obsessão por Olívia o martirizava, tanto que naquele momento de fraqueza desejara que a paixão morresse empanturrada de música e o liberasse para outros sentimentos. Mas para Valentino, gerente do Illyria, debaixo do meu poleiro, num cochicho para os cabeleireiros não ouvirem, perguntou por Olívia com uma ânsia de adolescente. Ela não aparecera mais no salão? Não, respondeu Valentino. Anunciara que seu luto duraria um ano, durante o qual não cuidaria nem das unhas das mãos e dos pés nem dos cabelos. E Orsino suspirou, e comentou que, se ela guardava aquela devoção a um irmão morto, o que não dedicaria a quem um dia ocupasse o seu coração e o seu corpo, vivo? E foram olhar as contas do dia do salão, ele e Valentino, que era cabeleireiro antes de ser escolhido por Orsino para gerenciar o Illyria e por isso era odiado pelos outros. Agora, atenção. Aqui começa a história que vocês querem ouvir. Pois é, finalmente. Tem certeza que está gravando? Esses gravadores pequenos não são de confiança. Meu cérebro também é pequeno mas grava tudo. Fui abençoado, ou amaldiçoado, com memória total. E não preciso de pilhas, sou movido a bisbilhotice. Naquela mesma noite, ouvi da Tanira, enquanto ela retocava o meu verde no seu apartamento, que a Negra estava às voltas com o caso de um casal de gêmeos, Violeta e Sebastião, que tinham sido separados ao chegar ao aeroporto Charles de Gaulle vindos do Brasil. Violeta passara pela alfândega mas Sebastião ficara para trás, despertara a suspeita dos guardas e simplesmente desaparecera. Violeta se desesperara. Não conhecia ninguém em Paris. Ela e o irmão vinham com planos de conseguir emprego e ficar clandestinamente na França. O pouco dinheiro que tinham estava com ele. E a única referência que traziam era a recomendação dada por alguém, antes da viagem, “Procurem a Negra”, e um número de telefone. Violeta procurara a Negra, que fora buscá-la no aeroporto e estava no momento usando seus contatos no mundo oficial francês, inclusive entre antigos clientes dos tempos do Bois de Boulogne, para tentar localizar o Sebastião. Enquanto isto, Violeta ficaria com Tanira. E mais tarde, naquela noite, ela chegou, trazida pela Negra.

Tinham jantado num bistrozinho ali perto, onde a Violeta chorara muito, enquanto a Negra tentava convencê-la de que tudo acabaria bem. Nunca vou esquecer a cena da Violeta entrando no apartamento da Tanira, e nas nossas vidas, naquela noite, atrás da Negra. Todos nós iríamos, como dizem os franceses, cair amorosos, tomber amoureaux, de uma forma ou de outra, por ela. Linda, apesar dos olhos e do nariz vermelhos de tanto chorar e da preocupação com o irmão.

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