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A Hora da Verdade – Neiva Meriele

Rafaela atravessou o pátio gramado da universidade a passos largos, com o rosto avermelhado pela corrida de sua sala até o portão de saída. Sua irmã já devia estar à sua espera há mais ou menos meia hora, e do jeito que Fabi era inquieta, devia estar praguejando pelo seu atraso. Não reparou nos últimos degraus da pequena escadinha que dava acesso ao estacionamento, e pensando estar dando o último passo se desequilibrou quando ainda faltavam dois degraus. Seus cadernos e livros caíram de suas mãos espalhando-se por todos os lados. Um grupo de meninas que assistiu a cena toda, não se controlou e caiu na gargalhada. Rafa teve vontade de fazer um gesto obsceno mostrando o dedo médio, mas se conteve, afinal, ninguém tinha culpa se sua vida era umsaco e se havia um motorista ridículo esperando por ela e sua irmã todos os dias no estacionamento da universidade. Entrou na parte traseira do veículo preto e bateu a porta com um estrondo. — Ei, ei, ei… Quem devia estar bravinha era eu e não você. Por que demorou tanto? —Fabi perguntou, soltando os cabelos que já estavam longos e precisando de um corte urgente. — Atrasei-me tentando convencer um professor idiota a… Ah deixa para lá… Fabi começou a rir sem parar, aliás, ela estivera segurando o riso há bastante tempo, considerando a forma como era impulsiva e debochada. — Eu vi quando você quase se estatelou no chão. Estava com o pensamento em que lugar? — Pare de rir, não tem a menor graça… Mas, você já vai saber onde estava meu pensamento. Rafa cutucou o motorista que mal se deu ao trabalho de olhar pelo espelho retrovisor. — Júlio, hoje nós não vamos para casa. Leve-nos até o shopping. — Ei, mocinha, você pirou? Não posso fazer isso. Seu pai me deu ordens severas para que viessem de casa para a universidade, e da universidade para casa; e não pretendo desobedecê-lo. — Rafa, o que você está fazendo? — Fabi perguntou, segurando a irmã pelo braço. — Eu quero ir ao shopping, o que há de tão absurdo nisso afinal? — Não haveria nada de absurdo, se fôssemos filhas de um pai normal, o que não é o nosso caso. Por favor, Rafa, não faça nada que o deixe irado… — Mas que droga, Fabiana, essa situação está indo longe demais. São anos e mais anos vivendo dessa forma, debaixo de regras ridículas impostas por um homem estúpido e possessivo… — Ele é nosso pai… — Essa era sempre a mesma resposta. Antônio Donnelly dizia que era por proteção. Um homem da alta sociedade carioca, conhecido como magnata do petróleo, nunca admitiu perante a sociedade ter duas filhas, para tristeza de sua mulher Beatriz. Uma longa história de mentiras e meias-verdades faziam com que Rafaela e Fabiana vivessem em um mundo totalmente diferente das demais pessoas. No melhor bairro carioca, perante a sociedade, nada mais eram do que as vizinhas do milionário, enquanto, no quintal, havia uma ligação entre as duas casas.


Mesmo para Rafa e Fabi, acostumadas a essa vida desde pequenas, era difícil compreender essa situação e os motivos que levavam o pai a cometer essa loucura. Com o passar dos anos a pressão passou a ser ainda maior, talvez por perceber que suas filhas já não eram mais crianças e tinham suas próprias desconfianças em relação a ele. Decidido a não revelar em hipótese alguma o parentesco, contratara Júlio, que além de motorista era também o seu homem de confiança, e quem levava as garotas para onde elas precisavam ir. Mas isso não acontecia com frequência, pois Antônio só permitia a saída delas se fosse com a supervisão constante de Júlio. Anos atrás elas conseguiram despistá-lo, e era nessas horas que viviam o melhor de suas vidas sobre duas rodas, a verdadeira paixão das irmãs Donnelly. Era também nessas horas que valorizavam o dinheiro, pois a brincadeira custava grana e ainda tinham que despistar muita gente para que o poderoso Antônio Donnelly não ficasse sabendo. Agora, com Júlio no encalço de ambas, simplesmente tiveram que abrir mão de sua paixão e eram obrigadas a ter aquele bruta-montes o tempo todo de olho nelas. — Não ouviu o que eu disse, Júlio? Quero que nos leve ao shopping. Eu e Fabi precisamos de um cabeleireiro, de roupas, enfim… Não é da sua conta. Na verdade, estou dando-lhe uma ordem… — Eu só sigo ordens do senhor Donnelly, você não tem autoridade para isso. — Você tem duas opções — Rafa levou a mão na maçaneta fazendo menção de abrir a porta — ou você nos leva até o shopping ou vai ter que dar explicações ao meu pai por ter nos deixado sozinhas. Porque hoje, eu e minha irmã vamos sair de qualquer maneira. — Droga… — Júlio resmungou e bateu com raiva na direção buzinando escandalosamente. Fabiana apertou a mão da irmã com um sorriso orgulhoso no rosto. — Como teve coragem de enfrentá-lo? — Tomei uma decisão. Ou nós mudamos esse comportamento de papai agora, ou vamos viver o resto da vida assim… No fundo, ela estava morrendo de medo da situação toda. Com certeza, Júlio contaria tudo ao seu pai na primeira oportunidade, e só Deus sabia o que podia acontecer. Mas fazia dias que alimentava a esperança de ir a um cabeleireiro com sua irmã e sair um pouco daquela rotina imposta por seu pai. Júlio as levou até o shopping e, estacionando o automóvel, desceu do carro junto com as garotas. — Ah não… — Dessa vez, foi Fabi quem se opôs. — Prefiro voltar para casa se é para sair com esse idiota atrás de nós. Júlio ouviu e fez cara de irritado. Girou a chave no dedo como se estivesse saturado, emseguida, tirou o celular do bolso e começou a discar impaciente. Rafa foi ágil e tirou o celular de suas mãos a tempo de desligá-lo, pois já estava chamando o número de seu pai. — Seu cretino, nem pense nisso… Júlio agarrou seu braço com fúria; quem aquela menina mimada pensava que era? Tinha ordens a respeito das duas e não aceitaria nenhuma que não fosse a do Senhor Donnelly.

— Solte ela, Júlio, ou farei uma gritaria aqui. Vou chamar a atenção de todo mundo e você vai preso. Aposto que não quer isso, não é? Ele largou o braço de Rafa, mas conseguiu tirar o celular de suas mãos. — O que deu em vocês hoje, hem? Andaram bebendo alguma coisa? Nunca as vi tão petulantes antes. — Não tem jeito, Rafa, deixe esse idiota ficar de babá… — Fique longe de mim, ou melhor, fique longe de nós. Hoje você não vai ficar no nosso encalço. Eu e Fabi vamos almoçar e fazer compras so-zi-nhas, ouviu bem? — Rafa ordenou com cara de poucos amigos. Diante do olhar incansável e raivoso de Júlio, entraram no shopping e foram direto para o restaurante. Chegava a ser cômico vê-las como se fossem duas crianças pelos corredores do shopping. — Estou sentindo-me como uma fugitiva — segredou-lhe Fabi, rindo á beça. — Nós estamos fritas — Rafa falou com os olhos arregalados, rindo mais de nervoso do que feliz por estarem se sentindo livres. — Papai vai nos matar quando ficar sabendo que desobedecemos suas ordens. Decididas, dirigiram-se para o restaurante chinês, paixão das duas por suas comidas picantes e exóticas. Um garçom com olhinhos puxados veio atendê-las e em pouco tempo se retirou, deixando as duas inquietas e desorientadas. Não precisavam de palavras, tanto uma quanto a outra sabia que, assim que se deparassem com a figura alta e carrancuda de Donnelly, a coisa ficaria feia para o lado delas. O mais curioso é que essa obsessão aumentara seriamente nos últimos meses. Até a adolescência elas foram criadas por Lia, uma pessoa maravilhosa que dispusera sua vida em função delas e, infelizmente, sua vida acabara de forma drástica, com uma morte estúpida. Depois de Lia, elas já sabiam se virar sozinhas, e já conheciam perfeitamente as regras do seu pai, para segui-las sem maiores problemas. Mas nos últimos meses, Antônio passou a assumir uma posição amedrontadora e impôs que suas filhas só saíssem sob o olhar de Júlio. A princípio fora legal ter uma espécie de faz-tudo, guarda-costas, motorista, carregador e mandalete, mas com o passar dos dias essa situação ficou insustentável e agora tornara-se insuportável. Há dias que Rafa e Fabi evitavam sair, só para não ter que aguentar a presença constante daquele bruta-montes. O garçom chegou com os pratos e elas passaram a comer em silêncio, tão tensas que o sentimento de medo era quase palpável. — Rafa… No que você está pensando? — Fabi perguntou enquanto bebia um gole de água com gás e fazia um movimento estranho e engraçado com o nariz. — Que estamos metidas em uma bela enrascada… Que papai vai nos matar quando souber que dispensamos Júlio e que, portanto, é melhor aproveitarmos já que levaremos uma bronca de qualquer maneira. — Uau… A ideia é boa.

