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A DIVINA COMEDIA – INFERNO – Dante Alighieri

O Inferno relata uma odisséia pelo mundo subterrâneo para onde se dirigem após a morte, segundo a crença cristã, aqueles que pecaram e não se arrependeram em vida. A viagem, relatada em 4720 versos rimados em tercetos, é realizada pelo próprio Dante guiado pelo espírito de Virgílio – famoso poeta romano dos tempos de Júlio César. A geografia do mundo e do reino dos mortos reflete as crenças vigentes na Idade Média. A Terra, esférica, era o centro do Universo segundo a cosmologia de Ptolomeu. Três continentes eram conhecidos: Ásia, África e Europa, e acreditava-se que eles ocupavam somente um dos hemisférios da Terra. Todo o hemisfério oposto era coberto de água. Na mitologia de Dante, a única exceção era o pólo oposto à cidade de Jerusalém, que ficava no meio do oceano. Lá havia uma ilha em cujo centro despontava uma única e enorme montanha – o monte do Purgatório. Além das crenças cristãs da época, o poema de Dante também foi influenciado por vários outros poemas épicos que precederam a Comédia. Monstros avernais e outras figuras mitológicas gregas e romanas que apareceram nas obras de Homero , Virgílio e Ovídio, ressurgem no Inferno de Dante ora como condenados ora como seres responsáveis pelo funcionamento de algum “serviço” mantido no reino de Lúcifer. A viagem narrada pelo poema acontece na semana santa do ano de 1300. Naquela época, Dante era um atuante político florentino prestes a ser eleito, dois meses depois, como um dos priores (governadores) da cidade de Florença. Porém, em menos de um ano, Dante foi exilado e expulso da cidade. O Inferno, escrito no exílio, faz referência a vários fatos históricos que aconteceram em1300 e depois, através de profecias de almas condenadas no Inferno, que vêem o futuro. Para compreender o Inferno de Dante é preciso conhecer um pouco da política de Florença e das crenças e costumes da Idade Média. É importante também conhecer a vida de Dante, suas atividades e os motivos do seu exílio. Em várias partes do seu texto, Dante menciona personalidades pelo apelido ou pelo primeiro nome. A maior parte dessas pessoas eram conhecidas pela população da Itália na sua época. Hoje, 700 anos depois, é impossível saber quem era ‘Buoso’ ou ‘Francesco’ sem consultar as notas dos primeiros dantistas como Boccaccio e Andrea Lancia (Ottimo Commento). Notas explicativas, compiladas a partir de diversas fontes, estão presentes nesta edição . Além das explicações sobre personagens e fatos históricos, as notas também contém interpretações de símbolos do Inferno. Retirado da Introdução de Helder da Rocha CANTO I Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirálo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso.


