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A Grande Arte – Rubem Fonseca

Não era uma ferramenta como as outras. Era feita de material de qualidade superior e o aprendizado do seu ofício muito mais longo e difícil. Para não falar no uso que dela fazia seu portador. Ele conhecia todas as técnicas do utensílio, era capaz de executar as manobras mais difíceis — a in-quartata, a passata sotto — com inigualável habilidade, mas usava-o para escrever a letra P, apenas isso, escrever a letra P no rosto de algumas mulheres. A mulher estava deitada ao seu lado falando banalidades. Ele olhou à sua volta. As paredes eram pintadas de verde, como certos hospitais. Havia um toca-discos, coberto por uma capa empoeirada de acrílico, ao lado de uma televisão portátil. Uma lata de talco ordinário estava sobre a cama e ele tocou-a com o pé descalço. Não adiantava imaginar por que fazia aquilo. Era uma perda de tempo especular por que determinadas coisas dão prazer. O P não tinha ressonâncias literárias, nem ele se considerava um psicótico puritano querendo esconjurar a congênita corrupção feminina. O fato de as mulheres serem prostitutas não tinha qualquer influência em sua resolução. Apenas não queria correr riscos, por isso escolhia indivíduos que a sociedade considerava descartáveis. Mas, ao olhar o rosto da mulher curvada sobre seu corpo nu, admitiu que talvez estivesse mentindo para si mesmo. Era mesmo uma mulher inexpressiva, não faria realmente falta. O prazer que podia propiciar era mínimo, fácil de achar, de imaginar. A mulher passou a língua no seu peito, detendo-se no mamilo. Sentindo o ingurgitamento no baixo-ventre, afastou-a e levantou-se, postando-se em pé ao lado da cama. A mulher ajoelhou-se à sua frente, dúctil, funcional. Ele agarrou-a pelo pescoço e jogou-a de costas ao chão, acrescentando à força das mãos o peso de seu corpo. A mulher abriu a boca, tentando respirar, emitiu um grunhido roufenho, os olhos arregalados fixados no rosto dele, os braços levantados, os dedos trêmulos, procurando um apoio que a salvasse de afundar e sucumbir na escuridão que rapidamente a engolfava. Tudo durou poucos segundos. Dentro da bainha de couro estava o objeto brilhante, que ele segurou, colocando-se en garde, os músculos do corpo tensos — uma recreação que se permitiu, naquele momento de euforia e volúpia. Mas logo mudou a empunhadura do instrumento e sentou-se ao lado da mulher no chão.


Cuidadosamente traçou no rosto dela a letra P, que no alfabeto dos antigos semitas significa “boca”. Apanhou suas roupas sobre uma cadeira e vestiu-se alerta, expedito, apesar de sua mente não ter parado de imaginar e lembrar. Quando terminou inspecionou o quarto e o banheiro. Verificou pelo visor da porta que o corredor estava vazio. Ao sair limpou com um lenço o botão da campainha fazendo-a soar, a única falha, todavia irrelevante, em seu cauteloso procedimento. Não haveria impressões digitais, testemunhas, quaisquer indícios que o identificassem. Apenas sua caligrafia. Não tomei conhecimento dos fatos de maneira ordenada. Os Cadernos de anotações de Lima Prado chegaram-me às mãos muito antes das minhas conversas com Míriam, que me ajudaram a entender as relações de Zakkai, o Nariz de Ferro, com Camilo Fuentes. Para reconstituir o que se passou no apartamento de Roberto Mitry, além de minhas deduções e induções, baseei-me nas informações de Monteiro (o nome verdadeiro não era esse), o vendedor de armamento bélico. Os acontecimentos foram sabidos e compreendidos mediante minha observação pessoal, direta, ou então segundo o testemunho de alguns dos envolvidos. Às vezes interpretei episódios e comportamentos — não fosse eu um advogado acostumado, profissionalmente, ao exercício da hermenêutica. 1 As casas estavam sendo demolidas para dar espaço a um outro lugar chamado Cidade Nova. Eramcasas de um pavimento, com portas e janelas de persianas de madeira pintadas de azul, abrindo diretamente na calçada. Ainda estava intacto um lado inteiro da rua, a última que restava da velha zona do meretrício. Ouvia-se o barulho das máquinas derrubando as paredes ainda de pé. O fino pó ocre dos tijolos destruídos pairava no ar quente. Não seriam mais vistas prostitutas nas janelas brincando com os clientes que passavam. Saí da casa da cafetina Míriam e juntos caminhamos até o botequim do Saboia. Sentamos emvolta de uma mesa de tampo de mármore branco, bebendo cerveja. “Disseram-me que em cima da minha casa vai passar um viaduto. É verdade?”, perguntou Saboia. “Talvez.” “Para que querem mais um viaduto? A indústria automobilística não está em crise?” Eu fora dizer ao meu cliente que ele seria despejado. Saboia não se surpreendera com a notícia.

Ele não esperava ganhar uma ação judicial contra o governo. “Não há nada mais a fazer, seu Saboia. Perdemos na última instância. A Míriam está com mais sorte. A Prefeitura está procurando um lugar para as meninas.” Lembrei-me da primeira vez em que fora àquela rua. Parecera-me uma alegre feira, cheia de homens, andando de um lado para o outro, fumando e conversando nas esquinas; parados na frente das casas olhando as mulheres. Uma mulher de cabelos vermelhos, em pé numa porta, perguntara, “Fazendo gazeta, menino?”, uma mulher jovem de seios grandes e braços grossos, que fez uma careta maliciosa botando para fora uma língua da cor dos seus cabelos, enquanto eu a olhava indeciso. “Eu sabia que ia acabar assim.” Saboia colocou outra garrafa na mesa. “Tenho que ir embora.” Bati de leve na mão de Míriam. “A gente se vê.” Caminhei pelo canal do Mangue até encontrar um táxi. A água poluída do canal exalava um odor desagradável. Da janela do táxi fiquei olhando os outdoors colocados nos espaços abertos pela demolição das casas: cigarros, televisores, automóveis. Logo que cheguei, Wexler, meu sócio, entrou na minha sala. “Está aqui uma dona com uma história esquisita. Cheguei a pensar que era ruim da cabeça. Vem conversar com ela.” Sentada no sofá da sala do Wexler, olhava para as unhas. Uma mulher de pouco mais de vinte anos, com duas rodelas fortes de blush sobre os zigomas disfarçando sua cor pardacenta. Chamavase Gisela. “Este aqui é o meu sócio. Conta para ele o caso que você me contou.

” Ela olhou para as unhas. Esperamos. “Eu já contei para o senhor.” “Bem”, disse Wexler, “ela está sendo ameaçada, não é isso?, por um homem cujo nome não sabe.” “O nome dele é Francês.” “Você disse que não sabia o nome.” “Foi esse o nome que Danusa deu.” “Quem é Danusa?” “Minha amiga, que levou ele lá em casa. Ela tem um gabinete no Santos Vahlis, na Senador Dantas.” “E por que ele está ameaçando você?” A mulher, além de lacônica, não deixava de olhar para as unhas. Usava um esmalte vermelho. A palavra que veio na minha cabeça foi carmesim. Esperamos. É preciso paciência para fazer as pessoas falarem. “Eu tenho uma coisa dele.” “Ele ameaçou você porque você tem alguma coisa dele e não devolve. É isso?” “É.” “E por que você não devolve?” “Tenho medo.” “Que coisa é essa? Um objeto, dinheiro, o quê?” “Uma fita de videocassete.” “Tem o que nessa fita?” “Não sei. Eu não tenho aparelho para ver.” “O cassete é dele. Devolve e pronto, encerra o assunto”, disse Wexler. “Estou com medo. Quando liguei para dizer que estava com o cassete ele disse que eu era uma louca, que eu tinha visto o que não podia ver.

” “O que esse Francês foi fazer na sua casa?” Esperamos. “Bem…” Esperamos. “Bem, eu sou massagista.” Pausa. “Formada, registrada. Ele foi lá em casa com a Danusa. E esqueceu essa caixa preta. Depois ligou todo nervoso.” Wexler olhou para mim e fez a cara de desencanto com a humanidade que só os judeus sabem fazer. “E você pediu dinheiro a ele para devolver a caixa que você abriu e viu que tinha uma fita de videocassete dentro.” Olhando para as unhas ela balançou a cabeça afirmativamente. “Minha senhora, nós não trabalhamos para extorsionistas”, disse Wexler. “Não há nada que possamos ou queiramos fazer pela senhora.” Pela primeira vez ela levantou o rosto e olhou para nós. Estava com medo, sim. Não tinha inteligência suficiente para fingir tão bem. “Quem mandou você aqui?” “Foi a Míriam. Ela disse que vocês podiam me ajudar.” “Não podemos.” Da porta ela olhou para nós pela última vez. Mas não era de falar muito. Saiu calada. Sucumbida. “Sucumbida nada. Você não consegue ter uma atitude firme quando se trata de mulher.