O que deu em você, hem? Decidiu bancar a independente agora, foi? — E por que não? Nunca enfrentamos nosso pai, e só saberemos sua reação se criarmos coragem para isso. Depois da deliciosa refeição, caminharam pelos corredores do shopping, apreciando as roupas das vitrines enquanto saboreavam um enorme e delicioso sorvete. — Mamãe nos mataria se nos visse comendo tanto assim… — Fabi limpou a boca suja de chocolate. Já estavam no segundo sorvete e, com certeza, ainda haveria lugar para um terceiro. — Sabe qual é o meu problema? É que quando eu termino de tomar o sorvete sinto muita coceira na língua. Não ria, Fabi, é verdade. E então, tenho que comer mais um e mais um, para ver se a coceira passa. — Deixa de ser boba, Rafa, que bela desculpa para se empanturrar de sorvete… — Que droga, ninguém acredita quando eu falo isso, mas é a mais pura verdade! Depois de muito baterem perna, finalmente começaram as compras. Ter dinheiro naquelas horas era muito agradável. Não se orgulhavam disso, pois a liberdade que tanto sonhavam lhes era negada, mas quem resistia a uma linda calça jeans? — Olha, Rafa — Fabi apontou para um manequim que vestia uma linda calça jeans comuma lavagem diferente das demais. — Vamos entrar. Uma atendente com um sorriso falso e forçado veio atendê-las. — Posso ajudar? — Eu gostaria de provar aquela calça jeans que está no manequim. A moça olhou para Fabi dos pés a cabeça avaliando seu corpo. — Qual é o problema? — Ela perguntou, sentindo o rosto pegar fogo e a raiva a consumila. — Por acaso está imaginando que eu não vou entrar naquela calça? — Fabi… — Rafa resmungou beliscando seu braço — sem confusão, por favor… A atendente meneou a cabeça controlando o riso e foi buscar a calça que Fabi tanto queria. — Por favor, Fabi, não arrume confusão. Já estamos metidas em uma até o pescoço só por estarmos aqui sem o olhar de Júlio e, se quer saber, a confusão está só começando, pois tenho planos malucos para nós essa tarde. — Pois antes de saber qual é seu plano maluco, vou provar àquela bobinha ali que eu entro naquela calça jeans, e ainda sobra espaço. — Perdão, maninha, mas eu não apostaria nisso se fosse você — Rafa mordeu a língua, tentando não rir de sua irmã. — Até tu, Brutus?! Com um puxão, Fabiana tirou a calça das mãos da atendente e praticamente marchou até os provadores para provar que estava certa. Rafa a acompanhou e entrou no provador junto com ela. Fabi olhou a etiqueta e arqueou as sobrancelhas. — O que foi, Fabi? — É número 34. Qual a pessoa normal que veste esse número? Uma modelo esquelética ou anoréxica? — Podia ter pedido seu número, ao invés de querer provar que caberia nessa roupa… Fabi franziu o nariz e tirando seu short tentou entrar na bendita calça jeans.

— Se quer saber, na maioria das vezes esses números nem regulam, tudo depende do formato da peça. Fabi estava transpirando e teimando em entrar na calça que ficara entalada na altura do bumbum, e ela rebolava comicamente na esperança de fazê-lo passar pelo cós já esticado ao máximo. — Fabi, essa calça vai ras… Rafaela não conseguiu terminar a frase, pois, no exato momento, ouviu-se um barulho típico de tecido rasgado. — Oh, mas que droga!!! — Fabi praguejou, retirando a calça rasgada e pulando num pé só quando o tecido não queria sair de seu pé. Caiu desajeitada no chão e as duas começaram a gargalhar. Definitivamente, o dia não estava favorável para elas. — Pare de… de… rir — pediu Fabi, ainda esticada no chão. — Não dá… Você está ridícula aí no chão… — Algum problema? — Alguém perguntou do lado de fora da porta. — Só um minutinho? — Pediu Rafa, tentando se recompor. — O que a gente faz, Fabi? Você nos meteu nessa; agora, vai ter que polir sua cara de pau e ir falar com a moça. Minutos mais tarde saíram do provador com a cara mais neutra que conseguiram fazer. A atendente ergueu uma sobrancelha, olhando diretamente para a calça enrolada embaixo do braço de Fabi, que encarou seu olhar com a mesma intensidade. — Vou levar — disse por fim. Com olhar ainda mais surpreso a moça pediu a Fabi que entregasse a peça para que ela colocasse em uma sacola. — Não é necessário — estava falando em monossílabos com medo de rir, e com mais medo ainda de ter que admitir que rasgara a calça. — Você sabe quanto custa essa peça? — Com ar zangado e de poucos amigos, a atendente agora olhava para ela e Rafa como se fossem duas trombadinhas. Certamente estava pensando que duas loucas, que ficavam horas rindo no provador, não tinham dinheiro para pagar uma calça de marca. — Sim querida… E vamos pagar á vista, caso esteja se perguntando… Saíram da loja com Fabi ainda carregando sua preciosa calça rasgada embaixo do braço. — Você é doida mesmo, Fabi. Coloque essa calça dentro da bolsa, antes que algum segurança pense que a gente roubou. Fabi torceu a boca e retrucou: — Quem aquela mulherzinha pensa que é, hem? Primeiro, insinuou que eu não entraria na calça, depois insinua que não temos dinheiro para comprá-la? Qual é a dela? — Vamos corrigir só um detalhe, maninha — Rafa a interrompeu, caindo na risada — você realmente não coube na calça… Fabi beliscou-lhe o braço. — Não precisa ser cruel também… As duas entraram no primeiro salão de cabeleireiro que encontraram. Rafaela ainda estava um pouco indecisa, afinal, desde que se lembrava por gente, que seu cabelo era cortado por uma única pessoa, Sílvia. E agora, Fabi insistia para que deixassem mais essa parte da rotina de lado. — Você corta primeiro, então — disse Rafa, com a intenção de ter mais alguns minutos para pensar.

— Ok, eu corto primeiro. Alguns minutos mais tarde, Fabiana estava com os cabelos cortados em estilo chanel, realizando seu grande sonho, e em uma tonalidade avermelhada. Altas e magras por natureza, elas despertavam olhares por onde passavam. Apesar da insistência de Donnelly em mantê-las escondidas, nunca conseguiu evitar que essa beleza natural ficasse evidente, já que eram atraentes garotas de pele clara e ambas com olhos incrivelmente verdes herdados pelo pai. Sempre elegantemente vestidas, essa era mais uma das tantas regras que ele impunha. Apesar de não serem vistas como suas filhas, insistia em manter um estilo todo especial, fino e requintado, o que muitas vezes irritou as irmãs, que preferiam uma vestimenta mais confortável do que luxuosa. As refeições também eram rigorosamente servidas no mesmo horário e se, por um acaso, as garotas atrasassem, compravam uma bela de uma bronca. Beatriz sempre tentava acalmá-lo, mas era inútil, tudo em Antônio Donnelly era extremo. Rafa olhou incrédula para a irmã menor, e levou as mãos á boca contendo um gritinho. — Não acredito que você teve coragem de cortar seu cabelo chanel… — Eu não falei que um dia cortaria? Agora é sua vez, maninha; sente-se naquela cadeira e me surpreenda — Fabi sorriu, movendo a cabeça para os dois lados e fazendo com que o cabelo sedoso se espalhasse como seda. — Você está linda demais, Fabi… Mas, não sei… Acho que, no meu cabelo, um banho de brilho já é o suficiente… — De jeito nenhum… Estamos passando por uma fase de mudança, lembra? Aliás, nem preciso lembrá-la de que o dia de hoje tem que valer a pena, levando em consideração a bronca que nos espera — Fabi franziu o nariz em sinal de desagrado e empurrou-a, fazendo-a sentar-se na cadeira giratória. — E então, garota? O que vamos fazer nesse belo cabelo? — Perguntou a cabeleireira, segurando toda a cabeleira em um rabo-de-cavalo. Rafa olhou-se no espelho pela milésima vez. Era ela mesma? Sim, incentivada pela irmã e pela cabeleireira acabara topando por algo diferente e agora se olhava no enorme espelho admirando o resultado final. Era a primeira vez em sua vida que usava franja e, definitivamente, amara de paixão; além da franja, o visual ficava completo com as várias luzes que puxara em seu cabelo, deixando-o bem mais claro, com a cara do verão. — Você ficou… Magnífica, Rafa. Estou sem palavras… — Fabi a abraçou e, não resistindo, passou os dedos por entre os fios castanho-dourado. Estavam pagando a conta quando seu celular tocou. Estremecendo por antecipação, Rafa atendeu a ligação com mãos trêmulas. Poderia estar ainda mais agitada, mas, ver o nome da mãe, Beatriz, no visor a deixava um pouco menos nervosa, mas não totalmente tranquila. Antes mesmo que dissesse alô, sua mãe irrompeu nervosa e preocupada. — Rafa, pelo amor de Deus, o que aconteceu com você e sua irmã? Perderam o juízo? — Calma, mamãe Bia, nós estamos bem. Porque você está tão nervosa? Aconteceu alguma coisa? Fabi roía as unhas em um gesto claro de nervosismo. — Não seja criança, Rafaela. Seu pai está furioso querendo saber por que não voltaram até agora.

Júlio ligou para ele há alguns minutos dizendo que vocês duas obrigaram-no a levá-las ao shopping e sumiram… — Oh mamãe… Eu e Fabi só quisemos sair um pouco; aliás, cortamos nossos cabelos sabia? Fabi está com um corte chanel e eu fiz franja, e estou praticamente loira… — Oh, não exagere Rafa, você está longe de ser loira — Fabi riu, tentando controlar o medo e o nervosismo. — Minha filha, eu fico feliz que estejam se divertindo, fazendo coisas normais de garotas da idade de vocês, mas Antônio está pensando em ir procurá-las, ele está transtornado e, sinceramente, meu amor, não quero assustá-las, mas se não voltarem logo para casa não sei o que pode acontecer… Rafa olhou com ar horrorizado para Fabi que tomou o celular de sua mão e começou a falar sem parar. — O que ele está falando, mamãe? — Fabi… Por favor, se uma de vocês tem um pingo de juízo que seja, voltem para casa agora ou eu não sei do que o pai de vocês é capaz. Não deviam tê-lo desafiado… — Tente acalmá-lo, mamãe. Estamos voltando para casa imediatamente. Desligando, as irmãs Donnelly se entreolharam assustadas. Caminhando apressadas pelos corredores do shopping, procuravam por Júlio. Rafa, que pretendia aproveitar ao máximo aquele dia de irmãs, ir á praia e curtirem um bom banho de mar, agora estava confusa e com medo, mas precisava pensar em alguma coisa e rápido… Teria que dar uma boa desculpa ao pai, ou acabariam sendo castigadas de alguma forma. De repente, naquela tarde de calor intenso, a chuva caiu, ao princípio, devagar, e em seguida, torrencialmente. Não sabia dizer se a chuva estava prevendo calmaria ou tempestade… Foi quando passavam em frente a Strongs, uma loja de roupas de motociclista, que ela teve uma de suas brilhantes ideias. — Vem Fabi, vamos entrar aqui… — O que você vai fazer? — Escolha uma roupa para você, que vou escolher uma para mim, e lhe conto minha ideia no provador. Rápido. Ah… Mas, por favor, escolha algo que seja do seu número — não pôde deixar de acrescentar, rindo ao lembrar-se do episódio de horas atrás. Depois de alguns poucos minutos estavam as duas dentro de um provador, fechando o zíper de jaquetas e calças justas de couro preto, e calçando botas também pretas. — Me conta de uma vez, que saco! Com um calor infernal, nós metidas em roupas de couro. Espero que tenha um bom motivo para estar fazendo isso, uma vez que essas roupas custarão o olho