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A Longa Noite sem Lua – John Steinbeck

Por volta das 10:45 já estava tudo acabado. A cidade estava ocupada, os defensores derrotados, a guerra terminada. O invasor preparara-se para a campanha tão cuidadosamente quanto o fizera para outras maiores. Naquela manhã de domingo, o policial e o agente postal da cidade saíram para pescar no barco do Sr. Corell, o estimado proprietário do armazém local. Ele lhes emprestara o seu bem cuidado barco a vela, para o dia inteiro. Os dois estavam ao mar, a vários quilômetros da costa, quando passou por eles, calmamente, a pequena e escura embarcação transportando os soldados. Como autoridades locais, o problema lhes dizia respeito. Assim, eles se apressaram em voltar à cidade. Mas é claro que o batalhão já se apoderara inteiramente da cidade quando eles finalmente conseguiram chegar ao porto. O policial e o agente postal nem mesmo conseguiram entrar em seus escritórios, no prédio da municipalidade. Como insistissem em seus direitos, foram declarados prisioneiro? de guerra e trancafiados na cadeia municipal. As tropas locais, num total de uma dúzia de homens, também estavam ausentes naquela manhã de domingo, O Sr. Corell, o estimado proprietário do armazém local, oferecera-lhe um almoço, além de alvos, cartuchos e prêmios para uma competição de tiro a realizar-se a 10 quilômetros da cidade, nas colinas, num lindo bosque. Que por sinal também era de propriedade do Sr. Corell. As tropas locais, constituídas de rapazes altos e fortes, mas um tanto ou quanto canhestros, ouviram os aviões e viram os pára-quedas a distância. Retomaram imediatamente à cidade, em passo acelerado. Ao chegarem, o invasor já flanqueara a estrada com metralhadoras. Com muito pouca experiência de guerra e absolutamente nenhuma de derrota, abriram fogo com seus rifles. As metralhadoras pipocaram por um momento, e seis dos bravos soldados viraram corpos sem vida, crivados de balas. Três outros ficaram à beira da morte, também crivados de balas. Os outros três fugiram para as colinas, levando seus rifles. Às 10:30, a banda de música do invasor pôs-se a tocar canções lindas e sentimentais na praça da cidade, enquanto os habitantes, de bocas escancaradas, olhos atônitos, paravam para escutar, espiando os homens de capacetes cinzas, armados de submetralhadoras. As 10:38, os seis corpos crivados de balas foram enterrados.


A esta altura, os pára-quedas já estavam convenientemente dobrados e o batalhão ia se aprovisionar no vasto armazém do Sr. Corell, junto ao cais, em cujas prateleiras havia cobertores e camas de lona em quantidade suficiente para um batalhão. Às 10:45, o velho Prefeito Orden recebeu o pedido formal para que concedesse uma audiência ao Coronel Lanser, dos invasores. A audiência foi marcada para as 11:00 em ponto, no palácio de cinco cômodos do prefeito. A sala de recepção do palácio era agradável e confortável. As cadeiras douradas, com seus estofamentos antigos, um pouco puídos pelo uso, enfileiravam-se de um lado a outro, empertigadas e imóveis, como um excesso de criados sem nada para fazer. Uma lareira de mármore, em arcada, abrigava uma fornada de carvões em brasa, sem chamas, emitindo um calor agradável. A um canto da lareira havia um balde grande, cheio de carvão. No consolo da lareira, flanqueado por vasos, havia um relógio grande de porcelana, cheio de querubins a fazerem acrobacias. O papel de parede da sala era vermelho-escuro, com figuras em dourado. O madeiramento aparente era branco, muito bonito e bem limpo. Os quadros nas paredes indicavam uma grande preocupação com o espantoso heroísmo dos cachorros grandes, diante de crianças em perigo. Não havia inundação, incêndio ou terremoto que pudesse fazer mal a uma criança, contanto que houvesse sempre um cachorro grande por perto. Ao lado da lareira estava sentado o velho Dr. Winter, com sua barba, sua simplicidade e sua serenidade, historiador e médico da cidade. Ele a tudo observava, rolando os polegares incessantemente. O Dr. Winter era um homem tão simples que somente alguém muito perspicaz seria capaz de perceber que ele era profundo também. Olhou para Joseph, o serviçal do prefeito, para verificar se ele notara o movimento dos seus polegares. — Onze horas? — perguntou o Dr. Winter. Joseph respondeu, distraidamente: — Sim, senhor. O bilhete dizia onze horas. — Você leu o bilhete? — Não, senhor. Mas Sua Excelência leu-o em voz alta para mim.

Joseph pôs-se então a verificar as cadeiras douradas, para ver se alguma saíra do lugar, desde que ele as arrumara pela última vez. Joseph normalmente amarrava a cara para os móveis, esperando sempre que se mostrassem impertinentes, rebeldes ou empoeirados. Num mundo em que o Prefeito Orden era o condutor de homens, Joseph comandava os móveis, a prataria e a louça. Joseph era idoso, magro e compenetrado. Sua vida era tão complicada que somente alguém muito perspicaz seria capaz de perceber que ele era um simples. Ele nada via de surpreendente no fato de o Dr. Winter estar mexendo os polegares sem parar. Mas achava o gesto irritante. Joseph desconfiava de que alguma coisa muito importante estava acontecendo, com todos aqueles soldados estrangeiros na cidade e o exército local morto ou capturado. Mais cedo ou mais tarde, Joseph teria que formar uma opinião a respeito de tudo aquilo. O que ele não gostava era de frivolidades, polegares rolando, móveis insubordinados. O Dr. Winter deslocou sua cadeira alguns centímetros do lugar apropriado e Joseph ficou esperando, impacientemente, pelo momento em que poderia devolvê-la a seu lugar. O Dr. Winter repetiu: — Onze horas… E então eles estarão aqui. Uma gente pontual, Joseph, que se preocupa com o tempo. Sem ter escutado, como de hábito, Joseph disse: — Sim, senhor. — Uma gente que se preocupa com o tempo… — repetiu o médico. — Sim, senhor. — Com o tempo e com as máquinas. — Sim, senhor. — Eles correm atrás de seu destino, como se temessem que ele não fique à espera. E vão empurrando com os ombros este mundo tumultuado. E Joseph disse, então: — Tem toda razão, senhor. Simplesmente porque estava cansado de dizer “Sim, senhor”.

Joseph não aprovava esse rumo da conversa, já que não o ajudava a formar uma opinião a respeito do que quer que fosse. Se, mais tarde, naquele mesmo dia Joseph comentasse para a cozinheira: “Uma gente que se preocupa com o tempo, Annie”, isso não faria o menor sentido. Annie perguntaria: “Quem?” e, depois: “Por quê?”, terminando por dizer: “Isso é bobagem, Joseph.” Joseph já tentara, em ocasiões anteriores, levar as opiniões do Dr. Winter lá para baixo, sempre sem êxito: Annie invariavelmente concluía que não passavam de bobagem. O Dr. Winter levantou os olhos dos polegares em movimento e ficou observando Joseph a disciplinar as cadeiras. — O que o prefeito está fazendo, Joseph? — Está se vestindo para receber o coronel, senhor. — E você não está ajudando-o? Vestindo-se sozinho, ele sempre fica mal vestido. —- Madame está ajudando-o, senhor. Madame quer que Sua Excelência se apresente da melhor forma possível. Ela… Joseph estacou por um instante, corando diante de sua gafe. Corrigiu-se prontamente: — Madame está aparando os cabelos das orelhas de Sua Excelência, senhor. Faz cócegas. Por isso ele nunca me deixa fazê-lo. — É claro que faz cócegas — disse o Dr. Winter. — Mas madame insiste. O Dr. Winter riu subitamente. Levantou-se e estendeu as mãos para o calor da lareira, do que Joseph se aproveitou para correr agilmente por trás dele e recolocar a cadeira no lugar de onde ela nimca deveria ter saído. — Nós somos maravilhosos — comentou o Dr. Winter. — Nosso país está caindo, nossa cidade foi conquistada, o prefeito está para receber o conquistador. E madame se preocupa em agarrá-lo pelo pescoço para cortar os cabelos de suas orelhas.

— É que estavam grandes demais, senhor. E o mesmo acontece com as sobrancelhas. Sua Excelência detesta quando lhe arrancam os fios das sobrancelhas. Diz que dói. Duvido muito que madame o consiga. — Mas ela irá tentar. — Ela quer que ele pareça o melhor possível, senhor. Um rosto espiou para dentro da sala, pelo vidro da porta. Logo em seguida houve uma batida. Parecia que um pouco do calor e da luz do dia deixava a sala, dando lugar ao crepúsculo. O Dr. Winter olhou para o relógio de porcelana e comentou: — Eles estão chegando antes da hora. Deixe-os entrar, Joseph. Joseph foi até a porta e abriu-a. Um soldado entrou, vestido num capote comprido. Usava capacete e empunhava uma metralhadora. Olhou rapidamente ao redor e depois deu um passo para o lado. Por trás dele estava parado um oficial. O uniforme do oficial era comum e as divisas do posto só apareciam nos ombros. O oficial entrou na sala e olhou para o Dr. Winter. Parecia mais um retrato exagerado de um fidalgo inglês. Tinha uma postura relaxada, o rosto vermelho e o nariz grande, mas até que era simpático. Parecia tão infeliz em seu uniforme quanto a maioria dos generais britânicos. Parou logo depois de entrar, ficou por um momento olhando para o Dr.

Winter e depois disse: — É o Prefeito Orden, senhor? O Dr. Winter sorriu. — Não. Sou o médico da cidade e amigo do prefeito. O oficial disse: — E onde está o Prefeito Orden? — Está se vestindo para recebê-lo. É o coronel, não é? — Não, não sou! Sou o Capitão Bentick. Ele se inclinou ligeiramente na direção do Dr. Winter, que retribuiu a reverência. O Capitão Bentick continuou, como se estivesse um tanto constrangido com o que tinha de dizer: — Nossos regulamentos militares, senhor, exigem que revistemos qualquer sala, à procura de armas, antes de o oficial-comandante nela entrar. E não vai nisso nenhuma falta de respeito, senhor. Ele virou a cabeça ligeiramente e gritou para trás, por cima do ombro: — Sargento! O sargento avançou rapidamente para Joseph, apalpou-lhe os bolsos e disse: — Nada, senhor. O Capitão Bentick disse ao Dr. Winter: — Espero que nos perdoe. O sargento aproximou-se então do Dr. Winter e apalpou-lhe os bolsos também. Suas mãos estacaram bruscamente no bolso interno do casaco. Enfiou a mão no bolso rapidamente e tirou uma caixa de couro preto, achatada, levando-a até o Capitão Bentick. O oficial abriu a caixa e encontrou lá dentro alguns instrumentos cirúrgicos dos mais simples: dois bisturis, algumas agulhas cirúrgicas, grampos, uma seringa hipodérmica. Fechou a caixa e devolveu-a ao Dr. Winter. O Dr. Winter comentou: — Como pode ver, sou mesmo um médico de roça. Certa vez tive que realizar uma apendicectomia com uma faca de cozinha. Desde então eu sempre carrego esses instrumentos comigo. O Capitão Bentick disse: — Creio que existem algumas armas de fogo aqui, não é mesmo? Ele abriu um caderninho de capa de couro que trazia no bolso e consultou-o.

— Estou vendo que sabem de tudo — disse o Dr. Winter. — Sabemos, sim. Nosso agente local está trabalhando aqui há bastante tempo. — Suponho que não vai dizer quem é ele, não é mesmo? — Sua missão já está concluída. Creio que não há mal algum em dizer. Seu nome é Corell. O Dr. Winter ficou perplexo. — George Corell? Mas isso parece impossível! Afinal, ele fez muita coisa por esta cidade. Até mesmo instituiu um concurso de tiro ao alvo nas colinas, esta manhã! À medida que ia falando, o Dr. Winter foi começando a arregalar os olhos, começando a compreender o que acontecera. Foi lentamente que ele fechou a boca, demorando algum tempo para voltar a falar: — Agora estou entendendo por que ele instituiu o concurso. É isso mesmo! Mas George Corell… parece impossível! A porta à esquerda se abriu neste momento e o Prefeito Orden entrou; vinha escavando o ouvido direito com o dedo mínimo. Estava usando o traje oficial para a manhã, com o colar distintivo do cargo ao pescoço. Tinha um bigode branco, bem grande, espalhado, e mais dois menores, por cima de cada olho. Os cabelos brancos tinham sido tão escovados, havia bem pouco tempo, que ainda se viam alguns fios lutando para se libertar da pressão que os curvara, procurando ficar em pé novamente. Ele era prefeito fazia tanto tempo que encarnava, para os habitantes da cidade, a própria imagem da Prefeitura. Até mesmo os adultos, quando viam a palavra “prefeito”, impressa ou manuscrita, não conseguiam pensar em outra imagem que não a do Prefeito Orden. Ele e o cargo formavam uma unidade única e indivisível. O cargo lhe dera dignidade, ele fizera com que o cargo adquirisse uma alma. Por trás dele apareceu madame, pequena, encarquilhada e vigorosa. Ela considerava que criara aquele homem, que fora ela quem o idealizara assim como ele era. E tinha certeza de que poderia fazer um trabalho ainda melhor, se assim fosse necessário. Apenas uma ou duas vezes, em toda a sua vida, ela o compreendera por inteiro, como um todo.

Mas a parte dele que ela conhecia, conhecia bem, a fundo, em todos os meandros. Não havia qualquer apetite ou aflição, negligência ou fraqueza sua que ela desconhecesse. Mas jamais lhe percebera ou sentira qualquer pensamento, sonho ou anseio. E, no entanto, por diversas vezes em sua vida, ela vira as estrelas. Ela contornou o prefeito e segurou-lhe a mão, arrancando o dedo mínimo do ouvido ultrajado, da mesma forma como tiraria o polegar da boca de um bebê. — Não acredito de jeito nenhum que doa tanto quanto está dizendo — disse ela. Depois, virando-se para o Dr. Winter, acrescentou: — Ele não quis deixar eu dar um jeito nas sobrancelhas. — É que dói muito — alegou o Prefeito Orden. — Pois está bem. Se você prefere ficar com esse aspecto horrível, então não há nada que eu possa fazer. Ela endireitou o laço da gravata dele, que já estava mais do que direito. — Fico contente que esteja aqui, doutor — disse ela. — Quantos acha que virão? Foi só então que ela correu os olhos ao redor e deparou com o Capitão Bentick. — Oh, o coronel! O Capitão Bentick disse: — Não, madame, estou apenas preparando tudo para a chegada do coronel. Sargento! O sargento, que estava revirando almofadas e olhando atrás dos quadros, aproximou-se rapidamente do Prefeito Orden e tateou-lhe os bolsos. — Desculpe, senhor, mas é o regulamento — disse o Capitão Bentick. Ele olhou novamente para o cademinho em sua mão e acrescentou: — Excelência, creio que tem armas de fogo aqui. Duas, não é mesmo? — Armas de fogo? Ah, sim… Tenho uma espingarda e um rifle de caça. Sabe, eu já não caço tanto quanto antigamente. A temporada começa e vai se arrastando, e eu termino não saindo para uma caçada. Já não vejo tanto prazer nisso como antes. O Capitão Bentick insistiu: — E onde estão essas armas. Excelência? O prefeito cocou o rosto, tentando se lembrar. — Ora, acho… Virou-se para madame: — Elas não estavam no fundo daquele armário lá do quarto, junto com as bengalas? — Estão, sim.

E todas as roupas que estão naquele armário cheiram a graxa. Gostaria que guardasse as armas em algum outro lugar. O Capitão Bentick falou: — Sargento! E o sargento seguiu imediatamente para o quarto. O capitão desculpou-se: — É uma obrigação das mais desagradáveis. Lamento muito. Ele se virou e fez uma pequena reverência para o Dr. Winter. — Obrigado, doutor. O Coronel Lanser estará aqui dentro de pouco tempo. Muito bom dia! E saiu pela porta da frente, seguido pelo sargento, levando a espingarda e o rifle de caça emuma das mãos, a metralhadora apoiada no braço direito. Madame disse: — Por um momento pensei que ele fosse o coronel. Até que é um rapaz simpático. O Dr. Winter disse, sardonicamente: — Não, ele veio aqui só para proteger o coronel. Madame estava pensando. — Quantos oficiais acha que virão? Lançou um olhar para Joseph e viu que ele estava prestando atenção à conversa, descaradamente. Sacudiu a cabeça e franziu-lhe o rosto. Joseph recomeçou a limpar o pé de todos os móveis. Madame repetiu a pergunta: — Quantos acha que virão? O Dr. Winter puxou uma cadeira, num gesto abusivo, sentando-se novamente, antes de falar: — Não tenho a menor idéia. Ela tornou a franzir o rosto para Joseph. — Estivemos conversando sobre isso. Devemos oferecer-lhes chá ou um copo de vinho? Se devemos, eu preciso saber quantos serão. Se não soubermos, como iremos fazer? O Dr. Winter sacudiu a cabeça e sorriu.

— Não faço a menor idéia. Já faz muito tempo que não conquistamos ninguém e nem somos conquistados por ninguém. Não sei o que é adequado ou não. O Prefeito Orden tomara a enfiar o dedo no ouvido que cocava. E disse: — Pois eu acho que não devemos. Não creio que as pessoas vão gostar. E não quero beber vinho com eles. Não sei por quê. Madame apelou para o Dr. Winter: — Antigamente, as pessoas — os chefes, naturalmente — não trocavam cumprimentos e bebiam um copo de vinho? O Dr. Winter assentiu. — Era esse realmente o costume. Sacudiu a cabeça lentamente, antes de contmuar: — Mas talvez as coisas fossem diferentes naqueles tempos. Reis e príncipes se dedicavam à guerra, da mesma maneira como os ingleses se dedicam ao esporte da caça. Assim que a raposa está morta, eles se reúnem para tomar um café da manhã em sua homenagem. O Prefeito Orden provavelmente está certo. As pessoas podem não gostar de vê-lo tomando vinho com o invasor. — O povo está mais preocupado com outras coisas, ouvindo a música lá na praça — disse madame. — Aimie me contou. E se o povo está reagindo assim, por que não podemos adotar um procedimento de gente civilizada? O prefeito fitou-a com firmeza por um momento. A voz era um pouco áspera quando ele disse: — Madame, com a sua devida permissão, não teremos vinho. As pessoas estão confusas neste momento. Viviam em paz havia tanto tempo que ainda não estão acreditando na guerra. Mas em breve irão compreender tudo o que aconteceu e não mais estarão confusas. Não podemos também esquecer que seis rapazes desta cidade foram mortos esta manhã.

Eles não irão nunca mais comemorar coisa alguma. As pessoas não travam guerras por esporte. Madame inclinou-se ligeiramente. Em sua vida, houvera algumas ocasiões em que o marido se transformara no prefeito. Ela aprendera a não confundir o prefeito com o marido. O Prefeito Orden consultou seu relógio. Quando Joseph entrou, trazendo uma bandeja com café, ele pegou distraidamente uma xícara. — Obrigado, Joseph. Tomou um gole e virou-se para o Dr. Winter, dizendo, em tom quase de desculpas. — Eu deveria estar a par de tudo, mas… Sabe quantos homens o invasor tem? — Não muitos. No máximo uns 250. Mas todos estão armados de metralhadoras. O prefeito tomou outro gole de café e fez uma nova tentativa: — E como está a situação no resto do país? O Dr. Winter deu de ombros. — Não houve resistência em lugar nenhum? — insistiu o prefeito, desanimado. Novamente o Dr. Winter deu de ombros. — Não sei! Os fios do telégrafo devem ter sido cortados. Não temos qualquer notícia do resto do país. — E os nossos rapazes, os nossos soldados? — Não sei. Joseph entrou na conversa: — Ouvi dizer… isto é, Annie ouviu… — O que, Joseph? — Seis homens foram mortos, senhor, a tiros de metralhadoras. Annie ouviu dizer que outros três foram feridos e capturados. — Mas eram 12! — Annie ouviu dizer que os outros três escaparam. O prefeito virou-se bruscamente para ele.

— E quais os três que escaparam? — Não sei, senhor. Isso, Annie não soube. Madame verificou se havia poeira numa mesinha, passando o dedo por cima. Depois, disse: — Joseph, quando eles chegarem, fique perto da campainha. Talvez queiramos alguma coisa. E vista o seu outro casaco, Joseph, aquele que tem botões. Ela pensou por um momento. — E assim que acabar de fazer o que lhe for mandado, Joseph, saia dí! sala. Causa uma péssima impressão a sua presença por aqui, escutando as conversas. É algo por demais provinciano. — Sim, madame. — Não vamos servir vinho, Joseph. Mas você pode arrumar alguns cigarros naquela cigarreira de prata. E na hora de acender o cigarro do coronel, não risque o fósforo no seu sapato. Risque na própria caixa de fósforos. — Sim, madame. O Prefeito Orden desabotoou o casaco, olhou novamente para o seu relógio, tornou a guardá-lo e abotoou outra vez o casaco, um botão acima da casa correspondente. Madame postou-se diante dele e corrigiu. O Dr. Winter perguntou: — Que horas são? — Cinco para as 11. — Eles são pontuais. Chegarão aqui na hora marcada. Quer que eu me retire? O Prefeito Orden pareceu ficar surpreso. — Ir embora? Não, não, fique aqui. Ele riu baixinho e disse, em tom de desculpas: — Estou com um pouco de medo… Isto é, não com medo, mas um pouquinho nervoso.

Faz muito tempo que não somos conquistados e… Ele parou para escutar. A distância, podia-se ouvir uma banda tocando uma marcha. Todos se viraram na mesma direção e ficaram escutando. Madame disse, então: — Lá vêm eles. Espero que não sejam muitos, pois a sala é pequena. O Dr. Winter comentou, sardonicamente: — Madame preferiria o Salão dos Espelhos, em Versailles? Ela prendeu o lábio inferior entre os dentes, olhando ao redor, já imaginando onde poderia situar cada invasor. — É uma sala muito pequena… — disse ela, novamente. A música foi num crescendo, para logo depois voltar a diminuir. Houve uma batida delicada na porta. — Mas quem pode ser, numa hora destas? Vá ver quem é, Joseph, e mande voltar mais tarde. Estamos muito ocupados. Bateram novamente. Joseph foi até a porta e entreabriu-a, apenas uma fresta, que tratou logo de aumentar. Um vulto cinza, de capacete e luvas, estava parado na porta. — Apresento os cumprimentos do Coronel Lanser — disse ele. — E o Coronel Lanser solicita uma audiência com Sua Excelência. Joseph abriu toda a porta. O ordenança de capacete entrou e correu os olhos rapidamente pela sala, pondo-se depois de lado. — O Coronel Lanser! — anunciou ele, então. Um segundo vulto de capacete apareceu na porta e entrou na sala. Podia-se ver o seu posto apenas pelas divisas nos ombros. Por trás dele vinha um homem um tanto baixo, num terno preto. O coronel era um homem de meia-idade, pálido, de rosto duro, aparência cansada. Tinha os ombros quadrados de um soldado, mas os olhos careciam da expressão vazia do soldado normal.

O homenzinho que o acompanhava parecia muito enfatuado, de faces cotadas, olhinhos negros, uma boca sensual. O Coronel Lanser tirou o capacete e fez uma pequena reverência. — Excelência! Curvou-se também para madame. —- Madame! Depois, disse ao ordenança: — Feche a porta, cabo, por gentileza. Joseph fechou a porta rapidamente e lançou um olhar triunfante para o soldado. Lanser, por sua vez, lançou um olhar inquisitivo para o Dr. Winter, e o Prefeito Ordcn apressou-se em dizer: — Esse é o Dr. Winter. — Uma autoridade? — perguntou o coronel. — Um médico, senhor. E, pode-se dizer também, o historiador local. Lanser inclinou-se ligeiramente na direção do médico. — Dr. Winter, não tenho a intenção de ser impertinente, mas haverá uma página em sua história que talvez… O Dr. Winter sorriu. O Coronel Lanser virou-se ligeiramente na direção do seu companheiro. — Creio que já conhecem o Sr. Corell. O prefeito disse: — George Corell? Mas claro que o conheço. Como vai, George? O Dr. Winter disse, bruscamente, em tom formal: — Excelência, nosso amigo, George Corell, foi quem preparou a cidade para a invasão. Nosso benfeitor, George Corell, mandou nossos soldados para a colina, no momento da invasão. Nosso convidado para jantar em muitas ocasiões, George Corell, forneceu ao invasor uma relação de todas as armas de fogo que existiam na cidade. É esse o nosso bom amigo George Corell! Corell ficou furioso. — Eu me empenho pelas coisas em que acredito! E isso é uma coisa honrada! A boca de Orden estava entreaberta de surpresa.

Ele olhou, desolado, de Winter para Corell. — Isso não-pode ser verdade! Não é verdade, não é, George? Você sentou-se à minha mesa, tomou vinho comigo. Ora, você até me ajudou a planejar o nosso hospital! Isso não pode ser verdade! Ele fitava Corell firmemente. E Corell retribuía o olhar com uma expressão belicosa. Houve umlongo silêncio. Depois, o rosto do prefeito foi aos poucos se contraindo, numa expressão formal e rígida. Ele se virou para o Coronel Lanser e disse: — Não desejo falar coisa alguma na presença desse cavalheiro. Corell disse: — Pois saiba que eu tenho o direito de estar aqui. Sou um soldado como todos os outros. A única diferença é que não uso uniforme. O prefeito repetiu: — Não desejo falar coisa alguma na presença desse cavalheiro. O Coronel Lanser disse, então: — Poderia deixar-nos a sós, Sr. Corell? — Eu tenho o direito de estar aqui! Lanser repetiu, agora um tanto asperamente: — Poderia deixar-nos a sós, Sr. Corell? Ou será que pensa que é meu superior? — Não, senhor. — Então, por favor, retire-se. Corell lançou um olhar furioso para o prefeito, depois, virou-se e saiu rapidamente pela porta da frente. O Dr. Winter soltou uma risadinha e comentou: — Isso vai dar um ótimo parágrafo em minha história. O Coronel Lanser fitou-o friamente, mas não disse nada. A porta da direita abriu-se nesse momento e Annie, de cabelos cor de palha e olhos vermelhos, enfiou a cabeça para dentro da sala e disse, com raiva na voz: — Há uma porção de soldados lá nos fundos, madame. Eles estão simplesmente parados lá.

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