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A Flor Oculta – Pearl S. Buck

O jardim era silencioso. Além dos seus muros nenhum eco de passos podia ser ouvido acima do suave, incessante chapinhar da cascata. O silêncio fora organizado, como todas as coisas neste jardim o haviam sido, embora tudo parecesse disposto pela própria natureza. Assim, do lado da rua, a água fora elevada pelo mais moderno sistema de canalização, oculto atrás de rochas, para criar umriacho que desse a impressão de correr das alturas. Um pequeno outeiro, truncado, meio escondido por bambus, erigido contra o alto muro de pedras, fora projectado de tal maneira que assumia a dignidade de um contraforte das montanhas atrás da cidade. Sobre o lado rochoso do outeiro, o riacho espargia-se em sucessivas quedas para um lago profundo e transparente. Três grandes pinheiros, curvados pela idade, inclinavam-se para o lago e nele reflectiam a sua imagem. Mesmo emnúmero tão reduzido, criavam a atmosfera de uma floresta ao longe. A casa, situada ao norte do jardim, era inteiramente japonesa. Grande, mas de telhados baixos. Bambus suavizavam os seus ângulos inclinados, e, quais cortinas apanhadas, deixavam aparecer os tabiques de rótulas, recobertos de papel. A casa, que era construída de madeira, sem pintura, tomara uma cor prateada, produzida pela pátina do tempo. Reinava a Primavera e, contra o suave acinzentado da madeira, florescia grande número de azáleas. O sol acendia nas flores um brilho escarlate, laranja e amarelo-dourado. Era meio-dia. No seu gabinete, o Dr. Sotan Sakai ergueu a cabeça do manuscrito em que trabalhava, olhando pelas portas abertas. O jardim estava irresistìvelmente belo. Pousou a caneta de tinta permanente e, ao levantar-se da esteira do soalho, percebeu com orgulho íntimo que as suas longas pernas não estavam entorpecidas. Custara-lhe o esforço de alguns anos retornar aos costumes e hábitos do seu próprio povo, após a juventude passada nos Estados Unidos. De início fora-lhe insuportável cruzar as pernas diante da mesa baixa e, permanecendo nessa posição, escrever durante horas consecutivas. Tinha, no entanto, decidido que venceria as dificuldades, do mesmo modo como se resolvera a abandonar aquele país para regressar à sua terra natal. Tomara essa decisão por ser um homem orgulhoso e não suportar a ideia de um campo de concentração e o regresso ao Japão. Escolhera o Japão. O orgulho férreo fê-lo volver de todo aos seus ancestrais.


Comprara a velha residência de família do Barão Kazuko, fora da cidade de Kyoto. A família Kazuko, empobrecida pela guerra, passara a viver em retiro total depois que seus filhos pereceram na China. O barão recolhera-se a ummosteiro budista no topo da montanha próxima a Unzen, na Ilha de Kyushu, e a esposa voltou para a sua própria família. Os Kazuko já não existiam. Em seu lugar e na sua casa viviam agora Sotan Sakai, sua mulher e a filha, Josui. Tinham tido um filho, Kensan, cinco anos mais velho que Josui ao saírem da América. Kensan, porém, não se mostrara disposto a voltar, indo para o campo de concentração, onde se oferecera espontâneamente para o serviço de guerra. Perecera na Itália. A morte do filho solidificou a intenção do Dr. Sakai de ser japonês. Kyoto fora poupada pela guerra. A velha capital permanecia a mesma de há uns mil anos ou mais, tendo apenas surgido alguns edifícios modernos. Estes, todavia, não conseguiam impor-se a construções antigas e veneráveis como o templo Higachi-Hongan-ji ou aos palácios cujos grossos telhados de colmo tinham sido o orgulho de gerações de colmeiros imperiais. Eram os jardins dos palácios que constituíam agora para o Dr. Sakai a fonte de descobertas do seu secular país, e deles tirara ideias de rochas, lagos, árvores anãs e musgos. Sobretudo o jardim da Casa Shokintei, no Palácio Imperial Katsura, pareceulhe especialmente belo com o seu manso correr das águas, a ponte de pedestres, as rochas, as árvores esparsas e os arbustos, conjugando intimidade e extensão. Quando chegou afinal o termo da guerra, o Dr. Sakai manteve-se afastado das tropas de ocupação e dos seus comandantes. Desde que se firmara na cidade como primeiro clínico de medicina ocidental, a sua posição estava assegurada. O povo não podia dispensá-lo. Tratava a todos que o procuravam com igual carinho, ou quase igual. Era porém cauteloso quanto a situações que se lhe deparavam, considerando um dever ressuscitar a antiga cortesia para com os aristocratas, as tradicionais famílias que viviam agora em isolamento. Não considerava incongruente a confiança que nele depositavam. Finalizado o seu trabalho diário num hospital moderno e amplo, regressava a sua casa, trocava o vestuário e recomeçava a escrever o seu livro intitulado “Enfermidades por Carência”. Acumulara vastos conhecimentos neste sector, durante os anos do seu regresso.

