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A Flor-de-lis e o Leao – Maurice Druon

De todas as paróquias da cidade, tanto de além como de aquém do rio, de Saint-Denys, de Saint-Cuthbert, de Saint-Martin-cum-Gregory, de Saint-Mary-Senior e de Saint-Mary-Junior, de Shambles, de Taner Row, de toda parte, o povo de York subia em filas ininterruptas, havia duas horas já, para Minster, para a gigantesca catedral ainda inacabada, cuja massa esmagadora dominava a cidade. Em Stonegate e Dengate, as duas ruas tortuosas que vinham dar no Pátio, a multidão estava bloqueada. Os adolescentes, empoleirados sobre os marcos, não viam senão cabeças, apenas cabeças, um pulular de cabeças, cobrindo inteiramente a esplanada. Burgueses, negociantes, matronas com suas numerosas ninhadas, enfermos apoiados em muletas, criados, empregados de artífices, clérigos com seus capuzes, soldados de camisa de malha, mendigos andrajosos, confundiam-se com as hastes de um molho de feno. Ladrões de dedos ágeis realizavam seu melhor negócio do ano. Nas janelas que para ali se abriam, apareciam cachos de rostos. Era, acaso, luz do meio-dia, aquela claridade dúbia, enfumaçada e úmida, aquele vapor frio, aquela nuvem que, como algodão, envolvia o enorme edifício e a multidão que patinhava na lama? Aquele povo se calava para conservar o próprio calor. 24 de janeiro de 1328. Diante de Guilherme de Melton, arcebispo de York e primaz da Inglaterra, o rei Eduardo III, que ainda não tinha dezesseis anos, casava-se com a senhora Filipa de Hainaut, sua prima, que contava pouco mais de catorze. Não restava um só lugar na catedral, que fora reservada aos dignitários do reino, aos membros do alto clero, aos do Parlamento, aos quinhentos cavaleiros convidados, aos cem nobres escoceses de roupa xadrez, vindos para ratificar, nessa mesma ocasião, o tratado de paz. Dali a poucos momentos seria celebrada a missa solene cantada por cento e vinte chantres. No momento, porém, a primeira parte da cerimônia, o casamento propriamente dito, desenrolava-se diante do portal sul, no exterior da igreja e à vista do povo, segundo o ritual antigo e os costumes particulares da arquidiocese de York, para lembrar que o casamento é um sacramento em que os esposos mutuamente se dão, através de juras e consentimentos livres, e ao qual o padre assiste apenas como testemunha. A névoa marcava com rastos úmidos o veludo vermelho do dossel levantado contra o pórtico, condensava-se sobre as mitras dos bispos, colava as pelíças dos trajes sobre os ombros da família real reunida em torno do jovem casal. — Here I take thee, Philippa, to my wedded, wife, to hav and to hold at bed and at board…¹ {2} (aqui eu te recebo, Filipa, como minha esposa pelo casamento, para te ter e guardar em meu leito e em minha casa…) Saída daqueles lábios tenros, daquele rosto imberbe, a voz do rei surpreendeu pela força, pela clareza e intensidade de sua vibração. A rainha-mãe, Isabel, ficou impressionada, bem como messire João de Hainaut, tio da noiva, e todos os assistentes das primeiras fileiras, entre os quais estavam o conde Edmundo de Kent e o conde de Lancastre do Pescoço-Torto, chefe do conselho de regência e tutor do rei. Apenas uma única vez os barões tinham ouvido seu novo soberano falar com aquela autoridade inesperada: num dia de batalha, quando da última campanha da Escócia. —… for firer for fouler, for better for worse, in sickness and in health … (… para o belo e para o feio, para o melhor e para o pior, na doença e na saúde…) Os sussurros, entre a multidão, iam cessando progressivamente. O silêncio estendia-se como onda circular, e a ressonância da jovem voz real se propagava por cima dos milhares de cabeças, audível quase até a outra extremidade da praça. O rei pronunciava lentamente a longa fórmula do juramento que aprendera na véspera, mas dir-se-ia que ele a inventava, de tal maneira destacava-lhe os termos, de tal maneira os pensava, imprimindo-lhes seu sentido mais profundo e mais grave. Era como se aquelas fossem palavras de uma oração destinada a ser dita uma única vez, e para a vida inteira. Uma alma adulta, de homem seguro de seu compromisso em face do céu, de príncipe consciente de seu papel entre seu povo e Deus, expressava-se naquele corpo adolescente. O novo rei tomava seus parentes, seus próximos, seus grandes oficiais, seus barões, seus prelados, a população de York e toda a Inglaterra como testemunhas do amor que jurava à senhora Filipa. Os profetas que ardem no zelo de Deus, os condutores de nações sustentados por uma convicção única, sabem impor às multidões o contágio de sua fé. O amor publicamente afirmado possui tambémesse poder, provoca essa adesão de todos à emoção de um só. Não havia nenhuma mulher na assistência, fosse qual fosse sua idade, recém-casada, esposa enganada, viúva, virgem, avó, que não se sentisse, naquele instante, no lugar da jovem desposada; nenhum homem que não se identificasse com o jovem rei.


