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A ilha misteriosa (Classicos Zahar) – Jules Verne

QUAIS OS ERROS E ACERTOS DA NOSSA CIVILIZAÇÃO? Como avaliar o grau de humanidade nos indivíduos da nossa espécie e o que, na essência, nos diferencia dos animais? Que atitude devemos ter com relação às forças superiores que colocam em risco os prodigiosos avanços do nosso modo de vida? Os críticos mais pedantes diriam que indagações tão elevadas jamais poderiam se formar na cabeça do leitor a partir de um simples livro juvenil, ou de aventura. Mas são exatamente esses os temas de suprema importância existencial que Jules Verne discute em A ilha misteriosa. E, o que é melhor, faz isso sem sacrificar uma gota de seu talento para narrativas cheias de ação e emoção. Nascido em 1828, em Nantes, cidade portuária na região francesa da Bretanha, Jules Verne ainda muito jovem foi marcado pela leitura de dois romances: um que já era clássico em sua época, Robinson Crusoé (1719), do escritor inglês Daniel Defoe, e outro então mais recente porém de grande sucesso, Os Robinsons suíços, do pastor suíço Johann David Wyss. Em ambos, os personagens naufragam em terras isoladas e desertas, tendo de reconstruir a civilização a partir do nada. Tamanho foi o impacto dessas obras no imaginário do Ocidente, e portanto na literatura, que a partir delas constituiu-se um mito característico da nossa civilização, essa fantasia do recomeço a partir do zero — do qual, por sua vez, derivou um gênero literário à parte, as “robinsonadas”, classificação usada sempre que essa essência de história reaparece. Mais do que uma fonte de exotismo e pitoresco, a robinsonada é um mito estruturante, cujo fio condutor é uma viagem sim, mas extraordinária, pois é uma viagem e, ao mesmo tempo, algo que ultrapassa um mero deslocamento no espaço. Seus heróis solitários, confrontados com a natureza e consigo mesmos, reencontram umsentido para a vida e descobrem sua verdade profunda. Jules Verne, antes de se profissionalizar como escritor, teria de enfrentar a pressão do pai para que seguisse a carreira de advogado. Sentiu-se de tal forma arrebatado por esses dois livros que explicou assim sua obstinação: “Os Robinsons foram os livros da minha infância e deles guardei uma lembrança indelével. Minhas frequentes releituras só a deixaram mais forte e, na verdade, não pude jamais encontrar depois, em autores modernos, o impacto que senti na primeira idade. Sem dúvida meu gosto por esse gênero de aventuras me pôs instintivamente no caminho que eu deveria seguir umdia.” Aos poucos Jules Verne foi se encontrando como escritor e finalmente estabeleceu a parceria que iria mudar sua vida, com o editor Pierre-Jules Hetzel (1814-86), que participaria ativamente da elaboração e desenvolvimento de quase todos os seus livros. O primeiro trabalho que fizeram juntos foi o conhecido Cinco semanas em um balão (1863). Logo em seguida, em março de 1864, Hetzel lançava o primeiro número do Magasin d’Éducation et de Recréation, revista metade didática, metade paradidática. Nessa última metade, numa seção intitulada “Viagens Extraordinárias”, os romances de Verne seriam ininterruptamente publicados até 1886, ano da morte do editor. Primeiro na revista, em folhetim, e depois em volumes independentes, tais aventuras o transformariam no clássico que é hoje e imortalizariam sua parceria com Hetzel. Logo após a publicação do célebre 20 mil léguas submarinas (1868-69), surgiu a ideia de fazerem uma robinsonada. Diz Verne: “Sonho com um Robinson magnífico, é absolutamente indispensável fazê-lo, é mais forte que eu.” Mas ele não se referia a uma robinsonada qualquer, expressando o desejo de fazer “um Robinson moderno, diferente de tudo o que já foi feito”. É fácil constatar o apreço de Jules Verne e seu editor pelas robinsonadas. Antes mesmo de juntarem forças para produzir A ilha misteriosa, Hetzel havia escrito e publicado em sua revista, em1864 e numa parceria com Eugène Muller, certa versão modernizada “revista, corrigida e atualizada cientificamente” da história dos Robinsons. Muitos anos mais tarde, Jules Verne retomaria o tema, escrevendo mais três robinsonadas típicas: A escola dos Robinsons (1882), Dois anos de férias (1888) e A segunda pátria (1900). O primeiro fruto dessa ideia, Tio Robinson, de 1870, foi no entanto rejeitado pelo editor, para quem Verne não explorara suficientemente as possibilidades abertas pelo novo tipo de personagem. O romance ficaria na gaveta até sua publicação póstuma em 1991.


Foi trabalhando para superar essa decepção inicial que Verne escreveu A ilha misteriosa, publicado na revista de Hetzel alguns anos depois, entre 1º de janeiro de 1874 e 15 de dezembro de 1875. Recuperando a civilização A ilha misteriosa parte da seguinte situação: na época da Guerra Civil Americana, cinco personagens vão parar numa ilha deserta. Até aí, nada difere das robinsonadas já existentes. A primeira modernização no enredo básico nesse caso é que os personagens não são exatamente náufragos, sobreviventes do afundamento de algum navio, mas sim “Náufragos do ar”, título da primeira parte do romance, pois chegam à ilha num balão desgovernado e rasgado por um furacão. Verne, aliás, sobrevoou a cidade de Amiens no balão Meteoro, no ano de 1873, ou seja, exatamente durante a composição de A ilha misteriosa. No romance, a cena da queda propriamente dita, que abre a narrativa, possui grande força simbólica. Tentando recuperar altitude e salvar-se, os personagens vão aos poucos despojando-se de todos os “pesos” da civilização que deixarão de integrar assim que baterem no chão: sacos de areia, instrumentos, armas, munições, dinheiro e objetos pessoais. É um despojamento absoluto, que dá não só a dimensão dramática da história, como também a dimensão moral. Dentro do balão estão os cinco personagens que irão compor uma alegoria reduzida da humanidade. São eles: Gedeon Spillet, um jornalista; Nab, o empregado negro; Bonadventure Pencroff, um marinheiro; Harbert Brown, o filho adotivo adolescente de Pencroff e, por fim, o engenheiro Cyrus Smith. Como se vê, um grupo de múltiplos talentos. Dentre eles, destaca-se Cyrus Smith. O maior protagonista desta nova aventura não é o marujo, o simples viajante ou as crianças, e sim um engenheiro, personagem moderno por excelência, dotado de saberes técnicos e científicos inéditos em seus antecessores no gênero. Embora seja umverdadeiro “homem-biblioteca”, especialista em tudo — física, química, astronomia, ciências naturais etc. —, não se trata de um desses sábios estimáveis pelo saber porém tornados ridículos por sua inadaptação à vida prática. Sua profissão de engenheiro faz dele um homem dinâmico e moderno, com todas as credenciais para liderar o grupo de náufragos. Graças a ele e a seus múltiplos conhecimentos, os colonos da ilha diferem de seus antecessores literários, pois, vendo-se tão ou mais desguarnecidos e próximos da selvageria original quanto eles, terminam por revelar-se mais bempreparados e aptos a reencontrar o nível de civilização que perderam. Uma vez na ilha, o pequeno núcleo de colonos irá, em poucos e acelerados anos, refazer toda a longa trajetória da civilização, da pré-história aos tempos modernos, do domínio do fogo à fabricação de nitroglicerina, dos primeiros artefatos à pilha elétrica, da cerâmica rudimentar à instalação de um elevador e de um telégrafo, sem deixar de passar pelo advento da agricultura e da pecuária. A primeira parte do romance tem, portanto, esse caráter de epopeia, típico das robinsonadas, agora marcado pela técnica criadora. Tal reapropriação do mundo físico, tornada possível apenas pelo arsenal de conhecimentos científicos de Cyrus, encaixava-se maravilhosamente bem no espírito paradidático da seção “Viagens Extraordinárias”. Ao conciliar de forma tão orgânica o conteúdo científico à história em vias de ser narrada, Jules Verne evita o incômodo que tais digressões provocam em outros livros, quando o avanço da narrativa, o lado “recreativo” da publicação, parece estar sendo interrompido, ou pelo menos atrasado, pelo material paradidático que desejava passar para seus jovens leitores, o lado “educativo” da seção. A escala da humanidade Como vimos, nosso grupo de colonos possui virtudes múltiplas e complementares. O engenheiro Cyrus Smith é grave, sério e reflexivo; Spillet, o cronista da aventura, é homem de ação, caçador, dotado de conhecimentos de medicina e grande destreza; Pencroff, o marujo, é ingênuo, emotivo, espontâneo, grande trabalhador e um espírito essencialmente prático; Nab, o serviçal negro de Cyrus, leva ao extremo a virtude da fidelidade e admira o patrão com uma humildade comovente; e Harbert é uma versão juvenil de Cyrus Smith, vivendo ao longo do livro uma intensa experiência de passagem para a vida adulta. É evidente que a pequena colônia se aproxima da sociedade real na medida em que conserva suas divisões, desigualdades sociais, raciais e relações de dominação: chefe e subordinado (Cyrus e os outros), patrão e serviçal (Cyrus e Nab), professor e discípulo (Cyrus e Harbert), pai e filho (Pencroff e Harbert), trabalhador intelectual e braçal (Spilett e Pencroff). Vemos aí os germes do que, num registro estritamente realista, decerto geraria graves conflitos internos.

É comum se utilizar o artifício de uma viagem a um país fantástico para apresentar a imagem de sociedades ideais ou criticar indiretamente a sociedade contemporânea do escritor, e Jules Verne era, sabidamente, um grande crítico do cientificismo de sua época, que colocava o avanço técnico e do capital acima de todo humanismo. Sua crítica social, no entanto, não é feita pela construção de uma distopia, mas sim mediante a construção de uma sociedade em que o progresso técnico e material não resulta na desagregação do espírito coletivo. Embora o engenheiro seja o seu chefe natural, o grupo só é bem-sucedido em seu esforço civilizatório porque o mix de qualidades de seus integrantes, ao mesmo tempo em que lhe dá força — a energia no trabalho, a constância e a perseverança —, lhe permite também permanecer unido — fidelidade, solidariedade, fraternidade. Esse microcosmo hierarquizado escapa da crise, pois sublima-a imediatamente em espírito comunitário, transformando-se em uma célula harmoniosa, unida por laços de amizade e respeito mútuo, que possui os mesmos valores e persegue os mesmos objetivos. O caráter utópico dessa concepção é visível. O que ela supõe é o ideal de uma transparência entre os seres, um primado do moral sobre o social, do coração sobre a razão, da amizade sobre o interesse, o triunfo da abertura para com o outro sobre todas as formas de violência e egoísmo. O livro propõe assim uma humanidade regenerada via um retorno provisório às origens e a reconstrução, sobre novas bases, de um lugar novo, uma nova civilização. Ao mesmo tempo em que parecida com a civilização perdida, diferente, e sem dúvida melhor. O último de todos esses benefícios é o estabelecimento de novas relações, mais respeitosas, mais felizes, com a natureza. É da coesão do grupo que nasce sua força, e o herói da aventura é a reunião de individualidades, concebida como motor único da ação. Mas ela não está apenas encarregada de produzir a energia do romance, pois acrescenta a essa função dramática outra, de tipo moral. Os personagens, unidos pelos laços ideais de amizade e solidariedade, fortalecidos pelos desafios vencidos em conjunto e o trabalho perseverante, alcançam coletivamente uma entidade superior da qual a pequena colônia se torna a representação simbólica e a metonímia: a humanidade. É exatamente esse espírito comunitário que a segunda parte do livro irá, sob certo ângulo, colocar em xeque. Ela tem por título “O degredado” — o que não deixa de ser um pouco estranho, considerando-se que o personagem a que tal título faz referência surge apenas no capítulo 14 e desaparece novamente até o início da terceira parte. De fato, a segunda parte mostra, em grande medida, a culminância da epopeia civilizatória iniciada na primeira, quando todas as necessidades materiais da colônia estão satisfeitas. É então que os colonos encontram numa ilha vizinha o degredado Ayrton, elemento surpresa que permite ao romance tratar em outro nível o drama essencial de toda robinsonada: em que consiste a essência da humanidade e quais são seus limites? Quais são seus direitos e deveres com relação às exigências da vida em sociedade e à própria ideia de comunidade? Ayrton já havia aparecido em outro romance de Verne, Os filhos do capitão Grant (1866-68). Na Austrália, chefiara um bando de condenados fugitivos e, posteriormente, fora preso e degredado na ilha Tabor. Lá, durante doze anos, não tivera qualquer contato com outros humanos e regredira ao mais completo estado de selvageria, tornando-se um caso exemplar de desumanização. É nesse ponto de sua vida que ele reaparece em A ilha misteriosa. Seu passado criminal e posterior isolamento impõem duas perguntas à comunidade ideal: um criminoso vocacionado pode se regenerar? Um ser regredido ao estado selvagem pode reencontrar sua humanidade? No momento em que deparam com Ayrton, ele não passa de um louco, vivendo nas árvores, alimentando-se de carne crua. O ser decaído, a criatura miserável, embora à primeira vista destituído de toda a sua humanidade, logo irá recuperar uma razão que acreditava ter perdido, mas que estava apenas momentaneamente sufocada. O escritor contrapõe o personagem de Ayrton a outro igualmente surgido durante o tempo de isolamento na ilha: o orangotango Jup. Este é o segundo personagem vindo de outro romance, no caso da robinsonada que o editor havia rejeitado, Tio Robinson. Nesta reaparição, Jup, uma vez treinado, serve de empregado zeloso à pequena colônia e, em perfeita imitação, copia todos os comportamentos humanos: ajuda na cozinha, serve a mesa, fuma cachimbo, dorme num leito, bemcomo demonstra sinais de inteligência que levam Pencroff a se perguntar se aquele macaco não seria “talvez um homem”. Existe, portanto, uma escala de humanidade, em cujo topo se encontram o grupo e seus integrantes, ao passo que Ayrton e Jup são meros candidatos.

Um obstáculo intransponível inviabiliza a ascensão do macaco: falta a Jup a linguagem, algo que define a humanidade. Ele é uma caricatura de homem, não uma promessa. Jup situa-se abaixo do limite inferior que separa o homem da besta selvagem. E, nesse aspecto, Ayrton é diferente. Ele dispõe do instrumento indispensável para reaver sua razão, até então apenas sufocada, e se integrar ao grupo. A conclusão tranquilizadora e otimista do romance é que a humanidade de um ser humano não se perde, sendo sempre passível de recuperação, desde que alimentada, mantida viva pelo contato com outros homens. Os dois primeiros mistérios da ilha Outra linha divisória para a humanidade, muito cara a narradores de mão cheia como Jules Verne, diz respeito a segredos revelados ao fim de uma história: há quem goste, ou não se importe, de saber antecipadamente o que irá acontecer numa narrativa antes de lê-la, e há quem se enfureça comspoilers e revelações precoces que roubam o prazer da leitura. Àqueles que pertencem ao segundo grupo, recomenda-se que larguem imediatamente esta apresentação e passem direto para a leitura do romance, deixando a análise dos mistérios da ilha para depois. Pois, para uma interpretação completa dos elementos que compõem o livro, é indispensável mencionar agora quais segredos a ilha Lincoln esconde dos colonos. A terceira parte do romance, intitulada “O segredo da ilha”, permite alcançar o terceiro nível, concernente ao lugar do homem no mundo. A ilha misteriosa, que começa pela dimensão física e continua pela dimensão moral, termina numa discussão metafísica, perfazendo assim todas as etapas do conhecimento humano: do concreto ao abstrato, do visível ao oculto, do natural ao sobrenatural. Isso porque, desde seus primeiros esforços para dominar a natureza selvagem, os colonos recebemajudas misteriosas, inimagináveis numa ilha a princípio deserta, e que jogam novas luzes sobre a antiga fábula das robinsonadas. Em geral, assim que um náufrago chega a seus novos domínios, ele é obrigado a lutar contra as forças naturais: animais ferozes, clima hostil, tribos selvagens. Nesse tipo de combate simples, não há zonas obscuras. No caso da Ilha, a situação é mais complexa. A luta pela sobrevivência, primordial como em todas as robinsonadas, é acrescida de uma inquietude nova, ligada aos pressentimentos e depois à certeza de uma entidade oculta na ilha, cujos sinais, mais evidentes a cada dia, impõem-se pouco a pouco. Um deles, por exemplo, é o pedido de socorro de Ayrton, encontrado pelos colonos numa garrafa, que (depois ficamos sabendo) não foi o degredado quem lançou ao mar. A reconquista do Éden perdido é acompanhada, nessa terceira parte, de uma mudança na perspectiva filosófica do romance. Após duas partes dominadas, pelo menos na aparência, pela ideologia positivista e cientificista de Cyrus, em seguida pelo ponto de vista moral e social, vemos na terceira parte um retorno ao pensamento de tipo religioso e mesmo mágico. A entidade invisível irá assombrar os habitantes da colônia, constituindo para Verne o elemento dramático do crescendo que ele se esforçou em oferecer ao público. Sua introdução mais explícita no romance é preparada pela recapitulação de uma série de “incidentes sobrenaturais”. Vigora na ilha uma influência benéfica e mesmo necessária à pequena colônia. Mas seu agente permanece estranho e ambíguo, pois recusa-se a se revelar. Tendo se iniciado como uma robinsonada clássica, A ilha misteriosa se transforma numa investigação sobre os traços desse ser misterioso. Para o engenheiro e os colonos, seu poder representa o triunfo da fé sobre a razão, o questionamento de toda técnica, de toda observação científica.

É a revelação progressiva dessa presença sub-reptícia, superposta à robinsonada propriamente dita, que dá ao livro grande parte de sua força dramática e de sua novidade. Cyrus Smith e seus companheiros vivem uma inquietude progressiva, na expectativa de novas manifestações misteriosas. Nos momentos difíceis, irão mesmo desejar a intervenção da força desconhecida. Assim instala-se entre aqueles seres “corajosos e inteligentes”, conduzidos por um homem da técnica e da ciência positiva, uma espécie de consentimento do milagre. Essa tensão dramática forte imprime ao livro uma dinâmica singular e, dizem, foi a fonte de inspiração do recente seriado de TV Lost, no qual os sobreviventes da queda de um avião também pressentem e são tocados por uma presença encoberta. Quando finalmente o primeiro mistério da ilha se revela, e se desfaz o véu sobrenatural, vemos que, desde o início, os fatos inexplicáveis que incidiam sobre o grupo de colonos eram de autoria do terceiro personagem recuperado de um romance anterior — o capitão Nemo, protagonista do clássico 20 mil léguas submarinas (esse traço literário curioso, de trazer novamente à cena personagens já utilizados em outras histórias, lembra outro escritor francês do século XIX, Honoré de Balzac, que usa e abusa do recurso em sua fabulosa Comédia humana). Ao que parece, ao concluir 20 mil léguas, Verne já pretendia retomar o personagem, pois o romance termina deixando em aberto a origem e as motivações do capitão. Chega-se ao fim da leitura sem saber quem era, o que o levava a atacar navios com seu poderoso submarino e, acima de tudo, se sobreviveu às suas aventuras e desventuras, disposto a prosseguir com sua terrível vingança, ou se havia sucumbido ao próprio destino, sepultado juntamente com o Náutilus sob a massa rochosa que desabara sobre eles. A terceira parte de A ilha misteriosa responde a todas essas perguntas. De início, como vimos, Nemo ocupa um lugar privilegiado na escala de humanidade do romance. Seu registro é o do sobre-humano, e ele desempenha o papel da Providência, parecendo, aos olhos dos personagens mais crédulos — Nab e Pencroff —, uma espécie de gênio da ilha, ser invisível e todo-poderoso. No sistema de personagens do romance, Nemo é o oposto exato de Jup: sobrehumanidade contra sub-humanidade. Mas quando enfim é encontrado, vemos que é, por sua vez, essencialmente humano, tragicamente humano. Desconstruída a dimensão metafísica, a queda é inevitável. Nemo não é mais o prepotente senhor do Náutilus. O submarino, colhido por uma avalanche na entrada da gruta marinha que lhe servia de refúgio, está imobilizado e reduzido a um palácio flutuante. A vingança de Nemo expulsou da humanidade o capitão, e assim também ele vive isolado na ilha. Privado de seu instrumento de potência, não é mais o “arcanjo do ódio”, envolvido em vinganças assassinas, mas um benfeitor distante e abstrato. A chegada dos baloeiros à ilha propicia a ocasião de seu retorno à convivência dos homens, pelos quais irá recuperar sua simpatia e a quem irá ajudar secretamente, acompanhandoos e incentivando-os em seu triunfo sobre o meio hostil. É o exemplo dos colonos, o espetáculo de sua energia, honestidade e solidariedade, que desperta o interesse de Nemo por seus esforços e reaviva sua esperança na humanidade. Nemo vive ávido de perdão e redenção. Há quem discuta o quão verossímil é essa conversão do facínora perverso que vimos em 20 mil léguas. Mas fazê-lo significa menosprezar a capacidade de reumanização do ser humano, uma vez posto em contato com uma comunidade receptiva, íntegra e unida, um dos temas principais do romance, como já vimos no caso de Ayrton, e a crença pessoal de Jules Verne. Além disso, fora o editor Hetzel quem, durante a composição de 20 mil léguas, obrigara o escritor a eliminar as informações biográficas do capitão, que na essência eram as mesmas. Em A ilha misteriosa a companhia dos homens só é integralmente devolvida ao capitão quando já é tarde demais.

A iniciação dos personagens não poderia se completar senão através de uma decepção. O ser que eles julgavam sobrenatural aparece moribundo. Dupla decepção, que arruína de um só golpe todo o edifício da crença. Nemo, por sua vez, só ao morrer compreende seu erro trágico: “Morro por ter acreditado que era possível viver sozinho.” Essa é a resposta que Verne dá à questão fundamental de toda robinsonada: a solidão conduz à desumanização. O homem não pode ser homem senão no grupo, comunicando-se através da linguagem, e toda ruptura com o grupo, forçada ou escolhida, acabará mal. Integrar o modelo de sociedade que Nemo rejeitou, e que o próprio Verne, crítico dos rumos da humanidade em sua época, também não via com bons olhos, não é atender apenas a necessidades físicas, pois estas Nemo até conseguiu driblar pela vida afora, mas constitui um dever moral.

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