Além do mais não podemos perder nosso tempo com coisas tão ordinárias”, disse Wexler. Pelo nosso escritório haviam passado criminosos e inocentes de todos os tipos. Gisela era umdos mais inexpressivos, entre todos. Poucas horas depois eu já me havia esquecido de que ela existia. À tarde, d. Sônia, a secretária, me disse que um homem chamado Roberto Mitry queria falar comigo. Devia ter uns quarenta anos e vestia-se da maneira que os ricos julgam ser refinada e negligente. “O assunto que me traz aqui diz respeito a um objeto de minha propriedade que está em poder de uma cliente sua.” “Cliente minha?” Eu havia realmente esquecido de Gisela. “Receio que ela, dona Gisela, a sua cliente, por eu ser um esportista, um homem da sociedade, meu nome nas colunas, ao saber quem sou, queira…” Esperei. “Os pobres…” Esperei. “Os pobres são fascinados pelas pessoas bem situadas. São eles os consumidores das colunas sociais.” “E os ricos.” “Estamos numa democracia. E os ricos, vá lá. Acho justo que todos tenham a mesma oportunidade.” Mitry fingiu que bocejava. Parecia ter alguma coisa na boca. Seus maxilares moviamse lentamente. “Tudo tão cansativo.” Outro bocejo. “O senhor pode esperar um momento?” Fui falar com o Wexler. “Está na minha sala um sujeito chamado Mitry, que creio ser o tal Francês, mencionado pela moça que esteve aqui hoje de manhã. Ela disse a ele que era nossa cliente.

” “Eu vi que era uma mulher mentirosa. Diga isso a ele.” “Você não quer ver o cara? É uma figura. Cheio de balangandãs de ouro.” Apresentei Wexler ao sujeito. Wexler foi direto ao assunto. “Essa senhora não é nossa cliente. Veio aqui, dizendo que tinha um objeto seu, um videocassete, e que se sentia ameaçada pelo senhor.” “É mentira. É mentira. Eu não a ameacei.” Dissimuladamente Mitry colocou algo na boca. Mastigou de leve. Engoliu a saliva em pequenos goles. “Para falar a verdade, quem se sente ameaçado sou eu.” “Por ela?” “Não, por ela não. Tenho razões, ou melhor, certos feelings que me permitem… Acho que estou correndo riscos, que estão me seguindo.” Eu estava acostumado com a paranoia das pessoas. “Podia explicar melhor?” “Não. É uma intuição. Não tenho inimigos, entendam, mas me sinto ameaçado. É uma coisa subjetiva, reconheço. Gostaria que acreditassem em mim.” Ficamos todos calados algum tempo. Acendi um Panatela.

O Panatela escuro da Suerdieck faz uma cinza grafite, pode ser fumado a qualquer hora, não é como os charutos cubanos que devem ser fumados com o estômago cheio. O Pimentel número dois, outro dos meus favoritos, é ordinário e fedorento, impregna com seu odor ofensivo cortinas, sofás e os vestidos das moças. Os americanos fabricam um charuto verde que já vem com um furinho. “Gostaria de ter os senhores como meus advogados”, disse Mitry, afinal. “Para quê?” Wexler. “Estou sendo vítima de uma chantagem. E sei que o senhor é um profissional muito competente, informei-me antes de vir aqui.” Mitry fez um gesto em minha direção. “Sou uma blue chip”, eu disse. Ele me dava a impressão de ser um daqueles sujeitos que enriqueceram manobrando na Bolsa. Mitry sorriu. “Estou disposto a me desfazer de parte das minhas para pagar o seu preço. E o dos outros, os extras envolvidos. Preço não, desculpe, como é que vocês dizem?” “Honorários.” Wexler. “Honorários.” Ele riu. Eu e Wexler trocamos olhares. “Está bem. O senhor vai nos dar uma procuração. Vamos tentar resolver o caso sem interferência da polícia.” “Não telefone nem se comunique de qualquer outra forma com essa mulher”, disse Wexler. “É um prazer tê-lo como advogado, doutor Mandrake. Posso chamá-lo pelo sobriquet?” “Como quiser.” O telefone tocou.