Dante o segue. DA nossa vida, em meio da jornada, Achei-me numa selva tenebrosa, 3 Tendo perdido a verdadeira estrada. Dizer qual era é cousa tão penosa, Desta brava espessura a asperidade, 6 Que a memória a relembra inda cuidosa. Na morte há pouco mais de acerbidade; Mas para o bem narrar lá deparado 9 De outras cousas que vi, direi verdade. Contar não posso como tinha entrado; Tanto o sono os sentidos me tomara, 12 Quando hei o bom caminho abandonado. Depois que a uma colina me cercara, Onde ia o vale escuro terminando, 15 Que pavor tão profundo me causara. Ao alto olhei, e já, de luz banhando, Vi-lhe estar às espaldas o planeta, 18 Que, certo, em toda parte vai guiando. Então o assombro um tanto se aquieta, Que do peito no lago perdurava, 21 Naquela noite atribulada, inquieta. E como quem o anélito esgotava Sobre as ondas, já salvo, inda medroso 24 Olha o mar perigoso em que lutava, O meu ânimo assim, que treme ansioso, Volveu-se a remirar vencido o espaço 27 Que homem vivo jamais passou ditoso. Tendo já repousado o corpo lasso, Segui pela deserta falda avante; 30 Mais baixo sendo o pé firme no passo. Eis da subida quase ao mesmo instante Assoma ágil e rápida pantera 33 Tendo a pele por malhas cambiante. Não se afastava de ante mim a fera; E em modo tal meu caminhar tolhia, 36 Que atrás por vezes eu tornar quisera. No céu a aurora já resplandecia, Subia o sol, dos astros rodeado, 39 Seus sócios, quando o Amor divino um dia A tais primores movimento há dado. Me infundiam desta arte alma esperança 42 Da fera o dorso alegre e mosqueado, A hora amena e a quadra doce e mansa. De um leão de repente surge o aspecto, 45 Que ao meu peito o pavor de novo lança. Que me investisse então cuido inquieto; Com fome e raiva atroz fronte levanta; 48 Tremer parece o ar ao seu conspeto. Eis surge loba, que de magra espanta; De ambições todas parecia cheia; 51 Foi causa a muitos de miséria tanta! Com tanta intensa torvação me enleia Pelo terror, que o cenho seu movia, 54 Que a mente à altura não subir receia. Como quem lucro anela noite e dia, Se acaso o tempo de perder lhe chega, 57 Rebenta em pranto e triste se excrucia, A fera assim me fez, que não sossega; Pouco a pouco me investe até lançar-me 60 Lá onde o sol se cala e a luz me nega. Quando ao vale eu já ia baquear-me Alguém fraco de voz diviso perto, 63 Que após largo silêncio quer falar-me. Tanto que o vejo nesse grão deserto, — “Tem compaixão de mim” — bradei transido — 66 “Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!” “Homem não sou” tornou-me — “mas hei sido, Pais lombardos eu tive; sempre amada 69 Mântua lhes foi; haviam lá nascido. “Nasci de Júlio em era retardada, Vivi em Roma sob o bom Augusto, 72 Quando em deuses havia a crença errada. “Poeta, decantei feitos do justo Filho de Anquíses, que de Tróia veio, 75 Depois que Ílion soberbo foi combusto. “Mas por que tornas da tristeza ao meio? Por que não vais ao deleitoso monte, 78 Que o prazer todo encerra no seu seio?” “— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte Donde em rio caudal brota a eloqüência?” 81 Falei, curvando vergonhoso a fronte. — “Ó dos poetas lustre, honra, eminência! Valham-me o longo estudo, o amor profundo 84 Com que em teu livro procurei ciência! “És meu mestre, o modelo sem segundo; Unicamente és tu que hás-me ensinado; 87 O belo estilo que honra-me no mundo. “A fera vês que o passo me há vedado; Sábio famoso, acude ao perseguido! 90 Tremo no pulso e veias, transtornado!” Respondeu, do meu pranto condoído; “Te convém outra rota de ora avante 93 Para o lugar selvagem ser vencido.

“A fera, que te faz bradar tremante, Aqui passar não deixa impunemente; 96 Tanto se opõe, que mata o caminhante. “Tem tão má natureza, é tão furente, Que os apetites seus jamais sacia, 99 E fome, impando, mais que de antes sente. “Com muitos animais se consorcia, Há-de a outros se unir té ser chegado 102 Lebréu, que a leve à hórrida agonia. “Por ouro ou por poder nunca tentado Saber, virtude, amor terá por norte, 105 Sendo entre Feltro e Feltro potentado. “Será da humilde Itália amparo forte, Por quem Camila a virgem dera a vida, 108 Turno Eurialo, Niso acharam morte. “Por ele, em toda parte, repelida Irá lançar-se no infernal assento, 111 Donde foi pela Inveja conduzida. “Agora, por teu prol, eu tenho o intento De levar-te comigo; ir-te-ei guiando 114 Pela estância do eterno sofrimento, “Onde, estridentes gritos escutando, Verás almas antigas em tortura 117 Segunda morte a brados suplicando. “Outros ledos verás, que, em prova dura Das chamas, inda esperam ter o gozo 120 De Deus no prêmio da imortal ventura. “Se lá subir quiseres, um ditoso Espírito, melhor te será guia, 123 Quando eu deixar-te, ao reino glorioso. “Do céu o Imperador, a rebeldia Minha à lei castigando, não consente 126 Que eu da cidade sua haja a alegria. “Em toda parte impera onipotente, Mas tem no Empíreo sua augusta sede: 129 Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!” — “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede, Por esse Deus, que nunca hás conhecido, 132 Porque este e maior mal de mim se arrede. “Que, até onde disseste conduzido, À porta de São Pedro eu vá contigo E veja os maus que houveste referido”. 136 Move-se o Vate então, após o sigo. 1. Em meio etc. Aos 35 anos. Dante tinha 35 anos no dia 25 de março de 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Jubileu. — 2. Tenebrosa etc., simbólica selva dos vícios humanos. — 32. Pantera, símbolo da luxúria e da fraude; politicamente, de Florença. — 44. Um leão, símbolo da soberba e da violência; politicamente, da França. — 40.

Loba, símbolo da avareza e da incontinência; politicamente da Cúria Romana. — 62. Alguém etc., o poeta Virgílio Maro, símbolo da razão humana. — 105. Entre Feltro e Feltro, entre Montefeltro e Feltro. — 122. Espirito melhor, Beatriz, a mulher que Dante amou. De um leão de repente… CANTO II Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho. FORA-se o dia; e o ar, se enevoando, Aos animais, que vivem sobre a terra, 3 As fadigas tolhia; eu só, velando, Me aparelhava a sustentar a guerra Da jornada, assim como da piedade, 6 Que vai pintar memória, que não erra. Ó Musas! Ó do gênio potestade! Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste 9 Quanto vi, mostra a egrégia qualidade. “Poeta”, — assim falei, — “que começaste A guiar-me, vê bem se em mim persiste 12 Calor que, à empresa que me fias, baste. “Que o pai do Sílvio fora, referiste, Corrutível ainda, até o inferno 15 Sem perder o que em corpo humano existe. “Se do mal assim quis o imigo eterno, Origem vendo nele do alto efeito, 18 O que e o qual, segundo o que discerno, “Pela razão bem pode ser aceito; Que para Roma e o império se fundarem 21 Fora no céu por genitor eleito; “À qual e ao qual cabia aparelharem, Dizendo-se a verdade, o lugar santo 24 Aos que do maior Pedro o sólio herdaram. “Nessa empresa, em que o hás louvado tanto, Cousas ouviu, de que surgiu motivo 27 Ao seu triunfo e ao pontifício manto. “Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo: Conforto ia buscar, à fé, que à estrada 30 Da salvação princípio é decisivo. “Por que irei? Quem permite esta jornada? Enéias, Paulo sou? Essa ventura 33 Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada. “Receio, pois seja ato de loucura, Se eu me resigno a cometer a empresa. 36 Supre, és sábio, o que digo em frase escura”. Como quem ora quer, ora despreza, Sua alma a idéias novas tem disposta, 39 Mostrando aos seus desígnios estranheza, Assim fiz eu na tenebrosa encosta, Porque, pensando, abandonava o intento, 42 Formado à pressa, que ora me desgosta. “Do teu dizer se atinjo o entendimento” — Do magnânimo a sombra me tornava, — 45 “Eivado estás de ignóbil sentimento, “Que do homem muita vez faz alma ignava, Das honrosas ações o desviando, 48 Qual sombra, que o corcel ao medo trava. “Desse temor livrar-te desejando, Por que vim te direi e quanto ouvido 51 Hei logo ao ver-te mísero lutando. “No Limbo era suspenso: eis requerido Por Dama fui tão bela, tão donosa, 54 Que as ordens suas presto lhe hei pedido. “Brilhavam mais que a estrela radiosa Os seus olhos; suave assim dizia 57 De anjo com voz, falando-me piedosa: — “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia No mundo gozas fama tão sonora, 60 Que, enquanto existir mundo, mais se amplia, “Amigo meu, que a sorte desadora, Pela deserta falda indo, impedido 63 De medo, atrás os passos volta agora.

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