| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Filha do Papa – Luis Miguel Rocha

Nada é mais corrosivo que uma dúvida. Imiscui-se numa palavra, num gesto, numa ausência e invade os pensamentos minando a mente com cismas e confabulações. As bátegas batiam no vidro com violência e as escovas limpa-vidros não conseguiam desviá-las com eficácia. Era um exército de pingos de chuva feroz que, ajudado pelo vento, se espalhava por todos os recantos do pára-brisas, como as dúvidas, a coberto da noite negra, que os faróis tentavam, em vão, desbravar. – Pode ir mais depressa? – pediu o prelado agastado no banco de trás. – O tempo está perigoso, Excelência – avisou o motorista, em alemão. – Já estamos perto. Mesmo assim, o condutor pegou num pano para limpar a névoa do vidro do Mercedes-Benz 770 e acelerou um pouco mais, até ao máximo que a responsabilidade lho permitiu. Contorceu-se no banco. O corpo a pedir clemência da longa viagem. Não se atreveu a olhar pelo retrovisor interior para aquela figura esquelética e frágil que ocupava o lado esquerdo do assento de trás, a mirar o negrume nocturno. Desconhecia o motorista os ditames nada éticos que faziam o clérigo estar ali naquele carro a novecentos quilómetros de casa, ou não fosse o nosso corpo hábil a esconder as dores da alma… a maior parte das vezes. O prelado permanecia imóvel a olhar pelo vidro pintalgado de chuva. Um relâmpago iluminou o caminho por breves segundos e deixou-o ver o recorte das árvores que se vergavam à mercê do tempo. Havia uma profunda inquietação naquele passageiro de meia-idade e olhar sorumbático. O barulho do vento e da chuva a atacar o tejadilho abafava a respiração alterada pela ansiedade. O troar do trovão, mesmo por cima dos dois homens, fê-lo saltar do assento. – Isto está mau – murmurou para si mesmo. – Não se preocupe, Excelência – disse o motorista que dera pela inquietação do prelado. – Ladra mas não morde – acrescentou com um sorriso tímido. Os homens de Deus não gostavam muito de sorrisos. Pensou em corrigir o motorista – já não era Excelência, era Eminência, o solidéu vermelho que trazia assim o definia –, mas ele não era obrigado a saber o protocolo das hierarquias da Madre Igreja. A viatura continuou a abrir caminho através da intempérie com a condução segura e escrupulosa do suíço. Depois de uma curva mais pronunciada à esquerda atravessaram a entrada da propriedade. Os enormes portões, abertos, resistiam ao vento.


Ao fundo, avistaram o destino. O clérigo estremeceu e as suas palpitações aumentaram. Estava a chegar a hora. O vidro embaciado deixava discernir um edifício escuro, algumas janelas iluminadas pela luz interior a denotar vida humana. Um relâmpago iluminou a fachada de três andares em tonalidades de branco e cinzento. O homem de Deus sentiu um aperto no coração à medida que se aproximavam do destino. O suíço parou junto à porta principal e saiu do carro, abrindo desajeitadamente um chapéu-de-chuva para proteger o prelado da chuva forte. O clérigo olhava fixamente para a porta principal da mansão. O que estou aqui a fazer, meu Deus? O motorista abriu-lhe a porta e o vento inundou o interior do carro sem permissão. O homem respirou fundo antes de sair da viatura. Chegara o momento de se livrar das dúvidas que o corroíam. * A chuva intensa não deixou ouvir o carro chegar. Não fez diferença. Ela sabia. Ele ausentara-se de Roma há alguns dias e ninguém tinha conhecimento do seu paradeiro. Não precisava que lhe dissessem mais nada. Ninguém o conhecia melhor. A forma como ele pensava, como geria os sentimentos, as dúvidas. Receava que a perspicácia dele o levasse ao retiro, mais cedo ou mais tarde. Não podia vir em pior altura. Um dia depois e ele nunca saberia. O suor pespegava a roupa ao corpo da freira e a respiração ofegante denotava esforço. Estava deitada de barriga para cima, de pernas abertas, uma posição nada confortável para quem estava habituada a ocultar-se debaixo das roupas. A parteira estava ajoelhada entre as pernas dela com uma mão apoiada no ventre. Sonja, de hábito azul-escuro, entrou afoita nos aposentos segurando toalhas dobradas nas mãos e olhou timidamente a freira que estava deitada.

– Ele chegou, irmã – avisou Sonja, pousando as toalhas em cima de uma cómoda e tentando evitar olhar para a parteira. Um gemido entrecortado foi a resposta que ela tratou imediatamente de conter, a custo. – Está quase – observou a parteira. Levantou-se e pegou nas toalhas que Sonja trazia. Depois acercou-se da parturiente que sofria e colocou-lhe uma mão terna na testa. – Não deu a volta completa. Vai custar um pouco mas vai passar depressa. – disse com pena e afoiteza ao mesmo tempo. – Aguenta-te. Estou aqui contigo. A parturiente agarrou-a no braço e puxou-a para mais perto de si. – Dá-me algo para morder e não me deixes fazer barulho. – Era uma ordem. A parteira mirou-a contrafeita e depois anuiu. Seja feita a tua vontade. – Sonja – chamou a parturiente. – Faz o que te disse. – Mas, irmã… – contestou Sonja reticente. – Faz o que te disse – repetiu, com um gemido, quando a dor regressou. – Vai – tartamudeou. Sonja saiu do quarto contrariada e fechou a porta atrás de si. A parteira trancou-a à chave e enrolou um lenço lavado que colocou na boca da parturiente. – Estás preparada? Chegou a hora. * O prelado recusou o chapéu-de-chuva que o motorista lhe ofereceu. – Espere aqui – ordenou.

– Está a chover, Excelência – protestou o motorista. O prelado já o não ouviu. Subiu os dez degraus da escadaria, pé ante pé, aproximou-se da porta grande e bateu. A água escorria-lhe pelo cabelo para o rosto e enfiava-se pelo pescoço abaixo. A gabardina também já não conseguia conter a torrente que caía do céu sem desarmar. Não se apercebeu de nenhuma movimentação no interior, a borrasca não deixava perceber nada. Não saberia dizer quantos minutos passaram até a porta se abrir e reconhecer a irmã que se revelou por trás dela. – Sonja? – hesitou. – Entre, por favor, Eminência. Está a chover muito. – Olhou-o apreensiva enquanto fechava a porta. – Está todo molhado. – Estou bem. O prelado olhou em redor, pesaroso. Muita coisa lhe passava pela cabeça naquela hora. A iluminação era fraca, mórbida, espalhando mais sombras que luz, e resumia-se a uma lamparina de fraca intensidade em cima de uma pequena mesa. Para além da irmã não se via mais ninguém, tão-pouco se ouvia alguma coisa a não ser a chuva lá fora e um trovão beligerante que fez Sonja benzer-se. – Valha-nos Santa Bárbara – evocou a irmã, soltando um pequeno grito. O prelado nem se apercebeu. Continuava a olhar em redor para o vestíbulo, até onde a parca luz alcançava, e para a escadaria que dava acesso aos andares superiores. A ventania fazia-se ouvir lá fora com mais força como se a tempestade interior que o assolava fosse o motor para a que se abatia sobre os Alpes. – Deseja tomar um chá, Eminência? – ofereceu Sonja. – Não estávamos a contar com a sua presença mas vamos providenciar os seus aposentos habituais. – Não, obrigado – respondeu sem na realidade ter escutado a oferta. – A irmã? – Era esta a pergunta que lhe queimava a língua.

Sonja baixou a cabeça. O prelado não necessitava de dizer a que irmã se referia. – A irmã não está – retorquiu, embaraçada. – Afiançaram-me que estaria cá – arguiu o prelado sem coragem para fitar a irmã. – Não. A madre partiu… hoje para… Ebersberg… esta manhã. Disse que regressaria em Dezembro. – Em Dezembro? Sonja anuiu em confirmação. Ninguém disse nada durante alguns instantes. Só a tormenta perturbava o silêncio que se instalou. Parecia que o vento invadia os pensamentos e os deturpava, assobiando nos ouvidos até à exaustão. – Disse que partiu para Ebersberg, hoje? – perguntou por fim. – Sim. Hoje. – Sonja estava agitada. – Para onde? – quis saber o prelado. – Para onde? – Sim. Para Ebersberg, para onde? – Para a casa dos pais, Eminência. – Em Ebersberg? – insistiu. A dúvida, sempre a dúvida. Sonja voltou a fazer que sim com a cabeça. O prelado continuava a olhar para o vestíbulo até onde a alumiação alcançava. Não parecia convencido. Sonja teria de fazer o que a irmã ordenara. – Vossa Eminência vai querer pernoitar cá? Posso preparar-lhe os seus aposentos num instante – repetiu a freira.

O prelado reflectiu. As dúvidas, sempre as dúvidas. O que é que eu vim aqui fazer? Não devia ter vindo. – Não. Obrigado, irmã. Parto agora mesmo. – Tem a certeza? Está a chover muito. – Estava a ir longe de mais. O prelado lançou-lhe um último olhar e dirigiu-se à porta da rua. Sonja prontificou-se a abri-la e uma baforada de vento e chuva impeliu-se para o interior. O clérigo saiu e olhou para trás enquanto as bátegas lhe caíam em cima. – Disse que a irmã partiu esta manhã? – Correcto, Eminência – mentiu Sonja. – Tive oportunidade de dizer ao padre Spellman, quando ele passou cá na segunda-feira, que a irmã ia para Ebersberg no dia de hoje. Um relâmpago atravessou o céu carregado e seguiu-se um trovão. – Não será melhor ficar, Eminência? – A freira estava a ser franca. Causava-lhe alguma apreensão saber que o Secretário ia enfrentar aquela borrasca. – Boa noite, Sonja – despediu-se o prelado virando-lhe as costas e descendo os degraus em direcção ao carro. Sonja fechou a porta e encostou-se a ela esbaforida. Respirou fundo e tentou acalmar-se. – O que me obrigou a fazer, irmã Pasqualina? – murmurou para si. Apressou-se a subir as escadas para saber dela. Lá fora, a tempestade continuava a não dar tréguas. Teve pena do cardeal. Pela tempestade e por tudo o resto. Quando chegou ao corredor do primeiro andar ouviu o choro compulsivo de um recém-nascido.

Ajoelhou-se e persignou-se. 1 O telefone soou ao fim da tarde de terça-feira, no preciso momento em que as irmãs da Santa Cruz davam graças ao Senhor pelo jantar, ao redor das duas grandes mesas de carvalho do salão de refeições do retiro, depois das Vésperas. Deixaram tocar até se finar e prosseguiram a oração, pois nada era mais prioritário que o vínculo sagrado com Deus. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial, agradeceu a irmã Bernarda, nascida Mia, a quem se juntou o coro de irmãs de cabeça abaixada e olhos fechados. Ámen. A refeição era frugal e comeu-se em silêncio, como tudo o que se fazia no retiro. O lema “Nunca dizer nada. Observar tudo”, era seguido em todas as ocasiões. Existiam para servir em silêncio, semolhar a quem, embora ali, no sopé sul das Dolomitas, não se abrisse a porta a qualquer um. A lareira aquentava o salão do retiro com o crepitar indolente da lenha que se consumia, enquanto, lá fora, os flocos de neve se amontoavam pelo quarto dia consecutivo. Era o primeiro grande nevão do ano e iria cobrir toda a região com um manto branco. Os talheres também colaboravam com as sagradas premissas silenciosas da ordem e não se manifestavam em tilintares acima de um parco decibel, semelhante a um cicio. Ninguém mais se lembrara do telefone que tocara durante a oração de graças pelo jantar até ele tornar a soar, estridente, perturbando a degustação do prato de carne salada, regado com um fio de azeite e vinagre de vinho e acompanhado com pão integral. Foi a irmã Bernarda, nascida Mia, quem se levantou para o atender. Recuou a cadeira o mais placidamente possível e avançou em passinhos de lã para o aparelho, pousado em cima de uma mesa encostada a um canto da parede do salão, que agredia o ar com o seu toque estridente. A irmã Bernarda fizera os votos perpétuos havia pouco mais de um mês, no dia do seu vigésimo terceiro aniversário, aceitando servir a Jesus Cristo enquanto houvesse vida no seu corpo. Acabara-se a vida de luxo de Mia Gustaffsen, filha de um banqueiro suíço do cantão de Zurique, as viagens, as jóias na 5.ª Avenida, as compras em lojas caras em Regent Street, os vestidos, os perfumes na avenue Montaigne ou na George V, as malas e os sapatos na Via Monte Napoleone, os cruzeiros, os safaris, os namorados. Escolhera o nome Bernarda para honrar a prioresa que fundara a ordem das irmãs da Santa Cruz, em 1844, o que, entre as outras, pareceu uma escolha presunçosa. Havia muitas Anas, Marias de Jesus, Teodósias, mas Bernarda só houvera uma, até então. As outras irmãs continuaram a comer os finos pedaços de carne de alcatra crua, imunes ao telefone que não se rendia, à espera que a irmã Bernarda o atendesse. Murmurou algumas palavras em alemão e acercou-se da prioresa no topo da mesa. – É uma chamada de Roma, prioresa – sussurrou-lhe ao ouvido. A prioresa levantou-se imediatamente e foi atender. Roma vinha logo a seguir a Deus na lista das prioridades.

Assim que ela se levantou todas as irmãs de ambas as mesas pousaram os talheres. A irmã Bernarda voltou para o seu lugar e, tal como as outras, aguardou que a madre regressasse. Nesta ordem, e em todas, o topo da hierarquia era respeitado como se de Deus se tratasse… ou de Roma. O interlocutor era nada mais nada menos do que o secretário pessoal de Sua Santidade, Giorgio, ou Bel Giorgio, como os italianos lhe chamavam, o que fez a prioresa ficar em sentido por ele ser quem era e ter a importância que tinha e por uma chamada daquelas raramente ou nunca acontecer. As instruções que o secretário pessoal lhe dera, no seu sotaque de Baden, em nome do Santo Padre, eram simples: um certo monsenhor Stephano Lucarelli apresentar-se-ia no retiro das irmãs da Santa Cruz, em Trento, nos próximos dias. Era de esperar que fosse instalado num dos aposentos do andar superior, alocado à madre superiora, à cónega e à alta hierarquia de Roma, quando ali vinha repousar e, rezava o cânone, não devia privar com os simples curas que também escolhiam aquele local alpino e que ficavam alojados nos andares inferiores. Essa alta hierarquia romana raramente aparecera por ali nas últimas décadas. Durante a estada do supracitado monsenhor, o acesso interior ao terceiro piso, o último, pela escadaria geral estaria interditado. Seguramente que o requerente, ou alguém por ele, conhecia muito bem o antigo e imponente retiro, pois sabia que o acesso ao terceiro andar se fazia por duas escadarias: a geral, que percorria todo o edifício, e dava acesso a todos os andares, e outra que ligava directamente o terceiro andar ao exterior, sem desvios de permeio. Mais: deviam disponibilizar o lugar na garagem exclusiva, e as refeições, se solicitadas, deveriam ser deixadas à porta dos aposentos do monsenhor Lucarelli, que estaria em descanso absoluto por ordemexplícita do Santo Padre. Nenhuma irmã ou qualquer outra pessoa deveria arrumar os aposentos a não ser que tal lhe fosse solicitado. A mais importante de todas as recomendações, depois da de manter o monsenhor afastado de todos os outros hóspedes, era que não se registasse qualquer menção à sua estada, entrada ou saída. Nada. O retiro estava cheio de hóspedes, das mais variadas nacionalidades, que vinham gozar umas merecidas semanas de descanso. Com mais de um século de existência, o retiro das irmãs da Santa Cruz, no Monte Bondone, era uma estância de férias para padres e religiosos. Apesar da sua ocupação regular, os períodos mais preenchidos eram o Inverno e a Primavera. Os servidores da Igreja aproveitavam para conversar, confraternizar com colegas, amigos do ofício, meditar, orar em grupo, combinar peregrinações, fazer caminhadas quando o tempo consentia, cantar a beleza da Criação e, claro, esquiar. Podiam fazê-lo livremente, à sua inteira responsabilidade, ou contratar um monitor que os ensinasse. Se alguns não se importavam de arrumar o hábito e o cabeção durante alguns dias, outros não conseguiam separar-se deles, daí que fosse surrealista observar cardeais, bispos, frades ou freiras com eles vestidos a deslizar pela colina abaixo com os esquis debaixo dos pés. Havia entre eles insignes esquiadores, propensos, se tivesse sido essa a Sua vontade, a participar numa qualquer prova digna das olimpíadas de Inverno. Outros representavam umverdadeiro perigo público com aquelas pranchas deslizantes descontroladas.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |