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A Espada de Sharpe – Bernard Cornwell

O homem alto que ia a cavalo era um assassino. Era forte, de aspecto saudável, e cruel. Alguns opinavam que era muito jovem para ser um coronel da Guarda Imperial de Napoleão, mas ninguém tentava se aproveitar de sua juventude. Uma simples olhada para seus estranhos olhos pálidos, de pestanas pálidas, que conferiam a seu rosto forte e elegante a frieza da morte, era suficiente para que os homens mostrassem respeito ao coronel Leroux. Leroux era o homem do imperador. Ia aonde Napoleão o enviava e realizava os encargos de seu amo com uma destreza e eficiência impiedosas. Agora se encontrava na Espanha, fora enviado pelo imperador, e o coronel Leroux acabava de cometer um erro. Era consciente disso e havia maldito a si mesmo, mas também estava planejando a maneira de escapar do apuro em que se metera. Tinha caído em uma armadilha. Cavalgara com uma escolta de cavalaria até um povoado mísero encravado na borda das extensas planícies de León e lá encontrou o seu homem, um sacerdote. Torturou-o arrancando-lhe a pele polegada por polegada, e finalmente, é claro, o sacerdote falou. Todos acabavam falando ao coronel Leroux. Contudo desta vez havia demorado demais. No momento da vitória, no momento exato em que o sacerdote não pôde aguentar mais a dor e gritou o nome que Leroux tinha vindo ouvir, a cavalaria alemã irrompeu no povoado. Os homens da Legião Alemã do rei, que lutavam do lado da Grã-Bretanha nesta guerra, massacraram os dragões franceses, levantando suas espadas e deixandoas cair ao mesmo tempo em que os cascos de seus cavalos martelavam debaixo dos gritos de dor. Mas o coronel Leroux tinha fugido. Fugiu com um oficial de menor graduação. Um capitão da escolta da cavalaria, e juntos cavalgaram desesperadamente para o norte, abrindo passagem por entre um grupo de alemães, e depois, uma hora mais tarde, pararam no extremo de um bosque próximo a um arroio que escorria com viveza para o rio Tormes. O capitão dos dragões olhou para trás. — Nós os despistamos. — Não — contestou o coronel. O cavalo de Leroux mostrava linhas de suor branco, tinha as ilhargas estiradas para trás enquanto que o coronel sentia que o terrível calor do sol o fundia dentro de seu vistoso uniforme; uma casaca vermelha com rebordos dourados, calças verdes com reforços de couro e com botões de prata ao longo de cada perna. Seu grande chapéu de pele negra, tão grosso que podia frear um golpe de sabre dado contra a cabeça, pendia da sela. A leve brisa não conseguia agitar-lhe o cabelo loiro e colado pelo suor. De repente deu um sorriso para seu companheiro.


— Como se chama? O capitão se sentiu aliviado ao perceber o sorriso. Tinha medo de Leroux, e esta repentina e inesperada amabilidade era uma mudança agradável. — Delmas, senhor. Paul Delmas. O sorriso de Leroux estava cheio de encanto. — Bem, Paul Delmas. Até aqui havemos feito grandes coisas! Vejamos se podemos despistá-los de verdade. Delmas se sentiu bajulado por aquela familiaridade e lhe devolveu o sorriso. — Sim, senhor. Voltou a olhar para trás e tampouco viu nada, salvo a grama esbranquiçada, que permanecia em silêncio debaixo do calor. Não se via nenhum movimento exceto as ondulações da grama provocadas pelo vento e um falcão solitário e ameaçador que com as asas imóveis sulcava o amplo céu azul. O coronel Leroux não se enganava com aquele vazio. Viera examinando o terreno enquanto cavalgavam e sabia que os alemães, como bons profissionais, andavam pela planície cercando-a para fazer que os fugitivos se dirigissem para o rio. Também sabia que os britânicos marchavam para o leste e que alguns de seus homens iriam seguindo o curso do rio, e supôs que ele e seu companheiro se encaminhavam para uma emboscada. Isso mesmo. Estava cercado e em desvantagem numérica, mas não vencido. Não podiam vencê-lo. Nunca o tinham vencido e agora, muito mais que outras vezes, tinha que chegar até onde estava o exército francês para pôr-se a salvo. Aproximara-se muito do êxito, e quando concluísse sua missão feriria ao exército britânico, que não havia sofrido muitas feridas nesta guerra. Sentiu que o prazer lhe invadia diante de tal pensamento. Por Deus que os feriria! Fora enviado à Espanha para descobrir a identidade de O Mirante, e esta tarde o havia conseguido; agora só faltava levar O Mirante a alguma câmara de tortura e espremê-lo até que o espião britânico soltasse os nomes de todos os correspondentes que tinha na Espanha, Itália e França, que lhe enviavam mensagens para Salamanca. O Mirante recolhia informação de todo o império de Napoleão e, ainda que os franceses conhecessem há tempos seu nome em código, não tinhamconseguido descobrir sua identidade. Leroux, sim, conseguira-o e por isso devia escapar dessa armadilha, tinha que levar seu preso de volta para a França e lá destruiria a rede de espiões britânicos que trabalhava para O Mirante. Mas primeiro devia evitar aquela armadilha. Deixou que seu cavalo entrasse no denso e fresco verdor do bosque.

— Venha, Delmas! Ainda não estamos acabados! Encontrou o que queria justo a umas poucas jardas bosque adentro. Havia uma faia caída e como tronco apodrecido diante de uma maranha de espinheiros e folhas que o vento tinha arrastado no outono anterior. Leroux desmontou. — Ao trabalho, Delmas! — disse com voz otimista e alegre. Delmas não entendia o que estavam fazendo, tinha medo de perguntar, mas seguiu o exemplo de Leroux e tirou a casaca. Ajudou o coronel a limpar a zona detrás do tronco, um esconderijo, e Delmas se perguntou se teriam que ficar de cócoras em tão espinhosa e incômoda posição até que os alemães abandonassem a perseguição. Dirigiu um sorriso tímido para Leroux. — Onde ocultamos os cavalos? — Um momento — disse Leroux sem responder ao que lhe perguntava. Parecia que o coronel estivesse medindo o esconderijo. Desembainhou a espada e a cravou no sarçal. Delmas observou a espada. Era uma arma de excelente artesanato, uma espada pesada de cavalaria, de lâmina reta feita em Kligenthal, como a maioria das espadas da cavalaria francesa. Mas esta fora feita pelo melhor artesão de Kligenthal especialmente para Leroux. Era mais comprida que a maioria das espadas e também mais pesada, pois Leroux era um homem alto e forte. A folha era bonita, um resplendor de aço entre a luz manchada de verde do bosque, e a empunhadura e o guarda-mão eram feitos do mesmo aço. Um fio de prata envolvia a empunhadura e essa era sua única ornamentação, mas a pesar de sua simplicidade, a arma se revelava como uma lâmina bela, excelentemente equilibrada e mortífera. Segurar aquela espada, pensava Delmas, devia ser como saber o que sentia o rei Artur quando extraiu a Excalibur, suave como a seda cinza, da pedra do pátio da igreja. Leroux se endireitou, parecia contente. — Temos algo atrás de nós, Delmas? — Não, coronel. — Não deixe de observar. Não andam muito longe. Leroux supôs que lhe restavam dez minutos, e isso era mais que suficiente. Sorriu ao olhar as costas de Delmas, calculou a distância e investiu. Queria que essa morte fosse rápida, indolor e com o mínimo de sangue. Não queria que Delmas gritasse e sobressaltasse quem pudesse estar no interior do bosque.

A folha, tão dura como o dia em que saíra das mãos do artesão, atravessou a base da cabeça de Delmas. A força de Leroux, a tremenda força de Leroux, fez que atravessasse o osso, a medula espinhal, até o cérebro. Ouviu-se um suspiro suave e Delmas caiu para frente. Silêncio. Leroux supunha que o capturariam e também sabia que os britânicos não deixariam que Leroux fosse trocado por um coronel britânico capturado pelos franceses. Leroux era um homem procurado por seus próprios méritos. Atuava mediante o medo, semeava o horror apenas com seu nome e em todas suas vítimas, uma vez mortas, deixava inscrito seu nome. Deixava um pedaço de pele intacto e nesse pedaço cortava duas palavras. Leroux fecit. Como se fosse a vaidade de um escultor que alardeia ante uma obra bonita, deixava sua marca. “Leroux o fez.” Se Leroux fosse capturado não podia esperar clemência. Contudo, os britânicos não dariam nada pelo capitão Paul Delmas. Trocou de uniforme com o cadáver, movendo-se com sua rapidez e eficiência habituais, e quando terminou arrastou seu uniforme, junto com o cadáver de Delmas, para o esconderijo. Rapidamente os cobriu com folhas e espinheiros e deixou o corpo à mercê das bestas. Fez o cavalo de Delmas se afastar sem se importar aonde ia e depois montou seu próprio cavalo, colocou o capacete alto de bronze de Delmas na cabeça e girou para o norte, para o rio onde esperava ser capturado. Ia assobiando enquanto levava o cavalo à passo, não tentava ocultar sua presença, do seu lado pendia a espada perfeita e em sua cabeça hospedava o segredo que deixaria os britânicos cegos. Leroux não podia ser vencido. Capturaram-no vinte minutos mais tarde. Os casacas-verdes britânicos, os fuzileiros, surgiramde repente de seus esconderijos no interior do bosque e o rodearam. Por um momento Leroux achou que tinha cometido um grande erro. Sabia que o exército britânico estava ao comando de cavalheiros, homens que levavam a honra a sério, mas o oficial que o capturou parecia tão rude e forte como ele próprio. Era um oficial alto, curtido, de cabelo castanho que lhe caía rebelde por um rosto marcado com uma cicatriz. Ignorou as tentativas de Leroux em ser amável e ordenou que revistassem ao francês, e Leroux se alarmou quando um sargento enorme, ainda mais que o oficial, encontrou o papel dobrado entre a sela e a cobertor. Leroux simulou não saber falar inglês, mas trouxeram um fuzileiro que falava mal o francês e o oficial o interrogou a respeito do papel.

Era uma lista de nomes, todos eles espanhóis, e junto a cada nome havia uma soma de dinheiro. — Negociantes de cavalos — disse Leroux dando de ombros. — Compramos cavalos. Somos da cavalaria. O alto oficial dos fuzileiros ouviu a tradução e olhou o papel. Podia ser verdade. Deu de ombros e meteu o papel na mochila. O enorme sargento pegou a espada de Leroux e o francês percebeu uma repentina cobiça nos olhos do oficial dos fuzileiros. Ainda que fosse estranho para um soldado de infantaria, o fuzileiro também levava uma pesada espada de cavalaria, mas assim como a de Leroux era bonita e cara, a do oficial dos fuzileiros era barata e tosca. O oficial britânico empunhou a espada e comprovou seu perfeito equilíbrio. Gostou dela. — Pergunte-lhe como se chama. O fuzileiro que atuava como intérprete fez a pergunta e o francês respondeu: — Paul Delmas, senhor. Capitão do Quinto dos dragões. Leroux viu como os olhos castanhos se colocavam nele. A cicatriz que tinha o fuzileiro na cara lhe dava um aspecto jocoso. Leroux reconheceu a dureza e aptidão do homem, também captou a tentação do fuzileiro de matá-lo ali mesmo e ficar com a espada. Leroux deu uma olhada para a clareira do bosque. O outro fuzileiro parecia igualmente impiedoso e duro. Leroux voltou a falar. — Quer dar sua palavra, senhor — traduziu o fuzileiro. O oficial dos fuzileiros se ficou calado um momento. Caminhava lentamente ao redor do prisioneiro, com a bonita espada ainda em sua mão, e quando falou o fez lentamente e com clareza. — E o que faz o capitão Delmas sozinho? Os oficiais franceses não viajam sozinhos, têm muito medo dos guerrilheiros. Tinha voltado a ficar diante de Leroux e o francês, com seus olhos pálidos, observava o oficial da cicatriz.

— E o senhor é um maldito convencido, Delmas. Deveria estar mais assustado. Não nos serve para nada. — Estava atrás de Leroux agora. — Acho que vou matá-lo. Leroux não reagiu. Não pestanejou, não se moveu, apenas esperou até que o oficial dos fuzileiros estivesse de novo na sua frente. O alto oficial dos fuzileiros olhou fixamente nos olhos pálidos como se fossem lhe dar a chave do enigma que explicava a súbita aparição do oficial. — Traga-o, sargento. Mas vigie este sacana. — Sim, senhor! O sargento Patrick Harper empurrou o francês para a vereda e seguiu ao capitão Richard Sharpe até fora do bosque. Leroux se relaxou. O momento da captura era sempre o de maior perigo, mas o alto fuzileiro o punha a salvo e com ele ia o segredo que Napoleão esperava. O Mirante. CAPÍTULO 1 -M aldito seja, Sharpe! Se apresse, homem! — Sim, senhor. Sharpe não fez gesto de apressar-se. Lia cuidadosamente o pedaço de papel consciente que sua lentidão irritava ao tenente-coronel Windham. O coronel deu um golpe em sua bota com o rebenque. — Não temos o dia todo, Sharpe! Há uma guerra para se ganhar. — Sim, senhor. Sharpe repetiu as palavras com tom paciente e tenaz. Não ia se apressar. Essa era sua maneira de se vingar de Windham por ter permitido que o capitão Delmas desse sua palavra. Inclinou o papel para que a luz do fogo iluminasse a tinta negra. Eu, o abaixo assinante, Paul Delmas, capitão do Quinto Regimento de dragões, feito prisioneiro pelas forças inglesas em 14 de junho de 1812, prometo por minha honra que não tratarei de escapar nem abandonarei o cativeiro sem permissão e que não passarei nenhuma informação para as forças francesas ou a seus aliados, até que me tenham trocado, categoria por categoria, ou fique liberado deste compromisso.

Firmado, Paul Delmas Atua como testemunha, servidor, Joseph Forrest, comandante do Regimento South Essex de sua Majestade Britânica. O coronel Windham deu outro golpe seco com o rebenque e o ruído ressoou com força sob o frio gelado anterior ao amanhecer. — Maldito seja, Sharpe! — Parece que está correto, senhor. — Correto! Raios e centelhas, Sharpe! Quem é você para dizer o que está correto! Santo Deus! Eu digo que está correto! Eu! Recorda-se de mim, Sharpe? Seu comandante? Sharpe sorriu brincalhão. — Sim, senhor. Ele entregou a promessa a Windham que a pegou com grande cortesia. — Obrigado, senhor Sharpe. O senhor nos dá sua permissão para partirmos de uma maldita vez? — Adiante, senhor. Sharpe voltou a sorrir ironicamente. Nos seis meses que o coronel estava ao comando do South Essex, passou a gostar de Windham, apreço que era correspondido pelo coronel para com seu brilhante e obstinado capitão da Companhia Ligeira. Agora contudo, Windham estava impaciente. — Sua espada, Sharpe! Por Deus, homem! Aprece-se! — Sim, senhor. Sharpe se voltou para uma das casas do povoado onde o South Essex havia acampado. O amanhecer era como uma linha cinzenta ao leste. — Sargento! — Senhor! — A espada do maldito franchinote! — Sharpe! — protestou o coronel Windham com ar de resignação. Patrick Harper girou e gritou para o interior de uma das casas. — O senhor McDonald, senhor! A espada do cavalheiro francês, senhor, que se apresse um pouco, senhor! McDonald, o novo alferes de Sharpe, com apenas dezesseis anos e uma ânsia enorme por comprazer ao seu famoso capitão, saiu a toda pressa com uma bonita espada embainhada. Com a pressa, deu um tropeção, Harper o segurou e chegou até Sharpe e lhe deu a espada. Deus, quanto a desejava! Estivera manejando a arma durante a noite, havia comprovado seu equilíbrio, percebera o poder do aço brilhante e liso. Sharpe cobiçava aquela espada. Aquilo era algo de uma beleza letal, feito por um mestre, digno de um grande lutador. — Monsieur? — disse Delmas com voz suave e educada. Atrás de Delmas, Sharpe viu Lossow, o capitão da cavalaria alemã, seu amigo, que havia conduzido Delmas até a armadilha. Lossow também tinha empunhado a espada e sacudira a cabeça sem dizer nada, mas assombrado pela arma. Agora observava como Sharpe a entregava ao francês, símbolo de que ele havia dado sua palavra e de que se lhe podia confiar sua arma.

