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A Fortaleza de Sharpe – Bernard Cornwell

Richard Sharpe queria ser um oficial decente. Queria de verdade. Queria mais do que qualquer outra coisa, mas por algum motivo isso parecia quase impossível, como tentar acender umisqueiro numa chuva de vento. Os soldados ou não gostavam dele, ou o ignoravam, ou não o respeitavam, e Sharpe não sabia como lidar com nenhuma dessas três posturas. Quanto aos outros oficiais do batalhão, eles o desaprovavam abertamente. Botar uma sela de corrida num cavalo de tração não faz o cavalo andar mais rápido, dissera certa noite o capitão Urquhart na tenda esfarrapada que passava por cassino {1} dos oficiais. Urquhart não falou sobre Sharpe, ao menos não diretamente, mas todos os outros oficiais olharam para o alferes recém-promovido. O batalhão estava parado no meio do nada. Fazia um calor dos diabos debaixo do céu semnuvens. Estavam cercados por uma plantação alta que ocultava tudo, menos o céu. Um canhão disparou em algum lugar ao norte, mas Sharpe não teve como saber se ele pertencia à artilharia britânica ou à inimiga. Uma vala seca atravessava a plantação alta. Os soldados da companhia estavam sentados na beira da vala, aguardando ordens. Um ou dois tinham deitado e dormiam de boca aberta, enquanto o sargento Colquhoun folheava sua velha Bíblia. Míope, o sargento mantinha o livro bem perto do nariz, pelo qual gotas de suor escorriam até cair nas páginas. Em geral o sargento lia só para si, formando palavras com a boca e às vezes franzindo a testa quando se deparava com um nome difícil. Mas hoje estava apenas virando lentamente as páginas com um dedo umedecido. — Procurando inspiração, sargento? — perguntou Sharpe. — Não, senhor — respondeu Colquhoun com respeito, mas ainda assim conseguindo transmitir a opinião de que a pergunta fora impertinente. Lambeu um dedo e virou cuidadosamente outra página. E acabou a conversa, pensou Sharpe. Em algum lugar adiante, para além das plantas altas, mais compridas que um homem adulto, outro canhão disparou. A descarga foi abafada pelos caules grossos. Um cavalo relinchou, mas Sharpe não viu o animal. Não conseguia ver nada através da alta vegetação.


— Vai ler uma história pra gente, sargento? — indagou o cabo McCallum. Ele falou em inglês em vez de gaélico, o que significa que queria que Sharpe entendesse. — Não vou, John. Não vou. — Ah, sargento, leia pra gente uma daquelas histórias picantes sobre tetas — insistiu McCallum. Os homens riram, olhando para Sharpe para ver se o alferes ficara ofendido. Um dos homens adormecidos acordou de supetão e olhou em torno, assustado; em seguida murmurou uma imprecação, matou uma mosca e tornou a deitar. Os outros soldados da companhia caminharam pelo leito de lama rachada da vala, que estava decorado com uma filigrana de restolho verde. Um lagarto morto jazia numa das fissuras secas. Sharpe perguntou-se como o bicho não fora achado pelas aves de rapina. — John McCallum, o riso dos tolos é como o crepitar de chamas debaixo da panela —decretou o sargento Colquhoun. — Não fuja do assunto, sargento — disse McCallum. — Já ouvi essa história numa igreja quando era criança. Era sobre uma mulher cujas tetas pareciam cachos de uvas. — McCallumcontorceu-se para olhar para Sharpe. — Já viu tetas como uvas, Sr. Sharpe? — Nunca conheci a senhora sua mãe, cabo — disse Sharpe. Os homens riram. McCallum fez cara feia. O sargento Colquhoun abaixou a Bíblia e olhou para o cabo. — John McCallum, o Cântico de Salomão compara o busto de uma mulher a cachos de uvas, e não tenho dúvida de que se refere às vestes que as mulheres decentes usavam na Terra Santa. Talvez seus corpetes fossem adornados com bolas de lã tricotada. Não consigo entender como pode achar graça disso. Outro canhão disparou, e desta vez uma bala sólida atravessou as plantas altas nos arredores da vala. Os caules contorceram-se violentamente, descarregando uma nuvem de poeira e passarinhos para o céu aberto.

Os pássaros revoaram em pânico por alguns segundos e então voltaram para as plantas ondulantes. — Conheci uma mulher que tinha tetas encaroçadas — disse o cabo Hollister. Ele era um homem carrancudo e violento que raramente abria a boca para falar. — Encaroçadas como sacos de carvão. — Franziu a testa como se para espremer uma lembrança, e então balançou a cabeça. — Ela morreu. — Esta conversa é absurda — disse Colquhoun, e os homens deram de ombros e se calaram. Sharpe queria perguntar ao sargento sobre os cachos de uvas, mas sabia que esse tipo de indagação apenas incitaria a lascívia dos homens; e, como oficial, precisava manter a disciplina dos soldados. Só que estava genuinamente curioso. Por que alguém diria que uma mulher tinha seios como cachos de uvas? Uvas faziam Sharpe lembrar de balas de mosquete, e ele se perguntou se os bastardos lá na frente estavam equipados com granadas. Bem, claro que estavam, mas não havia sentido em desperdiçar metralha num campo de juncos. Aliás, será que eram mesmo juncos? Parecia muito estranho alguém querer cultivar juncos, mas a Índia era cheia de coisas estranhas: sodomitas pelados que se diziam homens santos, encantadores que faziam serpentes ondularem ao som de flautas, ursos dançarinos, contorcionistas… um verdadeiro circo. E os palhaços lá na frente deviamter granadas. Eles esperariam até avistar os casacas vermelhas, para então carregar seus canhões com cartuchos que irrompiam dos canos numa saraivada de balas. Demos graças ao Senhor pelo que estamos para receber entre os juncos, pensou Sharpe. — Achei — disse Colquhoun solenemente. — Achou o quê? — perguntou Sharpe. — Lembrava vagamente que o bom livro mencionava painço, senhor. E aqui está. Ezequiel, Capítulo quatro, versículo nove. — O sargento aproximou o livro dos olhos, forçando a vista para entender o texto. Tinha um rosto redondo e salpicado com sinais, como um pudim cravejado com ameixas. — “Toma trigo e cevada, feijão, lentilhas, painço e funchos, mete-os numa vasilha e faze deles pão” — leu laboriosamente. Fechou com cuidado a Bíblia, embrulhou-a num farrapo de lona e guardou-a em sua algibeira. — Senhor, eu gosto de encontrar coisas cotidianas nas Escrituras.

Gosto de ver coisas e imaginar Deus vendo essas mesmas coisas. — Mas por que painço? — indagou Sharpe. — Esta plantação, senhor, é de painço — disse Colquhoun, apontando para os caules altos que os cercavam. — Os nativos chamam de jowari, mas nosso nome para essa planta é painço. —Enxugou o suor do rosto com uma manga. A tintura vermelha de sua casaca desbotara para um púrpura fosco. — Isto, obviamente, é painço-grande, mas duvido que as escrituras mencionempainço-grande. Não especificamente. — Painço, é? — disse Sharpe. Então essas plantas altas não eram juncos, afinal de contas. Pareciam juncos, exceto que eram mais altas. Dois ou três metros de altura. — Colher isso deve dar um trabalho dos infernos — comentou, mas não obteve resposta. O sargento Colquhoun sempre tentava ignorar blasfêmias. — O que são funchos? — quis saber McCallum. — Uma planta cultivada na Terra Santa — respondeu Colquhoun. Ele claramente não sabia. — Parece uma doença, sargento — disse McCallum. — “Fulano está cheio de funchos. É melhor passar mercúrio.” Um ou dois homens riram da referência à sífilis, mas Colquhoun ignorou a leviandade. — Vocês cultivam funchos na Escócia? — perguntou Sharpe ao sargento. — Não que eu saiba, senhor — disse Colquhoun solenemente, após alguns segundos de reflexão sobre a pergunta. — Mas eu arriscaria dizer que eles devem fazer isso nas terras baixas. Eles cultivam coisas muito esquisitas lá embaixo.

