| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A historia do Brasil para quem tem pressa – Marcos Costa

Millôr Fernandes tem uma frase que resume bem o quadro do Brasil atual; ele diz: “O Brasil tem um grande passado pela frente.” É verdade. Toda vez que encontramos o caminho que poderia nos levar a um futuro auspicioso, os malditos fantasmas do nosso passado aparecem e colocam uma pedra enorme, quase intransponível, no meio do caminho. Quem são esses malditos fantasmas? Por que insistem em nos assombrar? Será possível, um dia, exorcizá-los para sempre? Essas são algumas das questões que História do Brasil para Quem Tem Pressa procura desvendar. O livro é um voo panorâmico pela história do Brasil, por meio do qual salta aos nossos olhos a perspectiva do todo, fundamental para a compreensão dos fatos isolados. Para se compreender o Brasil, é preciso fazer uma viagem que começa em 1453, com a queda da cidade de Constantinopla, tomada de assalto pelo Império turco otomano. Sem esse acontecimento, talvez Colombo não tivesse chegado à América em 1492 e nem os portugueses ao Brasil em 1500. A expansão marítima dos países europeus se origina de simples empresas comerciais. O Brasil, portanto, antes de ser uma nação, foi um conglomerado de feitorias, de empresas, muitas delas ligadas a poderosas joint ventures europeias. O parco governo que se teve por aqui tomava decisões inteiramente ao sabor das vontades e necessidades desses arrendatários. Durante 400 anos permanecemos assim, e esse início justifica nosso fim: elites econômicas determinando nosso projeto de nação. Desse modo, segundo Raymundo Faoro, pode-se dizer que, da chegada de Cabral até Dilma Roussef, uma estrutura político-social resistiu a todas as transformações fundamentais: “A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos, depois […] Dessa realidade se projeta a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo.” Esse imperativo categórico da sociedade brasileira, ou seja, a inviolabilidade daquilo que foi assim desde sempre, cria um elo profundo entre os que aqui chegaram em 1500 e os que aqui hoje estão. Os mesmos objetivos os animam: a espoliação, a expropriação, o lucro, a exploração. Esses fins justificam os meios utilizados, que passam sempre ao largo de um projeto de país, sempre ao largo dos interesses do povo. Não existe no Brasil, nem nunca existiu, um projeto de nação. Um projeto robusto que levasse em conta o interesse de todos, planejado para durar gerações e que pairasse acima dos eventuais problemas políticos. Como o que ocorreu no Japão, arrasado na Segunda Guerra Mundial. O Brasil só vai se encontrar com o seu futuro quando um pacto social em torno de um projeto de nação for estabelecido e jamais rompido. Conhecer a história do Brasil é o primeiro passo para que esse projeto seja estabelecido, consiga resistir a eventuais tempestades e siga seu rumo em direção ao estado de bem-estar social pelo qual tanto almejamos. OSANTECEDENTES 1453 — 1534 OMERCANTILISMO OCOMÉRCIO SEMPRE FOI UMA PRÁTICA DO SER HUMANO, MAS, A PARTIR DE MEADOS DO SÉCULO XV, PERCEBE-SE NITIDAMENTE UMA MUDANÇA, O SURGIMENTO DE UM NOVO ESPÍRITO SUBSIDIADO POR UMA NOVA PRÁTICA: O MERCANTILISMO. O mercantilismo pode ser resumido na intensificação das relações comerciais na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Uma verdadeira revolução se compararmos à lógica que dominava o comércio até o final do século XIV. Durante a Idade Média, influenciada pela filosofia de Santo Agostinho, que priorizava a cidade de Deus em detrimento da cidade dos homens, acumular riqueza e comercializar era visto como algo torpe. O destino das pessoas era obedecer a Deus e expiar os pecados cometidos na Terra.


Com a inevitável intensificação do comércio entre, sobretudo, o Oriente e o Ocidente, essa filosofia vai sendo fortemente contestada. A relação entre reis e catolicismo será substituída cada vez mais pela relação entre reis e comércio. Segundo Giovanni Arrighi, economista político, esses dois polos se unem visando a dois objetivos comuns: a conquista de territórios e a prospecção de novos mercados, ou seja, poder e riqueza. 1 OCOMÉRCIO ENTRE O OCIDENTE E O ORIENTEAS PRINCIPAIS CIDADES NO OCIDENTE QUE DOMINAVAM O COMÉRCIO DOS PRODUTOS DO ORIENTE ERAM VENEZA,GÊNOVA E FLORENÇA.NO ORIENTE, A PRINCIPAL CIDADE, ASSIM COMO PRINCIPAL PORTO, ERA CONSTANTINOPLA (ATUAL ISTAMBUL, NA TURQUIA).PODEMOS AGREGAR TAMBÉM AS CIDADES DE TRÍPOLI, NA LÍBIA, EALEXANDRIA, NO EGITO. Os cobiçados produtos do Oriente chegavam até esses portos por rotas terrestres. Dali, os comerciantes italianos, que monopolizavam esse comércio, distribuíam-nos para toda a Europa. No entanto, as relações entre o Ocidente cristão e o Oriente Médio muçulmano nunca foram amenas. Durante a Idade Média, as Cruzadas (entre os anos 1100 e 1300) trataram de polarizar cada vez mais as relações entre esses dois povos e essas duas religiões. Para acessar as riquezas da Índia e do Oriente, os comerciantes europeus necessitavam manter relações — as mais diplomáticas possíveis — com esses povos, que eram seus grandes fornecedores. Qualquer ruptura significaria ruína total. Esse era o fio da navalha, no qual o grosso do comércio europeu se assentava. AEXPANSÃO COMERCIAL EMARÍTIMA OAVANÇO DO IMPÉRIO OTOMANO COLOCAVA EM XEQUE O COMÉRCIO ENTRE O OCIDENTE E O ORIENTE.ASENSAÇÃO DE INSTABILIDADE ERA GENERALIZADA.DESDE MEADOS DO SÉCULO XV, VÁRIOS PENSADORES, COSMÓGRAFOS, GEÓGRAFOS ERAM GENEROSAMENTE FINANCIADOS POR REIS E COMERCIANTES PARA DESCOBRIR OUTRAS FORMAS DE CHEGAR ÀS ÍNDIAS E SE LIVRAR DE VEZ DA DEPENDÊNCIA DOS ATRAVESSADORES NOS PORTOS DO ORIENTE. Falou-se, ao longo de toda a Idade Média, em duas rotas alternativas: uma que mandava navegar no sentido oeste pelo oceano Atlântico, e outra que mandava navegar ao sul, costeando o continente africano, onde havia uma passagem para o Oriente. À medida que, de um lado, o medo avançava emrelação ao Império Otomano, de outro crescia a coragem de sair em busca de tais alternativas. É nesse contexto que os portugueses decidem agir. Portugal e seu principal porto, Lisboa, erampersonagens secundários no cenário da economia do Mediterrâneo. Serviam apenas de entreposto entre as cidades italianas e a Inglaterra e o Norte da Europa. Com o início da dinastia de Avis, D. João I (1358-1433) decide que Portugal deverá assumir certo protagonismo no comércio europeu; para tanto, inicia sua caminhada com a tomada de Ceuta —outro importante porto do Mediterrâneo, localizado no Marrocos —, em 1415. PORTUGAL E A ROTA PARA O ORIENTECOM O SUCESSO DECEUTA,PORTUGAL DECIDE ALÇAR VOOS MAIS ALTOS.EM 1418, O INFANTED.

PEDRO, FILHO MAIS JOVEM DED. JOÃO I, É ESCOLHIDO PARA FAZER UMA LONGA VIAGEM — QUE DURARIA 10 ANOS — EM BUSCA DE NOTÍCIAS, CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS, MAPAS, RELATOS E TUDO O MAIS QUE PUDESSE AUXILIAR PORTUGAL NA SUA GRANDE AMBIÇÃO: ACESSAR, SEM INTERMEDIÁRIOS, AS RIQUEZAS DAS ÍNDIAS E SE TORNAR PROTAGONISTA EM MATÉRIA DE NEGÓCIOS. É pretensão do Ocidente imaginar que a história começa no século XV com o Renascimento, a Reforma Protestante e a Revolução Científica. Isso talvez seja verdadeiro para o mundo ocidental, mas a história da sociedade é muito mais complexa que o Ocidente, e outras civilizações desenvolveram igualmente religiões, conhecimentos científicos, projetos sociais etc. Basta pensarmos, por exemplo, na Biblioteca de Alexandria, no Egito — que possuía 700 mil volumes emlivros —, e em cujo complexo havia um jardim botânico, um jardim zoológico e um observatório astronômico. Inaugurada no século II a.C., por ela circularam nomes como Arquimedes, Euclides e Ptolomeu. Havia séculos, os povos antigos — chineses, fenícios, entre outros — conheciam não somente técnicas avançadas de navegação, como navegavam por mares e terras que, para o Ocidente, ainda eram completamente desconhecidos. É plausível que conhecessem a ligação entre os oceanos Índico e Atlântico, e igualmente plausível que tivessem até mesmo chegado ao Brasil e à América do Norte. Assim, surgiram duas notícias valiosas, obtidas pela expedição do Infante D. Pedro. A primeira era que havia um reino cristão incrustado no Oriente, e esse reino poderia servir de ponto de apoio para uma incursão de Portugal — tratava-se do reino do Preste João. A segunda era que os turcos estavam em franco processo de expansão do Império Otomano e que, mais dia, menos dia, as cobiçadíssimas rotas das especiarias do Oriente e a Rota da Seda da China seriam bloqueadas. Quando isso ocorresse, quem tivesse um plano B — outra rota para acessar o Oriente, por exemplo — ou melhores relações com os turcos otomanos certamente tomaria conta daquela generosa fatia do bolo. ATOMADA DECEUTA COMO PONTO DE PARTIDA EUFÓRICO COM O SUCESSO EM CEUTA E COM O INFANTED.PEDRO PROSPECTANDO INFORMAÇÕES PELOS CONTINENTES AFRICANO E ASIÁTICO,PORTUGAL SEGUE NO SEU PROCESSO DE EXPANSÃO COMERCIAL E MARÍTIMA POR CAMINHOS COMPLETAMENTE INUSITADOS E ATÉ DESPREZADOS.AS TERRAS AO SUL DO ATLÂNTICO ERAM IMPRESTÁVEIS PARA O COMÉRCIO.CONTRARIANDO ESSE SENSO COMUM, EM 1419, NO REINADO DO INFANTED.HENRIQUE, O ARQUIPÉLAGO, QUE TEM NAMADEIRA E NOS AÇORES AS SUAS PRINCIPAIS ILHAS, FOI DESCOBERTO POR JOÃO GONÇALVESZARCO E TRISTÃO VAZ TEIXEIRA. Em 1434, Gil Eanes e Afonso Gonçalves Baldaia avançam para além do cabo Bojador, que era o limite até onde se havia navegado em direção ao Atlântico Sul. A partir dali, o cenário era tenebroso. Relatos medievais falavam em monstros aquáticos, sereias, precipícios, sumidouros…Gonçalves Baldaia, em 1435, enfrentou o desconhecido e tocou a costa ocidental da África. A partir desse contato inicial, uma nova era se abre para o parco comércio português. Em 1441, Antão Gonçalves inicia um tipo de transação que se tornará a menina dos olhos dos portugueses e objeto de intensa disputa comercial: o negócio com escravos.

Além dessas mercadorias, outras afluem para Lisboa: ouro em pó, marfim e pimenta-malagueta. Um novo produto estava começando a ganhar terreno no aguçado paladar da nobreza europeia: o açúcar. Portugal será pioneiro na sua produção, que demandava, no entanto, dois aspectos que lhe eram escassos: gente para trabalhar e terras. Esses problemas serão sanados com a anexação das ilhas. Nessas ilhas — Madeira e Açores —, Portugal implantará um sistema de produção de açúcar com base em três princípios novos para os padrões europeus: a monocultura, o latifúndio e o trabalho escravo. Os portugueses ainda não sabiam, evidentemente — não se pode prever o futuro —, mas haviamacabado de criar, nesses anos de prospecção de novos mercados, dois padrões que se tornariam normas para o comércio mundial nos quatro séculos seguintes: primeiro, o comércio e o tráfico de escravos, e a produção e comercialização do açúcar; segundo, o pioneirismo na rota do Atlântico Sul, inicialmente entre a Europa, a África e o Oriente, mediante a transposição do cabo da Boa Esperança, e, em seguida, a extensão desse sistema para a América. Nada mal para quem era nota de rodapé da 20 a página do livro dos países mais importantes da Europa. ATOMADA DECONSTANTINOPLA DESPREZADOS E ATÉ RIDICULARIZADOS EM SUAS INICIATIVAS DE EXPANSÃO EM DIREÇÃO AO ATLÂNTICO SUL, UM GIRO ATÉ ENTÃO IMPENSÁVEL DA RODA DA FORTUNA COLOCARÁ OS PORTUGUESES NA VANGUARDA DO COMÉRCIO MUNDIAL.QUANDO OS NAVIOS MERCANTES APORTARAM EM VENEZA,GÊNOVA E FLORENÇA, NAQUELE MÊS DE ABRIL DE 1453, TRAZIAM PARA OS COMERCIANTES E PARA OS REIS UMA NOTÍCIA ATERRADORA: O MAR CALMO DOMEDITERRÂNEO HAVIA SIDO SACUDIDO POR UM VENDAVAL, UM MAREMOTO, UM TSUNAMI.AS PRINCIPAIS ROTAS DAS ESPECIARIAS (CANELA, GENGIBRE, CRAVO, PIMENTA E AÇAFRÃO) E DA SEDA DA CHINA HAVIAM SIDO BLOQUEADAS COM A QUEDA DECONSTANTINOPLA.A NOTÍCIA ERA DE QUE, A PARTIR DAQUELE MOMENTO, OS PREÇOS SUBIRIAM DE FORMA ESTRATOSFÉRICA.ASENSAÇÃO DE UMA CRISE IMINENTE SE ABATEU SOBRE OS PORTOS QUE TINHAM O MONOPÓLIO DESSAS ROTAS E PRODUTOS, E COMERCIALIZAVAM COM TODA A EUROPA AS RIQUEZAS DO ORIENTE. É aqui que a até então desprezada expansão marítima portuguesa ganha grandioso sentido. Segundo Arrighi, no século XV, sobretudo depois da tomada e queda de Constantinopla, “os governantes territorialistas ibéricos e os banqueiros mercantis capitalistas uniram-se pela simples razão de que cada um dos lados era capaz de fornecer ao outro aquilo de que ele mais precisava; e o relacionamento durou porque essa relação de complementaridade foi continuamente reproduzida pela exitosa especialização dos dois lados em suas respectivas atividades. Aquilo de que a classe capitalista mais precisava no século XV era uma ampliação de seu espaço comercial, que fosse suficiente para acolher seu imenso excedente de capital e recursos humanos, e para manter vivas suas extensas redes comerciais”. 2 Com a crise derivada da tomada de Constantinopla, capitalistas judeus sediados em Gênova, Florença e Veneza intensificaram o financiamento às explorações portuguesas. Segundo Arrighi, “à medida que essa associação se formou e que os chamados grandes descobrimentos a consolidaram, o capitalismo foi finalmente liberto de sua longa crise e disparou rumo a seu momento de maior expansão”. 3 D.JOÃO IIQUANDO ASSUME O TRONO DE PORTUGAL EM 1481, A SANHA DED.JOÃO II EM SEGUIR AS CONQUISTAS PELO CONTINENTE AFRICANO E EM BUSCAR UM CAMINHO PARA O ORIENTE FAZ COM QUE TOME ATITUDES DRÁSTICAS.APRIMEIRA É A CONEXÃO IMEDIATA COM OS PROPRIETÁRIOS DAS GRANDES EMPRESAS COMERCIAIS E DOS BANCOS QUE FINANCIAVAM AS GRANDES E CUSTOSAS VIAGENS — TODOS DE PROPRIEDADE DE JUDEUS.ESSA ATITUDE CUSTARIA A ELE O ROMPIMENTO COM A NOBREZA PORTUGUESA, QUE SE SENTIA PRETERIDA EM RELAÇÃO AOS COMERCIANTES, E TAMBÉM COM A IGREJA, QUE HAVIA TEMPO VINHA CONDENANDO O CONSÓRCIO ENTRE REIS E COMERCIANTES JUDEUS.PARA SEGUIR O SEU PÉRIPLO EM DIREÇÃO AO ORIENTE, POR EXEMPLO,D.JOÃO II ASSASSINA A PUNHALADAS O PRÓPRIO PRIMO DIOGO,DUQUE DEVISEU.EM 1513, QUANDOMAQUIAVEL ESCREVEU OPRÍNCIPE, O PRAGMATISMO DED.

JOÃO II FOI, CERTAMENTE, UMA DE SUAS INSPIRAÇÕES. Eliminados os entraves iniciais, D. João II convoca, em 1487, dois dos seus melhores quadros para uma missão secreta de espionagem: Pêro da Covilhã e Bartolomeu Dias. O objetivo expresso era não voltar para Portugal sem o mapa da mina: o caminho para as Índias. Pêro da Covilhã por terra e Bartolomeu Dias por mar. De porto em porto — Calecute, Cananor, Goa, Hormuz, Suaquém e Sofala, sempre navegando pela costa oriental da África e pelo Oriente Médio, Covilhã procurava confirmar as impressões de astrônomos e cartógrafos de Lisboa sobre as rotas comerciais no Oriente. De tanto burilar, descobriu com marinheiros que havia, sim, uma passagem ligando o oceano Índico ao Atlântico, bem como a informação de que a rota para se chegar às Índias, navegando para o oeste no Atlântico, era impraticável. Era o Santo Graal, a Arca da Aliança. Por essa informação, matavase, morria-se e, sobretudo, ganhava-se muito dinheiro. Qualquer mercador ou banqueiro europeu daria uma verdadeira fortuna para quem conseguisse a proeza de descobrir tal passagem. Essa intercomunicabilidade entre os oceanos Índico e Atlântico foi descoberta em 1488 — por Bartolomeu Dias —, por meio de informações coletadas entre os comerciantes nos portos do Oriente. A informação mais preciosa que se poderia ter naquele momento. A descoberta ou a confirmação da possibilidade do caminho para as Índias, mediante a transposição do cabo da Boa Esperança, foi o fato revestido de maior sentido de toda a história das navegações. Esse segredo deveria ser guardado a sete chaves. Quem detivesse tal informação, tal savoir-faire, tal conhecimento processual seria, certamente, senhor do mundo. Era como se, nos dias de hoje, alguém descobrisse a fórmula da CocaCola. D.JOÃO II NO CAMINHO DO PARAÍSO EM 1488, OFICIALMENTE,BARTOLOMEU DIAS DOBROU O CABO DA BOA ESPERANÇA, E TERIA SIDO O PRIMEIRO A DESCOBRIR, PARA TODOS OS EFEITOS, A LIGAÇÃO ENTRE OS OCEANOSATLÂNTICO E ÍNDICO.BARTOLOMEU DIAS PARTIU PARA SUA VIAGEM EXPLORATÓRIA UM ANO DEPOIS DO INÍCIO DA VIAGEM DE EXPLORAÇÃO E ESPIONAGEM DE PÊRO DA COVILHÃ.ESSE NÃO FOI, CERTAMENTE, UM ACASO.AVIAGEM DEBARTOLOMEU DIAS NÃO FOI UM TIRO NO ESCURO, POIS, OBVIAMENTE, JÁ PARTIRA MUNIDO DE INFORMAÇÕES PRIVILEGIADAS SOBRE A LIGAÇÃO ENTRE OS OCEANOS E A POSSIBILIDADE DE ACESSAR O ORIENTE, NAVEGANDO PELA COSTA OCIDENTAL DA ÁFRICA. A viagem, elaborada em sigilo absoluto pelo Rei D. João II, era de reconhecimento, verificação e constatação. O resultado não poderia ter sido mais promissor. As informações enviadas por Covilhã estavam exatas.

O alto investimento aplicado na viagem havia sido, enfim, recompensado pela prospecção de Bartolomeu Dias. Confirmado o caminho alternativo para o Oriente, restava agora o trabalho em três grandes frentes. A primeira delas, estabelecer contato com o reinado do Preste João e firmar com ele uma parceria. Como vimos, essa foi exatamente a ordem enviada por D. João II a Covilhã no Cairo —levada pelos informantes judeus —, ou seja, descoberta a informação mais importante (a da existência da ligação entre os oceanos), partir em busca de parceria e de consórcio com Preste João. Ter um parceiro cristão — que conhecia todos os tratos do Oriente — era fundamental para fincar os dentes nas veias abertas de um Oriente tomado por infiéis mouros. A segunda frente era programar uma grande expedição de reconhecimento, que, na longa duração, teria como objetivo atracar no porto de Sofala, estabelecer contato com os fornecedores e iniciar um trato comercial. A expedição zarparia de Portugal cinco anos depois da expedição de Bartolomeu Dias e seria comandada por Vasco da Gama. Certamente, entre a viagem de Bartolomeu Dias e a de Vasco da Gama, muitas outras expedições secretas ocorreram a fim de ir marcando o território e abrindo caminho. A terceira frente de trabalho era a de inteligência, ou seja, posse de informações decisivas e importantes para os rumos do comércio mundial. O grande desafio de D. João II era manter o sigilo sobre tais informações, sobre a fórmula mágica que descobrira. O fiat lux, o abre-te, Sésamo. O principal objetivo: despistar a concorrência, sobretudo da Espanha, se possível, até mesmo induzindo-a a erro, com informações falsas, desencontradas, plantadas propositalmente com o intuito de confundir. Certamente, D. João II lançou mão deste artifício — a contraespionagem — para salvaguardar seu valiosíssimo segredo. É aqui que a vida e a viagem de Colombo para descobrir a América, em 1492, se tornam um verdadeiro enigma.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |