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A Ilha Dos Pinguins e Outras Historias – Anatole France

Maèl, oriundo de uma família real da Câmbria, foi mandado aos nove anos para a Abadia de Yvern, a fim de aí estudar as letras sagradas e profanas. Aos catorze anos renunciou à sua herança e fez voto de servir o Senhor. Repartia as suas horas, segundo a regra, entre o canto dos hinos, o estudo da gramática e a meditação das verdades eternas. Um perfume celeste depressa revelou no claustro as virtudes deste religioso. E, quando o bem– aventurado Gal, abade de Yvern, passou deste mundo para o outro, o jovem Maèl sucedeu–lhe no governo do mosteiro. Fundou aí uma escola, uma enfermaria, uma casa de hóspedes, uma forja, oficinas de toda a espécie, estaleiros para a construção de navios, e obrigou os religiosos a arrotear as terras em volta. Cultivava com as suas mãos o jardim da abadia, trabalhava os metais, instruía os noviços, e a sua vida deslizava suavemente como um rio que reflecte o céu e fecunda os campos. Ao cair do dia, este servidor de Deus tinha o costume de se sentar na falésia, no sítio a que ainda hoje se chama a cadeira de São Maèl. A seus pés, as rochas, semelhantes a dragões negros, cobertos de algas verdes e sargaços ruivos, opunham à espuma das vagas os seus peitorais monstruosos. Via o Sol descer no oceano como uma hóstia vermelha que tingia com o seu sangue glorioso as nuvens do céu e a crista das ondas. E o santo homem via nisso a imagem do mistério da Cruz, pelo qual o sangue divino cobriu a terra de uma púrpura real. Ao largo, uma linha de um azul carregado marcava as costas da ilha de Gad, onde Santa Erigida, que recebera o véu de São Maio, governava ummosteiro de mulheres. Ora, Erigida, a par dos méritos do venerável Maèl, mandou–lhe pedir, como um rico presente, uma obra das suas mãos, Maèl fundiu para ela uma sineta de bronze e, quando a terminou, benzeu–a e lançou–a ao mar. E a sineta foi tocar até à costa de Gad, onde Santa Erigida, prevenida pelo som do bronze nas águas, a recolheu piedosamente e, seguida das freiras, a levou em solene procissão, ao canto dos salmos, para a capela do convento. Assim, o santo homem Maèl ia de virtudes em virtudes. Já tinha percorrido dois terços do caminho da vida e esperava chegar suavemente ao seu fim terrestre no meio dos seus irmãos espirituais, quando soube por um sinal evidente que a sabedoria divina havia decidido outra coisa e o Senhor o chamava para trabalhos menos tranquilos, mas não menores em mérito. II – Vocação Apostólica de São Maèl Um dia, quando se dirigia, meditando, para o fundo de uma enseada a que rochedos emergindo do mar faziam um dique selvagem, viu uma pia de pedra que flutuava como uma barca sobre as águas. Fora numa tina assim que São Guirec, o grande São Colomban e muitos outros religiosos da Escócia e da Irlanda tinham ido evangelizar a Armórica. Noutros tempos também, Santa Avoye, vinda de Inglaterra, subia o rio de Auray num almofariz de granito rosado, onde mais tarde se meteriam as crianças para as tornar fortes; São Vouga passava de Hibérnia para a Cornualha por um rochedo cujos fragmentos, conservados em Penmarch, curariam da febre os peregrinos que aí encostassem a cabeça; São Sansão desembarcava na baía do monte Saint–Michel numa tina de granito a que viria a chamar–se a escudela de São Sansão. Foi por isso que, à vista daquela pia de pedra, o santo homemMaèl compreendeu que o Senhor o destinava ao apostolado dos pagãos que ainda povoavam a costa e as ilhas dos Bretões. Entregou o seu cajado ao santo homem Budoc, investindo–o assim no governo da abadia. Depois, munido de um pão, de um barril de água doce e do livro dos Santos Evangelhos, entrou na pia de pedra, que o levou suavemente até à ilha de Hoedic. Esta é perpetuamente batida pelos ventos. Homens pobres pescam aí o peixe entre as fendas dos rochedos e cultivam penosamente legumes em hortas cheias de areia e seixos, abrigados por muros de pedras secas e sebes de tamargueira. Uma bela figueira erguia–se numa concavidade da ilha e estendia largamente os seus ramos.


