| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Longa Marcha – Stephen King

Naquela manhã, um velho ford azul entrou no pátio de funcionamento protegido por seguranças, parecendo um pequeno e cansado cachorro após uma difícil corrida. Um dos seguranças, um rapaz de fisionomia sem expressão, uniforme cáqui e cartucheira Sam Browne, pediu para ver a carteira de identidade. O rapaz que se encontrava no assento traseiro entregou-a à mãe, que a passou ao segurança. Este levou-a para um terminal de computador, que parecia estranho e deslocado no silêncio rural. O computador engoliu o cartão, que relampejou na tela: GARRATY RAYMOND DAVIS RD 1 POWNAL MAINE ANDROSGOGGIN COUNTY CI NUMERO 49-801-89 OK-OK-OK O segurança apertou outro botão e tudo isso desapareceu, deixando a tela do terminal lisa, verde e vazia novamente. Com um gesto, mandou-os prosseguir. — Eles não devolvem a carteira? — perguntou a sra. Garraty. — Eles não… — Não, mamãe — respondeu pacientemente Garraty. — Bem, eu não estou gostando disso — retrucou ela, entrando no espaço vazio. Vinha dizendo isso desde que haviam partido na escuridão das 2:00h da manhã. Na verdade, ela estivera gemendo isso. — Não se preocupe — tranqüilizou-a o rapaz, mas sem escutar o que dizia. Estava ocupado olhando e com sua própria confusão de expectativa e medo. Saiu do carro quase no exato momento em que o motor soltava seu último chiado asmático — um rapaz alto, bem-feito de corpo, usando um desbotado uniforme de faxina do Exército, no frio de 8:00h da manhã de primavera. A mãe era também alta, mas magra demais. Quase não tinha seios, que eram meros botões simbólicos. Os olhos dela moviam-se por ali, inseguros, um pouco chocados. O rosto era de uma inválida. O cabelo acinzentado se desmanchara sob a complicação dos grampos que supostamente deviam mantê-lo arrumado. O vestido escorria desajeitado pelo corpo, como se ela houvesse perdido recentemente muito peso. — Ray — disse ela em uma voz sussurrada de conspirador que ele viera a odiar —, Ray, escute… Ele baixou a cabeça e fingiu arrumar a camisa dentro da calça. Um dos seguranças comia Crations, que tirava de uma lata, e .ia uma revista de quadrinhos. Garraty observou o guarda que comia e lia e pensou pela décima milionésima vez: É tudo real.


E naquele momento, pelo menos, esse pensamento começou a ganhar algum peso. — Ainda há tempo para você mudar de idéia… O medo e a expectativa subiram um ponto. — Não, não há tempo pra isso — respondeu o rapaz. — A data para desistir foi ontem. Ela, ainda naquela voz baixa de conspirador que ele odiava: — Eles compreenderiam, sei que compreenderiam. O major… — O major faria… — começou Garraty e viu a mãe encolher-se toda. — Você sabe o que o major faria, mamãe. Outro carro concluíra o mesmo ritual, cruzara o portão e estacionara. Um rapaz de cabelos escuros desceu. Os pais seguiram-no e, durante um momento, os três ficaram em conferência, como preocupados jogadores de beisebol. Ele, como alguns dos outros rapazes, trazia uma mochila leve. Garraty conjeturou se não fora um pouco estúpido em não fazer a mesma coisa. — Você não vai mudar de idéia? Era culpa, culpa acobertando-se com a face da preocupação. Embora contasse apenas 16 anos de idade, Ray Garraty sabia alguma coisa a respeito de culpa. Ela achou que fora seca demais, cansada demais, ou talvez apenas absorvida demais em suas mágoas mais antigas para deter a loucura do filho no nascedouro — deter antes que a pesada maquinaria do estado, com seus guardas vestidos de cáqui e terminais de computador assumisse o comando, ligando cada vez mais a seu ser insensato a cada dia que passava, até a véspera, quando a tampa caíra com um estrondo final. O rapaz pôs a mão no ombro da mãe. — Isto é idéia minha, mamãe. Sei que não foi sua. Eu… — Olhou em volta. Ninguém prestava a menor atenção a eles. — Eu a amo, mas esta maneira é melhor, de qualquer jeito. — Não é — retrucou ela, nesse momento prestes a chorar. — Ray, não é. Se seu pai estivesse aqui ele botaria um ponto final… — Bem, ele não está, certo? — Foi brutal, na esperança de evitar que ela se debulhasse emlágrimas… E se os guardas tivessem que arrastá-la dali? Ouvira dizer que isso às vezes acontecia. O pensamento lê-lo sentir frio.

Em voz mais suave, disse: — Esqueça isso agora, mamãe, Okay? —Forçou um sorriso. — Okay respondeu por ela. Embora o queixo ainda lhe tremesse, ela inclinou a cabeça. Não estava certo, mas era tarde demais. Não havia nada que alguém pudesse fazer a esse respeito. Um vento leve murmurava através dos pinheiros. O céu era um azul puro. A estrada ficava em frente, bem como o marco simples de pedra que marcava a fronteira entre a América e o Canadá. De repente, a expectativa do rapaz tomou-se maior do que o medo e ele quis começar logo, botar o espetáculo na estrada. — Fui eu que fiz. Você pode levá-los, não pode? Não são muito pesados, são? E enfiou nas mãos deles um pacote de biscoitos embrulhados em papel de alumínio. — Tudo bem. Aceitou os biscoitos e abraçou-a desajeitado, tentando dar-lhe aquilo que ela precisava ter. Beijoulhe o rosto. A pele dela parecia seda velha. Durante um momento, teve vontade de ele mesmo chorar. Nesse momento, lembrou-se da face sorridente, do bigode do major, e recuou um passo, enfiando os biscoitos num dos bolsos do uniforme de faxina. — Adeus, mamãe. — Adeus, Ray. Seja um bom menino. A mãe ficou parada ali por um momento e ele teve a sensação de que ela era muito leve, como se até mesmo o fraco sopro da brisa que corria por aquela manhã pudesse levá-la para longe como umdente-de-leão que murchava. Depois, voltou para o carro e deu partida ao motor. Garraty permaneceu no mesmo lugar. A mãe ergueu a mão e acenou, as lágrimas correndo nesse momento. Viu-as.

Acenou de volta e, enquanto ela se afastava, ele permaneceu ali, os braços caídos ao lado do corpo, consciente de como devia estar parecendo vistoso, bravo e solitário. Mas quando o carro cruzou novamente o portão, sentiu uma sensação de abandono e novamente foi apenas um rapaz de 16 anos, sozinho em um lugar estranho. Voltou a olhar para a estrada. O outro rapaz, o de cabelos escuros, observava nesse momento os pais se afastarem. Tinha uma cicatriz feia num dos lados do rosto. Garraty aproximou-se dele e disse alô. O rapaz moreno olhou-o de soslaio. — Oi. — Eu sou Ray Garraty — disse Ray, sentindo-me meio babaca. — Eu sou Peter McVries. — Está pronto? — perguntou Garraty. McVries encolheu os ombros. — Nervoso. Isso é o pior. Garraty concordou com uma inclinação de cabeça. Os dois dirigiram-se para a estrada e o marco de pedra. Atrás deles, outros carros deixavam o estacionamento. Inesperadamente, uma mulher começou a gritar. Inconscientemente, Garraty e McVries se aproximaram mais um do outro. Nenhum dos dois olhou para trás. À frente deles estendia-se a estrada, larga e preta. — Esse composto usado no piso vai ficar quente ao meio-dia — disse bruscamente McVries. — Vou ficar junto do acostamento. Garraty inclinou a cabeça. McVries fitou-o, pensativo.

— Quanto você pesa? — Setenta e dois quilos e meio. — Eu, setenta e seis e meio. Dizem que os caras mais pesados cansam mais depressa, mas acho que estou numa forma muito boa. Para Garraty, Peter McVries parecia mais do que isso — parecia em perfeita aptidão física. Perguntou a si mesmo quem eram os eles que diziam que caras mais pesados cansavam mais cedo, quase perguntou, mas resolveu que não. O Passeio era uma dessas coisas que existiam em obras apócrifas, talismãs, lendas. McVries sentou-se à sombra perto de dois outros rapazes e, após um momento, Garraty sentou-se ao lado dele. McVries parecia ter resolvido ignorá-lo inteiramente. Garraty olhou para o relógio. Eram 8:05h. Cinqüenta e cinco minutos antes de começar. A impaciência e a expectativa voltaram e fez o melhor que podia para afastá-las, dizendo a si mesmo que desfrutasse o estar sentado ali, enquanto podia. Todos os rapazes estavam sentados. Sentados em grupos ou sozinhos. Um dos rapazes subira para o ramo mais baixo de um pinheiro por cima da estrada e estava comendo o que parecia um sanduíche de geléia. Era magrelo e louro, usava calça púrpura e camisa azul de cambraia por baixo de uma velha suéter azul fechada por zíper e que tinha buracos nos cotovelos. Gostaria de saber se os magrelos agüentavam ou eram queimados logo. Os rapazes perto dos quais se sentara, juntamente com McVries, conversavam nesse momento. — Não vou me apressar — disse um deles. — Por que deveria? Se receber uma advertência, como é que eu fico? Eu me ajusto, só isso. Ajustamento é a palavra-chave aqui. Lembre-se de onde ouviu isso pela primeira vez. Olhou em volta e descobriu Garraty e McVries. — Mais cordeiros para o matadouro. Meu nome é Hank Olson.

Andar é o meu jogo. Disse isso sem a menor sombra de um sorriso. Garraty deu seu nome, com cuidado. McVries mencionou o seu, distraído, ainda olhando para a estrada. — Eu sou Art Baker — disse o outro, tranqüilamente. Falava com um leve sotaque sulista. Os quatro trocaram apertos de mão. Após um momento de silêncio, McVries disse: — Meio assustador, não? Todos inclinaram as cabeças, menos Hank Olson, que deu de ombros e sorriu. Garraty viu o rapaz no pinheiro terminar o sanduíche, fazer uma bola do papel encerado do embrulho e jogá-la no acostamento de terra da estrada. Ele vai se queimar logo, concluiu. Esse pensamento fê-lo sentir-se um pouco melhor. — Estão vendo aquele lugar bem junto do marco de pedra? — perguntou de repente Olson. Todos olharam. A brisa lançava sombras movediças na estrada. Garraty não teve certeza se estava ou não vendo alguma coisa. — Aquele é da Longa Marcha do ano atrasado — continuou Olson com sinistra satisfação. — Um garoto ficou com tanto medo que não conseguiu se mover às 9:00h. Todos ali pensaram em silêncio no horror daquilo. — Simplesmente, não conseguia se mover. Recebeu suas três advertências e em seguida, às 9:00h, deram-lhe o bilhete. Ali mesmo, na linha de partida. Garraty perguntou a si mesmo se suas pernas iam imobilizar-se. Achava que não, mas isso era uma coisa que o cara não sabia com certeza até chegar a hora, e era um pensamento terrível. Especulou sobre o motivo por que Hank Olson trouxera à baila uma coisa tão terrível. Subitamente, Art Baker levantou-se, espigou-se.

— Lá vem ele. Um jipe de cor castanha aproximou-se do marco de pedra e parou. Era seguido por um veículo estranho, equipado com esteiras, que se movia muito mais lentamente. Viram discos de radar parecendo de brinquedo montados à frente e atrás da semilagarta. Dois soldados matavam o tempo no estrado em cima e Garraty sentiu um calafrio na barriga quando olhou para eles. Conduziam fuzis de alto calibre do exército. Alguns rapazes levantaram-se do chão, mas não Garraty. Nem Olson nem Baker e, após um olhar inicial, McVries parecia ter recaído em seus pensamentos. O garoto magrelo no pinheiro balançava indolentemente os pés. O major desceu do jipe. Era um homem alto, espigado, com um forte bronzeado de deserto que combinava bem com o uniforme cáqui simples. Trazia uma pistola na cartucheira Sam Browne e usava óculos espelhados. Boatejava-se que os olhos do major eram extremamente sensíveis à luz e ele nunca era visto em público sem seus óculos de sol. — Sentem-se, rapazes — disse ele. — Não esqueçam a Regra Treze. A Regra Treze: “Conserve energia sempre que possível.” Sentaram-se os que haviam se levantado. Garraty olhou novamente para o relógio. Marcava 8:16h e achou que estava um minuto adiantado. O major sempre chegava na hora. Pensou por um momento em atrasá-lo um minuto mas depois esqueceu isso. — Não vou fazer discurso — começou o major, varrendo-os com a lente vazia que lhe cobria os olhos. — Apresento minhas congratulações ao vencedor entre vocês e presto minha homenagem à coragem dos que perderem. Virou-se para a parte traseira do jipe. Caiu um silêncio vivo.

Garraty respirou fundo o ar da primavera. Faria calor. Seria um dia bom para andar. O major voltou-se novamente para eles, uma prancheta na mão. — Quando eu chamar o nome, por favor, dêem um passo à frente e recebam seus números. Depois, voltem a seus lugares até a hora da largada. Façam isso rapidamente, por favor. — Você está no exército agora — disse baixinho Olson com urra sorriso. Garraty, porém, ignorou-o. Não se podia deixar de admirar o major. Seu pai, antes que as Patrulhas chegassem para levá-lo, gostara de chamar o major de o monstro mais raro e mais perigoso que qualquer nação pode produzir, um sociopata apoiado pela sociedade. Mas ele nunca vira o majorem pessoa. — Aaronson. Um garoto do campo, baixo e atarracado, pescoço queimado de sol, adiantou-se desajeitado, obviamente apavorado com a presença do major, e recebeu seu grande número 1 plástico. Prendeu-o à camisa com a fita de pressão e o major deu-lhe uma palmadinha nas costas. — Abraham. Era um garoto alto, cabelos arruivados, vestido de jeans e camisa de malha. Trazia a jaqueta amarrada em volta da cintura, ao jeito dos escolares, e seus joelhos tremiam loucamente. Olson soltou um risonho. — Baker, Arthur. — Sou eu — disse Baker, e levantou-se. Movia-se com enganoso abandono e deixou Garraty nervoso. Baker ia ser uma parada dura. Baker ia durar muito tempo. Baker voltou ao seu lugar.

Pressionou o número 3 sobre o lado direito do peito. — Ele lhe disse alguma coisa? — perguntou Garraty. — Ele me perguntou se estava começando a fazer calor lá na minha região do sul — respondeu timidamente Baker. — Sim, ele… o major falou comigo. — Não tão quente quanto vai começar a ficar aqui em cima — observou Olson. — Baker, James — disse o major. A chamada continuou até as 8:40h e correu tudo bem. Ninguém deu uma de ausente. No pátio de estacionamento, motores deram partida e alguns carros começaram a sair dali — rapazes da lista de espera que nesse momento voltavam para casa e que assistiriam na TV a cobertura da Longa Marcha. Começou, pensou Garraty, começou realmente. Ao chegar seu número, o major deu-lhe o número 47 e disse “Boa sorte”. De perto ele tinha umcheiro muito masculino e de certo modo esmagador. Garraty sentiu uma ânsia quase incontrolável de lhe tocar a perna e certificar-se de que ele era real. Peter McVries recebeu o número 61. Hank Olson foi o 70. Ele ficou mais tempo com o major do que o resto. O major riu de alguma coisa que Olson disse e deu-lhe uma palmada nas costas. — Eu disse a ele para manter um bocado de dinheiro em reserva — contou Olson, quando voltou. —Ele me disse para fazê-los passar um mau pedaço. Disse que gostava de ver que estava querendo vencer. Faça com que eles passem o diabo, rapaz, disse. — Muito bom — comentou McVries e piscou para Garraty. Garraty ficou sem saber o que McVries quisera dizer, piscando daquela maneira. Estaria zombando de Olson? O nome do garoto magrelo em cima da árvore era Stebbins. Recebeu o número de cabeça baixa, não dizendo uma única palavra ao major, e depois voltou e se sentou à base da árvore.

Garraty sentiu-se de alguma forma fascinado por aquele rapaz. O número 100 era um cara ruivo, de cor vermelho-terrosa. Clamava-se Zuck. Recebeu o número e em seguida todos se sentaram por ali, à espera do que iria acontecerem seguida. Os três soldados que estavam no alto da semilagarta desceram e começaram a distribuir cintos combolsos de pressão. Os bolsos estavam cheios de tubos de pastas concentradas de alta energia. Mais soldados apareceram, trazendo cantis. Os competidores afivelaram os cintos e prenderam neles os cantis. Olson pendurou o seu baixo, nas cadeiras, como um pistoleiro, encontrou num dos bolsos uma barra de chocolate Waifa e começou a comê-la. — Nada mau — disse, sorrindo. Tomou um gole no cantil, ajudando a descer o chocolate, e Garraty perguntou a si mesmo se Olson estava simplesmente se mostrando, ou se sabia alguma coisa que ele, Garraty, desconhecia. O major olhou-os, sério. O relógio de Garraty marcava 8:56h — como pudera o tempo correr tanto assim? O estômago mexeu-se, dolorosamente. — Muito bem, caras, em fila em grupos de dez, por favor. Nenhuma ordem em especial. Se quiserem, fiquem com seus amigos. Garraty levantou-se. Sentia-se entorpecido e irreal. Era como se seu corpo nesse momento pertencesse a alguma outra pessoa. — Bem, lá vamos nós — disse McVries ao seu lado. — Boa sorte para todos. — Boa sorte pra você — respondeu surpreso Garraty. McVries disse então: — Preciso que essa minha droga de cabeça seja examinada. Pareceu subitamente pálido e suado, não tão maravilhosamente apto como antes. Estava fazendo força para sorrir, e não conseguindo.

A cicatriz sobressaía no seu rosto como um estranho ponto de interrogação. Stebbins levantou-se e dirigiu-se devagar para a retaguarda da fila de dez de largura e dez de profundidade. Olson, Baker, McVries e Garraty ficaram na terceira fila. Garraty sentiu a boca seca. Pensou se devia ou não beber um pouco de água. Resolveu que não. Nunca, em toda a vida, estivera tão consciente assim dos pés. Conjeturou se eles ficariamimobilizados e receberia sua multa na linha de partida. E se Stebbins entregaria os pontos logo… Stebbins com seu sanduíche de geléia e calça púrpura. Ou se ele entregaria os pontos primeiro. E o que sentiria se… O relógio marcava 8:59h. O major examinava um cronômetro de bolso de aço inoxidável. Ergueu devagar os dedos e tudo ficou suspenso de sua mão. Os cem rapazes observaram-na atentamente em meio ao silêncio terrível e imenso. O silêncio era tudo. O relógio de Garraty chegou às 9:00h mas a mão no ar não desceu. Faça isso! Por que ele não fazia? Sentiu vontade de gritar. Nesse momento, lembrou-se que seu relógio estava adiantado um minuto. Podia-se acertar o relógio pelo major, apenas não fizera isso, esquecera. Os dedos do major baixaram. — Boa sorte a todos — disse. O rosto permaneceu impassível e os óculos espelhados esconderam-lhe os olhos. Os competidores começaram a andar suavemente, sem esbarrarem um no outro. Garraty acompanhou a turma. Não ficara imobilizado.

Ninguém ficara. Seus pés ultrapassaram o marco da pedra, em compasso de parada com os de McVries à esquerda e Olson à direita. O som dos passos era muito alto. É isso, é isso, é isso. Sentiu uma súbita e insana ânsia de parar. Apenas para ver se eles levavam aquilo realmente a sério. Indignado e um pouco medroso, rejeitou o pensamento. Saíram da sombra para o sol, o quente sol de primavera. Gostoso. Relaxou, enfiou as mãos nos bolsos e manteve o passo com McVries. O grupo começou a se espalhar, cada pessoa encontrando seu próprio ritmo e velocidade. A semilagarta seguia barulhenta pelo acostamento de grama, levantando poeira fina. Os minúsculos discos de radar giravam ativamente, monitorando a velocidade de cada competidor com um sofisticado computador de bordo. A baixa velocidade de desligamento era exatamente de 6,400km/h. — Advertência! Advertência ao 88! Garraty sobressaltou-se e olhou em volta. Stebbins. Stebbins era o número 88. De repente, teve certeza de que Stebbins ia receber sua multa ali mesmo, ainda à vista da linha de partida. — Sabido — comentou Olson. — O quê? — perguntou Garraty. Teve que fazer um esforço consciente para mover a língua. — O cara recebe uma advertência enquanto ainda está descansado e faz uma idéia de onde fica o limite. E ele pode cancelar isso fácil, fácil. Se anda uma hora sem receber nova advertência, você cancela uma das antigas. Você sabe disso.

— Claro que sei — respondeu Garraty. Isso estava no livro das regras, Davam ao cara três advertências. Na quarta vez em que o cara ficava abaixo dos 6,400km… bem, ele ficava fora da Marcha. Mas se recebera três advertências e conseguia caminhar por três horas, voltava a concorrer. — De modo que ele agora sabe — observou Olson. — Às 10:02h, ele está novamente limpo. Garraty continuou a andar em bom ritmo. Estava se sentindo bem. A linha de partida desapareceu de vista quando subiram uma colina e começaram a descer para um vale comprido, pontilhado de pinheiros. Aqui e ali viam campos retangulares, com a terra recentemente movida. — Batatas, segundo me disseram — observou McVries. — As melhores do mundo — respondeu automaticamente Garraty. — Você é do Maine? — perguntou Baker. — Sou, do sul do estado. Olhou para a frente. Vários rapazes haviam se destacado do grupo principal, fazendo talvez 9,600km/h. Dois deles usavam casacos de couro idênticos, com o que pareciam ser águias nas costas. Era uma tentação estugar o passo, mas Garraty recusou-se a apressar-se. “Conserve energia sempre que puder.” Regra 13. — A estrada passa perto de sua cidade natal? — perguntou McVries. — A mais ou menos 11km de um lado. Acho que minha mãe e minha namorada vão aparecer por lá para me ver. — Após uma pausa, acrescentou alegremente: — Se eu ainda estiver andando, claro. — Não teremos percorrido nem 40km ainda quando chegarmos ao sul do estado — observou Olson.

Um silêncio caiu entre eles a essas palavras. Garraty sabia que não era assim e achou que Olson sabia, também. Dois outros garotos receberam advertências e, a despeito do que Olson dissera, o coração de Garraty saltou a cada vez. Olhou para trás à procura de Stebbins. Ele continuava na rabeira, e comendo outro sanduíche de geléia. Viu um terceiro sanduíche projetando-se do bolso da suéter verde esmolambada. Garraty pensou se a mãe dele preparara aqueles sanduíches e lembrou-se dos biscoitos que a mãe lhe dera — enfiando os com torça em sua mão, como se para afastar os maus espíritos. — Por que é que não deixam que pessoas assistam ao começo da Longa Marcha? — perguntou Garraty. — Prejudica a concentração dos Competidores — disse uma voz seca. Garraty virou a cabeça. Era um rapaz moreno, baixo, de expressão séria, o número 5 colado à gola da jaqueta. Garraty não conseguiu lembrar-se do nome dele. — Concentração? — perguntou. — Isso mesmo — O rapaz adiantou-se e começou a andar ao lado de Garraty. — O major disse que é muito importante concentrar-se na calma, no início da Longa Marcha. Empurrou pensativamente com o polegar a ponta do nariz bastante afilado. Havia ali uma espinha vermelha, brilhante. — Concordo. Agitação, multidões, TV, depois. Neste exato momento, o que precisamos é de localização. — Olhou para Garraty com os olhos escuros encapuçados e repetiu: —Focalização. — Tudo o que estou focalizando agora é pegar umas garotas e meter nelas — disse Olson. O número 5 deu a impressão de se sentir insultado. — Você tetra que se ritmar. Tem que focalizar-se em si mesmo.

Você precisa ter um plano. Meu nome é Gary Barkovitch, por falar nisso. Moro em Washington, D.C. — E o meu nome é John Carter — respondeu Olson. — Eu moro em Barsoom, Marte. Barkovitch encrespou o lábio em uma expressão desdenhosa é atrasou o passo. — Há um cuco em todo relógio, acho — disse Olson. Garraty, porém, pensou que Barkovitch estava pensando com grande clareza pelo menos até que um dos guardas gritou “Advertência! Advertência número 5!”, uns cinco minutos depois. — Estou com uma pedra no sapato! — disse irascivelmente Barkovitch. O soldado não respondeu. Desceu da semilagarta e se postou no acostamento da estrada, em frente a Barkovitch. Tinha na mão um cronômetro de aço inoxidável igual ao do major. Barkovitch parou inteiramente e tirou o sapato. Sacudiu dele um pequeno seixo. Moreno, sério, a face encovada, azeitonada, lustrosa de suor, não deu atenção quando o soldado disse em voz alta: “Segunda advertência, número 5!” Em vez disso, alisou com todo cuidado a meia sobre o arco do pé. — Oh, oh — disse Olson.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |