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A outra face – história de uma garota afegã – Deborah Ellis

Venha conhecer uma menina inesquecível. O nome dela é Parvana, e ela vive no Afeganistão. Em tempos muito duros. Nem vou contar nada da vida dela, para não estragar a surpresa da sua leitura. Mas posso garantir que ela é uma danadinha de valente. E você não vai resistir: vai se sentir amigo dela para valer, admirando sua firmeza, preocupado com os perigos pelos quais ela passa. Sei que Parvana vai ter sempre um lugar em minha memória, junto a personagens que eu nunca vou esquecer Lendo a história dela, várias vezes eu me senti muito, mas muito comovida mesmo. Com nó na garganta e aperto no coração. Outras vezes, tive que sorrir enternecida. E me senti muito próxima de Parvana, vivendo situações tão diferentes das nossas e, ao mesmo tempo, tão parecida com cada criança de sua idade em qualquer parte do mundo. Com saudade do pai, preocupada com a mãe deprimida a chorar pelos cantos, tendo que aturar uma irmã mais velha implicante e umirmãozinho cada dia mais levado, toda carinhosa com a irmã menor, curiosa diante dos mistérios da cidade que percorre a pé, curtindo a alegria de ter urna amiga de sua idade… E tendo que ganhar a vida para sustentar a família, porque mais ninguém tinha condições de fazer isso. Por quê? Porque diferente de mim, ou de você, foi nascer no Lugar errado, na hora errada. Podia acontecer com qualquer um. Aconteceu com ela. E se viu vivendo num país e numa época em que menina não podia ir à escola, mulher não podia sair à rua desacompanhada nem entrar em loja – e, mesmo assim, tinha que estar inteiramente coberta dos pé. a cabeça por uma roupa chamada burca, unia espécie de tenda com uns buraquinhos para olhar o mundo sem ser vista. Como se não bastasse, o país estava em guerra, tudo sendo destruído, minas terrestres por toda parte. E como se isso ainda fosse pouco horror, o governo era uma ditadura: soldados podiam prender qualquer um, sem direito de defesa. As vezes, pelo simples crime deter um livro. Ou ouvir musica. OU sentar numa mureta, balançando os pés de modo ritmado, como se estivesse tocando um tambor. Se faltasse o dono da casa, a família estava perdida. Não podia sair nem para comprar comida. Ou tomar sol e andar ao ar livre. Mas quando isso acontece com a família de Parvana, eles têm uma boa idéia.


Este livro conta qual foi e o que aconteceu a partir daí. Uma história de resistência e esperança. Uma esperança absurda e tênue, como uma florzinha frágil a irromper por entre as ruínas e apostar no futuro. Plantada por Parvana. Não é exatamente uma história real. Mas é como se fosse, porque é a mistura de várias histórias reais. A autora esteve por muito tempo em vários acampamentos de refugiados afegãos, entrevistando pessoas diferentes e registrando suas histórias. E soube transportar essas experiências com grande intensidade para o livro, de uma forma simples e direta, mas muito emocionante. Não é uma linguagem de jornalista, nem de professora, nem de quem esteja fazendo um discurso político. É sempre o tom de quem conta bem uma história, de perto, colada na personagem. E, apesar disso, informa, ensina e desperta a solidariedade. Muitas vezes a gente ouve dizer que a leitura é uma viagem. Pois poucas leituras recentes me fizeram viajar tanto quanto a deste livro. Por um lado, ele me transportou para um país fascinante, com uma cultura milenar e riquíssima, que já atraiu viajantes como Marco Polo, e que eu tinha muita vontade de ter conhecido: o Afeganistão. Por outro lado, estas páginas me levaram a um tempo a que eu jamais gostaria de ter ido: a época do domínio dos talibãs, os religiosos fundamentalistas que governaram ditatorialmente o país e proibiram tudo. Um horror. Principalmente para as mulheres. Uma coisa assustadora, mas que a gente tem de saber. Para conhecer melhor os outros e o mundo onde vivemos. Para não deixar nunca esse tipo de governo totalitário se aproximar de nós. Para reforçar a idéia de que a liberdade, o respeito aos direitos, a valorização da educação e a igualdade de oportunidades para as mulheres são essenciais em qualquer sociedade. Um — Eu consigo ler essa carta tão bem quanto meu pai – Parvana sussurrou por entre as dobras de seu xador. — Quer dizer, quase tão bem. Ela não ousava dizer isso em voz alta. O homem sentado ao lado de seu pai não ia querer ouvir sua voz.

Nem ele nem ninguém no mercado de Cabul. Parvana estava lá só para ajudar o pai a andar até o mercado e voltar para casa depois do trabalho. Ficava sentada mais atrás, sobre o cobertor, com a cabeça e a maior parte do rosto cobertos pelo xador. Na verdade, não deveria nem estar na rua. Os talibãs tinham ordenado que todas as meninas e mulheres no Afeganistão ficassem dentro de casa. Eles até proibiram as meninas de ir à escola. Parvana teve que abandonar sua classe de sexta série, e sua irmã Nooria também não pôde continuar os estudos. A mãe tinha sido demitida do emprego de redatora numa estação de rádio de Cabul. Já fazia mais de um ano que eles todos estavam vivendo confinados em um quarto, junto com Maryam, de cinco anos, e Ali, de dois. Quase todos os dias Parvana saía por algumas horas para ajudar seu pai a andar Ela gostava muito de estar fora de casa, mesmo que fosse para ficar horas sentada num cobertor estendido no chão duro do mercado. Pelo menos tinha alguma coisa para fazer. Já estava até acostumada a controlar a língua e esconder o rosto. Para uma menina de onze anos, Parvana era bem pequena. Por isso, em geral conseguia passar despercebida e ficar na rua sem ser questionada. — Preciso desta menina para me ajudar a andar – dizia seu pai, apontando a própria perna, aos talibãs que por acaso perguntassem. Ele havia perdido a parte inferior da perna quando a escola onde dava aulas foi bombardeada. E, de alguma forma, ele também tinha se ferido por dentro. Estava sempre cansado. — Eu não tenho filho homem em casa; o que tenho é apenas um bebê – ele explicava. Parvana encolhia-se no cobertor para parecer ainda menor. Tinha medo de olhar para os soldados. Já vira o que eles faziam, principalmente com as mulheres, e como chicoteavam e batiamem quem achassem que devia ser punido. Sentada naquele mercado dia após dia, Parvana via muita coisa. Mas quando os talibãs apareciam por ali, o que ela mais queria era ficar invisível. Um freguês pediu a seu pai que lesse a carta mais uma vez: — Leia devagar para eu me lembrar bem e depois poder contar à minha família.

Parvana adoraria receber uma carta. A entrega de correspondências tinha voltado a funcionar no Afeganistão, depois de anos de interrupção por causa da guerra. Muitos de seus amigos tinham fugido do país com suas famílias. Ela imaginava que estivessemno Paquistão. Mas, como não tinha certeza, não podia escrever para eles. Sua própria família já tinha se mudado tantas vezes por causa dos bombardeios que ninguémmais saberia onde encontrá-los. — Os afegãos estão espalhados sobre a terra assim como as estrelas no céu – seu pai costumava dizer. Ele acabou de ler a carta pela segunda vez, o freguês agradeceu-lhe e pagou: — Vou procurar o senhor quando tiver de responder. A maioria dos afegãos não sabia ler nem escrever. Parvana era uma das poucas que tinham essa sorte. Seus pais tinham freqüentado a universidade e acreditavam na educação para todos, até para as meninas. Durante toda a tarde, os fregueses chegavam e partiam. A maioria falava dari, a língua que Parvana conhecia melhor. Se alguém falasse pashtu, ela conseguia entender a maior parte, mas não tudo. Seus pais também sabiam falar inglês. O pai tinha cursado faculdade na Inglaterra. Isso tinha sido havia muito tempo. O mercado era muito movimentado. Os homens faziam compras para a família, e vendedores ambulantes anunciavam suas mercadorias e serviços. Alguns, como a loja de chá, tinham barracas. Uma chaleira tão grande e tantas bandejas com xícaras tinham que ficar num lugar fixo. Os meninos percorriam o labirinto do mercado, levando chá para os que não podiam sair de suas barracas, e depois voltavam correndo com as xícaras vazias. — Eu poderia fazer isso – murmurou Parvana. Ela gostaria de poder correr pelo mercado e conhecer as ruelas tortuosas tão bem quanto conhecia as quatro paredes de sua casa. O pai voltou-se para ela.

— E eu gostaria de ver você correndo no pátio de uma escola. E logo em seguida voltou a gritar aos transeuntes: — Escrevo qualquer coisa! Leio qualquer coisa! Pashtu e dari! Tenho coisas lindas para vender! Parvana franziu a testa. Não tinha culpa de não estar na escola! Também preferiria estar lá, em vez de ficar sentada naquele cobertor desconfortável, com as costas e o bumbum doloridos. Tinha saudade dos amigos, do uniforme escolar azul e branco e de fazer coisas novas todos os dias. História era a sua matéria preferida, principalmente a história do Afeganistão. O mundo todo tinha vindo ao Afeganistão. Os persas vieram há quatro mil anos. Depois, Alexandre, o Grande, os gregos, os árabes, os turcos, os ingleses e, por fim, os soviéticos. Um dos conquistadores, Tamerlão de Samarcanda, cortava a cabeça dos inimigos e formava imensas pilhas delas, como se fossemmelões numa barraca de frutas. Toda essa gente tinha vindo ao lindo país de Parvana para tentar dominá-lo, mas os afegãos expulsaram todo mundo! Agora o país era governado pela milícia talibã. Eram afegãos, e sabiam muito bem como queriam que as coisas funcionassem. Quando eles assumiram o controle de Cabul, a capital, e proibiram as meninas de ir à escola, Parvana nem ficou tão infeliz. Nesse dia, tinha uma prova de aritmética para a qual não havia estudado e acabou levando uma bronca por conversar na sala de aula. A professora ia mandar um bilhete para a sua mãe, mas os talibãs chegaram primeiro e tomaram o poder. — Por que você está chorando? – Parvana perguntou a Nooria, que estava aos prantos. – Eu acho ótimo ter uma folga da escola! Parvana estava certa de que os talibãs as deixariam voltar à escola em poucos dias. Até lá, a professora nem se lembraria mais de mandar o bilhete para sua mãe. — Você é mesmo uma idiota! – gritou Nooria. – Me deixe em paz! Uma das dificuldades de viver com a família inteira dentro de um quarto é que nunca se pode ficar realmente sozinho. Para onde quer que Nooria fosse, lá estava Parvana. E para onde quer que Parvana fosse, lá estava Nooria. Tanto o pai quanto a mãe de Parvana eram de respeitadas famílias afegãs. Como tiveram acesso a boa educação, chegaram a ter bons salários. Viviam numa casa grande com pátio, tinham dois empregados, televisão, geladeira e carro. Nooria tinha seu próprio quarto.

Parvana dividia um quarto com a irmã menor, Maryam, que falava pelos cotovelos, mas achava Parvana o máximo. Era muito bom ficar longe de Nooria de vez em quando. Essa casa foi destruída por uma bomba. Mudaram-se diversas vezes desde então. Cada vez para um lugar menor. E sempre que a casa era bombardeada, eles perdiam mais coisas. A cada bomba, ficavam mais pobres. Por fim, acabaram morando todos juntos num quartinho. O Afeganistão estava em guerra havia mais de vinte anos, o dobro do tempo de vida de Parvana. Primeiro, foram os soviéticos que invadiram o país com seus grandes tanques e aviões de guerra que jogavam bombas nas aldeias e nos campos. Parvana nasceu um mês antes de eles começarem a sair do país. — Você era um bebê tão feio que nem os soviéticos agüentaram ficar no mesmo país que você – gostava de dizer Nooria. – Eles fugiram horrorizados, o mais rápido que podiam com seus tanques! Depois que os soviéticos foram embora, as pessoas que estavam atirando neles não quiseramparar de atirar. Então começaram a atirar uns nos outros. Muitas bombas caíram em Cabul nessa época. E. muita gente morreu. Parvana conviveu com bombas durante toda sua vida. Todos os dias e todas as noites caíam foguetes do céu e a casa de alguém explodia. Quando as bombas caíam, as pessoas corriam. Primeiro, corriam para um lado, depois para o outro, procurando algum lugar onde as bombas não as encontrassem. Quando pequena, Parvana era carregada no colo. Depois que cresceu, passou a correr com as próprias pernas. A maior parte do pais era controlada pelos talibãs. A palavra “talibã” significa religioso erudito, mas Parvana aprendera com seu pai que a religião ensinava as pessoas a ser mais humanas, mais gentis.

— Os talibãs não estão fazendo do Afeganistão um lugar melhor para se viver! – ele dizia. Ainda caíam bombas em Cabul, mas já não eram tantas quanto antes. A guerra continuava no norte do país, e era lá que a maior parte das mortes. Depois de atender mais alguns fregueses, o pai de Parvana decidiu encerrar os trabalhos do dia. Parvana levantou-se de um salto, mas caiu em seguida. Seu pé estava dormente. Ela o esfregou, tentou novamente e desta vez conseguiu se levantar. Primeiro, eles juntaram os pequenos objetos que estavam tentando vender: pratos, fronhas, enfeites para a casa, coisas que tinham resistido aos bombardeios. Como muitos afegãos, eles também vendiam o que pudessem. A mãe e Nooria checavam regularmente o que havia sobrado dos pertences da família para ver o que podia ser dispensado. Eram tantos vendendo suas tralhas em Cabul que Parvana achava incrível ainda ter sobrado gente para comprá-las. O pai guardou as canetas e o papel de carta na bolsa a tiracolo. Apoiando-se na bengala e segurando o braço de Parvana, ele conseguiu se levantar. Ela sacudiu a poeira do cobertor, dobrou-o e os dois tomaram o caminho de casa. Por curtas distâncias seu pai conseguia andar com apenas a ajuda da bengala. Para distâncias maiores, precisava de Parvana para se apoiar. — Você tem a altura exata – ele dizia. — E como vai ser quando eu crescer? — Vou ter que crescer também! Seu pai tinha uma perna postiça, mas teve que vendê-la. Ele não queria fazer isso. Pernas postiças são feitas sob medida, é difícil caber em outra pessoa. Mas quando um freguês viu aquela perna sobre o cobertor, não quis saber de outra coisa. Insistiu tanto, e ofereceu um preço tão bom por ela, que não houve como recusar. Havia muitas pernas postiças à venda no mercado. Desde que os talibãs decretaram que as mulheres tinham que ficar dentro de casa, muitos maridos pegavam a perna postiça da mulher para vender. — Se você não vai a lugar nenhum mesmo, para que precisa dessa perna? – perguntavam.

Havia muitos prédios destruídos por bombas por toda Cabul. Bairros inteiros tinham virado montanhas de terra e entulho. Cabul já tinha sido uma cidade muito bonita. Nooria se lembrava das calçadas intactas, dos semáforos que mudavam de cor, dos passeios noturnos a restaurantes e cinemas, das compras de roupas e livros em lojas finas. Parvana já conhecera a cidade em ruínas. Para ela era difícil imaginá-la de outra maneira. Era doloroso ouvir as histórias da Cabul anterior aos bombardeios. Ela procurava não pensar nas coisas que as bombas tinham destruído, como a saúde de seu pai ou sua linda casa. Isso a deixava comraiva. Mas como não havia nada que pudesse fazer, ficava triste. Ela e o pai afastaram-se do mercado movimentado e tomaram uma rua lateral em direção ao prédio onde moravam. Parvana guiava-o cuidadosamente por entre os buracos e as rachaduras nas calçadas. — Como as mulheres conseguem andar por estas ruas usando burcas4? – ela perguntou. – Como conseguem enxergar onde pisam? — Elas caem muito – respondeu o pai. Ele tinha razão. Parvana já tinha visto mulheres caindo. A menina olhou para a montanha que se erguia majestosa no fim da rua. — Como se chama aquela montanha? – perguntou uma vez ao pai, logo que eles se mudarampara o novo bairro. — Esse é o monte Parvana. — Não é, não – disse Nooria, implicante. — Você não deve mentir para a menina – disse a mãe. A família costumava passear pelas ruas, antes dos talibãs. A mãe e Nooria usavam lenços finos nos cabelos. E recebiam no rosto os raios de sol de Cabul. — São as pessoas que dão nome às montanhas – disse o pai.

– Eu sou uma pessoa e chamarei aquela montanha de monte Parvana. A mãe desistiu e começou a rir. O pai também riu, assim como Parvana e o bebê Maryam, que nem sabia por que estava rindo. Até a rabugenta Nooria juntou-se a eles. A risada da família escalou o monte Parvana e desceu novamente para a rua. Agora Parvana e seu pai começaram a subir lentamente os degraus do prédio. Eles moravam no terceiro andar. O edifício tinha sido atingido por um míssil e metade dele estava em ruínas A escada subia em ziguezague pelo lado de fora do prédio. Alguns trechos, atingidos pela bomba, estavam muito danificados. Sobrou pouco do corrimão. — Não confie nesse corrimão! – seu pai sempre lhe dizia. Para ele, era mais fácil subir do que descer, e mesmo assim levava muito tempo. Por fim chegaram à porta do quarto e entraram.

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