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A Nuvem Envenenada – Arthur Conan Doyle

Preciso fixar logo no papel estes acontecimentos fabulosos, enquanto ainda consigo lembrar claramente os detalhes e antes que o tempo possa embotar-me a memória. Mas agora mesmo, na mesma hora em que me preparo a relatar tais fatos extraordinários, ainda não consigo deixar de surpreender-me por tudo isto ter sido presenciado justamente pelo nosso pequeno grupo: o professor Challenger, o professor Summerlee, o Lord Roxton e eu. Há alguns anos, quando relatei no Daily Gazette a nossa famosa viagem à América do Sul, nem passou pela minha mente que logo eu teria de contar fatos ainda mais extraordinários, acontecimentos que certamente não tem comparação nos anais da humanidade, talvez fadados a nunca mais se repetirem na história. Os fatos em si são realmente surpreendentes, mas a circunstância que fez com que nós quatro estivéssemos ali, juntos, para presencia-los aconteceu de forma extremamente natural. Contarei esta primeira parte da nossa aventura da maneira mais clara e concisa possível, embora acredite que o leitor, diante da importância do assunto, talvez preferisse uma maior fartura de detalhes. Era uma sexta-feira, 27 de agosto, uma data que ficará marcada na história, e eu cheguei à redação do meu jornal e pedi três dias de licença ao Sr. Mc Ardle, o nosso diretor. Este último, um escocês da gema, sacudiu a cabeça, agitou os cabelos rebeldes que lhe encobriam a testa e acabou explicando que não tinha a menor vontade de contentar-me. “Estava pensando agorinha mesmo, Sr. Malone, que quase certamente iremos precisar dos seus serviços nos próximos dias. Há uma coisa, com efeito, que só o senhor parece estar apto a levar a cabo satisfatoriamente.” “Fico muito decepcionado ao ouvir isto”, respondi. “Mas é claro que, se for de fato necessário, estou disposto a desistir dos meus planos embora, eu garanto, se trate de algo extremamente importante. Se porventura fosse possível dispensar a minha presença…” “Nem pense nisto. A sua presença é absolutamente indispensável.” Fiquei profundamente chateado, mas achei melhor levar a coisa na esportiva. Afinal de contas, a culpa era minha, pois nunca deveria ter esquecido a regra pela qual um jornalista jamais pode dispor à vontade do seu tempo… “Vamos esquecer o assunto, então”, eu disse aparentando a maior calma. “O que deseja de mim?” “Quero que vá entrevistar aquele sujeito difícil que mora lá pras bandas de Rotherfield.” “Está falando do professor Challenger?” “O próprio. Na semana passada arrastou aquele repórter novato, o Simpson, por mais de uma milha ao longo da rodovia, segurando-o pelo pescoço e empurrando-o pelas costas. O senhor deve ter lido a respeito do assunto no relatório policial. Não é de se espantar, portanto, que agora os nossos jornalistas prefiram entrevistar os Jacarés do jardim zoológico antes que ter uma conversinha com o homem. No seu caso, no entanto, a coisa é diferente, pois me disseram que vocês são bons amigos.” “Sem problemas!”, respondi aliviado. “A coisa vai ser muito fácil.


Ainda mais porque queria os três dias de licença justamente para visitar o professor Challenger em Rotherfield. Estamos perto do terceiro aniversário da nossa grande aventura no Planalto, e ele convidou o grupo para festejar o acontecimento na casa dele.” “Perfeito!”, gritou Mc Ardle, todo animado. “Acho que o senhor não terá a menor dificuldade em conseguir dele uma explicação detalhada. Se fosse outra pessoa, não a levaria a sério. Mas ele já demonstrou em várias ocasiões ter a cabeça no devido lugar, e nunca se sabe…” “O que deseja que lhe pergunte?”, indaguei. “ O que foi que ele fez, desta vez?” “Ainda não leu a carta que ele mandou a “Possibilidades Científicas”, no Times de hoje?” “Não.” Mc Ardle esticou-se para pegar o jornal no chão. “Leia em voz alta”, pediu, apontando com o dedo para uma coluna. “Gostaria de ouvir mais uma vez o que ele diz, pois ainda não creio ter entendido direito o que quer dizer…” E aqui está a carta que li ao meu diretor: Possibilidades Científicas Senhor, li com divertido prazer, para não mencionar outra emoção menos delicada, o artigo totalmente imbecil do Sr. James Wilson Mac Phail, que apareceu recentemente no seu jornal a propósito das manchas nas Linhas de Frauenhofer, visíveis nos espectros dos planetas que orbitam em volta das estrelas fixas. Ele considera o fenômeno insignificante enquanto, para uma mente mais perspicaz, resulta claro que a coisa é tão importante que chega a ser um perigo para qualquer homem, mulher e criança do nosso planeta. Não pretendo absolutamente explicar o meu ponto numa linguagem científica, pois a maioria dos leitores que fundamentam a sua cultura naquilo que lêem nos jornais não iria entender. Assim sendo, procurarei nivelar-me com a mentalidade da ralé e explicar a situação recorrendo a uma analogia elementar ao alcance da inteligência dos seus leitores. “Este homem é uma verdadeira figura!”, exclamou Mc Ardle. Sabe muito bem como lidar com as pessoas. Mas prossiga, vamos ouvir a analogia…” Vamos supor–recomecei a ler–que uma série de rolhas de cortiça presas umas às outras seja jogada numa correnteza que a leve através do oceano Atlântico. As rolhas bóiam e avançam lentamente, cercadas pelas mesmas condições ambientais. Se as rolhas tivessem inteligência, podemos supor que considerariam as tais condições permanentes e seguras. Nós, no entanto, com os nossos conhecimentos superiores, sabemos muito bem que as rolhas poderiam ter inúmeras surpresas. Poderiam, por exemplo, bater num navio, ou numa baleia adormecida, ou então encalhar num banco de areia. De qualquer maneira, a viagem quase certamente acabaria em algum ponto da costa rochosa do Labrador. Mas o que poderiam as rolhas pensar disto tudo, ao navegarem despreocupadas em condições que julgam imutáveis e ilimitadas? Provavelmente os seus leitores conseguirão entender que o Atlântico representa o desmedido oceano de espaço no qual nos movemos, e que as rolhas nada mais são do que o pequeno e mesquinho sistema planetário ao qual pertencemos. Uma vez que somos apenas uma estrela de terceira grandeza com um séquito de insignificantes satélites, estamos boiando exatamente como os pedaços de cortiça, rumo a uma terrível catástrofe que irá nos surpreender nos confins do espaço, quando seremos tragados por algum etéreo Niagara ou jogados contra um inesperado Labrador. Não consigo entender o ingênuo otimismo do seu colaborador James Wilson Mac Phail enquanto vejo inúmeras razões para ficarmos de sobreaviso diante de qualquer transformação ambiental no universo que nos cerca, da qual poderá depender o nosso destino final.

“Este homem poderia ter sido um político e tanto!”, exclamou Mc Ardle. “Ressoa como um órgão! Vejamos então o que o preocupa.” As manchas nas Linhas de Frauenhofer–continuava a carta–indicam, no meu entender, uma grande transformação cósmica de tipo bastante singular. A luz que nos chega de um planeta é uma luz refletida do sol. A luz que chega até nós de uma estrela, por sua vez, é uma luz que podemos chamar de autogerada, produzida pela própria estrela. Agora, acontece que os espectros dos planetas assim como os das estrelas revelam ter sofrido, todos eles, a mesma mudança. Haverá então uma idêntica transformação afetando tanto os planetas quanto as estrelas? No meu entender, uma idéia destas é simplesmente inconcebível. Que tipo de transformação poderia com efeito atingi-los ao mesmo tempo? Seria então alguma transformação na nossa própria atmosfera? É possível, mas extremamente improvável, pelo menos até quando não descobrirmos algum sinal disto à nossa volta. Poderia haver, então, uma terceira hipótese? Creio que sim, e ela seria a seguinte: a transformação estaria acontecendo naquele espaço incrivelmente tênue que vai de uma estrela para a outra e que ocupa o inteiro universo. Nós estamos boiando no meio deste oceano, levados por uma vagarosa correnteza. E o que impede que esta correnteza nos levem para os indefinidos halos que representam novos fenômenos, halos cujas propriedades são para nós novas e das quais não temos a menor idéia? É uma possibilidade que de forma alguma podemos descartar. E a atual perturbação cósmica do espectro é prova disto. Pode ser uma mudança para melhor, mas também pode ser uma mudança fatal ou até mesmo inócua. É justamente este o ponto que desconhecemos. Observadores superficiais e desatentos poderão não levar em conta este fato, mas a profundidade do verdadeiro filósofo logo perceberá que as possibilidades do universo são incalculáveis, e que o sábio deve manter-se preparado a aceitar os acontecimentos mais imprevisíveis. Para dar um exemplo bem claro, quem pode jurar que a estranha epidemia da qual hoje mesmo o seu jornal fala, e que de repente acomete um grande número de nativos em Sumatra, não esteja relacionada com alguma mudança cósmica que afetou aqueles indígenas mais rapidamente que os povos da Europa? Esta minha idéia, repito, não passa de uma hipótese sem maior fundamento, e de nada adiantaria, por enquanto, defendê-la ou negá-la. Seria, no entanto, muito tolo aquele que não quisesse admitir que tais fenômenos são perfeitamente aceitáveis dentro das possibilidades científicas. Despeço-me atenciosamente. George Edward Challenger Brias-Rotherfield “Uma carta e tanto”, disse Mc Ardle enquanto procurava um cigarro na mesa. “O que pensa disto, Sr. Malone?” Tive de admitir a minha total ignorância a respeito do assunto. O que vinham a ser, por exemplo, as Linhas de Frauenhofer? Ao contrário de mim, o Sr. Mc Ardle tinha examinado profundamente a questão com a ajuda do nosso redator científico. Apanhou na mesa duas folhas coloridas e mostrou-me umas linhas pretas que se cruzavam sobre um fundo de cores vivazes que, do vermelho alaranjado ao roxo, passavam por todas as tonalidades do espectro solar. “Estes riscos escuros são as Linhas de Frauenhofer”, disse, “e as cores indicam as luzes.

Mas isto não vem ao caso. O que interessa são as linhas, pois elas variam segundo aquilo que pode produzir a luz. São justamente estas linhas que, na semana passada, apareceram manchadas em vez de límpidas, e todos os astrônomos continuam até agora tentando descobrir a razão disto. Aqui está a foto das linhas maculadas para a nossa edição de amanhã. Por enquanto o público não se mostrou muito interessado no assunto, mas acredito que ficará bastante curioso depois de ler a carta de Challenger no Times. “E o que aconteceu em Sumatra?” “Está havendo uma estranha epidemia, e um cabograma que acaba de chegar de Cingapura avisa que todos os faróis do Estreito da Sonda estão apagados, o que já provocou o naufrágio, de dois navios. Seja como for, acho aconselhável que o senhor entreviste Challenger a respeito do assunto. Se conseguir alguma coisa, prepare uma matéria para a edição de segunda-feira.” Eu já,estava saindo da sala do diretor, pensando na tarefa que me aguardava, quando ouvi o meu nome sendo gritado por alguém que segurava um telegrama. A mensagem era justamente do homem a respeito do qual acabávamos de conversar, e dizia: “Malone, Hill Street 17, Streatham. Traga oxigênio. Challenger”. “Traga oxigênio”! Eu sabia muito bem que o professor era conhecido pelo seu humorismo bastante excêntrico, e que era capaz das atitudes mais bizarras. Seria então, aquela, mais uma das piadas que provocavam nele estrondosas risadas durante as quais a sua grande barba se agitava como navio entre vagas tempestuosas? Parei para considerar as palavras da mensagem, mas nada encontrei que pudesse justificar a hipótese de um chiste. Evidentemente, tratava-se de uma ordem: embora, sem dúvida, de uma ordem bastante estranha. O professor era a última pessoa no mundo à qual eu ousaria desobedecer. Talvez estivesse preparando alguma experiência química; talvez… mas não cabia a mim quebrar a cabeça só para adivinhar o que ele estava aprontando… Eu só precisava obedecer. Ainda teria de esperar quase uma hora antes de pegar o trem na Victoria Station. Depois de procurar o endereço na lista telefônica, peguei um táxi e fui até uma firma produtora de oxigênio, a Oxygen Tube Supply Company, na Oxford Street. Ao chegar na firma, dois jovens estavam saíndo dela carregando um botijão metálico que, com alguma dificuldade, colocaram dentro de um carro parado. A operação estava sendo dirigida por um idoso cavalheiro que, em certa altura, virou-se para mim. Não havia como errar, pois o cavanhaque de bode e os traços severos eram inconfundíveis. Tratava-se do meu velho companheiro de aventuras, o professor Summerlee. “Ora, ora!”, exclamou. “O senhor também recebeu um daqueles enigmáticos telegramas que pedem oxigênio?” Mostrei-lhe a mensagem.

“Pois é! Eu também recebi e, como pode ver, tomei logo as devidas providências mesmo sem entender a razão do pedido. Como sempre, o nosso amigo é bastante exigente. Presumo que não se trate de uma coisa urgente, pois neste caso ele mesmo teria cuidado do assunto. Não entendo o motivo pelo qual ele não encomendou o oxigênio diretamente.” Limitei-me a comentar que devia ter lá os seus motivos. “De qualquer maneira, agora é desnecessário que o senhor também compre um botijão. Acho que já temos o bastante…” “É evidente que ele também quer que eu leve a minha parte. Acho melhor seguir à risca as suas ordens.” Aí, apesar dos resmungos e dos suspiros enfadados de Summerlee, pedi outro botijão de oxigênio e mandei colocá-lo junto do outro, no carro, uma vez que o meu companheiro oferecera-se para levar-me à estação. Afastei-me um momento para pagar o motorista do táxi, o qual demonstrou uma descabida grosseria. Voltando para Summerlee, encontrei-o todo preso numa discussão em com os homens que haviam carregado o oxigênio. Estava tão irado que a sua barbicha não parava de fremir. Lembro que um dos dois homens chamou-o de velho gorila, e este impropério ofendeu o motorista do professor a ponto de tirá-lo do carro e quase envolvê-lo numa ruidosa briga de rua que só pôde ser evitada graças aos nossos titânicos esforços. Poder-se-ia pensar que é inútil relatar estas bobagens sem maior importância e, com efeito, na hora que aconteceram, eu também as considerei totalmente irrelevantes. Agora, no entanto, quando volto a lembrar o passado, percebo claramente a conexão que elas tinham com a história que comecei a contar. Pelo que eu pude entender, o motorista, devia novato, ou então ficara muito perturbado com a briga, pois dirigiu até a estação de forma lastimável. Guiou tão mal que quase chegou a bater, em mais dois veículos, que por sua vez estavam sendo dirigidos com bastante imprudência. Lembro-me, aliás, que o próprio Summerlee chegou a comentar a dificuldade com que já se podiam encontrar motoristas competentes em Londres. Em certa altura quase atropelamos um grupo de pessoas que assistiam a uma briga. Os cidadãos, sobremodo indignados, começaram e gritar contra nós e um deles agarrou-se no carro agitando uma bengala sobre as nossas cabeças. Consegui jogá-lo ao chão, mas confesso que só respirei aliviado quando deixamos a turma para trás. Esta seqüência de pequenos fatos desagradáveis que se sucediam sem parar deixou-me um tanto nervoso; e, ao mesmo tempo, as maneiras petulantes do meu companheiro revelavam que a sua paciência não tinha de forma alguma aumentado com o passar dos anos. Ficamos novamente serenos, no entanto, quando vimos Lord John Roxton que esperava na plataforma da estação, com sua robusta figura fechada numa roupa de caça de cor amarelada. O seu rosto franco, com seus olhos inesquecíveis, revelou verdadeira alegria quando nos viu. O velho amigo caiu na gargalhada ao reparar nos dois botijões de oxigênio que trazíamos conosco.

Vocês também estão levando? “, gritou. “O meu já está no vagão de carga. O que será que o nosso camarada está aprontando desta vez?” “Já viu a carta no Times?”, perguntei. “Qual é o assunto?” “Desvarios!”, resmungou Summerlee, quase com desprezo. “Acredito que deve haver alguma relação entre a carta e o pedido de oxigênio”, afirmei. “Desvarios!”, repetiu Summerlee, desta vez quase com fúria. Enquanto isso, tínhamos entrado num carro de primeira classe para fumantes, e ele acendera o curto cachimbo que sempre parecia querer botar fogo na ponta do seu longo nariz agressivo “O bom Challenger é um homem inteligente,” exclamou em seguida, com grande veemência. “Ninguém pode negar, e quem negar isto só pode ser um louco. Estão lembrando o seu grande chapéu? Dentro dele há um grande cérebro, uma máquina poderosa, funcionando ininterruptamente e sem a menor falha! Infelizmente, no entanto, é um verdadeiro charlatão, e vocês sabem que eu disse isto bem na cara dele. Um incorrigível charlatão que adora ver o seu nome nas manchetes dos jornais! Já faz algum tempo que não se fala nele, de forma que agora o amigo Challenger está mais uma vez procurando botar a boca no trombone. Não vão me dizer que realmente acreditam nele quando fala todas essas bobagens acerca de mudanças no espaço e de perigos para a raça humana…” E encolheu-se no assento, fazendo um grande estardalhaço com seus motejos e risadas. Diante disto, eu quase me deixei vencer pela indignação. Não ficava bem falar assim do nosso chefe, daquele que havia sido a causa da nossa fama e que nos deixara participar de aventuras que nenhum outro homem tinha vivido. Estava a ponto de abrir a boca para dízer-lhe umas boas, quando Lord John adiantou-se. “Lembro que uma vez o senhor teve uma divergência com o velho Challenger”, disse friamente, “e ele só levou dez segundos para acabar com os seus argumentos. A meu ver, meu caro professor, tratase de um homem de nível superior ao seu, e o melhor que o senhor pode fazer é simplesmente deixálo em paz…” “Por não falar no fato de sempre ter sido um ótimo amigo de nós todos. Pode até ter algum defeito, mas não acho que tenha o hábito de falar mal dos seus companheiros por trás das costas…” “Isto mesmo, meu rapaz!”, disse Lord Roxton. Aí, com um sorriso gentil, deu um tapinha nos ombros do professor Summerlee, ao qual se dirigiu em tom amigável: “Vamos lá, Herr Professor, será que realmente vamos ter de brigar? Já passamos por muitas aventuras juntos. Mas cuidado quando quiser dar umas alfinetadas em Challenger, porque tanto eu quanto este rapaz temos um fraco pelo nosso velho companheiro…” Summerlee, entretanto, não estava minimamente a fim de assinar um armistício. O seu rosto logo revelou que não concordava conosco, e desabafou o seu mau humor com densas nuvens de fumaça que se avolumaram em voltado do seu cachimbo. “Quanto ao senhor, Lord John Roxton”, gargalhou escarnecedor, A sua opinião sobre assuntos científicos tem para mim a mesma importância que, aos seus olhos, teria o meu ponto de vista acerca de questões de caça. Eu penso com a minha cabeça, senhor, e uso o meu julgamento da forma que eu bem quiser! Será que agora, só porque uma vez a minha cabeça falhou, terei de aceitar como evangelho tudo aquilo que Challenger decidir defender? Será que de repente querem nomeá-lo papa das ciências, guia infalível, e aceitar sem discussão todas as suas lorotas? Repito, meu senhor, que penso com o meu próprio cérebro, e que se assim não fosse, sentir-me-ia completamente inútil, um escravo! Se os senhores acharem melhor acreditar nessas bobagens de éter e de Linhas de Frauenhofer, fiquem à vontade; mas por favor não exijam que alguém mais velho e sábio que vocês os acompanhe nessa loucura! Não lhes parece óbvio que, se as condições do éter fossem atualmente prejudiciais à saúde dos homens, isto já teria ficado patente?” E aí riu triunfalmente. “Pois é, meus senhores, nesta altura nós todos já estaríamos apresentando sinais de anormalidade, e em lugar de estarmos aqui tranqüilamente sentados, examinando um problema científico dentro de um vagão ferroviário, já estaríamos revelando os sintomas do veneno dentro de nós. Digam, estão por acaso vendo algum sinal deste envenenamento?” O velho tornava-se cada vez mais furioso. Havia algo bastante agressivo e irritante no desabafo de Summerlee.

“Acho que se o senhor estivesse mais a par dos acontecimentos, seria menos rígido na sua maneira de pensar!”, ousei dizer. Summerlee tirou o cachimbo da boca e lançou-me um olhar interrogativamente cortante. “Gostaria de dizer-lhe que, na hora de sair do jornal, soube pelo meu diretor que havia chegado um cabograma confirmando a epidemia entre os nativos de Sumatra, assim como a falta de funcionamento dos faróis do Estreito da Sonda.”

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