Secou agora cuidadosamente a caneta, antes de dirigir-se lentamente para o jardim. Ela representava, em sua casa, a única concessão aos hábitos americanos. O tradicional pincel era por demais lento. Mas talvez não se devesse considerá-la uma concessão, já que a maior parte dos japoneses usava caneta e lápis emlugar do pincel. Eram fabricados no Japão e o Dr. Sokai considerava a pena de qualidade superior às americanas. A grafia dos lápis, porém, era dura de mais. Parado junto à ampla porta que era apenas o tabique de rótulas, corrido para trás como uma cortina, Sakai regozijava-se de novo com o seu jardim ou, antes, quase se regozijava. Conhecendo cada um dos seus pormenores, não resistia à tentação de procurar folhas caídas ou um provável formigueiro, maldosamente surgido durante a noite, capaz de prejudicar-lhe a perfeição. Não desejava aborrecer-se procurando o jardineiro para exigir explicações por não ter removido tais acidentes. Cerrou as pálpebras e meditou por alguns instantes, murmurando parte de uma sutra. Ao abrir os olhos novamente, viu o seu jardim com nova perceptibilidade, resplandecente à luz do sol, exactamente como desejava vê-lo. A meditação não era fácil para ele. Passara a mocidade nas ruas agitadas de Los Angeles, vendendo verduras e, flores que ajudara seus pais a plantar em cinco acres de terra fora da cidade. O dinheiro para frequentar a escola obtivera-o trabalhando, e ganhara bolsas de estudos para a Faculdade de Medicina. Na América não havia tempo para a meditação. Tinha sido impelido para ela ao voltar ao Japão e aí aprendera a meditar em como se aprende a tocar um instrumento musical, a flauta de cinco orifícios, por exemplo, com que se deleitava ao anoitecer. Passada a guerra, só lhe ficara uma única preocupação e esta dizia respeito a sua filha Josui. Quando os pais escolheram voltar para o Japão, Josui era uma criança – uma adolescente de quinze anos. Apenas a perplexidade e o medo a fizeram sair da América sem oferecer resistência, pois, quanto ao resto, nem sempre fora dócil e obediente. Ficara apavorada com a atitude das suas companheiras de estudo, sempre tão agradáveis e amigas, até o dia em que, de repente, se tornaraminimigas. Os seus rostos encantadores transformaram-se em semblantes ríspidos e um aspecto severo tomou o lugar dos sorrisos. Josui não conseguira compreender essa mudança repentina e queixara-se à sua melhor amiga, Polly Andrews, filha do merceeiro que comprava verduras ao seu avô: – Mas, Polly, eu sou a mesma pessoa de antes! – Não, não és! – retorquira Polly. – Es uma japonesa e eu odeio-te. Josui não dissera mais nada.