da cara — Fabi limpou o rosto que transpirava. — Quando sairmos na rua vai melhorar, está chovendo lá fora… — Continuo sem entender… — Escuta… Nós precisamos sair daqui sem que Júlio nos veja, aliás, ele deve estar nos procurando feito um louco… — Não vamos voltar para casa com Júlio? — Vamos voltar para casa, mas não com o Júlio. Presta atenção, estamos encrencadas mesmo, mas, para que papai tenha algo em que pensar antes de nos estrangular, precisamos de outro alvo para sua ira… — Acho que eu entendi… E esse alvo seria Júlio. — Exatamente. Meu plano é o seguinte: Júlio nunca vai nos reconhecer com esse cabelo e essas roupas, então, até aí tudo bem. Saímos do shopping, pegamos um táxi e vamos para casa… Quando chegarmos, papai vai estar furioso, mas nós vamos dizer a ele que estávamos tentando provar que nem Júlio, nem ninguém, é garantia de que estamos seguras, e que a prova é que conseguimos despistá-lo e ele nem percebeu… — Perfeito, perfeito, você é genial Rafa. Com isso a raiva de papai vai se transferir toda para Júlio, e nós vamos sair ilesas porque, afinal, só estávamos tentando provar uma teoria. — Isso mesmo. Então, vamos antes que Júlio nos encontre. O rapaz do caixa olhou com indisfarçável interesse para as duas mulheres lindas que saíamdo provador e não conteve um elogio: — Uau, de onde surgiram duas mulheres-gato? Rafaela e Fabi se olharam e também não disfarçaram o agrado que o elogio lhes causou.

Mulheres-gato? É… de fato a roupa as deixavam sexy… Se o rapaz desconfiasse da encrenca em que estavam metidas… — Vamos sair daqui vestidas assim, e estamos com pressa, então, por favor, se você puder somar os gastos e nos providenciar uma sacola para colocarmos as roupas que estávamos vestidas, eu agradeceria… — Disse Fabi, jogando a cabeça para o lado com certo charme. — Claro… — O rapaz sorriu, semicerrando os olhos, flertando descaradamente não apenas com uma, mas com as duas irmãs. — Estarão protegidas com essas roupas, a chuva lá fora está cada vez mais forte… Deixe-me só conferir o preço da peça — ele pediu, fazendo a volta por trás do balcão e posicionando-se atrás de Rafa, encostando os dedos em seu pescoço em busca da etiqueta. — Hei… O que está fazendo? Você não precisa fazer isso, além do mais já tirei as etiquetas, ou acha que eu seria burra a ponto de sair na rua com elas penduradas na roupa? Caramba… Você deve ter um catálogo com os preços no sistema do seu computador, mas, se precisar de ajuda eu mesma posso procurar nesse monte de roupas iguais as que eu e minha irmã compramos… — Desculpe-me — ele pediu, mas seu semblante não tinha o menor sinal de arrependimento. — Isso foi demaaaaaaaaaaaais — Fabi estava eufórica quando saíram da loja. — O cara estava flertando descaradamente com nós duas… — Fabi… Ele era um babaca. Nenhum cara tem o direito de sair tocando nos clientes só porque é bonitinho. — Ah, deixa de ser chata, Rafa. Nós nem sabemos se vamos estar vivas amanhã — zombou. — Vamos sim, pode apostar. Vamos passar a perna em papai e acabar com a alegria de Júlio. Estou com medo, confesso, mas também estou orgulhosa de nós duas. E agora, trate de caminhar diferente para que Júlio não nos reconheça. Fabiana começou a caminhar rebolando os quadris e Rafa não se aguentou e começou a rir. O que estavam fazendo, afinal? Não estavam encenando um filme, aquilo era vida real e duvidava muito que seu plano desse certo, e com sua irmã rebolando ridiculamente da forma como estava só acabariam chamando ainda mais atenção. — Pare de rebolar, por favor, Fabi. Assim que chegarmos na rua ninguém vai reparar em nós, e podemos correr porque está chovendo. As pessoas vão pensar que estamos tentando correr da chuva. Alcançando a rua começaram a correr até pararem em um ponto de táxi. — Graças a Deus, conseguimos — Rafaela agradeceu já dentro do táxi, informando ao taxista onde deveria levá-las. — Que droga! De que adiantou tanta produção? — Fabi resmungou zangada, passando a mão nos cabelos encharcados. — Pense pelo lado positivo… Se não fosse essa roupa de motoqueiro estaríamos emsituação ainda pior.

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