Coisas inglesas — acrescentou, dando as costas para Sharpe. E vá se danar você também, pensou Sharpe. E onde diabos o capitão Urquhart tinha se metido? E, por falar nisso, onde diabos todo o mundo tinha se metido? O batalhão começara a marcha bem antes da alvorada, e todos esperavam acampar ao meio-dia, mas então chegou um boato de que o inimigo estava esperando adiante, e assim o general sir Arthur Wellesley ordenara que a bagagem fosse empilhada e o avanço continuasse. O 74° penetrara a plantação de painço, e dez minutos depois o batalhão recebera ordens de parar ao lado da vala seca. Enquanto o capitão Urquhart cavalgara na frente para falar com o comandante do batalhão, Sharpe fora deixado para trás, suando e esperando junto com a companhia. Aliás, suar era a única coisa que ele tinha para fazer ali. Maldição. Aquela era uma companhia muito boa, e não precisava nem um pouco de Richard Sharpe. Urquhart comandava-a commuita competência, Colquhoun era um sargento magnífico, os homens estavam sempre tão satisfeitos quanto soldados podiam ficar, e a última coisa que a companhia precisava era de um oficial recémpromovido, ainda por cima inglês, que apenas dois meses antes era sargento. Os homens estavam conversando em gaélico, e Sharpe, como sempre, tentou adivinhar se falavam a seu respeito. Provavelmente não. Era mais provável que estivessem falando sobre as dançarinas em Ferdapoor, que haviam exibido não meros cachos de uvas, mas melões imensos e descascados. Estava havendo algum tipo de festival, e o batalhão cruzara com um bando de garotas seminuas dançando pela estrada na direção oposta. O sargento Colquhoun ficara vermelho como uma casaca não desbotada e gritara para seus homens manterem olhos à frente. Ordem absurda quando havia ali na estrada uma legião de bibbis peladas e rebolando com sininhos de prata amarrados nos pulsos. Até os oficiais tinham olhado para elas como homens famintos diante de um prato de rosbife. E se os soldados não estavam falando sobre mulheres, provavelmente estavam reclamando sobre o quanto tinham marchado nas últimas semanas, cruzando o interior da Confederação Mahratta debaixo de um sol escaldante sem qualquer sinal do inimigo. Mas fosse lá sobre o que estivessemfalando, tinham decidido deixar o alferes Richard Sharpe de fora. O que era perfeitamente justo, pensou Sharpe. Ele havia marchado nas fileiras por tempo suficiente para saber que os únicos soldados que conversavam com oficiais eram os puxa-sacos atrás de favores. Oficiais eram diferentes, exceto Sharpe, que não se sentia diferente. Apenas se sentia excluído. Eu devia ter continuado como sargento, pensou. Esse era um pensamento que vinha assombrando sua mente nas últimas semanas, essa vontade de poder voltar aos tempos em que trabalhava no arsenal de Seringapatam com o major Stokes. Aquilo sim era vida! E Simone Joubert, a francesa que ficara com Sharpe depois da batalha em Assaye, voltara para Seringapatam para esperar por ele.

