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A Ditadura da Beleza e a Revolução Das Mulheres – Augusto Cury

Durante mais de duas décadas tenho investigado como psiquiatra e pesquisador da psicologia a última fronteira da ciência: o mundo onde se constroem os pensamentos e são geradas a inteligência e a consciência. E, apesar de ser considerado um autor de sucesso e de ter meus livros publicados emdezenas de países, não me sinto um profissional realizado, pois tenho enxergado um massacre emocional nas sociedades modernas que vem me tirando o sono e perturbando a minha tranqüilidade. Por pesquisar a mente humana e tratá-la, tenho denunciado esse massacre sutil e sórdido emcongressos nacionais e internacionais. Agora chegou a vez de escrever sobre ele. Preferi escrever emforma de ficção em vez de produzir um texto de divulgação científica, pois sinto necessidade de recriar imagens inesquecíveis que estão na minha mente. Imagens de pessoas que dilaceraram seu prazer de viver e sua liberdade. Cada capítulo é um grito que ecoa da minha alma. Usei dados reais na construção deste romance. Através de emoções intensas e de aventuras excitantes, meu objetivo é dissecar um câncer social que tem feito literalmente centenas de milhões de seres humanos infelizes e frustrados – em especial mulheres e adolescentes. Vivemos aparentemente na era do respeito pelos direitos humanos, mas, por desconhecermos o teatro da nossa mente, não percebemos que jamais esses direitos foram tão violados nas sociedades democráticas. Estou falando de uma terrível ditadura que oprime e destrói a auto-estima do ser humano: a ditadura da beleza. Apesar de serem mais gentis, altruístas, solidárias e tolerantes do que os homens, as mulheres têm sido o alvo preferencial dessa dramática ditadura. Cerca de 600 milhões de mulheres sentem-se escravas dessa masmorra psíquica. É a maior tirania de todos os tempos e uma das mais devastadoras da saúde psíquica. O padrão inatingível de beleza amplamente difundido na TV, nas revistas, no cinema, nos desfiles, nos comerciais, penetrou no inconsciente coletivo das pessoas e as aprisionou no único lugar em que não é admissível ser prisioneiro: dentro de si mesmas. Tenho bem nítida na mente a imagem de jovens modelos que, apesar de supervalorizadas, odiavam seu corpo e pensavam em desistir da vida. Recordo-me de pessoas brilhantes e de grande qualidade humana que não queriam freqüentar lugares públicos, pois se sentiam excluídas e rejeitadas por causa da anatomia do seu corpo. Recordo-me dos portadores de anorexia nervosa que tratei. Embora magérrimos, reduzidos a pele e ossos, controlavam os alimentos que ingeriam para não “engordar”. Como não ficar perplexo ao descobrir que há dezenas de milhões de pessoas nas sociedades abastadas que, apesar de terem uma mesa farta, estão morrendo de fome, pois bloquearam o apetite devido à intensa rejeição por sua auto-imagem? Essa ditadura assassina a auto-estima, asfixia o prazer de viver, produz uma guerra com o espelho e gera uma auto-rejeição profunda. Inúmeras jovens japonesas repudiam seus traços orientais. Muitas mulheres chinesas desejam a silhueta das mulheres ocidentais. Por sua vez, mulheres ocidentais querem ter a beleza incomum e o corpo magríssimo das adolescentes das passarelas, que freqüentemente são desnutridas e infelizes com a própria imagem. Mais de 98% das mulheres não se vêem belas. Isso não é uma loucura? Vivemos uma paranóia coletiva.


Os homens controlaram e feriram as mulheres em quase todas as sociedades. Considerados o sexo forte, são na verdade seres frágeis, pois só os frágeis controlam e agridem os outros. Agora, eles produziram uma sociedade de consumo inumana, que usa o corpo da mulher, e não sua inteligência, para divulgar seus produtos e serviços, gerando um consumismo erótico. Esse sistema não tem por objetivo produzir pessoas resolvidas, saudáveis e felizes; a ele interessam as insatisfeitas consigo mesmas, pois quanto mais ansiosas, mais consumistas se tornam. Até crianças e adolescentes são vítimas dessa ditadura. Com vergonha de sua imagem, angustiados, consomem cada vez mais produtos em busca de fagulhas superficiais de prazer. A cada segundo destrói-se a infância de uma criança no mundo e se assassina os sonhos de um adolescente. Desejo que muitos deles possam ler atentamente esta obra para poderem escapar da armadilha em que, inconscientemente, correm o risco de ficar aprisionados. Qualquer imposição de um padrão de beleza estereotipado para alicerçar a auto-estima e o prazer diante da auto-imagem produz umdesastre no inconsciente, um grave adoecimento emocional. Auto-estima é um estado de espírito, um oásis que deve ser procurado no território da emoção. Cada mulher, homem, adolescente e criança deveriam ter um caso de amor consigo mesmos, um romance com a própria vida, pois todos possuemuma beleza física e psíquica particular e única. Essa frase não é um jargão literário pré-fabricado, mas uma necessidade psiquiátrica e psicológica vital, pois sem auto-estima os intelectuais se tornam estéreis, as celebridades perdem o brilho, os anônimos ficam invisíveis, os homens transformam-se em miseráveis, as mulheres não têm saúde psíquica, os jovens esfacelam o encanto pela existência. Em breve encerraremos nossa vida no pequeno “parênteses” do tempo que nos cabe. Que tipo de marcas transformadoras vamos imprimir no mundo em que vivemos? Precisamos deixar ao menos o vestígio de que não fomos escravos do sistema social, de que vivemos uma existência digna e saudável, lutando contra uma sociedade que se tornou uma fábrica de pessoas doentes e insatisfeitas. É necessário fazer uma revolução inteligente e serena contra essa dramática ditadura. Os homens, embora também vítimas dela, são inseguros para realizá-la. Essa batalha depende sobretudo das mulheres. Neste romance, apoiadas por dois fascinantes pensadores, um psiquiatra e um filósofo, elas empreendem a maior revolução da História. Porém, pagam um preço altíssimo, pois têm de enfrentar predadores implacáveis. Para fazer essa revolução internacional saturada de aventuras, lágrimas e alegrias, elas se inspiramno homem que mais defendeu as mulheres em todos os tempos: Jesus Cristo. Descobrem que o Mestre dos Mestres correu dramáticos riscos por elas. Ficam fascinadas ao saber que ele teve a coragem de fazer das prostitutas seres humanos da mais alta dignidade, e das desprezadas, princesas. Dr. Augusto Cury C A P Í T U L O 1 A belíssima Sarah saiu do seu quarto cambaleante e entrou subitamente na ampla sala do apartamento. Seus cabelos longos e encaracolados estavam revoltos, os olhos, fundos, a pele, pálida e a respiração, ofegante.

A modelo estava quase irreconhecível. Ao vê-la, Elizabeth, sua mãe, assustou-se. Assombrada, deixou cair a revista das mãos e soltou um grito. – Sarah! O que aconteceu, minha filha? – Havia um tom desesperado em sua voz. – Nunca mais perturbarei você. – A voz saiu frágil e pastosa, enquanto a jovem desfalecia nos braços da mãe. – Sarah! Sarah! Fale comigo! – clamava Elizabeth com o coração palpitando, um nó na garganta e o semblante tenso. Tentou acordar a filha do sono profundo do qual parecia não haver retorno. Elizabeth colocou Sarah sobre o sofá. Pegou o celular, mas seus dedos trêmulos mal conseguiam digitar os números. A angústia roubaralhe a coordenação motora. Uma simples tarefa parecia dantesca. Momentos depois, a ambulância chegou. Ao ver o médico e os enfermeiros, Elizabeth bradou: – Salvem minha filha! – As lágrimas molharam todo o seu rosto. Chorando, ela repetia: – Não a deixem morrer. Por favor, não a deixem morrer… O médico rapidamente auscultou o coração da moça. Descompassado, ele ainda batia. A ambulância seguiu célere para o hospital. Alguns momentos podem determinar os capítulos mais importantes de uma vida. Aqueles minutos tiveram um sabor eterno. O trajeto, que era pequeno, parecia interminável. O som da sirene, que sempre fora desconfortável, agora agredia os ouvidos de Elizabeth. Ela queria acordar do pesadelo, mas a realidade era crua e angustiante. No outro dia a neve caía suavemente, pousando sobre os galhos das árvores, substituindo as folhas como flocos de algodão, produzindo uma paisagem fascinante. O psiquiatra Marco Polo contemplava a paisagem branquíssima pela vidraça, quando sua secretária veio lhe comunicar que uma mãe, emprantos, desejava falar-lhe.

Sempre sensível diante da dor, ele se levantou, foi até a sala de espera, cumprimentou gentilmente a mulher desesperada e pediulhe que entrasse. Elizabeth sentou-se diante dele, olhou-o intensamente, mas estava paralisada e não conseguia pronunciar qualquer palavra. As palavras, porém, eram dispensáveis, pois os músculos contraídos da face acusavam sua angústia, e as lágrimas que desciam pelo rosto, abrindo sulcos na maquiagem, revelavam sua dor. Para Marco Polo, o templo do silêncio era o ambiente mais eloqüente para expressar a força dos sentimentos. Por isso, ofereceu-lhe um lenço e também o seu silêncio. O lenço, para que ela enxugasse os olhos, e o silêncio, para permitir-lhe penetrar nas vielas da sua personalidade numa tentativa de enxergar o invisível, o essencial. Momentos depois, Elizabeth proferiu as primeiras palavras com a voz trêmula: – Minha filha, Sarah, de 16 anos, tentou desistir da vida. Está internada num hospital. Estou chocada! – Falou como se enfrentasse o mais angustiante terremoto emocional. Abalada, continuou: – Não entendo o seu gesto. Dei tudo para essa menina. Ela foi tratada como uma princesa, mas nada a satisfaz. Ela se traiu e me traiu… – Suas palavras revelavam umsentimento que alternava compaixão e raiva pela atitude da filha. Elizabeth tinha 42 anos e estava separada há três. A separação dos pais não afetara a relação de Sarah com a mãe, pois o ambiente entre as duas já era péssimo. O pai sempre fora alienado, pouco afetivo, negativista, culpando permanentemente os outros por seus erros. Nunca tivera êxito em seus projetos e freqüentemente precisara do dinheiro da esposa para pagar suas contas. Elizabeth suportara o fracasso do marido, mas não a infidelidade. Quando soube que ele a traía, rompeu a relação. A distante relação de Sarah com o pai contrastava com a borbulhante relação com a mãe, pautada por atritos, discussões e acusações. Em alguns momentos, Sarah ameaçava ir morar com o pai, mas, mesmo vivendo numa praça de guerra, mãe e filha não se abandonavam, não conseguiam ficar longe uma da outra. O apartamento belíssimo e espaçoso era pequeno para conter os conflitos entre elas. Indignada e sofrida, Elizabeth apresentou a Marco Polo os paradoxos entre sua profissão e o mundo da filha. – Estou deprimida e perplexa com tudo o que está acontecendo. Escrevo reportagens sobre auto-estima e felicidade, mas minha filha não tem prazer de viver.

Oriento jornalistas que trabalham comigo para valorizar o corpo da mulher, exaltar a beleza e a sensualidade, mas minha filha detesta seu corpo, apesar de todos a acharem linda. Ela fez uma pausa para respirar, e ele, uma pausa para pensar. – Qual é o seu trabalho, Elizabeth? – perguntou Marco Polo impressionado com o contraste que ela descrevia. Queria entender se o ambiente profissional e social da mãe exercera influência no processo de formação da personalidade da filha. – Sou gerente editorial da revista Mulher Moderna. – Sua informação veio sem o entusiasmo com que sempre exaltava seu trabalho. Os olhos de Elizabeth eram verdes, seus cabelos, pretos e longos, suavemente ondulados. Era uma bela mulher e uma executiva de sucesso. Ocupava a gerência editorial de uma das mais importantes revistas para o público feminino dos Estados Unidos, sediada em Nova York. Organizava a pauta, as matérias e estabelecia a linha editorial das reportagens. Coordenava um batalhão de jornalistas, fotógrafos e outros profissionais. Ganhara muitos prêmios ao longo de sua carreira. Era determinada, criativa, sabia tomar decisões e assumir riscos. Esforçavase para trabalhar em equipe e motivar pessoas, mas não gostava de ser questionada, tinha tendência a concentrar poder e exercer autoridade. Tinha caráter forte e inteligência brilhante. Sarah era sua única filha. Queria controlá-la e influenciá-la, como fazia comos profissionais da sua equipe, mas não conseguia. Em seguida, suspirando, Elizabeth continuou a descrever seu inconformismo. – Sarah está no início da carreira de modelo. Tem uma trajetória magnífica pela frente no mundo da moda. Milhares de garotas desejariam estar no lugar dela. Como pode jogar tudo para o alto? – disse, expressando sua perplexidade. E fez ao psiquiatra a pergunta que fazia para si mesma, tentando achar o fio condutor da crise da filha. – Como é que alguém que foi amada, que teve todos os brinquedos, que não passou por perdas ou privações, uma menina sociável que freqüentou festas e se destacou como aluna na escola, pode detestar a si mesma e a vida? Eu não compreendo as reações de Sarah. Elizabeth era uma mulher pragmática, gostava de explicações lógicas, e não conseguia entender o comportamento de Sarah, ilógico aos seus olhos.

Não admitia ter uma filha emocionalmente doente, e muito menos ter contribuído para essa doença. Apesar de ser uma executiva brilhante, não sabia olhar para o espelho da sua própria alma nem velejar para dentro do seu ser, reconhecendo suas falhas e percebendo suas fragilidades. Para a mãe, o sucesso da filha como modelo coroaria seu sucesso profissional. O fracasso de Sarah colocaria em xeque sua filosofia de vida. Chegava a achar que a jovem simulava alguns comportamentos doentios para que ela, como mãe, girasse em sua órbita. Pensava assim quando observava a filha vivendo momentos alegres e descontraídos com as amigas. Não conseguia acreditar que ela realmente estivesse numa crise depressiva. Porém, a ultima atitude de Sarah a abalara profundamente, mudando seu pensamento. – Vocês conseguem penetrar uma no mundo da outra? – perguntou Marco Polo sem meias palavras, tentando decifrar o código secreto da relação entre mãe e filha. – Doutor, minha filha é impenetrável. Quando começo a falar algo, ela interrompe minhas palavras dizendo que já sabe. Nenhum conselho tem impacto, nenhuma orientação é bem recebida. Sintome uma intrusa, uma chata que invade sua privacidade. Parece que ela tem prazer em me agredir. – Nenhuma personalidade é impenetrável. Depende da chave que você usa – disse serena e sabiamente o psiquiatra. Elizabeth reagiu agressivamente diante dessas palavras: – E fácil falar de uma pessoa que você não conhece. Se vivesse com minha filha, certamente não suportaria sua agressividade. Marco Polo percebeu que Elizabeth não acreditava na possibilidade de grandes mudanças na relação com Sarah. Pelo embate em que as duas viviam, o psiquiatra teve a impressão de elas se conheciam muito pouco, conheciam no máximo a sala de visitas da personalidade uma da outra. Tinham vivido muitos anos numa grande proximidade física, respirando o mesmo ar, mas eram duas estranhas dividindo um espaço comum. Diante disso, ele olhou fixamente para os olhos da mulher à sua frente e comentou com segurança: – Por detrás de uma pessoa que fere há sempre uma pessoa ferida. Ninguém agride os outros semprimeiro se auto-agredir. Ninguém faz os outros infelizes, se primeiro não for infeliz. – E, provocando a inteligência de Elizabeth, disse: – Pense nisso.

Essas palavras ecoaram dentro dela, deixando-a chocada. A mãe não conseguia entender a linguagem dos comportamentos da filha. Antes de ser modelo, para ganhar um presente, trocar de celular, ter um novo videogame, Sarah tinha crises de ansiedade. Aos gritos, dizia que todos a rejeitavam porque era feia. Elizabeth sempre tratara esses comportamentos como manha e manipulação, mas acabava cedendo. Pela primeira vez, começou a compreender que, por mais que sua filha quisesse manipulá-la, seus comportamentos representavamum grito, não por um objeto, mas um pedido de socorro de alguém que sofria e atravessava conflitos. Abalada por essas palavras de Marco Polo, ela repetiu a frase em voz baixa, procurando absorvê-la e entendê-la plenamente: – “Por detrás de uma pessoa que fere há sempre uma pessoa ferida.” – Em seguida, falou: – Mas que trauma ela tem? O que faltou a ela? Onde eu e seu pai erramos? – O tom expressava toda a sua perturbação. Muitos pais se esforçam para dar o mundo a seus filhos, mas esquecem de dar a si mesmos. Compram roupas belíssimas, pagam as melhores escolas, os cobrem de presentes, mas não dão sua história, não falam de si mesmos com eles, não lhes contam seus fracassos, sucessos, perdas, golpes de ousadias, projetos Você sabe quais são os sonhos de Sarah? Já perguntou quais são lágrimas que ela nunca teve coragem de chorar? Já descobriu quais são seus temores e frustrações mais importantes? Elizabeth ficou sob o impacto das perguntas feitas pelo Dr. Marco Polo. Como a grande maioria dos pais, ela nunca conversara com a filha sobre seus dias mais tristes, nunca perguntara sobre as lágrimas ocultas. Ficou abismada ao se dar conta disso, pois, como jornalista, havia entrevistado inúmeras celebridades, mas nunca formulara essas perguntas vitais à pessoa mais célebre da sua vida – sua própria filha. O sucesso de Sarah era tão evidente que a mãe nem mesmo perguntara seriamente se seu grande sonho era mesmo se tornar modelo, ou se ela desejaria trocar a fama, o dinheiro e o status por uma carreira mais simples. – Sempre pensei que conhecia minha filha, mas agora estou em dúvida. Sinto-me culpada e fracassada como mãe – comentou, como se não pudesse sustentar suas convicções. – Pais maravilhosos falham tentando acertar. Não tenha medo de entrar em contato com suas falhas, mas tenha cuidado, pois a culpa destrói ou constrói. Se a dose da culpa for pequena, ela nos estimula a refletir ou corrigir as rotas, mas, se for intensa, bloqueia a inteligência e promove a depressão. Elizabeth respirou um pouco mais aliviada. Ela havia procurado o Dr. Marco Polo por indicação de Júlia, uma das jornalistas da sua equipe, que se tratara com ele. Ela dissera que ele era instigante, ousado, transparente. A psicoterapia a tinha ajudado a superar suas freqüentes crises depressivas, associadas a uma vida pessimista e dependente. Júlia vivia dominada por uma necessidade neurótica de prestígio e aprovação dos outros.

Uma frase inesquecível do Dr. Marco Polo promovera uma mudança em sua vida: “Júlia, se você não deixar de ser espectadora passiva de sua doença psíquica, se não se tornar atriz principal do teatro da sua mente, perpetuará sua doença, mesmo se tratando.” Sob o impacto dessas palavras, ela compreendeu que alimentava sua doença. Tinha medo de errar, de falar “não” e de expressar seu desejo e seu pensamento. Resolveu então deixar de ser vítima da sua história. Júlia deu assim um salto enorme em sua qualidade de vida, perceptível para todos os seus colegas. Rompeu com um namorado que a humilhava, agredia e controlava. Tornou-se intrépida, bemhumorada, e começou a escrever textos mais ousados para a revista. A visível mudança de Júlia motivou Elizabeth a procurar o terapeuta que tratara a amiga, embora alimentasse poucas esperanças de que ele pudesse fazer o mesmo por sua filha. – Como corrigir meu relacionamento com Sarah, se ela me critica o tempo todo e, pior, se ela vive se punindo, não se ama, não ama a vida, não ama os amigos, enfim, parece não amar nada? Ela já se tratou com três psicólogos e foi acompanhada por dois psiquiatras. Nenhum desses tratamentos durou mais de um mês. Chegou a dizer que os psiquiatras são tolos, não entendem nada sobre ela. Sarah é muito resistente e insatisfeita. Reclama inclusive do sucesso, do assédio, dos elogios, dos prêmios que recebe. – Elizabeth suspirou desanimada. – Sinto-me incapaz de ajudá-la. – Excelente! – exclamou Marco Polo, surpreendendo-a. – A melhor coisa para conhecer a caixa de segredos da personalidade de uma pessoa é reconhecer nossa impotência para abri-la e decifrar seus códigos. Deixe de lado o que você pensa que sabe sobre Sarah. Comece um novo capítulo na sua história com ela. Abra-se para novas possibilidades. Procure penetrar além da vitrine do seu comportamento. – Entre mim e minha filha há uma grande montanha. – Não tropeçamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas pedras – disse poeticamente o pensador da psiquiatria. Essas palavras deixaram a mãe extasiada e reflexiva.

Ela começou a perceber que os atritos e ofensas mútuas têm início nas pequenas coisas. Mas logo em seguida entrou em algumas zonas de conflito do seu inconsciente e novamente mostrou seu pessimismo. – Minha filha já disse quatro vezes que me odeia – expressou com profunda tristeza e vergonha. – O ódio é uma pedra bruta do território da emoção, que pode estar próxima ou infinitamente distante do amor – afirmou enfaticamente Marco Polo. – Dependendo do artesão que a lapida, ela se transforma na experiência mais sublime do amor.

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