Eduardo III se unia a tudo o que havia de feminino em seu povo, e era todo o seu reino que escolhia Filipa por companheira. Todos os sonhos da juventude, todas as desilusões da maturidade, todas as nostalgias da velhice se dirigiam para eles, como outras tantas oferendas saídas de cada coração. Naquela noite, pelas ruas sombrias, os olhos dos noivos iluminariam as trevas, e mesmo os velhos casais desunidos ficariam de mãos dadas depois da ceia. Se, há tanto tempo, os povos se aglomeram quando do casamento dos príncipes, é para viver assim, por delegação, uma felicidade que, exposta de tão alto, parece perfeita. —… till death do part… (… até que a morte nos separe…) As gargantas se travaram, a praça exalou um vasto suspiro de surpresa triste, quase de reprovação. Não, não se devia falar de morte naquele momento, não era possível que aqueles dois jovens tivessem de aceitar a sorte comum, não era admissível que eles fossem mortais. —… and thereto I plight thee my troth… (… e por tudo isso eu te empenho a minha f é…) O jovem rei ouvia a multidão respirar, mas não a olhava. Seus olhos, de um azul pálido, quase cinzento, de longos cílios que então se erguiam, não abandonavam a mocinha ruiva e gorducha, entrouxada em veludos e seus véus, e à qual seu juramento se dirigia. Porque Filipa em nada se assemelhava a uma princesa de conto de fadas, e não era mesmo muito bonita. Mostrava os traços rechonchudos dos Hainaut, o nariz curto, o rosto coberto de sardas. Não tinha o ar particularmente gracioso, mas era, ao menos, simples, e não procurava afetar uma atitude majestosa que, aliás, não lhe assentaria bem. Despojada de ornamentos reais, poderia ser confundida com qualquer outra mocinha ruiva de sua idade; jovens de seu tipo eram encontradas às centenas emtodas as nações do norte. E era isso, precisamente, o que aumentava a ternura da multidão em relação a ela. Era a eleita, pela sorte e por Deus, mas não diferente, em essência, das mulheres sobre as quais ia reinar. Todas as ruivas um tanto gordas se sentiam honradas e elevadas em dignidade. Emocionada também a ponto de tremer, ela cerrava as pálpebras, como se não pudesse sustentar a intensidade do olhar de seu esposo. Tudo quanto lhe estava acontecendo era demasiado belo. Tantas coroas à sua volta, tantas mitras, e aqueles cavalheiros e damas que entrevia lá no interior da catedral, enfileirados atrás dos círios como almas do Paraíso, e toda aquela gente em torno… Rainha, ela ia ser rainha, e escolhida por amor! Ah! como iria adorar, agradar, servir, àquele belo príncipe louro, de longos cílios, de mãos bonitas, chegado por milagre, vinte meses antes, a Valenciennes, acompanhando ao exílio a mãe que vinha pedir ajuda e refúgio! Seus pais os tinham mandado brincar no pomar com as outras crianças; ele se havia enamorado dela, e ela, dele. Agora, ele era o rei, e não a tinha esquecido. Com que felicidade a jovem votava-lhe sua existência! Temia apenas não ser bela bastante para lhe agradar sempre, nem bastante instruída para secundá-lo. — Estendei vossa mão direita, senhora — disse-lhe o arcebispo-primaz. Imediatamente, Filipa estendeu para fora da manga de veludo uma mãozinha rechonchuda e apresentou-a com firmeza, com a palma para a frente, os dedos abertos. Eduardo teve um olhar maravilhoso para aquela estrela cor-de-rosa que se lhe entregava. O arcebispo apanhou, de uma bandeja apresentada por outro prelado, o anel de ouro liso, incrustado de rubis, que acabara de benzer, e entregou-o ao rei. O anel estava úmido, como tudo quanto aquela névoa tocava.

Depois o arcebispo, docemente, aproximou as mãos dos dois esposos. — Em nome do Pai — pronunciou Eduardo, pousando o anel, sem colocá-lo, na extremidade do polegar de Filipa. — Em nome do Filho… do Espírito Santo — disse ele, repetindo o gesto sobre o índice e sobre o médio. Enfim, deslizou o anel pelo quarto dedo, dizendo: — Amém! Filipa era sua mulher. Como toda mãe que casa seu filho, a rainha Isabel tinha lágrimas nos olhos. Esforçava-se por suplicar a Deus que concedesse a seu menino todas as felicidades, mas pensava sobretudo em si própria, e sofria. Os dias se haviam escoado, levando-a àquele em que ela cessava de ser a primeira no coração de seu filho e em sua casa. Não, para dizer a verdade, que ela tivesse grande coisa a temer daquela pequena pirâmide de veludos e bordados que se tornava naquele instante sua nora, nem no que se referia à autoridade sobre a corte nem quanto à comparação com a sua beleza. Ereta, esbelta e dourada, com suas belas trancas levantadas de cada lado do rosto alvo, Isabel, aos trinta e seis anos, mal parecia ter trinta. Seu espelho, longamente consultado, naquela mesma manhã, quando colocava a coroa para a cerimônia, tranqüilizara-a. E entretanto, a partir daquele dia, deixava de ser a rainha para tornar-se apenas rainha-mãe. Como acontecera tão depressa? Como vinte anos de vida, cortados, entretanto, de tantos temporais, se haviam dissolvido daquela maneira? Pensava em seu próprio casamento, havia exatamente vinte anos, em fins de janeiro, como naquele dia, e igualmente entre a névoa, em Boulogne, na França. Também ela se casara acreditando na felicidade, também ela pronunciara os juramentos dos esponsais do fundo de seu coração. Sabia, então, a quem se unia, para satisfazer os interesses de reinos? Sabia que, em troca do amor e do devotamento que levava, não receberia senão humilhações, ódio e desprezo, que se veria suplantada no leito de seu esposo, nem mesmo por amantes, mas por homens ávidos e escandalosos, que seu dote seria pilhado, seus bens, confiscados, que teria de fugir para o exílio a fim de salvar a vida ameaçada e levantar um exército para reconquistar seu poder? Que seria obrigada, enfim, a dar a ordem para que assassinassem Eduardo II, o homem que fizera deslizar em seu dedo o anel nupcial? Ah! A jovem Filipa tinha bastante sorte, ela que era não somente desposada, mas amada! Só as primeiras uniões podem ser plenamente puras e plenamente felizes. Nada as substitui, se falham. Os segundos amores não atingem aquela perfeição límpida. Mesmo sólidos como o mármore, neles correm veias de outra cor, que são como o sangue seco do passado. A rainha Isabel voltou os olhos para Rogério Mortimer, barão de Wigmore, seu amante, que, graças a ela tanto quanto a ele próprio, governava a Inglaterra como senhor, em nome do jovem rei. De sobrancelhas cerradas, traços severos, braços cruzados sob seu manto suntuoso, ele a contemplava, no mesmo instante, sem bondade. “Ele adivinha o que penso”, disse Isabel consigo mesma. “Mas que homem é ele, afinal, para dar a impressão de que cometemos uma falta quando deixamos de pensar nele por um momento?” E, conhecendo seu temperamento desconfiado, sorriu-lhe, para acalmá-lo. Que queria Rogério, além do que já possuía? Vivia com ele como se fossem marido e mulher, embora ela fosse rainha, embora ele fosse casado. Ele obrigara o reino a aceitar seus amores públicos. Agira de maneira a dar-lhe o controle de todo o poder: ele nomeava seus protegidos para todos os empregos. Fizera comque lhe dessem todos os feudos dos antigos favoritos de Eduardo II, o conselho da regência obedecia a seus decretos e não intervinha senão para referendar suas vontades.

Obtivera, mesmo, de Isabel, que se tornasse viúva, por sua própria decisão. E era por causa dele que a chamavam a Loba de França! Poderia ele impedir que a rainha pensasse nisso num dia de casamento, sobretudo quando o carrasco ali estava, na pessoa de João Maltravers, promovido recentemente a senescal da Inglaterra, e cujo rosto comprido e sinistro se erguia, atrás do ombro de Mortimer, como para lembrar-lhe o crime? Isabel não era a única que seria contrariada com aquela presença. João Maltravers fora o guardião do defunto rei, e sua elevação súbita ao cargo de senescal denunciava muito claramente que serviços lhe eram pagos dessa forma. Todos aqueles para os quais o assassínio de Eduardo II representava agora uma quase certeza olhavam-no, constrangidos, e achavam que o assassino do pai faria melhor se se conservasse ausente do casamento do filho. O conde de Kent, irmão do morto, inclinou-se na direção de seu primo Henrique Pescoço-Torto e cochichou-lhe: — Parece que o regicídio, atualmente, dá o direito de subir ao nível da família. Edmundo de Kent tiritava. Achava a cerimônia comprida demais, o ritual de York muito complicado. Por que não tinham realizado o casamento na capela da Torre de Londres, ou de algum castelo real, em lugar de transformar a ocasião numa quermesse popular? A multidão lhe causava mal-estar. E, ainda por cima, a presença de Maltravers… Pescoço-Torto, com a cabeça deitada sobre o ombro direito, doença à qual devia seu apelido, murmurou: — É pelo pecado que se entra mais facilmente em nossa casa. Nosso amigo é o primeiro a darnos prova disso… Calemo-nos. Ele está olhando para nós. Aquele “nosso amigo” designava Mortimer e mostrava quanto os sentimentos se haviammodificado desde que ele desembarcara, dezoito meses antes, comandando o exército da rainha e sendo recebido como um libertador. “Afinal, a mão que obedece não é pior do que a cabeça que ordena”, pensava Pescoço-Torto. “É Mortimer mais culpado, sem dúvida, e Isabel com ele, do que Maltravers. Mas somos todos umpouco culpados, com eles: todos nós apertamos o cutelo, quando destituímos Eduardo II. Aquilo não poderia terminar de outra maneira.” Entretanto, o arcebispo apresentava ao jovem rei as três moedas de ouro, cunhadas de um lado com as armas da Inglaterra e de Hainaut, e no reverso com um campo de rosas, flores emblemáticas da felicidade conjugai. Aquelas moedas eram a quantia para esposar, símbolo do dote em rendas, terras e castelos que o marido constituía para a mulher. As doações tinham sido bem escritas e pormenorizadas, o que tranqüilizava um tanto messire João de Hainaut, o tio, ao qual ainda deviam quinze mil libras do soldo de seus cavaleiros durante a campanha da Escócia. — Prosternai-vos, senhora, aos pés de vosso esposo, para receber as moedas — disse o arcebispo à esposa. Todos os habitantes de York esperavam por aquele instante, curiosos de saber se seu ritual local seria respeitado até o fim, e se valia para a rainha tanto quanto para a vassala. Mas ninguém previra que a senhora Filipa, não somente se ajoelharia, como, num ímpeto de amor e gratidão, abraçaria as pernas de seu esposo, beijando os joelhos daquele que a fazia rainha. Era capaz, então, aquela flamenga rechonchuda, de inventar, sob o impulso do coração! A multidão fez-lhe ovação imensa. — Creio que eles serão muito felizes — disse Pescoço-Torto a João de Hainaut. — O povo vai amá-la — disse Isabel a Mortimer, que acabava de se aproximar dela.

A rainha-mãe sentia-se como que ferida: aquela ovação não lhe era destinada. “É Filipa a rainha, agora”, pensava ela. “Meu tempo aqui acabou-se. Sim, mas talvez eu venha a ter a França…” Porque um cavaleiro da flor-de-lis, uma semana antes, galopara até York para lhe comunicar que seu último irmão, o rei Carlos IV da França, estava moribundo. II -Trabalhos por uma coroa Carlos IV, o Formoso, tombara enfermo no dia de Natal. Pela Epifania, os boticários e os médicos que dele tratavam pouco mistério faziam em declará-lo perdido. Qual seria a causa daquela febre que o consumia, daquela tosse dilacerante que lhe sacudia o peito emagrecido, daqueles escarros de sangue? Os boticários levantavam os ombros num gesto de impotência. A maldição, ora! A maldição que se abatera sobre a descendência de Filipe, o Belo. Os remédios são inoperantes contra uma maldição. E a corte e o povo estavam igualmente bastante convencidos de que não seria preciso buscar a causa em outro ponto. Luís, o Turbulento, morrera com vinte e sete anos, e por mão criminosa, ninguém duvidava disso, embora a condessa Mafalda d’Artois se tivesse feito inocentar através de um processo público. Filipe, o Longo, falecera aos vinte e nove anos, por ter bebido em Poitou uma água de poço envenenada pelos leprosos. Carlos IV resistira até os trinta e três anos: era o limite. Sabe-se muito bem que os malditos não podem ultrapassar a idade de Cristo! — Cabe-nos, meu irmão, apoderarmo-nos agora do reino e mantê-lo com mão firme — tinha dito o conde de Beaumont, Roberto d’Artois, a seu primo e cunhado Filipe de Valois. — E desta vez — acrescentara ele — não deixaremos que minha tia Mafalda ganhe a corrida. Aliás, ela não tem mais genro algum para empurrar para o trono. Aqueles dois estavam gozando de esplêndida saúde. Roberto d’Artois, aos quarenta e um anos, era sempre o mesmo colosso que precisava abaixar-se para passar pelas portas e que atirava ao solo um boi, agarrando-o pelos chifres. Mestre em demandas, em chicana, em intrigas, tinha provado suficientemente, havia vinte anos, o que sabia fazer no seu processo do Artois, na guerra da Guyenne e em muitas outras ocasiões. A descoberta do escândalo da Torre de Nesle fora obra sua. Se lorde Mortimer, e depois a rainha Isabel, tinham podido refugiar-se na França; se, tornando-se amantes, tinham reunido um exército em Hainaut, sublevado a Inglaterra e derrubado Eduardo II, fora, em parte, graças a ele. E ele não se sentia constrangido, ao apresentar-se à mesa, de ter nas mãos o sangue de Margarida de Borgonha. No conselho do fraco Carlos IV, sua voz, nos últimos anos, faziase ouvir mais freqüentemente do que a do soberano. Filipe de Valois, Seis anos mais moço que ele, não era dotado de tanto gênio. Era, porém, alto e forte, tinha o peito amplo, o andar nobre, podendo quase fazer figura de gigante quando Roberto não estava presente.

Possuía uma bela imponência de cavaleiro que predispunha todos a seu favor. E, sobretudo, beneficiava-se da lembrança deixada por seu pai, o famoso Carlos de Valois, o príncipe mais turbulento, mais aventureiro de seu tempo, a correr atrás de tronos fantasma e de cruzadas perdidas, mas grande homem de guerra, e do qual ele se esforçava por copiar a prodigalidade e a magnificência. Se Filipe de Valois até aquela ocasião não havia ainda espantado a Europa com os seus talentos, todavia confiavam nele. Brilhava em torneios, que eram a sua paixão, e o valor que neles mostrava não era coisa negligenciável. — Filipe, eu te farei regente — dizia Roberto d’Artois. — Eu o quero, eu me comprometo a isso. Regente, e talvez rei, se Deus o quiser. Quer dizer, se dentro de dois meses, minha sobrinha 2 , que já está grávida até os dentes, não der à luz um filho. Pobre primo Carlos! Não verá essa criança que desejava tanto. E, se for um menino, nem por isso deixarás de exercer a regência durante vinte anos. Ora, em vinte anos… Prolongava seu pensamento com um grande gesto do braço que apelava a todos os acasos possíveis, à mortalidade infantil, aos acidentes de caça, aos desígnios impenetráveis da Providência. — E tu, leal como sei que és — continuava o gigante —, farás com que me devolvam, finalmente, meu condado do Artois que Mafalda, a ladra, a envenenadora, retém injustamente desde a morte de meu nobre avô, bem como o pariato a ele ligado. Imagina que eu nem sequer sou par! Não é para rir? Tenho vergonha por tua irmã, que é minha esposa. Filipe baixara duas vezes seu grande nariz carnudo, fechando as pálpebras com ar entendedor. — Roberto, eu reconhecerei teus direitos, se estiver em condições de fazê-lo. Podes contar commeu apoio. As melhores amizades são as que se fundamentam em interesses comuns e na construção de ummesmo futuro. Roberto d’Artois, ao qual tarefa alguma repugnava, se encarregou de ir a Vincennes fazer sentir a Carlos, o Formoso que seus dias estavam contados e que ele tinha algumas providências a tomar, tais como convocar os pares com toda a urgência e recomendar-lhes Filipe de Valois para assumir a regência. E mesmo, a fim de melhor esclarecer-lhes a escolha, por que não confiar a Filipe, desde já, a administração do reino, delegando-lhe poderes para isso? — Somos todos mortais, todos, meu bom primo — dizia Roberto, que estourava de saúde e fazia tremer, com seu passo poderoso, o leito do agonizante. Carlos IV não estava em condições de recusar, e sentiu-se mesmo aliviado por lhe tirarem todas as preocupações. Não pensava senão em reter a vida, que lhe escapava por entre os dentes. Filipe de Valois recebeu, pois, a delegação real e lançou a ordem de convocação dos pares. Roberto d’Artois pôs-se imediatamente em campo. De início junto a seu sobrinho d’Evreux, jovem ainda, de vinte e um anos e graciosa aparência, mas bem pouco empreendedor. Estava casado com a filha de Margarida de Borgonha, Joana, a Pequena, como continuavam a chamá-la, embora ela agora tivesse dezessete anos, e que fora afastada da sucessão da França quando da morte do Turbulento.

A lei sálica, de fato, fora inventada contra ela, e tanto mais facilmente por ter o comportamento desregrado de sua mãe lançado séria dúvida quanto à sua legitimidade. Em compensação, e para acalmar a casa de Borgonha, reconheceram-lhe o domínio de Navarra. Mas não se tinham apressado em ratificar essa promessa, e os dois últimos reis da França se haviam conservado reis de Navarra. Se Filipe d’Evreux se parecesse, um pouco que fosse, com seu tio Roberto d’Artois, seria, aquela, excelente ocasião para fazer do caso uma enorme chicana, para contestar a lei sucessória e reclamar, em nome de sua mulher, as duas coroas. Usando de sua ascendência sobre ele, Roberto d’Artois bem depressa conseguira envolver, como peixe em farinha, aquele possível competidor. — Terás aquela Navarra que te é devida, meu bom sobrinho, logo que meu cunhado Valois for regente. Tomo isso como um caso de família, e foi com essa condição que prometi a Filipe o meu apoio. Serás rei de Navarra! É uma coroa que não se deve desdenhar, e eu te aconselho, de minha parte, que a coloques na cabeça assim que o possas fazer, antes que alguém venha disputá-la a ti. Porque, aqui entre nós, a pequena Joana, tua esposa, teria seus direitos mais bem assegurados se a mãe dela tivesse tido as coxas menos folgazãs! Nessa grande corrida que se vai fazer, é preciso que consigas apoios: contas com o nosso. E trata de não ouvir teu tio da Borgonha, porque ele só te levará a fazer tolices, em seu próprio proveito. Filipe regente, agarra-te a isso! Assim, mediante o abandono definitivo da Navarra, Filipe de Valois contava já com dois votos. Luís de Bourbon acabava de obter o ducado algumas semanas antes e havia recebido emapanágio o condado da Marca 3 . Era o mais velho da família. No caso de haver demasiada confusão em torno da regência, sua qualidade de neto de São Luís poderia servir-lhe para reunir numerosos sufrágios. Sua decisão, fosse como fosse, pesaria sobre o conselho dos pares. Ora, aquele coxo era covarde. Entrar em rivalidade com o poderoso partido Valois seria empresa digna de homem mais corajoso. Além disso, seu filho se havia casado com uma irmã de Filipe de Valois. Roberto deu a entender a Luís de Bourbon que, quanto mais cedo ele se reunisse ao partido, mais depressa veria garantidos todos os proventos em terras e em títulos que acumulara graças a uma atitude complacente, no curso de todos os reinados precedentes. Três votos. O duque da Bretanha, mal chegado de Vannes, não tendo ainda aberto seus baús, viu Roberto d’Artois surgir em seu palácio. — Filipe, não é? Tu estás de acordo, não é verdade? Com Filipe, tão piedoso, tão leal, podemos estar certos de ter um bom rei… quero dizer, um bom regente.

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