Não voltara a frequentar a escola e poucos dias depois, quando seus pais embarcaram no navio, acompanhara-os num silêncio angustiado. A terra que considerava como sua, onde nascera, e cujo idioma era o único que falava, tinha-a rejeitado e desprezado. No entanto, ainda não estava apta a aceitar o Japão, porque sua avó lhe falara de mais na condição das mulheres de lá. Permanecia em estado de dúvida; sentia-se a salvo enquanto vivesse em casa do pai, porém incerta quanto ao futuro. O próprio Dr. Sakai adivinhava o estado de alma da filha e era esta a causa da sua inquietação. Agora que Josui contava vinte anos, que fariam com ela? O casamento não podia estar longe, especialmente para uma moça tão linda, mas que espécie de casamento? Ele recebera propostas, mas fora bastante prudente para não as apresentar à filha, pois era quase certo que Josui as recusaria imediatamente. Jamais lhe falara em casamento e proibira sua esposa Hariko de fazê-lo. O caso era delicado, e pretendia tratar dele sòzinho. Uma palavra fora de propósito poderia fazer com que Josui recusasse casar-se. Permaneceu algum tempo à porta e depois, trocando os seus chinelos de palha por tamancos, desceu pelo caminho até ao lago e aí ficou a observar o espargir da cascata. O ar primaveril estava impregnado de vida nova. Ele era um homem que controlava fèrreamente a sua imaginação e não se permitia o prazer de sentir a estação do ano. Sòmente as preocupações em torno de Josui se tornavammais acentuadas. Que influência iria ter sobre sua filha a Primavera deste ano? No ano passado tomara-se de certa agitação, que o Dr. Sakai compreendera perfeitamente, pois estudara psicologia como parte necessária à medicina. Corpo e alma eram inseparáveis, tanto na saúde como na doença. Ministrara-lhe sedativos inócuos e incumbira-a de dactilografar as primeiras cem páginas do seu manuscrito, diàriamente, ao voltar da escola. O calor começara cedo e a inquietação de Josui transformara-se em apatia. O Dr. Sakai convencera-se, contudo, de que sob a aparente doçura de sua filha se escondia uma natureza ardente. O casamento impunha-se, portanto, e sem demora. Olhou para o relógio de ouro, encoberto pela manga larga das suas vestes. No hospital trajava à moda do Ocidente; em casa, porém, aprendera a preferir a ampla veste de seda escura, com faixas na cintura, chinelos sem tacão e, no jardim, tamancos grosseiros. Assim vestido sentia-se mais à vontade.

Era quase uma hora. Josui estava atrasada. Por onde andaria? O almoço já devia estar pronto, embora os criados, certamente obedecendo às ordens da dona da casa, ainda não o tivessemchamado. Estavam à espera de Josui. Franziu as sobrancelhas, esquecendo o jardim. Se ela não chegasse dentro de quinze minutos, não esperaria mais. Amava sua esposa simples e silenciosa, mas quando Josui estava também presente, as refeições tornavam-se mais agradáveis. Mesmo assim, não seria indulgente para com a filha. Dentro de quinze minutos entraria em casa e faria a sua refeição. Se, ao terminá-la, Josui não tivesse aparecido, ordenaria que fossem retirados os pratos da mesa. A ordem dentro de sua casa não devia sofrer alterações. Às duas horas voltaria ao hospital a fim de visitar os seus doentes. Não teve, porém, de tomar aquela providência, porque exactamente dez minutos após, Josui chegava. Ouviu soar a sineta de bronze presa do lado de fora do portão que se abriu e tornou a fechar. Os sapatos ocidentais de Josui ressoaram vivamente no caminho de pedras, e, logo depois, a criada saudou a jovem. O Dr. Sakai ficou à espera, ainda a fitar o lago, com as costas voltadas para a casa. Era dever da filha ir procurar o pai. Um momento depois ouviu-lhe a voz suave: – Estou em casa, pai! O dr. Sakai voltou-se sem sorrir. – Chegaste tarde, minha filha. – A culpa não foi minha, pai -replicou ela. Vendo-a ali no jardim, toda iluminada pelos raios do sol, chegou a sentir medo da sua beleza. Ela viera assim pelas ruas, da Universidade para casa! Os seus cabelos negros luziam, os grandes olhos escuros brilhavam: o calor dera um colorido rosado às suas faces e tornara-lhe rubros os lábios. Tinha mudado de roupa nos poucos minutos que passara no interior da casa e vestia um quimono verde de fazenda macia.