Melhor estar lá como sargento do que ali como um oficial que ninguém quer. Durante algum tempo não se ouviu nenhum tiro de canhão. Talvez o inimigo tivesse reunido seus pertences e partido. Talvez eles tivessem atrelado os canhões pintados às parelhas de bois, armazenado as granadas nos engates das carretas de canhão e partido para o norte. Nesse caso, restaria a Sharpe dar meia-volta com o batalhão, retornar à aldeia onde a bagagem estava guardada e então passar mais uma noite constrangedora no cassino dos oficiais. O tenente Cahill ficaria observando Sharpe como um falcão, cobrando o dobro por cada copo de vinho que ele tomasse, e Sharpe, como o oficial mais moderno, teria de propor o brinde de lealdade e fingir não ver quando metade dos bastardos passasse suas canecas por cima de seus cantis. Rei sobre a água. Um brinde a um cadáver. Um candidato Stuart ao trono que passara desta para melhor durante seu exílio em Roma. Jacobitas que fingiam que Jorge III não era o rei por direito. Na verdade, nenhum daqueles oficiais era realmente desleal, assim como o gesto secreto de passar o vinho sobre a água não era segredo nenhum. Tudo que eles queriam era provocar indignação em seu alferes inglês. Só que Sharpe não estava nem aí para isso. Para Sharpe o monarca da Inglaterra podia ser até o rei Cole da lenda, porque ele não se importava. Colquhoun subitamente bradou ordens em gaélico, e os homens pegaram seus mosquetes e saltaram para a vala de irrigação, onde formaram quatro fileiras e começaram a marchar para o norte. Sharpe, pego de surpresa, seguiu-os humildemente. Supôs que deveria perguntar a Colquhoun o que estava acontecendo, mas não queria demonstrar ignorância, e então viu que o restante do batalhão também estava marchando, de modo que Colquhoun claramente decidira que a companhia número seis deveria avançar também. O sargento nem fingiu pedir a Sharpe permissão para se mover. Por que haveria de fazer isso? Mesmo quando Sharpe dava uma ordem, os soldados automaticamente olhavam para Colquhoun a fim de obter sua aprovação antes de obedecer. Era assim que a companhia funcionava. Urquhart comandava, Colquhoun era o segundo na hierarquia, e o alferes Sharpe seguiaos como um daqueles vira-latas adotados pelos soldados. O capitão Urquhart voltou cavalgando pela vala. — Muito bem, sargento! — disse a Colquhoun, que ignorou o elogio. O capitão virou seu cavalo, cascos afundando na lama seca. — Os chacais estão esperando adiante — informou Urquhart a Sharpe.

— Achei que eles haviam partido — disse Sharpe. — Eles estão formados e preparados — disse Urquhart. — Formados e preparados. O capitão era um homem bem-apessoado de expressão severa, coluna reta e nervos de aço. Os soldados confiavam nele. Em outra época, Sharpe teria se orgulhado de servir a um homem como Urquhart, mas o capitão parecia irritado com a presença de Sharpe. — Em breve seguiremos para a direita — disse Urquhart a Colquhoun. — Você formará a linha à direita em duas fileiras. — Sim, senhor. Urquhart relanceou os olhos para o céu. — Ainda nos restam umas três horas de luz. Será o suficiente para o serviço. Fique à esquerda da fileira, alferes. — Sim, senhor — disse Sharpe e compreendeu que não teria nada a fazer lá. Os homens cumpririam as ordens à risca, os cabos cerrariam as fileiras com competência, e tudo que Sharpe teria de fazer seria segui-los como um cachorro amarrado a uma carroça. Houve um troar súbito quando uma bateria inteira de canhões inimigos abriu fogo. Sharpe escutou balas sólidas varando a plantação de painço, mas nenhum dos mísseis chegou perto do 74°. Os gaiteiros do batalhão tinham começado a tocar e os homens apertaram o passo e levantaram seus mosquetes em preparação para o trabalho funesto que os aguardava. Mais dois canhões dispararam, e desta vez Sharpe viu um rastro de fumaça sobre a plantação e compreendeu que uma bala passara sobre suas cabeças. O rastro de fumaça deixado pelo estopim ficou pairando no céu sem vento, enquanto Sharpe aguardava pela explosão, mas nada aconteceu. — Deixaram o estopim comprido demais — deduziu Urquhart. Seu cavalo estava nervoso, ou talvez não gostasse de pisar no terreno traiçoeiro do fundo da vala. Urquhart conduziu o cavalo até a margem, onde ele agora estava pisoteando o painço. — Milho? — Colquhoun disse que é painço — explicou Sharpe. — Painço-grande.

Urquhart resmungou alguma coisa e então cavalgou até a testa da companhia. Sharpe enxugou o suor dos olhos. Usava uniforme de oficial, casaca vermelha com cauda e os ornamentos brancos do 74°. A casaca pertencera ao tenente Blaine, que morrera em Assaye. Sharpe comprara-a por um xelim num leilão de pertences de oficiais mortos e então costurara toscamente o buraco de bala no lado esquerdo do peito. Contudo, por mais que tivesse esfregado, não conseguira tirar do tecido vermelho desbotado a mancha preta do sangue de Blaine. Sharpe usava suas calças velhas —aquelas que recebera ao ser promovido a sargento —, botas de equitação de couro vermelho que tomara como espólio do cadáver de um árabe em Ahmednuggun e uma faixa vermelha de oficial que surrupiara de um cadáver emAssaye. Por espada usava um sabre da cavalaria ligeira, a mesma arma com que salvara a vida de Wellesley na batalha de Assaye. Não gostava muito dela. Era desajeitada, e a lâmina curvada nunca estava onde você pensava. Você dava um golpe com a espada, e quando pensava que ela havia atingido o alvo, descobria que a lâmina ainda precisava viajar por 15 centímetros. Os outros oficiais portavam claymores, espadas escocesas de folha larga, pesadas e mortais. Sharpe devia estar equipado com uma dessas, mas fora superado nos lances do leilão. Se quisesse, Sharpe poderia ter comprado cada claymore no leilão, mas não desejava passar a impressão de que era rico. O que ele era. Mas um homem como Sharpe não devia ter dinheiro. Ele vinha de baixo, um soldado ordinário, nascido e criado na sarjeta. Mas como acabara com a raça de meia dúzia de inimigos, salvando a vida de Wellesley, o general recompensara-o com uma promoção a oficial. E o alferes Sharpe era esperto demais para deixar que seu novo batalhão descobrisse que ele possuía a fortuna de um rei. A fortuna de um rei morto: as jóias que ele tomara do sultão Tipu na comporta esfumaçada de Seringapatam. Será que ele seria mais popular se todos soubessem que era rico? Sharpe duvidava. Riqueza não dava respeitabilidade a ninguém, a não ser que fosse herdada. Além disso, não era a pobreza que excluía Sharpe tanto do cassino dos oficiais quanto das fileiras, mas o fato de ser umestranho. O 74° levara uma surra infernal em Assaye. Nenhum oficial saíra de lá sem estar ferido, e as companhias que contavam com efetivos de setenta ou oitenta soldados antes da batalha agora possuíam apenas quarenta a cinqüenta homens.

