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A ditadura militar e os golpes dentro do golpe: 1964-1969 – Carlos Chagas

O ano de 1955 passou rápido, com o país vivendo as incertezas do que se chamava a iminência do golpe, viesse de onde viesse. No décimo andar do edifício Constellation, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, ficava nosso apartamento, de onde ouvi os petardos do general Henrique Lott seremdisparados contra o cruzador Tamandaré, que levava os golpistas empenhados em impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Felizmente, a belonave não foi a pique, ao contrário das intenções de seus ocupantes diante da democracia. Depois de vagar três dias no litoral fluminense, impossibilitado de aportar em Santos, onde o Exército já assestara suas baterias de costa, o Tamandaré voltou ao Rio para render-se. Era um domingo, manhã de sol, a praia de Copacabana lotada. O cruzador aproximou-se o mais que pôde da areia e passou rente ao Forte Copacabana, do Exército, com a marujada formada emuniforme de gala, no convés, entoando o “Cisne Branco”. Revidavam a derrota, com o já deposto presidente interino da República, deputado Carlos Luz, desembarcando junto com almirantes, alguns coronéis e deputados, entre os quais Carlos Lacerda. Na praia, os banhistas prestaram pouca atenção àquela página da história que pude presenciar. No fim, vencera a legalidade. A política dominava conversas, especulações e fantasias. Fora empossado o senador Nereu Ramos, no palácio do Catete, para garantir a posse de JK. Quando Café Filho, também golpista e presidente licenciado, tentou voltar, o general Lott, ministro da Guerra, mandou cercar de tanques o quarteirão onde ficava o edifício do indigitado sucessor de Getúlio Vargas. Como era em Copacabana, durante dois dias o programa foi matar aula e assistir à tropa acantonada no asfalto. Em dezembro de 1955, concluí o último ano do Científico no Colégio Mallet Soares, comexcelentes notas, e preparei-me para o vestibular, em fevereiro do ano seguinte. Optei pela Faculdade Católica, dos Jesuítas, que funcionava na Gávea. Sentia-me incomodado por continuar dando despesas a meu pai, e, no final do primeiro ano, consegui um estágio na seção jurídica da Penitenciária Lemos Brito, onde todas as tardes atendia montes de presos interessados na revisão de seus processos. Todos inocentes, claro. Dois coronéis em conflito Aproximava-se o tempo do serviço militar. Como universitário, pude matricular-me no CPOR, que formava oficiais da reserva do Exército, num regime bastante rígido: por dois anos, durante o período letivo, comparecíamos ao quartel em São Cristóvão aos domingos, das seis da manhã à tarde. Nas férias de julho e em dezembro, janeiro e fevereiro, todos os dias, menos domingo. Duas vezes por ano, acampamento em Jericinó, na Baixada Fluminense. Marchas de 32 quilômetros, comfuzil, cantil e capacete de aço. Naqueles idos, não havia dispensa de serviço militar, como hoje acontece em profusão. Foi uma bela experiência, necessária para sedimentar a disciplina física e cívica. No segundo ano do curso, fiz parte do grupo que preparava a revista editada pelos formandos e fui escolhido orador da turma de Infantaria.


Coincidência, dois coronéis comandaram o CPOR naqueles dois anos, projetando-se depois nos meandros da política nacional: Ladário Pereira Telles, bravo como o diabo, que, como general, acompanharia João Goulart até o exílio, em 1964, posto em seguida na reserva; e Adalberto Pereira dos Santos, ameno e sem porte militar, depois integrante da conspiração que mudaria o regime e, mais tarde, vice-presidente da República no governo Ernesto Geisel. Ao entrevistá-lo pela primeira vez, na residência oficial, indagou-me se não era aquele aluno abusado que discursara diante dele abordando temas políticos. Trabalhar é preciso A partir de 1958, já no terceiro ano da Faculdade de Direito, troquei o estágio na penitenciária por um lugar de repórter em O Globo, cujos vencimentos eram bem superiores. Comecei pelo caminho clássico de todo foca: a reportagem policial; depois, a geral. Saía da Faculdade, ao meio-dia, direto para a redação. Os jovens repórteres, disputando a efetivação, eram esfolados pelo chefe de reportagem, Alves Pinheiro, um dos jornalistas mais completos que conheci. Uma verdadeira fera, cujo regime de trabalho espantava todo mundo. Como O Globo era vespertino, indo para a rua às duas horas da tarde, e em grande parte feito pela manhã, Pinheiro chegava na redação à meia-noite, barba feita, banho tomado e charuto na boca. Lia os matutinos, já postos em sua mesa, assim como os textos elaborados na noite anterior. Começava, então, a preparar as ordens de serviço para os repórteres que chegavam a partir das seis da manhã. Exigia rapidez, trabalho de campo e muita apuração pelo telefone, para produzir umjornal que trouxesse material de qualidade superior e para além do oferecido pelos matutinos já na rua. Participava do fechamento da edição daquele dia e redigia sugestões de pauta para a turma da tarde e da noite. Assim que o jornal rodava, pegava um dos primeiros exemplares e ia para casa, botando o pijama e dormindo às quatro da tarde. Um despertador o acordava precisamente às 20h25, para que escutasse o Repórter Esso. Se não houvesse novidade importante, voltava a dormir até as onze horas, quando reiniciava a rotina: barba, banho, café da manhã e redação. Durante mais de vinte anos, foi a alma de O Globo. Na Faculdade, grandes professores transmitiam tanto doutrina quanto experiência. O lobisomemera um polonês, Jerzi Sbrosek, refugiado do regime comunista instalado em seu país, que começara dando aulas em francês. Lecionava Introdução à Ciência do Direito e entupia os alunos com filosofia. De uma turma de sessenta alunos, passavam ao segundo ano, no máximo, 25. Com ele, outros mestres relevantes, ainda que não tão rígidos: Sobral Pinto, Celestino Basílio, Murta Ribeiro, Clovis Paulo da Rocha, Hélio Tornaghi, Haroldo Valadão, Alfredo Lamy, Pedro Calmon, Erbert Chamoun e muitos mais. Queriam um solteiro O ano de 1960 era o da formatura e eu hesitava entre a advocacia, para a qual me preparava, e o jornalismo, que praticava há quatro anos. A política fervia e, sempre que possível, eu era designado para coberturas no setor. As eleições presidenciais se realizariam em outubro. No final do ano anterior, sempre que Jânio Quadros ia ao Rio, candidato já lançado por pequenos partidos, cabia-me ficar de plantão no Hotel Glória, onde se hospedava, e segui-lo num jipe, com um fotógrafo à disposição.

Fiz amizade com o secretário particular do candidato, Augusto Marzagão, que uma tarde confidenciou: “O Jânio saiu pelos fundos e foi ao apartamento do senador José Cândido Ferraz para uma conversa difícil.” Consegui o endereço, no Leblon, e fomos para lá. Não havia segurança, naquele tempo, e o porteiro indicou o andar e o apartamento. Acionada a campainha, no corredor escuro, a empregada confirmou, pela janelinha, que o candidato ali se encontrava. Numa precipitação digna de um foca, orientei o fotógrafo a ficar preparado atrás de uma pilastra. Quando Jânio saísse, acionaria o flash. Assim aconteceu, coisa que levou o candidato a um grito de surpresa e a algum medo, pelo inusitado. Seguiu-se uma saraivada de reprimendas. Já no saguão do edifício, porém, abraçava-me e deixava-se fotografar, flagrante que O Globo publicou na primeira página no dia seguinte. Foi um sucesso entre amigos e família. Coube-me depois cobrir a Convenção Nacional da UDN, que escolheria o candidato do partido. Um dos maiores espetáculos que terei visto. O Palácio Tiradentes regurgitava de partidários de Jânio e de seguidores de Juracy Magalhães, ex-presidente da UDN, governador da Bahia e preferido pelo então presidente que se retirava, Juscelino Kubitschek. Discursos monumentais, paixão explícita, balbúrdia dos diabos, ainda que se soubesse dispor Jânio Quadros do maior número de convencionais. Carlos Lacerda foi uma das estrelas, janista ao extremo. Juracy, sabendo-se derrotado, dirige-se ao presidente do partido, José de Magalhães Pinto, alertando para a tempestade que viria com aquela opção. Termina acentuando não ter o desejo de, tempos depois, indagar: “E agora José? A festa acabou…” Premonição ou desejo? Conhecendo o Brasil Jânio Quadros, candidato da UDN e de pequenos partidos, iniciaria a campanha pelo país inteiro, em março de 1960. Começaria pelo Acre. O problema é que seus novos aliados haviam-lhe imposto um vice-presidente muito diferente de suas características populistas e até histriônicas, ademais um“coronel” do Nordeste: o senador Leandro Maciel, ex-governador de Sergipe. Nos encontros e pequenos comícios em São Paulo e no Rio, antes do início da campanha propriamente dita, Jânio sofria horrores quando discursava contra a corrupção e prometia botar os ladrões na cadeia, enquanto seu companheiro de chapa abordava temas como o da recuperação do Vale do São Francisco ou da melhoria da produção do açúcar. Viu que não daria certo e surpreendeu o país inteiro ao renunciar à candidatura. Escondeu-se na casa de amigos, em São Paulo, fugiu da imprensa deitado no banco de trás de um carro, com as janelas cobertas de papel de jornal, e mandou transmitir sua decisão como irrevogável. Foi o pânico na UDN, precisamente o que pretendia. Dias depois, o partido atenderia a seus protestos velados e substituiria Leandro pelo inatacável Milton Campos. Na redação de O Globo refez-se o esquema da cobertura do candidato.