Era Ada. “Hoje faz um ano”, disse Ada. “Eu gostaria de recuperar logo o cassete”, disse Mitry para Wexler. “Lembra do primeiro dia?”, perguntou Ada. “Se necessário, solicitaremos auxílio da polícia”, disse Wexler. “Polícia não, não por enquanto”, disse Mitry. Eu me lembrava do primeiro dia: uma noite, ia passando pela avenida Ataúlfo de Paiva e vi as janelas iluminadas de uma academia de ginástica. Desde os tempos de Eva Cavalcanti Meier eu ficara fascinado pelas mulheres que faziam ginástica. Mas essa era outra história. Na academia várias mulheres corriam em fila, ao som de música que não se ouvia da calçada. A frente, de malha preta, uma mulher alta e magra, de pernas longas e fortes, o pescoço meio curvado, movimentava-se sem esforço. Esperei a aula acabar e ela sair. Abordei-a na rua. “Estava vendo você fazer ginástica. Parecia um cavalo num quadro de Ucello”, eu disse. “Eu sei quem é Ucello”, ela disse, “da Uffizi”. Não era o da Uffizi era o do Louvre, o negro do centro, com as patas levantadas, mordendo os freios, o focinho torcido para a esquerda. Ela não falava com estranhos, mas meu rosto inspirava confiança a todas as mulheres do mundo. Além disso, era a primeira vez que alguém lhe dizia que ela parecia um cavalo. “O que tem no cassete?”, perguntou Wexler. “Para falar a verdade, eu não sei. Pertence a terceiros”, disse Mitry. As reminiscências de Ada me deixavam constrangido. As mulheres gostam de recordar o passado. “Há alguma maneira de identificar o tape?”, perguntou Wexler.

“Estou numa reunião, meu bem. Depois eu ligo.” “Está numa caixa preta, dessas de videocassete, mas sem etiqueta”, disse Mitry. Mitry assinou a procuração. “Preciso pagar alguma coisa? Estou indo hoje para Angra, para a ilha de um primo.” “Depois a gente vê isso.” “Então, adieu. Telefonarei dentro de alguns dias. Confio em vocês.” “Não gosto dele”, disse Wexler, depois. “Conheço esse tipo que faz fortuna lesando milhões de fodidos. O fim de semana deles começa na quinta-feira.” “A waycher mentsch diment. Não foi isso que Figenbaum disse de você?” “Figenbaum está morto.” Talvez estivesse mesmo. Gisela, na verdade, chamava-se Elisa de Almeida. Quando tentamos falar com ela, no dia seguinte, era tarde demais. “Quem quer falar com ela?”, perguntou um homem ao telefone. “É um cliente”, eu disse. “Ela foi aqui embaixo e pediu para eu anotar os telefonemas. Me deixa seu nome e seu telefone que ela liga depois.” “Eu ligo mais tarde.” Desliguei. Se havia algo que eu conhecia bem era o som da voz de um tira. Wexler ligou e ouviu a mesma arenga.

“Pode ser e pode não ser”, disse Wexler. “Vale a pena falar com o Raul?” “Ainda não.” “Fala com o Luizinho.” Luizinho era repórter policial de O Dia. Luizinho havia saído. Deixei recado. Passei no foro. As causas cíveis ficavam com o Wexler; as criminais comigo. Mas, quando era preciso, um ajudava o outro. Quando voltei ao escritório, Wexler disse que Luizinho havia telefonado. Elisa de Almeida, conhecida como Gisela, fora assassinada no apartamento onde morava e exercia sua profissão de massagista, na avenida Beira Mar. O corpo havia sido encontrado pela manhã. “Seria bom descobrirmos a tal Danusa.” “Já pensei nisso.” Wexler havia dado alguns telefonemas e descobrira uma Danusa na rua Senador Dantas. “Como é que você sabe que é a mesma?” Ele não sabia. Peguei o telefone e disquei. “Danusa? Eu queria fazer uma massagem. Posso ir aí?” “Aqui não. Só faço massagem a domicílio. Ou hotel.” “Quem me deu seu nome foi a Gisela. Sabe quem é?” “Sei. Da avenida Beira Mar. Ela recebe clientes.

Eu não. Só em casos muito especiais.” “Eu posso ser um caso muito especial.” “Não pode não. Eu não te conheço.” “Então passa aqui. Praça Marechal Floriano, na Cinelândia.” Dei o endereço. “Me dá o telefone”, disse Danusa. O mundo estava cheio de engraçadinhos e ela não queria perder a viagem. Pouco depois, Danusa telefonou. “Estou aí dentro de meia hora.” “É melhor eu ir embora. Com dois aqui ela talvez se assuste”, disse Wexler. D. Sônia já havia se retirado. Às seis em ponto arrumava as coisas dela e saía. Danusa aparentava pouco mais de vinte anos. Corpulenta, cabelos castanhos escuros curtos, umdente, na frente, lascado. “Que é isso aqui? Um escritório? Onde é que vai ser a massagem?” “Esse sofá serve?” Danusa encolheu os ombros. Há pessoas que passam os dias suspirando. Danusa tirou a roupa e ficou de calcinha e sutiã. Fiquei de cuecas. “Quero massagem a óleo”, eu disse. “Óleo?” Nos planos dela não havia nenhuma massagem.

Que tipo de cliente era aquele? “Óleo eu não trouxe.” “Talco, então.” “Talco eu não trouxe.” “O que foi que você trouxe?” “Nada.” “Que azar.” Danusa me olhou, pensativa. Seria um bobo? Ou alguém que queria passar ela para trás? “Vamos fazer uma brincadeirinha?” “Quero massagem.” “Então vai ser a seco.” Danusa irritada. Era a primeira vez que um cliente queria mesmo uma massagem em lugar de coisa mais substancial. “Deita aí.” Deitei no sofá. Danusa agarrou um dedo do meu pé e torceu. Torceu todos os dedos do meu pé. “Vamos tirar essa cuequinha.” Tirei a cueca. “Você quer que eu dê um beijinho nele?” “Você tem uma amiga chamada Elisa?” “Claro. Eu não já disse isso? No telefone?” Os olhos dela cruzaram com os meus. Apertou com força minha perna; suas mãos suavam. Pareceu dominada por um medo súbito. Olhou para a cortina da sala, como se houvesse alguémescondido atrás dela. “Tenho que ir embora, me desculpe, minha mãe está sozinha em casa. Doente.” “Acho que você está mentindo.” “Está bem.

Não é minha mãe. É meu marido.” “Seu marido.” “Ele trabalha num restaurante na rua Uruguaiana, perto da rua Larga. O nome dele é Gilberto. Juro por Deus.” As pessoas querem ser amadas, até pelo seu carrasco. “Não vou te estrangular. Tenho por acaso cara de estrangulador?” “Não, não, não.” “Quero conversar com você.” “Sim, sim, sim.” As mãos na boca. Começou a tremer. Sem tirar os olhos de mim, vestiu a calça comprida. “Antes de sair eu perguntei ao porteiro do prédio como se vinha para cá. Ele me explicou e eu quase não chego aqui, pois deixei o endereço com ele.” Não era boba. Mas por que o medo súbito? Ela ainda não sabia da morte de Gisela. Intuição feminina? “Vamos tomar uma coisa no bar”, eu disse. Fomos para o bar Amarelinho, na esquina da rua Alcindo Guanabara. Ao descermos pelo elevador, após me observar, Danusa ficara mais tranquila. No Amarelinho, Danusa pediu uma caipirinha. Aquele bar não tinha vinho que fosse tragável. Pedi um chope. “Lembra de um sujeito chamado Roberto Mitry? Você foi com ele ao apartamento de Elisa.

Na ocasião Elisa disse a ele que se chamava Gisela. Lembra?” “Roberto o quê?” Danusa havia acabado sua caipirinha. Partindo do estômago, um calorzinho bom irradiava-se pelo seu corpo. Sorriu para mim. “Posso tomar outra?” “Um cara cheio de pulseiras, relógio de ouro, mastiga de leve uma coisa, pode ser a própria língua. Vocês estiveram com ele juntas.” “Uma coletiva? Deixa eu ver. Ele mastiga a própria língua?” A segunda caipirinha durou menos que a primeira. Pediu outra. “Como é que ele é?” “Muito branco, delicado, lânguido, flácido, suave. Açoite, chibata, azorrague, chabuco, vergalho, muxinga, látego, vergasta.” “O que quer dizer isso? Você é engraçado. Outra, garçom.” A voz mais confiante. “Chicote.” “Chicote? Ele tinha chicote, sim. É o Francês, me lembro dele. Pagou bem, mas sofremos o diabo. Ele tem chicote.” “E depois?” “Também tem uma máscara de couro, uma corrente de ferro. Levou tudo numa mala. Não, foi numa bolsa grande.” Outra caipirinha. “Sofremos o diabo.” “Você já disse.

E depois?” “Depois eu disse para a Gisela. Elisa, eu disse, a Carlotinha aqui não entra mais nessa fria.” “E depois?” “Eu até gosto de umas mordidinhas, uns apertõezinhos, o cabelo puxado, mas chicote!” “Ele esqueceu alguma coisa lá?” “Não, acho que não. Colocou tudo numa bolsa e se mandou.” O bar começou a encher com pessoas que saíam dos escritórios. “Teve uma hora em que ele me agarrou pelo pescoço, foi apertando, silvando e espumando pela boca… Só tem homem tarado por aí.” Apertando, silvando e espumando. Devia ser a televisão. “Se ele te telefonar de novo você me avisa?” Ficamos mais algum tempo no bar. Saímos cambaleando, Danusa-Carlota apoiada no meu braço, ambos rindo, divertindo-nos um com o outro.

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