O batalhão conheceu o inferno, e os sobreviventes agora dependiam do apoio uns dos outros. Embora tivesse estado em Assaye, embora tivesse se destacado no campo de batalha, Sharpe não passara pela provação do 74° e, portanto, era umestranho. — Alinhar à direita! — gritou o sargento Colquhoun, e a companhia formou uma linha de duas fileiras à direita. A vala emergira da plantação de painço para se juntar a um amplo leito de rio, e Sharpe olhou para o norte, para ver uma névoa de fumaça de canhão branca no horizonte. Canhões mahrattas. Mas ainda estava muito longe. Agora que o batalhão estava livre da plantação, Sharpe podia sentir um leve vento. Não era forte o bastante para esfriar o calor, mas ao menos dissiparia a fumaça de canhão. — Alto! — gritou Urquhart. — Firme! A artilharia inimiga podia estar muito longe, mas parecia que o batalhão iria marchar direto pelo leito seco do rio até as bocas de seus canhões. Mas pelo menos o 74° não estava sozinho. O 78°, outro batalhão Highlander, estava à sua direita, e de cada lado desses dois batalhões escoceses havia duas extensas linhas de sipaios de Madras. Urquhart cavalgou de volta até Sharpe. — Stevenson se juntou a nós. — O capitão falou alto o bastante para que o resto da companhia ouvisse. Urquhart estava encorajando-os com a informação de que os dois pequenos exércitos britânicos haviam se combinado. O general Wellesley comandava a ambos, embora durante a maior parte do tempo ele dividisse suas forças em duas partes, a menor sob o comando do coronel Stevenson. Mas hoje as duas pequenas partes haviam se combinado para que doze mil soldados de infantaria pudessem atacar juntos. Mas contra quantos? Sharpe não conseguia ver o exército mahratta por trás de seus canhões, mas com toda certeza os desgraçados estavam lá, com força total. — O que significa que o 94° está em algum lugar à nossa esquerda — acrescentou Urquhart bem alto, e alguns dos homens murmuraram suas aprovações sobre as notícias. O 94° era outro regimento escocês, de modo que hoje haveria três batalhões escoceses atacando os mahrattas. Três escoceses e dez batalhões sipaios, e a maioria dos escoceses acreditava que poderiam fazer o trabalho sozinhos. Sharpe também acreditava nisso. Os escoceses poderiam não gostar muito dele, mas ele sabia que eles eram bons soldados. Ossos duros de roer.

Às vezes Sharpe tentava imaginar como seria para os mahrattas lutar contra os escoceses. Inferno, presumiu. Um inferno absoluto. “O fato é que para eliminar um escocês é preciso duas vezes mais inimigos que para eliminar um inglês”, dissera-lhe certa vez o coronel McCandless. Pobre McCandless. Ele fora eliminado. Morto por um tiro durante os momentos finais de Assaye. Qualquer soldado inimigo podia ter matado o coronel, mas Sharpe convencera-se de que o inglês traidor, William Dodd, disparara a bala fatal. E Dodd estava à solta, ainda lutando pelos mahrattas, e Sharpe jurara sobre a sepultura de McCandless que vingaria o escocês. Fizera esse juramento enquanto cavava a sepultura do coronel, enchendo as mãos de bolhas enquanto golpeava o solo seco. McCandless fora um bom amigo para Sharpe e agora, com o coronel enterrado fundo para que nenhum pássaro ou animal pudesse alimentar-se do seu cadáver, Sharpe sentia-se sem amigos neste exército. — Canhões! — O grito soou atrás do 74°. — Abram alas! Duas baterias de canhões galopadores de seis libras estavam sendo rebocadas até o leito seco do rio para formar uma linha de artilharia à frente da infantaria. Os canhões eram denominados “galopadores” porque eram leves e costumavam ser puxados por cavalos, mas agora cada um vinha atrelado a cinco parelhas de bois, o que, no momento, os tornava mais assemelhados a “rastreadores”. Os bois tinham chifres pintados e alguns usavam sinos nos pescoços. Todos os canhões pesados haviam ficado em algum lugar atrás na estrada, tão longe que provavelmente não chegariam a tempo de participar da festa. A terra estava mais desobstruída agora. Viam-se alguns poucos painços adiante e, estendendo-se para leste, havia campos aráveis. Sharpe observava enquanto os canhões eramlevados através daquele gramado seco. O inimigo também espreitava e a primeira salva atingiu o solo ricocheteando sobre os canhões britânicos. — Mais alguns minutos e os artilheiros vão se dar ao trabalho de nos atacar — disse Urquhart e então chutou o pé direito para fora do estribo e apeou ao lado de Sharpe. — Jock! —gritou para um soldado. — Cuide do meu cavalo. O soldado levou o cavalo até um gramado, e Urquhart chamou Sharpe com um meneio de cabeça, convidando-o a segui-lo para um lugar onde a companhia não poderia ouvi-los. O capitão parecia tão embaraçado quanto Sharpe, que não estava acostumado a esse tipo de intimidade comUrquhart.

— Fuma charuto, Sharpe? — perguntou o capitão. — As vezes, senhor. — Tome. — Urquhart ofereceu a Sharpe um charuto vagabundo, em seguida acendeu seu isqueiro. Primeiro ele acendeu o seu charuto, e em seguida estendeu o isqueiro com sua chama tremeluzente para Sharpe. — O major me disse que novos soldados chegaram a Madras. — Isso é bom, senhor. — Não vai restaurar nosso efetivo, claro, mas será uma ajuda — disse Urquhart. Ele não estava olhando para Sharpe, mas fitando os canhões britânicos que avançavam continuamente pelo pasto. Havia apenas uma dúzia de canhões, um número bem menor que o da artilharia mahratta. Uma granada explodiu ao lado de uma das carretas, cobrindo os bois com fumaça e nacos de grama e terra. Sharpe esperou ver a carreta parada e os animais moribundos emaranhados nos arreios, mas os bois continuaram em frente, miraculosamente ilesos diante da violência da granada. — Se eles avançarem muito, vão ser reduzidos a metal fumegante. Está feliz aqui, Sharpe? — Feliz, senhor? — Sharpe foi surpreendido pela pergunta. Urquhart olhou para Sharpe de testa franzida, como se tivesse achado a resposta do alferes inútil. — Satisfeito? — Nenhum soldado sabe realmente o que é ser feliz, senhor. — Isso não é verdade, não é verdade — disse Urquhart com desaprovação. O capitão Urquhart era tão alto quanto Sharpe. Segundo boatos, Urquhart era um homemmuito rico, mas o único sinal era seu uniforme, que tinha um corte elegante em contraste com a casaca surrada de Sharpe. Urquhart era um homem de raros sorrisos, o que dificultava estar em sua companhia. Sharpe estava curioso para saber por que o capitão iniciara a conversa, que parecia atípica do frio Urquhart. Será que estava nervoso com a batalha iminente? Para Sharpe, parecia difícil acreditar que, depois de tudo pelo que passara em Assaye, Urquhart estivesse acovardado, mas ele não conseguia pensar em outra explicação. — Um homem precisa estar satisfeito com seu trabalho — disse Urquhart com um floreio de seu charuto. — Se não estiver, isso provavelmente é um sinal de que ele está no ramo errado. — Não tenho tido muito trabalho a fazer, senhor — disse Sharpe, torcendo para não ter soado rude.

— Realmente, não tem — disse Urquhart devagar. — Entendo o que quer dizer. Entendo mesmo. A companhia cuida muito bem de si mesma sozinha. Colquhoun é um bom homem, e o sargento Craig está se revelando um excelente profissional, não acha? — Sim, senhor. — Sharpe sabia que não precisava chamar Urquhart de “senhor” o tempo todo, mas velhos hábitos são difíceis de perder. — Ambos são bons calvinistas, sabia? — comentou Urquhart. — Isso faz deles pessoas muito confiáveis. — Sim, senhor — disse Sharpe. Ele não sabia exatamente o que era um calvinista e não iria perguntar. Talvez fosse o mesmo que maçom, e havia muitos deles no cassino dos oficiais do 74°, embora Sharpe também não soubesse realmente o que eles eram. Sabia apenas que não era umdeles. — A questão, Sharpe, é que você tem uma fortuna nas mãos, se é que me entende — prosseguiu Urquhart, embora não tenha olhado para Sharpe ao falar. — Uma fortuna, senhor? — perguntou Sharpe, algum alarme transparecendo na voz. Será que Urquhart havia farejado seu tesouro de esmeraldas, rubis, diamantes e safiras? Urquhart explicou: — Você é alferes e, se não estiver feliz, sempre pode vender sua patente. Há muitos bons sujeitos lá na Escócia que pagariam a você pelo posto. Há até alguns sujeitos aqui. Creio que a Brigada Escocesa tem praças-cavalheiros em suas fileiras.

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