Windham suspirou profundamente. — Agora, talvez, podemos começar? A companhia ligeira marchava na frente, atrás da cobertura da cavalaria de Lossow, adentrando-se pelas planícies antes que o calor do dia aumentasse e os cegasse com o suor e os sufocasse com a poeira quente e arenosa. Sharpe ia a pé, ao contrário da maioria dos oficiais, porque sempre fora a pé. Alistara-se no exército como soldado raso, tinha usado a casaca vermelha dos regimentos de linha e marchava com um mosquete pesado pendurado ao ombro. Depois, muito depois, havia realizado o salto impossível de sargento para oficial e se unira aos fuzileiros de elite com sua característica casaca verde, mas Sharpe seguia marchando a pé. Era um homem de infantaria e andava da mesma forma que seus homens, e carregava um fuzil tal como eles carregavam seus fuzis ou mosquetes. O South Essex era um batalhão de casacas-vermelhas, mas Sharpe, o sargento Harper e o núcleo da companhia ligeira eram todos fuzileiros que estavam acidentalmente destinados no batalhão e conservavam com orgulho suas casacas verde-escuro. A luz cinza inundava a planície, o sol anunciava ao leste, com uma faixa de colorido vermelhopálido, o calor que ia fazer, e Sharpe via as sombras escuras da cavalaria perfilar-se contra o amanhecer. Os britânicos marchavam para o leste invadindo a Espanha ocupada pelos franceses, em direção à grande cidade de Salamanca. A maioria do exército estava longe, ao sul, e ia marchando por uma dúzia de rotas, enquanto que o South Essex, com os homens de Lossow e um punhado de engenheiros, fora enviado para o norte para destruir uma pequena fortaleza dos franceses que defendia um vau do outro lado do Tormes. Já tinham realizado aquele trabalho, o inimigo abandonara o forte e agora o South Essex marchava para unir-se às tropas de Wellington. Tardariam dois dias antes de voltar ao exército e Sharpe sabia que seriam dias de calor implacável, pois atravessavam a planície seca. O capitão Lossow se deixou atrasar para juntar-se a Sharpe. Fez-lhe um sinal com a cabeça para o fuzileiro. — Não confio no francês, Richard. — Eu tampouco. Lossow não se sentiu desalentado pelo tom seco de Sharpe. Estava acostumado ao mau humor matutino de Sharpe. — Acho estranho que um dragão tenha uma espada reta. Deveria ter um sabre curvo, não? — Sim — respondeu Sharpe fazendo um esforço para parecer mais sociável. — Deveríamos ter matado aquele sacana no bosque. — É verdade. É a única coisa que se pode fazer com os franceses. Matá-los. Lossow passou a rir.

