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A Docura da Chuva – Deborah Smith

No mundo inocente da minha mãe, baseado nos desenhos animados das manhãs de sábado, os bebés, com faixas a dizerem o respectivo nome, flutuavam por cima de jardins coloridos ao serem entregues por uma cegonha celestial. Lily Akens não tinha motivos para duvidar da obstetrícia dos programas de televisão. O meu pai adolescente, Mac Tolbert, sabia mais do que ela, pois muitas vezes auxiliava no parto dos bezerros e dos potros em River Bluff, a quinta da sua família no Norte da Florida, mas não sabia como explicar o processo à minha mãe. Além disso, não tinha a certeza se os bebés humanos nasciam da mesma maneira que os animais. Só podia partir do princípio de que o bebé saía pelo mesmo sítio por onde tinha entrado. – Lily, L-Lily, não ch-chores – gaguejou Mac, ajoelhando-se a seu lado, sem saber o que fazer, na escuridão pegajosa, subtropical, enxotando os mosquitos que esvoaçavam no clarão trémulo da sua lanterna. Os pinheiros altos baloiçavam por cima deles sob a brisa do pântano. As rãs coaxavam no fundo dos ribeiros. Algures, fez-se ouvir um aligátor. As florestas escuras da Florida interior respiram e falam durante a noite, arrancando memórias misteriosas ao leito de calcário poroso. Embora longe de ambos os oceanos, o ar traz um leve vestígio de água salgada. – Mas dói! – soluçou Lily. A sua bata barata, às flores, estava ensopada em fluidos e amarrotada à volta das ancas. – Acho que é m-mesmo assim – disse-lhe Mac. – T-talvez d-devas levantarte. C-como uma égua. – Acho que não consigo! Oh, Mac! Dói tanto! Mac! Há qualquer coisa a querer sair de mim lá por baixo! A tremer, Mac apontou a lanterna para o meio das pernas dela. Os cavalos e os bezerros quando nasciam apresentavam em primeiro lugar as patas da frente, como se estivessem a mergulhar no mundo. Mac olhou com atenção mas não viu mãos de bebé, apenas o crânio ensanguentado de uma cabeça minúscula. A visão aterrorizou-o, mas escondeu as emoções. Tinha de ser forte, por Lily. Eles eram diferentes dos outros adolescentes; tomavam conta um do outro desde a infância. – É só o b-bebé. Parecia mais confiante do que na verdade se sentia. Sabia como dar a volta a um bezerro ou a um potro atravessado, mas não se conseguia imaginar a enfiar a mão enorme dentro de Lily.


– Mac! Está a mexer-se! Segurou-lhe nas mãos enquanto ela se sentava. Lily baloiçou-se para trás e para a frente. Os calcanhares dos ténis dela rasgaram sulcos no solo macio e húmido. Lily começou a gritar. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, calou-se e deixou-se cair contra Mac. – O bebé caiu – gemeu ela. – Porque não está a flutuar? Deve ter alguma coisa errada. Oh, Mac… O meu pai apontou de novo a lanterna para o meio das coxas dela. Ele e a minha mãe ficaram a olhar, horrorizados. Nenhum deles tinha alguma vez visto uma criança recém-nascida. Eu não era uma bonequinha engraçada ou um querubim sorridente. Estava quase roxa. Tinha a cabeça amolgada. Um muco sanguinolento colava-me ao crânio uma madeixa fina de cabelo ruivo. Abri a boca e engoli uma grande golfada de ar. Para eles, o meu esforço parecia o arquejar de um moribundo. Debruçaram-se sobre mim e choraram. Depois a luz de várias lanternas cortou a escuridão da floresta. O irmão mais velho de Mac, Glen, foi quem os encontrou primeiro. – Que raio é que vocês fizeram? – perguntou. Mac e Lily soluçaram. Antes que pudessem segurar-me nos braços uma única vez, antes de se aperceberem de que eu estava viva e era normal, fui-lhes retirada. Só depois de adulta viria a saber da existência de Mac e Lily. Só depois de adulta viria a saber que eles me tinham feito vir ao mundo nas florestas da Florida. Só depois de adulta saberia que eles me desejavam.

Era já adulta e órfã quando voltei a nascer na vida dos meus pais. Ben O dia em que a minha vida mudou, 1977 O meu irmão mais novo, Joey, nasceu a sorrir. Eu soube desde logo que era apenas uma questão de tempo até ele morrer, mas a vida é um rio extenso se não perdermos a esperança. Os rios ladeados de ciprestes negros da nossa Florida – a Florida real, não a Florida do Rato Mickey e dos flamingos de plástico – prometem às pessoas que viverão para sempre. É por isso que tantos idosos se mudam para cá. Naquele dia, o meu pai e eu aguardámos que a minha mãe desse à luz numa clínica do Estado. Esperámos no exterior, à sombra dos carvalhos, protegendo-nos do sol escaldante dos pântanos do Sul da Florida. Passámos o tempo a matar mosquitos e a fugir às vespas que viviam nos palmitos. Parecia que não havia mais nada à nossa volta a não ser floresta e aligátores. Tentei não me queixar, porque o meu pai dizia que os cowboys nunca se queixavam. Tínhamos percorrido de carro os mais de trezentos quilómetros desde o rancho de gado perto de Ocala, a sul, onde o meu pai trabalhava como capataz – vivíamos uma vida simples, numa caravana enferrujada e amolgada por um tornado – até à reserva dos índios Seminole, só para que a minha mãe pudesse ser tratada de graça. O meu pai tinha sangue Seminole, por isso podia internar a minha mãe na clínica sem pagar nada, apesar de ela ser branca. Ele tinha o seu orgulho de cowboy, e aceitar esmolas do povo do avô Thocco era melhor do que aceitar esmolas de desconhecidos. A loucura era que, ali, estávamos na parte mais miserável do fim do mundo, onde os índios ainda viviam em cabanas com telhado de colmo chamadas chickees e os turistas ainda pagavam para ver os Seminoles, como o meu avô, lutar corpo a corpo com os aligátores. Mas se conduzíssemos duas horas para nordeste, podíamos ver os foguetões partirem para a Lua no Cabo Canaveral. Se conduzíssemos cerca de uma hora para sudeste, podíamos sentar-nos numa praia em Fort Lauderdale a olhar para universitárias praticamente nuas. Eu tinha nove anos, estávamos em 1977, e queria ver universitárias de biquíni. Mas tinha de estar do lado de fora daquela clínica com o meu pai. – Olha – disse ele, endireitando o chapéu de palha na cabeça. Há horas que não parava de andar de um lado para o outro. De andar e de fumar e de olhar para a clínica. Fiquei contente por haver finalmente algo que o distraísse. – Ali. Na orla dos carvalhos. Protegi os olhos semicerrados com a mão e vi cavalos selvagens a espreitarem por trás das barbas-de-velho que cresciam nas árvores.

Eram pequenos e esguios, mas farejavam o ar com uma atitude régia. – Aqueles cavalos não parecem grande coisa – continuou o meu pai mas não te esqueças deles, Ben. São Crackers. Como nós. Na nossa parte da Florida, havia muitas coisas que eram consideradas Cracker. Cauda de aligátor frita, pão de milho índio, casas com telhado de zinco, pequenos cavalos resistentes, gado Longhorn, porcos selvagens e pessoas miseravelmente pobres. Não tinha nada a ver com cor e não tinha nada a ver com religião. Tinha a ver com sobrevivência. Os sobreviventes eram Crackers. – Aqueles cavalos são descendentes da velha linhagem espanhola – disse o meu pai. – Como os Mustangs, no Oeste. Não há animal nenhum com quatro cascos que seja mais orgulhoso, mais inteligente ou mais resistente. Alguns até têm um porte diferente, como os cavalos espanhóis acabados de sair dos barcos, há centenas de anos. Já não restam muitos. São bons cavalos e alguns conseguem correr como o vento. Será uma pena se se extinguirem. – Vamos apanhar alguns – murmurei. Tal como o meu pai, eu estava interessado em salvar aquilo de que nos podíamos orgulhar. Ele concordou. – Quando eu ganhar dinheiro suficiente para comprar um rancho, havemos de ter uma manada de cavalos Cracker. Aquela promessa ficou-me na cabeça. Os sonhos dele eram os meus. Se ele não conseguisse realizá-los, eu fá-lo-ia. – Havemos de fazer isso – concordei. – Nós e o bebé novo.

Espero que seja um rapaz. Ou, pelo menos, uma rapariga que goste de cavalos. – Mr. Thocco – chamou o médico. Eu e o meu pai fomos a correr. O médico deteve-nos à porta da clínica. Era um homem grande e corpulento, com cabelo louro e fino, e um sinal vermelho na bochecha. Louro com pele clara é uma má combinação sob o sol da Florida. Ele limpou o suor do rosto, apesar do ar condicionado. Olhou para mim com um sorriso falso. – Porque não vais dar uma voltinha enquanto eu converso com o teu pai? Lancei um olhar determinado ao meu pai. Os cowboys não davam voltinhas. – Não – disse o meu pai. – O Ben é um homem. Pode ouvir. – Muito bem – o médico não fez rodeios. – A sua mulher está bem, mas o senhor tem um filho com muitos problemas de saúde. O meu pai empalideceu um pouco sob a pele morena. A sua tez passou de cor de carvalho a cor de pinho. Isso assustou-me. – Que tipo de problemas? – Tem um problema de coração com tendência para piorar com a idade. Lamento, mas calculo que, na melhor das hipóteses, não viverá mais do que alguns anos. Senti os joelhos enfraquecerem. O meu pai levou um cigarro aos lábios e acendeu-o com um isqueiro em forma de cabeça de cavalo. A sua mão parecia firme, mas a chama vacilou.

– Essa é a pior notícia? – Não, senhor, receio que não. O seu filho… tem aquilo a que chamamos Síndrome de Down. O meu pai apertou o cigarro entre o polegar e o indicador. – Que diabo é isso? – Ele é… atrasado mental. Débil. «Deficiente mental» é o termo politicamente correcto. O atraso pode ser grave ou pode ser moderado. Seja como for, não é bom. Achei que o meu coração ia parar. Um atrasado mental. Eu sabia o que eram atrasados mentais. Já os tinha visto nos centros comerciais em Ocala. Os atrasados babavam-se e faziam caras estúpidas. Era preciso fazer um esforço para não olhar para eles. A minha mãe dizia que era má educação olhar. Mas toda a gente sabia que um atrasado era alguém que se devia esconder, para que as pessoas normais não fossem obrigadas a olhar para ele. Os atrasados não eram pessoas verdadeiras. Se nascia um atrasado na família, queria dizer que havia algo errado com toda a linhagem. Se fossemos cavalos ou touros, depois disso ninguém quereria cruzar as suas éguas ou vacas connosco. O meu pai atirou lentamente o cigarro para o solo arenoso e esmagou-o com a biqueira da bota muito usada. – Tenho de ver com os meus próprios olhos. O médico mandou-nos entrar. Havia apenas uma recepção apertada e três pequenos quartos num corredor estreito. Uma enfermeira seminole lançou-nos um olhar penetrante de trás de uma secretária desarrumada. Afinal de contas, tínhamos um atrasado mental na família.

A clínica cheirava a metal frio e a linimento. Eu estava agoniado. O médico apontou para uma porta. – A sua mulher está aqui – depois apontou para outra. – O bebé está ali. – Espera aqui – disse-me o meu pai. Entrou no quarto da minha mãe, seguido pelo médico. Eu dirigi-me à segunda porta. – Não entres aí, rapaz – disse a enfermeira. – Não queres ver aquele bebé feio. – É o meu irmão, minha senhora, e cale essa boca. Eu nunca falara assim com uma mulher. Os meus pais tinham-me educado bem. Mas também nunca tinha sido o irmão mais velho de um deficiente mental de coração fraco. A vergonha e o orgulho debatiam-se dentro de mim. Comecei a defender o meu maninho bebé desde o princípio, apesar de desejar que ele nunca tivesse nascido. Entrei no quarto dele. O bebé estava embrulhado em lençóis, dentro de uma incubadora. Encostei a cabeça ao vidro, engoli em seco e, lentamente, com os olhos semicerrados de medo, olhei para ele. Ele devolveu-me o olhar, ou pelo menos tentou, tão bem quanto qualquer bebé consegue focar a visão. Tinha a cabeça grande de mais e o rosto achatado. Os seus olhos eram enviesados, como os de um rapaz chinês que eu vira num rodeo em Tallahassee. Era escanzelado. A sua pele tinha uma estranha tonalidade azulada. Mas não era feio.

Tinha o cabelo preto dos Seminole, como eu e o meu pai. Tinha o narizinho engraçado, como o da minha mãe. Tinha no rosto a minha expressão séria. E sorriu. Sorriu-me. Encostei a testa ao vidro que o separava de mim e chorei. Foi a primeira e a última vez que o deixei ver-me chorar por ele. Foi então que percebi: «Ele é um cavalo Cracker. Tenho de o considerar como um ser especial, alguém que vale a pena salvar.» O meu pai acabou por aparecer, olhou para o bebé sem uma palavra e, finalmente, apoiou a grande mão calejada na incubadora. Pousou a outra no meu ombro. Senti-a tremer ligeiramente. – O que achas, Ben? – Ele é um Cracker – declarei com firmeza. – Se nós não lhe dermos uma oportunidade de provar o que vale, quem é que lha dará? O meu pai apertou-me o ombro. – Nesse caso, estamos de acordo. A tua mãe vai ficar orgulhosa de ti. Orgulhosa de nós os dois. Ela ama-o. – Então nós também o amamos – disse eu. – Há sítios para onde pode mandar este bebé, Mr. Thocco – disse o médico atrás de nós. – O Estado tem algumas instituições onde cuidarão dele. Não terá de pagar nada para o ter lá. Quer falar sobre as casas onde ele… – Ele chama-se Joseph – disse o meu pai. – Era o nome do meu avô.

– Um sítio para o Joseph… – Joey – disse eu. – Joey – concordou o meu pai. Joey precisaria de toda a ajuda que lhe pudéssemos dar. Seriam precisos dois homens e uma mãe para apoiá-lo ao longo do caminho. Endireitei as costas. Nós éramos capazes. Éramos cowboys. O médico continuou a tentar. – Um sítio… – Sim – disse o meu pai. Virou-se para o médico com um olhar gélido. – Chamamos «casa» a esse sítio. Levámos Joey e a minha mãe para Ocala no dia seguinte, íamos dar o nosso melhor. E sabem que mais? Joey merecia o melhor. Apesar de eu e o meu irmão termos ficado órfãos mais cedo do que esperávamos. Apesar de a missão de encontrar um lar para nós vir a exigir muito mais sacrifícios do que eu imaginara. Nunca mais desejei que ele não tivesse nascido. Mas, às vezes, desejava não ter nascido eu. Parte Um «Enquanto uma pessoa não descobrir que o dinheiro é a raiz de todo o bem, está a pedir a sua própria destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio através do qual os homens lidam uns com os outros, então os homens tornam-se os instrumentos de outros homens. Sangue, chicotes e armas – ou dólares. Escolha – não há outras opções.» Ayn Rand , Atlas Shrugged Capítulo 1 Kara Reserva Dos Rios, Brasil Eu adorava a história do meu nascimento. Os meus pais tinham-na contado tantas vezes que se tornara uma fábula. O conto de fadas da minha própria vida. Ali estavam eles, Charles e Elizabeth Whittenbrook, um casal abastado e considerado, dois dos ambientalistas mais aclamados do mundo, a quem era atribuído o crédito de terem salvado grandes áreas da floresta tropical.

Tinham casado «no final da juventude», como o meu pai gostava de dizer, e a minha mãe conseguira finalmente engravidar do seu primeiro filho, há muito esperado e desejado, eu mesma. Eram extraordinariamente felizes no seu refúgio brasileiro, Dos Rios, nas profundezas do coração da Amazónia, enquanto aguardavam o nascimento da filha. Certo dia chegou um pedido de ajuda aos escritórios da reserva, pelo rádio. O filho de uma família índia local ferira-se. Podiam os meus pais ajudar? Naturalmente, apesar de a minha mãe estar grávida de nove meses, ela e o meu pai prepararam um saco com material de primeiros socorros e partiram a cavalo. Salvaram a vida da criança e preparavam-se para voltar para casa. Subitamente, a minha mãe entrou em trabalho de parto. As mulheres da tribo instalaram-na confortavelmente numa esteira de junco, na cabana do xamã, e ali, sob o luar da Amazónia, eu nasci. Enquanto a minha mãe me segurava nos braços nus, um ancião da tribo ofereceu aos meus pais o mais raro dos presentes em honra do meu nascimento – uma arara-azul-claro. A minha mãe, no seu sotaque inglês impecável, com o seu amor pelos romances de Jane Austen, anunciou que me daria o nome de Karaja, em homenagem à tribo nativa mais conhecida do Brasil, mas que a ave oferecida em minha honra se chamaria Mr. Darcy, o nome da famosa personagem do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

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