Os habitantes da ilha adoravam–na. E o santo homem Maèl disse–lhes: – Adorais essa árvore porque é bela. Portanto, sois sensíveis à beleza. Ora, eu venho revelar–vos a beleza oculta. E ensinou–lhes o Evangelho. E, depois de os ter instruído, batizou–os com sal e água. As ilhas do Morbihan eram em maior número nesse tempo do que atualmente. Com efeito, desde essa altura, muitas afundaram–se no mar. São Maèl evangelizou sessenta. Depois, na sua pia de granito, subiu o rio de Auray. E, após três horas de navegação, desembarcou diante de uma casa romana. Do telhado elevava–se um ligeiro fumo. O santo homem franqueou a entrada, na qual um mosaico representava um cão, de músculos tensos e goelas arreganhadas. Foi acolhido por dois velhos esposos, Marcus Combabus e Valeria Moerens, que viviam ali do produto das suas terras. Em torno do pátio interior reinava um pórtico cujas colunas estavam pintadas de vermelho desde a base até meia altura. Uma fonte, de conchas encostava–se ao muro e, sob o pórtico, erguia–se um altar, com um nicho onde o dono da casa dispusera pequenos ídolos de terracota, branqueados com água de cal. Uns representavam crianças aladas, outros Apoio ou Mercúrio e vários tinham a forma de uma mulher nua que arrepelava os cabelos. Mas o santo homem Maèl, observando essas figuras, descobriu entre elas a imagem de uma jovem mãe com um filho no regaço. Disse imediatamente, apontando para a imagem: – Esta é a Virgem, mãe de Deus. O poeta Virgílio anunciou–a em carmes sibilinos, antes que ela tenha nascido, e, com voz angélica, cantou Jam redit et virgo. E fizeram–se dela, na gentilidade, figuras proféticas como esta que colocaste, ó Marcus, no altar. E sem dúvida ela protegeu os teus módicos lares. É assim que aqueles que observam exatamente a lei natural se preparam para o conhecimento das verdades reveladas. Marcus Combabus e Valeria Moerens, instruídos por este discurso, converteram–se à fé cristã. Receberam o batismo com a sua jovem liberta, Caelia Avitella, que lhes era mais querida do que a luz dos olhos.

Todos os seus colonos renunciaram ao paganismo e foram baptizados no mesmo dia. Marcus Combabus, Valeria Moerens e Caelia Avitella levaram desde então uma vida cheia de méritos. Morreram no Senhor e foram admitidos no cânone dos santos. Durante mais trinta e sete anos, o bem–aventurado Maèl evangelizou os pagãos do interior das terras, Ergueu duzentas e dezoito capelas e setenta e quatro abadias. Ora, certo dia, na cidade de Vannes, onde anunciava o Evangelho, soube que os monges de Yvern se tinham esquecido, na sua ausência, da regra de São Gal. Imediatamente, com o zelo da galinha que reúne os pintos, foi ter com os seus filhos extraviados. Contava então noventa e sete anos; o corpo curvara–se, mas os braços continuavam ainda robustos e a sua palavra espalhava–se abundantemente como a neve no Inverno, no fundo dos vales. O abade Budoc restituiu a São Maèl o cajado de freixo e pô–lo ao corrente do infeliz estado em que se encontrava a abadia. Os religiosos desentenderam–se quanto à data em que convinha celebrar a festa da Páscoa. Uns defendiam o calendário romano, outros o calendário grego, e os horrores de umcisma cronológico dilaceravam o mosteiro. Reinava ainda outra causa de desordens. As religiosas da ilha de Gad, tristemente esquecidas da sua virtude principal, vinham a todo o momento de barca até à costa de Yvern. Os religiosos recebiam– nas no edifício dos hóspedes e resultavam daí escândalos que enchiam de desolação as almas piedosas. Tendo terminado este fiel relatório, o abade Budoc concluiu nestes termos: – Desde a chegada dessas monjas, foi–se a inocência e o repouso dos nossos monges. – Também me parece – respondeu o bem–aventurado Maèl. – Com efeito, a mulher é uma armadilha habilmente construída: é–se apanhado assim que se a fareja. Ai de mim!, o delicioso atractivo dessas criaturas exerce–se de longe ainda mais poderosamente do que de perto! Inspiram tanto mais o desejo quanto menos o satisfazem. Daí este verso de um poeta a uma delas: Presente, perco–vos; ausente, encontro–vos. “Por isso vemos, meu filho, que as blandícias do amor carnal são mais poderosas sobre os solitários e os religiosos do que sobre os homens que vivem no século. O demônio da luxúria tentou–me toda a vida de diversas maneiras e as mais rudes tentações não me vieram do encontro de uma mulher, mesmo bela e perfumada. Vieram–me da imagem de uma mulher ausente. Ainda agora, cheio de dias e a atingir os noventa e oito anos, sou muitas vezes induzido pelo Inimigo a pecar contra a castidade, pelo menos em pensamento. À noite, quando tenho frio na minha cama e se entrechocam com umruído surdo os meus velhos ossos gelados, ouço vozes que recitam o segundo versículo do terceiro livro dos Reis: Dixerunt ergo á servi sui: Quaeramus domino nostro regi adolescentulam virginem, et stet coram rege etfoveat eum, dormi atque in sinu suo, et cakfaciat dominum nostrum regem. E o Diabo mostra–me uma criança na sua primeira flor, que me diz: “Sou o teu Abisag; sou a tua Sunamita. O meu senhor, dá–me um lugar na tua cama.

” “Acredita–me – acrescentou o ancião –, não é sem um particular socorro do Céu que um religioso pode conservar a sua castidade de facto e de intenção. Dispondo–se imediatamente a restabelecer a inocência e a paz no mosteiro, corrigiu o calendário segundo os cálculos da cronologia e da astronomia e fê–lo aceitar por todos os religiosos; reenviou as filhas pecadoras de Santa Erigida para o seu mosteiro; mas, longe de as expulsar brutalmente, mandou–as conduzir ao seu navio, com cantos de salmos e litanias. – Respeitemos nelas – dizia ele – as filhas de Brígida e as noivas do Senhor. Evitemos imitar os fariseus que fingem desprezar as pecadoras. Deve–se humilhar estas mulheres no seu pecado, e não na sua pessoa, e envergonhá–las pelo que fizeram, e não pelo que são: é que elas são criaturas de Deus. E o santo homem exortou os seus religiosos a observarem fielmente a regra da sua ordem: – Quando não obedece ao leme – disse–lhes ele –, o navio obedece ao escolho. III – A Tentação de São Maèl O bem–aventurado Maèl mal tinha restituído a ordem na abadia de Yvern quando soube que os habitantes da ilha de Hoedic, os seus primeiros catecúmenos, e, de todos, os mais caros ao seu coração, tinham regressado ao paganismo e suspendiam coroas de flores e faixas de lã nos ramos da figueira sagrada. O barqueiro que trazia essas dolorosas notícias exprimiu o receio de que em breve esses homens extraviados destruíssem pelo ferro e o fogo a capela erguida na costa da sua ilha. O santo homem resolveu visitar sem demora os seus filhos infiéis, a fim de reconduzi–los à fé e impedir que se entregassem a violências sacrílegas. Quando se dirigia para a baía selvagem onde estava ancorada a sua pia de pedra, voltou os olhos para os estaleiros que fundara há trinta anos, no fundo dessa baía, para a construção de navios, e que, nesse momento, estavam cheios dos ruídos das serras e dos martelos. Nessa altura, o Diabo, que nunca se cansa, saiu dos estaleiros, aproximou–se do santo homem, sob a figura de um religioso de nome Sansão, e tentou–o nestes termos: – Meu padre, os habitantes da ilha de Hoedic cometem a toda a hora pecados. Cada instante que passa afasta–os de Deus. Em breve porão a ferro e fogo a capela que ergueste com as tuas mãos veneráveis na costa da ilha. O tempo urge. Não achas que a tua pia de pedra te levaria mais depressa até eles, se estivesse aparelhada como uma barca e provida de um leme, um mastro e uma vela? É que assim serias empurrado pelo vento. Os teus braços ainda são robustos e aptos a governar uma embarcação. Seria bom pôr também uma roda de proa cortante na frente da vossa pia apostólica. És suficientemente sábio para não teres tido já a ideia. – É verdade que o tempo urge – respondeu o santo homem. – Mas agir como dizes, meu filho Sansão, não seria tornar–me semelhante a esses homens de pouca fé, que não confiam no Senhor? Não seria desprezar os dons d’Aquele que me enviou a tina de pedra sem aparelhagem nem velame? A esta pergunta, o Diabo, que é um grande teólogo, respondeu com outra pergunta: – Meu padre, é louvável esperar, de braços cruzados, que venha o socorro do alto e pedir tudo Àquele que pode tudo, em vez de agir por prudência humana e ajudar–se a si mesmo? – Não, com certeza – respondeu o santo ancião Maèl –, e é tentar Deus deixar de agir por prudência humana. – Ora – insistiu o Diabo –, a prudência não é, neste caso, aparelhar a tina? – Seria prudência se não se pudesse chegar de outra maneira. – Eh!, eh!, a tua tina é assim tão rápida? – É–o tanto quanto apraz a Deus. – Como o sabes? Avança como a mula do abade Budoc. É um autêntico tamanco. É–te proibido torná–la mais rápida? – Meu filho, a clareza ornamenta as tuas palavras, mas são excessivamente incisivas.

Considera que essa tina é milagrosa. – Assim é, meu padre. Uma pia de granito que flutua na água como uma rolha de cortiça é uma pia miraculosa. Não há dúvida. Que decides? – É grande o meu embaraço. Convirá aperfeiçoar por meios humanos e naturais uma tão miraculosa máquina? – Meu padre, se perderes o pé direito e Deus to restituir, esse pé será miraculoso? – Sem dúvida, meu filho. – Calçá–lo–ias? – Com certeza. – Pois bem, se achas que se pode calçar com um sapato natural um pé miraculoso, deves achar também que se pode pôr aprestos naturais numa embarcação miraculosa. Isto é claro. Ai!, porque hão–de os mais santos homens ter as suas horas de fraqueza e trevas? És o mais ilustre dos apóstolos da Bretanha, poderias realizar obras dignas de louvor eterno… Mas o espírito é lento e a mão preguiçosa! Adeus, meu padre! Viaja sem pressa e, quando finalmente te aproximares das costas de Hoedic, verás fumegar as ruínas da capela erguida e consagrada pelas tuas mãos. Os pagãos tê–la–ão queimado juntamente com o pobre diácono que lá deixaste e que será grelhado como um chouriço. – A minha perturbação é extrema – disse o servidor de Deus, limpando com a manga a testa inundada de suor. – Mas diz–me, meu filho Sansão, não é um trabalho fácil aparelhar esta pia de pedra. E não será, se empreendermos tal obra, perder tempo, em vez de o ganhar? – Ah, meu padre – exclamou o Diabo –, fá–lo–emos numa volta de ampulheta. Encontraremos os aprestos necessários no estaleiro que fundaste nestas costas e nos armazéns abundantemente abastecidos graças aos teus cuidados. Eu próprio montarei todas as peças navais. Antes de ser monge, fui marinheiro e carpinteiro; trabalhei em muitas outras profissões. Mãos à obra! Sem perda de tempo, arrasta o santo homem para um barracão cheio das coisas necessárias à navegação. – Encarrega–te disto, meu padre! E atira–lhe para as costas a vela, o mastro, a carangueja e a retranca. Depois, carregando ele próprio uma roda de proa e um leme, com a madre e a barra, e pegando numsaco de carpinteiro cheio de ferramentas, corre para a praia, puxando pela sotaina o santo homemcurvado, a suar e ofegante, sob o fardo da vela e dos madeiros. IV – Navegação de São Maèl no Oceano de Gelo O Diabo, tendo–se arregaçado até às axilas, arrastou a pia para a areia e aparelhou–a em menos de uma hora. Logo que o santo homem Maèl embarcou, a pia, com todas as velas desfraldadas, fendeu as águas com tal velocidade que em breve a costa desapareceu de vista. O ancião rumava ao sul para dobrar o cabo Land’s End. Mas uma corrente irresistível impelia–o para sudoeste. Ladeou a costa meridional da Irlanda e virou bruscamente para o setentrião.

À noite, o vento refrescou. Em vão Maèl tentou recolher a vela. A tina deslizava perdidamente para os mares fabulosos. À claridade da Lua, as gordas sereias do Norte, de cabelos de cânhamo, vieram erguer à volta dele as suas gargantas brancas e as ancas rosadas; e, fustigando com as caudas de esmeralda a vaga espumante, cantaram em cadência: Para onde corres, bom Maèl, Na tua pia perdida? A tua vela está inchada Como o seio de Juno Quando dele jorra a Via Láctea. Seguiram–no durante algum tempo, sob as estrelas, com os seus risos harmoniosos. Mas a tina deslizava, cem vezes mais rápida do que o navio vermelho de um viquingue. E as porcelanas, surpreendidas no voo, deitavam as patas aos cabelos do santo homem. Em breve se levantou uma tempestade, cheia de sombra e gemidos, e a pia, impelida por um vento furioso, voou como uma gaivota por entre a bruma e as ondas. Após uma noite de três vezes vinte e quatro horas, as trevas dissiparam–se subitamente. E o santo homem descobriu no horizonte uma costa mais brilhante do que o diamante. Essa costa aumentou rapidamente, e em breve, à luz glacial de um Sol inerte e baixo, Maèl viu erguer–se por cima das águas uma cidade branca, de ruas mudas, que, mais vasta do que a Tebas das cem portas, estendia a perder de vista as ruínas do seu fórum de neve, dos seus palácios de gelo, dos seus arcos de cristal e dos seus obeliscos irisados. O oceano estava coberto de gelos flutuantes, em redor dos quais nadavam homens marinhos de olhar selvagem e doce. E Leviatã passou, lançando uma coluna de água até às nuvens. Contudo, num bloco de gelo que flutuava ao lado da pia de pedra, estava sentada uma ursa branca, com o filhote nos braços, e Maèl ouviu–a murmurar suavemente este verso de Virgílio: Incipe, parvepuer. E o velho, cheio de tristeza e perturbação, chorou. A água doce tinha, ao gelar, feito rebentar o barril que a guardava. E, para matar a sede, Maèl chupava os caramelos de gelo. E comia o pão molhado em água salgada. A barba e os cabelos partiam–se como vidro. A sotaina, coberta por uma camada de gelo, cortava– lhe a cada movimento as articulações dos membros. As vagas monstruosas elevavam–se e as suas mandíbulas espumantes escancaravam–se para o ancião. Vinte vezes os vagalhões encheram a embarcação. E o livro dos Santos Evangelhos, que o apóstolo guardava preciosamente numa capa de púrpura, marcada com uma cruz de ouro, foi engolido pelo oceano. Ora, ao terceiro dia, o mar serenou. E eis que, com um horrível clamor do céu e das águas, uma montanha de uma brancura deslumbrante, com trezentos pés de altura, avançou para a tina de pedra.

Maèl tenta evitá–la; a barra do leme parte–se nas suas mãos. Para retardar a marcha em direção ao escolho, procura rizar as velas. Mas, quando se esforça por atar os rizes, o vento arranca–lhos e as filaças, escapando–se, queimam– lhe as mãos. E vê três demônios com asas de pele negra, providas de ganchos, que, suspensos, no cordame, sopram contra a vela. Compreendo por esta visão que o Inimigo o governou em todas as coisas, arma–se com o sinal da Cruz. Logo uma ventania furiosa, cheia de soluços e uivos, ergue a pia de pedra, apodera–se da mastreação, com toda a vela, arranca o leme e a roda de proa. E a pia foi à deriva pelo mar calmo. O santo homem, ajoelhando–se, deu graças ao Senhor, que o tinha livrado das ciladas do Demônio. Então reconheceu, sentada num bloco de gelo, a ursa mãe, que tinha falado na tempestade. Apertava contra o seio o filho bem–amado e tinha na mão um livro cor de púrpura marcado com uma cruz de ouro. Acostando à pia de granito, saudou o santo homem com estas palavras: Pax tibi, Maèl. E estendeu–lhe o livro. O santo homem reconheceu o seu evangeliário e, cheio de espanto, cantou no ar tépido um hino ao Criador e à criação.

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