Por conta da decepção generalizada no jornal e no Brasil diante daquela renúncia, que não era a primeira nem seria a última, Roberto Marinho decidiu reagir e diminuiu a importância dada à campanha. Nada de mobilizar grandes nomes da reportagem. Assim, Alves Pinheiro buscou alguém mais novo que pudesse ficar semanas a fio viajando pelos estados, longe do Rio. Que fosse solteiro, então. Candidatei-me, mesmo frente ao fato de que cursava o último ano da Faculdade de Direito e de que fatalmente não conseguiria o número necessário de presenças, devendo ser reprovado. Mesmo assim, insisti. Aquela parecia uma bela oportunidade profissional, viajando no mesmo avião, um DC-3, em que o candidato, e conhecendo muito mais do que o eixo Rio-São Paulo e uma parte de Minas Gerais. Registrou-se até um fenômeno inusitado. Na época, nenhum jornal permitia que seus repórteres assinassem as respectivas matérias. Torná-los conhecidos do público seria abrir as portas para que reivindicassem melhores salários ou aceitassem convites dos concorrentes. Havia uma exceção: quando viajavam para fora da sede. E comecei a viajar, deslumbrando-me com o Brasil inteiro a bordo de um avião que descia em qualquer campo de futebol, fretado à Varig pela campanha de Jânio. Eram três, quatro cidades no mesmo dia, do Norte ao Nordeste e ao Sul. Quando bissextamente o candidato parava no Rio, eu podia frequentar a redação e a Faculdade, recebendo elogios de meus professores, quase todos janistas pela própria natureza. O resultado foi que, terminada a campanha, os professores me deram presença falsa. Pude fazer os exames de meio e de final de ano, bacharelando-me, ainda por cima eleito, numa disputa acirrada, como orador da turma, contra meu grande amigo Cândido de Oliveira Bisneto. Como era difícil ser repórter Mas, voltando à campanha: não tinha nada a ver com o trabalho jornalístico de hoje, quando o repórter leva uma dessas maquininhas infernais, digita o texto, aperta um botão e transmite tudo, eletronicamente, à redação, seja de onde for. Depois de acompanhar o candidato em três ou quatro comícios em cidades do interior, sempre atento às novidades que diria, em seguida aos encontros que mantinha com políticos regionais e às conversas no avião com lideranças, o dia se encerrava comconcentrações monumentais numa capital. Ou seja: por volta da meia-noite, os jornalistas dispunhamde cinco, seis matérias, que haviam redigido a bordo, em cadernetas ou nas máquinas de escrever portáteis que porventura levassem. Hora de dormir? Nem pensar. Era o momento de procurar os postos telefônicos, pois, à exceção das grandes capitais, nas outras os hotéis não possuíam estrutura para ligações interurbanas. Composta dos oito ou dez repórteres que habitualmente acompanhavam Jânio Quadros, logo se formava uma fila, e não sem discussões preliminares para saber quem primeiro conseguiria ligar-se à sua sede. Não havia satélites, nem sequer micro-ondas. As informações eram ditadas pelo fio telefônico, em voz altíssima, já que a telefonista de Manaus, por exemplo, chamava a de Belém, esta a de Fortaleza, aquela a de Recife, depois Salvador e Vitória, até que, já de madrugada, alguém atendia na redação de O Globo, no Rio, e começava a copiar o que berrávamos. Mesmo prejudicados no sono, os últimos a transmitir eram privilegiados, pois tinham ouvido as informações dos colegas, podendo completar suas matérias.

Em cidades como Recife e Fortaleza, funcionavamserviços telegráficos estrangeiros, como a Western e a Italcable, que aceitavam nossos textos e os passavam em tempo rápido. Brilhante, mas doido Jânio Quadros viajava com a mulher, D. Eloá, e alguns convidados, na parte da frente da cabina do avião. Logo atrás, sentavam-se auxiliares e jornalistas. Nos trajetos mais longos, ele era servido de uísque, quantas vezes quisesse, mas, justiça se faça, mandava servir também aos jornalistas. Tinha medo pavoroso de avião, que enfrentava, mas sempre agarrado aos braços da poltrona e com as cortininhas permanentemente fechadas. Na primeira vez em que fomos a Manaus, o piloto, por gentileza, sobrevoou duas vezes o encontro das águas, espetáculo maravilhoso que não me canso de contemplar, sempre que posso. Não se misturam as correntes do rio Negro, da cor de petróleo, com as do Solimões, barrentas. Suas densidades são diferentes, e lutam para não se misturar. Só ao fim de alguns quilômetros ganha o mais forte, e o Amazonas torna-se marrom até o estuário. Quando o avião pousou, ouvimos a voz estridente do candidato, desancando o comandante da aeronave, que colocara “em perigo todos os passageiros ao passar duas vezes, bem baixo, sobre o encontro das águas”. Os discursos em praça pública, brilhantes, de uma oratória raras vezes ouvida no país, arrancavamdelirantes e apopléticos aplausos da assistência. Depois de alguns dias, porém, percebíamos seremsempre os mesmos: ladrões na cadeia, moralidade pública, sacrifícios, recuperação nacional e, aqui e ali, reafirmação do Brasil como país independente. Na conclusão, o singular ator virava-se para o fundo do palanque, onde se postava a esposa humilde e compenetrada, chamando-a para um beijo estalado e, com um dos braços sobre seus ombros, declarava sempre: “Eloá me pediu que dirigisse as últimas palavras à mulher brasileira, a verdadeira dona da vassoura, aquela que dirige lares e famílias, sacrificando-se anonimamente…” Era o paroxismo da multidão, porque um auxiliar, ao mesmo tempo, pusera na outra mão de Jânio uma vassoura, seu símbolo de campanha, com a qual acenava em despedida. Sabíamos todos ser aquele o sinal para tomarmos meteoricamente o rumo do aeroporto, aproveitando táxis, carros da comitiva e até motocicletas de algum correligionário entusiasmado. Embarcávamos apressados, porque o candidato vinha atrás. Quando entrava, não queria saber: mandava fechar a porta e decolar de imediato. Quem ficasse para trás, ficava. Certa feita emQuixadá, no interior do Ceará, José Aparecido, secretário-particular, chegou depois de Jânio, com os motores já acionados. Alguém lembrou ao candidato que o auxiliar estava lá embaixo e que, portanto, a porta precisava ser aberta. Resposta: “Atrasou-se? Ele que fique por aí.” E ficou, levando dois dias para reincorporar-se à comitiva. No reverso da medalha Naqueles meses tumultuados ao longo dos quais me foi dado conhecer o Brasil inteiro, Jânio passou uma semana gripado, com febre, em São Paulo. Voltei ao Rio, imaginando descansar, mas, por falta de sorte, ficou impedido de viajar Glauco Carneiro, o colega que acompanhava o marechal Lott, candidato adversário. Assim, Alves Pinheiro indicou-me para substituí-lo.

O contraste era profundo. Em vez de uísque a bordo, laranjada. Ninguém ousava dirigir a palavra ao já marechal, sequer os coronéis que o acompanhavam, à paisana. Descemos em Florianópolis. No aeroporto, estavam o chefe do PSD local, Celso Ramos, e grande comitiva. Chamando Lott de lado, Ramos fezlhe um apelo: “Sei que o senhor tem defendido em toda a campanha a estatização do ensino. Pode até estar certo, mas peço-lhe encarecidamente para não tocar no assunto. Aqui, 80% das escolas e colégios são privados, a maioria religiosos.” À noite, no palanque, sem oratória alguma, o candidato alinhou sua plataforma de governo, nacionalista. Ia terminando, e Celso Ramos, a seu lado, feliz da vida. Nada fora dito em termos de ensino. Foi quando o marechal, dirigindo-se a ele, afirmou: “Quero mostrar ao povo catarinense como sou sincero. Meu amigo Celso Ramos pediu-me para não falar da questão do ensino público. Não tenham dúvida: se eleito, vou estatizar todas as escolas privadas!” É claro que perdeu a eleição, lá e no resto do Brasil. Uma lição do Dr. Roberto A campanha aproximava-se do fim. Era um domingo de setembro e estávamos no Rio. Pela manhã, missa rezada pelo cardeal D. Jaime Câmara, na Candelária, onde Jânio, como sempre, comungou. Depois, café da manhã com empresários, aos quais se apresentou como grande baluarte contra o comunismo. Mais tarde, reunião com líderes sindicais, ocasião em que prometeu ampliar os direitos trabalhistas concedidos por Getúlio Vargas. Num churrasco na Zona Norte, oferecido pelas associações esportivas, mostrou-se como típico cidadão da classe média. Logo, um encontro comlíderes políticos cariocas, na sede da UDN. Diálogo com estudantes, no auditório da ABI. Por fim, comício monumental na Praça Saenz Pena, na Tijuca.

Já era o presidente da República e caprichou na oratória, carregado pela massa. Chegando à redação de O Globo, depois da meia-noite, comecei a escrever as sete matérias, já morto de cansaço. Ao entregar a última, quatro horas da madrugada, o secretário de redação me perguntou se não tinha novidade alguma. Estava sem assunto para a manchete da edição daquela segunda-feira, que era matutina, e precisava puxar algo. Reli os originais, consultei a caderneta e lhe disse que a única coisa nova prometida pelo Jânio seria, caso eleito, uma vassourada na Presidência da República. Pronto. Fui para casa dormir. Às sete horas, contudo, seria acordado pelo chefe de reportagem: “Venha logo para a redação. Há uma crise!” Meio sonâmbulo, tomei até um táxi. No corredor que dividia a redação, todos me olharam como a um condenado rumo ao cadafalso. A sala do Dr. Roberto ficava no fundo, e Alves Pinheiro apenas me disse: “Vai lá. Ele quer falar com você.” Entrei e levei uma das maiores espinafrações de minha carreira. Roberto Marinho estava uma fera. Tinha a primeira página de O Globo nas mãos e apontava para a manchete de oito colunas: “Jânio: Vassourada na Presidência da República”. Sem ficar mais calmo, disse que o candidato lhe havia telefonado pouco antes, ameaçando que o jornal nada teria emseu governo, que as relações estavam rompidas e que estávamos sabotando sua vitória — porque a vassourada que prometia há meses, em todos os seus discursos, era na Previdência Social, e não na Presidência da República. Desabei e reconheci o erro. Logo agora, que tinha casamento marcado, seria despedido. Depois de continuar a catilinária por mais alguns minutos, completou: “Antes de entregar qualquer matéria, o repórter tem obrigação de reler o que escreveu. Quantos erros podem ser corrigidos com esse cuidado. Vá trabalhar e não se esqueça disso!” Até hoje não esqueci. Duas profissões, sem interregno Formado e casado, ainda na dúvida sobre abraçar a advocacia, optar pelo jornalismo ou manter o pé nas duas margens, continuei em O Globo, cada vez mais próximo de apenas escrever sobre política. Mesmo assim, outros temas me eram entregues. Leitor de livros sobre a Segunda Guerra Mundial, eu lembrara que, em setembro de 1959, completar-se-iam vinte anos do início da conflagração — o que merecia alguma recapitulação.

Era matéria para o segundo caderno e preparei alguns textos com o que podia colher nas coleções de jornal. Foram publicados, embora Ricardo Marinho, irmão de Roberto, não me tenha deixado assinálos: “É muito moço.” Outros companheiros completariam a série. Em fevereiro de 1961, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara, imaginava promover profunda reformulação no sistema penitenciário do estado, uma lástima, como em todo o restante do país. Nomeara, para tanto, um jovem promotor público, que coordenaria um conjunto que envolvia presídios no complexo da Rua Frei Caneca, em Bangu e na Ilha Grande. Newton de Barros e Vasconcelos, seu nome, formulou convite ao jornal para que um repórter e um fotógrafo o acompanhassem em visita aos dois presídios da ilha, a Colônia Penal e a Colônia Agrícola, ambos de triste memória, desde antes do Estado Novo. A ditadura de 1937 mandava para lá presos políticos considerados perigosos, ainda que não fossem misturados aos presos comuns, como aconteceria depois do golpe de 1964. A Colônia Penal era um pardieiro, com mais de trezentos presos, que viviam em precárias condições. Os únicos trabalhos que podiam fazer — dada a proximidade com a pequena Vila do Abraão, cujo acesso lhes era interditado — consistiam em se arriscar em pequenos barcos para pescar e em melhorar um pouco o rancho da comunidade. Um dos líderes dessas incursões era o outrora famoso Carne Seca, corajoso a ponto de enfrentar o mar batido, como chamavam a tempestade. Na Colônia Agrícola, pareciam ridículos os meios para se chegar à finalidade um dia imaginada, a de os detentos cultivarem o solo e providenciarem legumes, verduras e cereais para o conjunto. Lá, envelhecia, com saúde e dignidade, o antes temido Madame Satã, homossexual de dois metros de altura que deixara na Lapa toda sua agressividade e um rol de crimes que assolaram os cariocas. Aqueles dias em que pude visitar as instalações, ouvir e conversar com os presos levaram-me a escrever quatro reportagens sob o título “Um Repórter na Ilha do Diabo”, que me valeram a menção honrosa no Prêmio Esso relativo àquele ano, entregue no início de 1962. Na época, O Globo assemelhava-se a uma pequena família, comandada por Roberto Marinho, diariamente na redação às sete da manhã, com seus dois irmãos, Ricardo e Rogério cumprindo horário e funções determinadas: o primeiro, como já mencionei, responsável pelo segundo caderno; o outro, encarregado do fechamento da primeira página. Rogério Marinho desdobrava-se para não parecer o dono do jornal ou o irmão mais moço do dono, tanto que chegava antes das sete da manhã para dividir com os outros as decisões sobre o conteúdo da primeira página. Só que não resistia ao assédio dos sabujos e dos puxa-sacos, e acabava se intrometendo em questões fora de sua alçada, não raro na performance dos repórteres, sob os cuidados de Alves Pinheiro, e mesmo nas inclinações políticas e ideológicas de cada um. Vivíamos então uma época de exacerbação da Guerra Fria, em que a União Soviética suplantava os Estados Unidos na corrida espacial, com o lançamento do Sputnik e a primeira volta ao mundo no céu, dada por Yuri Gagárin. Irmãos em conflito Roberto Marinho tinha diversos comunistas de sua geração empregados no jornal e jamais pensara em demiti-los. Sustentava, sim, a férrea linha ideológica conservadora e pró-americana, mas não se importava muito com os preconceitos do irmão. Aos poucos, porém, Rogério Marinho imbuiu-se da impressão de que eu era comunista, certamente influenciado pelo ciúme de algum interessado emocupar meus pequenos espaços. Tanto pressionou Alves Pinheiro que, certa manhã, com lágrimas nos olhos, este me disse que Rogério exigia minha saída. Aconselhou-me, no entanto, a despedir-me do Dr. Roberto, evidentemente porque já se queixara da interferência de Rogério na reportagem. Naquele tempo, inexistiam os inatingíveis barões da imprensa de hoje, que mal conhecem seus subordinados, alguns até sem jamais terem pisado nas redações. Entrei no gabinete do chefe, que explicou a mudança de estratégia da empresa, agora infensa a abrigar comunistas.

Antes mesmo que pudesse contestar, porque comunista não era, ele atalhou: “Mas soube que sua mulher está esperando o primeiro filho. Assim, você fique mais alguns meses.” Existem momentos, raros, na vida de todos nós, em que a emoção suplanta os interesses, e respondi dizendo que de favor não ficaria, apesar da injustiça e dos preconceitos de Rogério. O Dr. Roberto espantou-se e não soube o que dizer quando lhe estendi a mão para a despedida. Voltei para a redação, limpei as gavetas e fui embora. No dia seguinte, um telefonema de Alves Pinheiro: “Você não vem trabalhar? Já está atrasado!” Explicou que o Dr. Roberto dera o dito pelo não dito, ou o feito pelo não feito. E desautorizara o irmão. Um ano depois, eu seria designado editor político do jornal. Ganhara, contudo, senão um desafeto, ao menos um fiscal rigoroso de meus textos e concepções sobre o que deveria ser a reportagem política.

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