Pelo menos não andara assim vestida pelas ruas da cidade. As suas vestes escolares eram desgraciosas. – Como não foi tua a culpa? – interrogou com voz severa. – Havia soldados americanos nas ruas – explicou ela. – Eram muitos. Todas as pessoas tiveram de esperar. – E tu, onde esperaste? – Parei no vão de entrada do hospital para não ficar no caminho. O Dr. Sakai resolveu não falar mais no assunto. – Entremos para almoçar. Tenho pouco tempo. Não gosto de chegar tarde ao hospital. É um mau exemplo para os médicos mais jovens. Josui conhecia o rigoroso sentido de responsabilidade do pai e apressou-se a apresentar desculpas. – Sinto muito, meu pai! – disse em japonês, sabendo quanto ele gostava de a ouvir falar a sua língua. Ela, porém, dava preferência ao inglês. – Já explicaste que a culpa não foi tua – replicou. Adiantou-se, caminhando na frente, com as mãos atrás das costas, passeando o olhar de um para outro lado do caminho. – Observa esta azálea – disse. – Nunca esteve tão linda! – É maravilhosa – concordou Josui. Prestou atenção ao timbre de voz da filha, assim como iria observar mais tarde a sua fisionomia e cada um dos seus movimentos, para sondar, se possível, o que lhe ia no coração. Não teria sossego enquanto não a visse casada e não suportaria passar outra Primavera comessa preocupação. Uma filha representa um fardo mais precioso que qualquer outro, e também mais pesado. Josui percebera a secreta observação de que era alvo por parte de seu pai, durante o almoço. Notara-lhe a constante atenção, sabia que se preocupava com ela e reconhecia intimamente as razões dessa preocupação.

Ocultava-lhe a sua verdadeira personalidade. Ele nada sabia acerca dos seus pensamentos ou do que ela era na realidade. Embora se comportasse de maneira impecável na sua presença, ele suspeitava, sem fazer da suspeita uma acusação, que esse procedimento correcto não revelava a sua verdadeira natureza. E nisso o Dr. Sakai tinha razão. Josui vivia uma vida dupla naquela casa, não por insatisfação, mas por excesso de energia. Muitas vezes pensava que essa energia provinha do facto de ter vivido na Califórnia até aos quinze anos, bebendo leite de vacas nutridas com trevo e cereais, e comendo frutas, legumes e carne. O seu corpo transbordava de sensibilidade e vigor. O seu espírito era vivo, atento e curioso. Era inteiramente diferente das demais raparigas japonesas, pálidas e silenciosas, que a observavam com admiração e desagrado. Chamavam-lhe “a americana” e Josui não protestava. – Você tem o andar das mulheres americanas – dissera Haru – Mishima. De vez em quando viam-se algumas americanas na cidade, ainda que não em tão grande número como em Tóquio e Osaka. Observando-as, Josui chegara à conclusão de que, realmente, o seu caminhar se assemelhava ao delas. Não, andava com as pontas dos pés viradas para dentro e as suas pernas eram direitas. No entanto, adorava a pequena Haru com o seu passinho saltitante de pomba, embora não soubesse por que motivo, excepto que costumava simpatizar fàcilmente com as pessoas, talvez pelo próprio excesso de vitalidade. Ainda que a sua alimentação já não constasse de leite, pão, manteiga, ovos e carne, como acontecia na América, servia-se abundantemente de arroz, peixe e hortaliças. Sua mãe, observando-a nesse dia começou a rir. – Quem diria que és filha de um homem culto? – disse. Comes como a filha de um camponês. Estavam sentados no chão, com os joelhos dobrados, em redor da mesa baixa onde estavamcolocados os alimentos. A criada pusera diante de cada um uma tigela laqueada, contendo uma sopa fina em que boiavam uma fatia recortada de rabanete e uma folhinha verde de alface do mar. Três tigelas com peixe e legumes estavam dispostas no centro da mesa e Yumi, a empregada, passava arroz seco e branco de um recipiente de madeira para outras tigelas, também de madeira, laqueadas de preto e ouro. Inclinava-se apenas ligeiramente ao pôr cada uma das tigelinhas no seu lugar. Uma inclinação mais profunda tornara-se despropositada desde a ocupação e a democracia.

O Dr. Sakai, no entanto, exigia uma ligeira reverência. A criada sentia-se satisfeita com essa imposição, pois evidenciava que naquela casa havia um amo, embora não fosse costume o chefe comer em companhia da esposa e da filha. Os Americanos é que tinham esse hábito, assim ouvira Yumi das outras serviçais, no mercado. Seu amo era, portanto, um pouco menos que um legítimo japonês, porém algo mais que um americano. Assim o classificava e sentia-se satisfeita. Observando secretamente a filha, o Dr. Sakai inquietou-se com o colorido das suas faces. Habitualmente rosadas, agora estavam rubras. – Estiveste parada ao sol enquanto passavam os americanos? – perguntou. – Sim – respondeu Josui. – Deixei a sombrinha em casa esta manhã. Não imaginei que o sol se tornasse tão forte. Quando tomámos a primeira refeição, havia nuvens sobre as montanhas. – Essas nuvens anunciam sempre um céu límpido para o meio-dia – declarou o Dr. Sakai. – É do lado do mar que devemos esperar chuva. A Srª Sakai olhou para Josui. – De facto estás muito vermelha. Depois do almoço deves aplicar um pouco de pó de arroz. O rosto assim vermelho dá um aspecto vulgar às raparigas. – Antes não fosse filha única! – exclamou Josui, entre sorridente e amuada. – Os pais não fazem outra coisa senão analisar-me. Ambos desviaram o olhar. – O tokonoma (1) precisa ser arranjado novamente amanhã – disse a Srª Sakai.

O tokonoma estava situado em frente do jardim. Da extremidade da sala onde estavam sentados à mesa podia ver-se o ramo de salgueiro em botão e as flores de ameixieira que se inclinavam sobre a pequena urna de incenso. Na véspera, Josui colocara um sapo de bronze sob as flores pendentes da ameixieira. Sòmente se podiam colocar três objectos no tokonoma, não mais. O Dr. Sakai contratara uma das melhores professoras da cidade para instruí-la nestes assuntos. Era uma viúva, baixa e franzina, que vivia com o filho e a família deste numa pequena casa cinzenta, junto ao Rio Katsura. – Amanhã colherei flores de pessegueiro – disse Josui. – A tigela de quartzo cor-de-rosa seria apropriada para as flores de pessegueiro – observou o Dr. Sakai. A atmosfera, que se tornara um pouco tensa, voltou assim à tranquilidade. Josui não disse mais nada; passava-lhes atenciosamente os pratos, mantendo-se em silêncio para lhes evitar a desaprovação. Se o irmão fosse vivo, teria podido repartir com ele o peso do intenso amor dos pais. E teria, igualmente, compartilhado com ele as suas recordações da América. Talvez até a tivesse convidado a ir visitá-lo, pois já então ele e a noiva (1) Tokonoma: Recanto onde se dispõem os objectos de adorno na sala duma casa japonesa. (N. do T.) estariam casados e com filhos. A noiva casara com outro homem, depois de transcorrido o período de luto, e nunca mais tiveram notícias dela. Não obstante, Josui ainda se recordava muito bem dela. Era uma jovem delicada, viva, que usava os cabelos negros densamente anelados em redor do rosto redondo e pálido. Vestia roupas americanas de cores alegres, calçava sapatinhos de salto alto e uma vez fora eleita rainha da Primavera no Ginásio de Los Angeles. Sempre que Josui pensava nela, era como rainha da Primavera, usando um vestido prateado com lantejoulas e uma coroa de latão sobre os cabelos recém-ondulados. O pai era o ministro da igreja cristã. A família Sakai sempre fora budista, o que causava sérias preocupações à família dela.

Não era o budismo uma espécie de paganismo? Isso provocara atritos entre o irmão e os pais de Josui. O Dr. Sakai não desejava ver o filho casado numa igreja. Nada disso, porém, tinha importância agora, pois o casamento nunca se realizara. No dia marcado para a cerimónia, o irmão já estava morto, a família cristã encontrava-se no Arizona, atrás de arames farpados, e a família Sakai vivia ali, em Kyoto. Ninguém em casa se referia àquela data, mas Josui sabia que os pais se lembravam. Quanto a ela, fora ao jardim e, escondida atrás de um penhasco, chorara pelo irmão. – Takashi Matsui convidou-me para tomar chá em sua companhia – observou o Dr. Sakai neste momento. – Como o convite foi feito há cinco dias, a tarde de hoje é indicada para aceitá-lo. – Terminara a refeição e saboreava o chá de cor verde desmaiada que tanto apreciava. Takashi Matsui era o seu doente mais abastado. Sofria de uma vesícula biliar rebelde, mas opunha-se a uma operação. Não era, ainda, um homem velho; dos seus três filhos, um encontrava-se prisioneiro na Rússia, outro fora morto durante o ataque a Nanquim e o terceiro era hoje um jovem. A existência do último filho dava ânimo aO Sr. Matsui. Acreditava que o Japão nunca mais entraria em guerra e, portanto, ele poderia conservar ao menos esse filho. Não estava escrito na nova constituição que o Japão nunca mais se rearmaria? Fora exigência dos conquistadores americanos. Por esse motivo Takashi Matsui prodigalizava o seu dinheiro e o seu amor ao filho mais novo. Parecera-lhe inútil dar educação aos outros dois filhos, pois era inevitável que fossem convocados para as forças armadas e provàvelmente pereceriam durante as grandes guerras preparadas pelos homens que então se encontravam no poder; mas Kobori estava agora na Universidade de Tóquio. A família Matsui era muito antiga. O ramo de Kyoto, embora não fosse o mais importante, era o mais conservador; Takashi Matsui era sem dúvida o primeiro, e ainda, a bem dizer, o único homem que reiniciara a cerimónia do chá, após o final da guerra. Uma vez passado o período de ocupação e restaurada a independência do país, o Dr. Sakai planeava construir, sob as indicações dO Sr. Matsui, uma casa de chá própria, no mais afastado recanto do seu jardim, onde reinava silêncio.

Muitos japoneses modernos ridicularizavam a antiga cerimónia do chá, mas o Dr. Sakai não tolerava essa atitude na sua presença. Considerava muito importante ressuscitar, o mais cedo possível, os velhos rituais e costumes do país, a fim de que o espírito japonês pudesse também reviver. Na cerimónia do chá, a meditação sobre a arte e a natureza estava conjugada ao agradável convívio social e ao prazer de pratos deliciosos. O Dr. Sakai servira-se com moderação ao almoço porque sabia que à tarde o esperava um lauto jantar, que começaria com uma sopa cremosa de feijão, continuaria com pratos de peixe, caça e verduras, e terminaria com outra sopa leve e doces. Haveria também o chá verde, consistente e de suave aroma, feito de folhas pulverizadas, seleccionadas entre as mais tenras colhidas de velhas árvores que vegetavam à sombra. Transcorrida a cerimónia, cuja duração era de quatro horas, talvez se apresentasse a oportunidade para uma palestra reservada com o seu anfitreão e, se tal acontecesse, deixaria o velho cavalheiro falar nos filhos. Isso o levaria, seguramente, a mencionar o precioso terceiro filho, e dele a conversa se encaminharia, como já acontecera duas vezes, para Josui, sua única e preciosa filha. Nem o pai nem a filha fizeram qualquer referência ao que lhes ia na mente enquanto terminavamo almoço em silencio. Kobori, o filho dO Sr. Matsui, estava agora em idade de casar. Contava dois anos mais que Josui. Nos velhos tempos, os dois pais teriam arranjado tudo, mas sabiam que isso já não era possível na época actual. As bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki tinham destruído mais que tijolos e argamassa, ou mesmo vidas humanas. O Dr. Sakai ainda não falara à filha a respeito do rapaz, mas informara a esposa de que Kobori desejava o matrimónio e que Josui devia pensar no assunto. A mãe repetira essas palavras à filha. Josui pensara, mas não conseguia chegar a uma decisão. Sentia-se intimamente inquieta e sem o menor desejo de pensar em Kobori. Não o odiava, isso era certo. Nenhuma jovem seria capaz de odiar um rapaz de físico tão apresentável, educação cuidada, sério e altivo. Josui via-o muitas vezes, nunca com encontro marcado, apenas por mero acaso. Ele frequentava a Universidade em Tóquio, mas ia passar os feriados a casa. Ainda havia poucas semanas o encontrara na festa das flores de cerejeira; um jovem alto de olhos castanhos.

Josui sentia-se perfeitamente à vontade na sua companhia, tanto mais que ele enrubescia ao vê-la. Tinha a pele extraordinàriamente clara, a testa muito alta e percebia-se logo quando corava. Ela admirara-lhe o rosado das faces, a alvura da pele, e, com a franqueza americana que lhe era própria, elogiara a roupa ocidental de cor cinza clara que vestia. Mas, apesar de admirálo, não se apaixonara por ele, facto que lhe causava surpresa, pois andava ansiosa por apaixonar-se. O seu coração palpitava, pronto para o amor. Nada mais queria senão amar um homem e tornar-se sua esposa. Sentia o desejo e o anseio de ser subjugada pelo amor, de entregar-se inteiramente. Quando, todavia, olhava para Kobori, o seu coração teimoso afastava-se dele e o desejo morria. Precisara dominar uma estranha vontade de responder bruscamente à sua voz suave e de desviar o rosto daqueles olhos grandes e oblíquos que brilhavam de amor. Que direito lhe assistia de amá-la tanto e tão abertamente, quando ela nunca lhe dera o menor sinal de estímulo?

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