Como a maioria dos alemães que havia no exército britânico, provinha de um país que tinha sido invadido pelas tropas de Napoleão. — Pergunto-me o que aconteceu ao segundo homem. — Você o perdeu. Lossow sorriu ironicamente ante aquela descortesia. — Assunto encerrado. Escondeu-se. Espero que os guerrilheiros o peguem. O alemão traçou com o dedo uma linha atravessando seu pescoço, insinuando o modo que os guerrilheiros espanhóis tratavam os franceses cativos. Depois sorriu para Sharpe. — Queria sua espada, né? Sharpe deu de ombros e disse a verdade. — Era. — Você a conseguirá, amigo! Você a conseguirá! — respondeu Lossow rindo, e depois avançou a trote até onde estavam seus homens. Ele, certamente, acreditava que Sharpe conseguiria a espada; contudo, se aquela espada o faria feliz era outra questão. Lossow conhecia a Sharpe. Sabia do espírito inquieto que o empurrava nesta guerra, um espírito que o levava de uma façanha a outra. Em uma ocasião, Sharpe quis capturar umestandarte francês, uma águia {1} , algo que um britânico nunca havia feito antes, e o conseguiu emTalavera. Depois tinha desafiado aos guerrilheiros, aos franceses, inclusive aos de seu próprio lado, atravessando a Espanha com o ouro, e ao fazer isto havia conhecido Teresa e a havia desejado {2} . Também a tinha conseguido, casara-se com ela a cerca de dois meses, depois de ser o primeiro homem a atravessar a brecha mortal de Badajoz {3} . Sharpe, suspeitava Lossow, geralmente conseguia o que queria, mas parecia que suas proezas nunca o deixavam satisfeito. Seu amigo, concluiu o alemão, era como um homem que, buscando uma vasilha com ouro, tinha encontrado dez e as rechaçara todas porque não tinham a forma adequada. Passou a rir ao pensar nisso. Marcharam durante dois dias, acampavam cedo e se punham em marcha antes do amanhecer e, na manhã do terceiro dia, o amanhecer mostrou uma mancha de fino pó no céu, um grande penacho que indicava o lugar onde a força principal de Wellington cobria as rotas que conduziam à Salamanca. O capitão Paul Delmas, chamativo com suas estranhas calças de cor ferrugem e com o capacete alto de bronze na cabeça, ultrapassou Sharpe esporeando seu cavalo para olhar fixamente a nuvem de poeira, como se esperasse ver debaixo dela as massas de infantaria, cavalaria e artilharia que marchavam para enfrentar-se às maiores forças da França. O coronel Windham seguiu ao francês, mas se deteve junto a Sharpe. — Um ginete excelente o maldito, Sharpe! — Sim, senhor.

Windham afastou para trás o bicorne e coçou a calva. — Parece um tipo bastante decente, Sharpe. — Falou com ele, senhor? — Santo céu, não! Eu não falo em franchinote. Snap! Venha aqui! Snap! — Windham gritava para um de seus cachorros farejadores, eternos companheiros do coronel. A maior parte da matilha havia ficado em Portugal, no quartel de verão, mas meia dúzia daqueles cachorros mimados de maneira escandalosa ia com o coronel. — Não, Leroy conversou com ele. Windham tinha arrumado para sugerir que o major americano era obrigado a falar francês, pois era estrangeiro. Os americanos eram raros, qualquer um era raro para Windham, se não tivesse o autêntico sangue inglês. — Já sabe que ele caça, não? — O major Leroy, senhor? — Não, Sharpe. Delmas. A verdade é que caçam de uma maneira bem estranha na França. Matilhas de cachorros de lã. Suponho que tentam nos copiar e não sabem como fazê-lo. — Provavelmente, senhor. Windham deu uma olhada para Sharpe para ver se estava zombando, mas o rosto do fuzileiro não revelava nada. O coronel tocou o chapéu cortesmente. — Não o distrairei mais, Sharpe. — Virou-se para a companhia ligeira. — Bem feito, safados! Marcha dura, hein? Logo terá acabado! Acabou ao meio-dia, quando o batalhão alcançou as colinas Minadas junto ao rio. Ummensageiro do exército chegara e havia designado ao South Essex aquele lugar, enquanto que o restante do exército marchou mais para o leste, para os vaus que os levariam à margem norte. Os franceses tinham deixado uma guarnição em Salamanca que dominava a longa ponte romana, e o trabalho do South Essex era assegurar-se de que ninguém da guarnição escapasse atravessando o rio. A tarde se apresentava fácil e tranquila. A guarnição pensava em recolher-se; a guarda na ponte não era mais que uma formalidade. Sharpe estivera em Salamanca quatro anos atrás com o infeliz exército de sir John Moore. Conheceu a cidade no inverno, sob uma chuva de água e neve fria e um futuro incerto, mas nunca a esquecera.

Agora permanecia no cume da colina, a duzentas jardas do extremo sul da ponte romana, e olhava fixamente a cidade elevada sobre a água. O resto do batalhão estava atrás dele, afastados da mira dos canhões franceses situados nos fortes, e estavam com ele apenas a companhia ligeira e Windham. O coronel viera para ver a cidade. Era um lugar de pedra de cor mel, um esbanjamento de campanários e torres, igrejas e praças, tudo isso diminuído pelas duas catedrais que ficavam sobre a colina mais alta. A catedral nova, com três séculos de história e duas torres cobertas com cúpula, erguia-se enorme e serena sob a luz do sol. Esta cidade não era um lugar de comércio, como Londres, tampouco uma fortaleza de granito, como Badajoz, mas um lugar de erudição, de oração, de graça e de beleza que não tinha mais propósito que o de agradar. Era uma cidade de ouro sobre um rio de prata, e Sharpe estava contente de ter regressado. Apesar disso, a cidade tinha sofrido danos. Os franceses arrasaram o canto sudoeste de Salamanca e só deixaram três edificações. As três foram convertidas em fortalezas, com fossos e muralhas, frestas e canhoneiras, e as casas e igrejas antigas, escolas e monastérios tinham sido derrubados despiedosamente para proporcionar aos três fortes um amplo campo de fogo. Dois deles dominavam a ponte, o que impedia os britânicos de fazer uso dela, o terceiro ficava mais perto do centro da cidade. Sharpe sabia que os três teriam de ser tomados antes que os britânicos abandonassem a cidade e perseguissem o exército francês que se retiraria para o norte. Olhou para baixo, das fortalezas para o rio, que corria lentamente sob a ponte, entre árvores verdes. Falcões das marismas, com os extremos de suas asas elevados, pairavam entre ilhas verdes. Sharpe voltou a olhar a magnificência da catedral de pedra dourada e desejou entrar na cidade. Não sabia quando isso ocorreria. Uma vez que o distante extremo da ponte estivesse protegido pela Sexta Divisão, o South Essex marcharia duas milhas para o leste, até o vau mais próximo, e iria ao norte para se unir com o restante do exército. Poucos homens das forças de Wellington veriam Salamanca até que o exército de Marmont fosse derrotado, mas de momento Sharpe tinha o bastante para admirar a serena e complexa beleza do outro lado do rio e desejar que logo, muito cedo, teria a oportunidade de explorar suas ruas mais uma vez. O coronel Windham esboçou um sorriso. — Extraordinário! — Extraordinário, senhor? Windham apontou com seu rebenque para a catedral, depois para o rio. — Catedral, Sharpe. Rio. Igual a Gloucester. — Eu achava que Gloucester era plano, senhor. Windham sorveu ao ouvir o comentário.

— Rio e catedral. Realmente vem a ser o mesmo. — É uma cidade bonita, senhor. — Gloucester? Certamente! É inglesa. Ruas limpas. Não como esse maldito lugar. Provavelmente Windham não se aventurara a sair da rua principal de qualquer cidade inglesa para explorar os becos e tugúrios cheios de porcaria. O coronel era um homem do campo, com as virtudes do campo e para quem todo estrangeiro era suspeito. Não era tonto, ainda que Sharpe suspeitasse que o tenente-coronel Windham, algumas vezes, gostava de fazer-se de bobo para evitar a mais agressiva de todas as censuras inglesas: passar-se por astuto. Windham se retorceu sobre sua sela e olhou para trás para o resto do batalhão. — Aí vem aquele francês.

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