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A Peregrina – John Bunyan

A edição original de A peregrina foi lançada em 1684, seis anos após a publicação de O peregrino. Em língua inglesa, esta obra foi lançada sob o título O peregrino: segunda parte. No entanto, preferimos dividir a obra em dois volumes para refletir a edição histórica original com fidelidade, mas especialmente para valorizar A peregrina como obra distinta e com méritos próprios. Trata-se de um livro que retrata ambições literárias que ultrapassam uma simples continuação da primeira parte. (Quem sabe Bunyan não optasse pelo título “A peregrina” se a tivesse escrito em português. Em língua inglesa, no entanto, ele não poderia tê-lo feito pelo simples fato de que o vocábulo “pilgrim” – peregrino – refere-se a ambos os gêneros: feminino e masculino.) A história de A peregrina inicia-se quando Cristiana, a esposa do peregrino Cristão, arrepende-se de não tê-lo acompanhado na primeira viagem, e decide então empreender sua própria jornada comos filhos e a amiga Misericórdia. Ao longo da caminhada, Cristiana e seus companheiros solidificam suas próprias convicções à medida que vão reconstituindo a saga heroica do peregrino Cristão. No entanto, as lutas individuais e solidárias do primeiro volume dão espaço a conflitos e dificuldades vividos em comunidade. A primeira parte desta obra é altamente autobiográfica, enquanto a segunda se concentra em um maior aprofundamento e reflexão dos princípios extraídos a partir das experiências de Cristão e das demais personagens. Em cada página de ambos os volumes, Bunyan evidencia-se como um cristão devoto. Ele acreditava indubitavelmente que a Bíblia possuía a chave para qualquer dificuldade pragmática e filosófica. Portanto, para melhor entender os conflitos e as aparentes soluções, o leitor de Bunyan é remetido constantemente às páginas da Bíblia. Assim como no primeiro volume, em A peregrina, Bunyan também compôs uma longa introdução poética na qual esclarece seus objetivos literários francamente proselitistas. Segue, em versão transcriada em português, a apologia de A peregrina: 1 Vai, livro meu, sai audaz pelo mundo afora Por onde o peregrino primeiro passou outrora. Bate à porta. Se alguém disser: “Quem é?” Responde: “Cristiana”, aguarda com fé. Se te convidarem a entrar, vai com zelo, Entra com os teus filhos, faz teu apelo. Diz quem sois, de onde viestes também. Talvez vos reconheçam, vos façam bem. Se não, pergunta, inquire com paixão Se já não acolheram um peregrino cristão. E se, refletindo, disserem que sim, Que lhes deu alegria do começo ao fim, Conta que estes que lhe seguiram o trilho Eram do peregrino a mulher e seus filhos. Dize que tudo deixaram, a casa, o lar, E, peregrinos, saíram ao céu buscar. Que pelo caminho passaram apuros, Tormentos no claro e até no escuro; Cobras calcaram, arrastaram o diabo, E de muitos males, sim, deram cabo. Fala também dos outros, valente na luta, Bravos defensores, de honrosa conduta, Os que pela peregrinação, pela vontade do Pai, Rejeitam este mundo sim, sem dizer um ai.


Vai, fala também dos finos regalos Que paga o caminho aos seu vassalos. Conta ainda, dize o quanto o peregrino É Amado do Rei, e com zelo cristalino, Que adoráveis moradas não lhe daria. Venha a procela, mesmo a vaga bravia, Que no fim a bonança será o ninho Dos que do Senhor seguem o caminho. Quem sabe a ti abracem com o coração, Como fizeram ao primeiro, e te honrarão Com muita alegria e graça, a ti e aos teus, Pois, verás, amam os peregrinos de Deus. 1. a Objeção Mas e se não quiserem em mim acreditar? Que sou de fato tua; sim, pois alguns há Que falseiam o peregrino e seu nome, reptis, E buscam copiá-lo, com disfarce e ardis, Insinuando-se, mão em mão, brejeiros, No lar e no peito de tantos romeiros. Reposta De fato tantos copiaram o meu peregrino E lhe tomaram o título; ah! esses abomino. Sim, e outro pespegaram ao seu livro O meu nome e o título, num ato abusivo. Mas os seus traços o revelam bem claro: Esse livrório não é meu, ó autor ignaro. E se tais falsários acaso encontrardes, Dizei logo a verdade, antes que seja tarde, E usai a vossa própria língua materna, Língua que hoje homem nenhum mais governa. Mas se ainda assim duvidarem de vós, Julgando-vos ciganos, um povo feroz, Filhos da iniquidade, a terra a profanar, Ou que buscais ao homem bom enganar, Basta então que me chameis, e eu, sem demora, Atestarei os bons peregrinos que sois agora. Sim, atestarei que vós, e vós somente, Sois romeiros meus, a Deus tementes. 2. a Objeção Quem sabe indague eu sobre ele, contudo, Àqueles que o querem morto e desnudo. Mas que farei se, à porta do inimigo bulho, Minha pergunta lhes ferir fundo o orgulho? Resposta Não te apavores, pois, que esses vis diabretes Metem medo infundado, ganindo em falsete. Mas este livro andarilho rodou terra e mar E jamais soube eu que, em qualquer lugar, Fosse deposto, pelo povo desprezado, Em reino e país nenhum, rico ou atrasado. Na França e em Flandres, de gente bruta, Meu peregrino é tido como irmão de luta. Na Holanda, diz-se, foi mesmo um estouro: Pois lá o peregrino vale até mais que ouro. Na Escócia e, aliás, na selvagem Irlanda, Ao meu peregrino cedeu-se a guirlanda. Também na Nova Inglaterra entrou, E o povo de lá? Simplesmente adorou. Tanto que enfeites recebeu, joias raras, Para exibir as suas virtudes mais caras. Caminha o meu peregrino com tanta graça, Que muitos milhares o louvam pelas praças. Quem o procura, encontra-o tarde ou cedo Que o peregrino não tem nem pejo, nem medo; A cidade, o campo, acolhem-no, peito aberto, E quem pode negar-lhe o sorriso comperto? Pois quem vê do meu peregrino a face Dele dirá: onde homem tão pugnace? Pois se o mima e ama mesmo o nobre Quem há que por vê-lo não se desdobre? Que não o estime com amor até desmedido? Pois o riso deles menos vale que o meu gemido. Senhoras e moças o cobrem de elogios, Por ele até sentem no peito ardores sadios, Que o peregrino lhes conquistou o respeito, Com belos enigmas, em estilo escorreito, Tanto que, óbvio, recompensa em dobro, Todo o santo sacrifício de lê-lo ao cobro. Já ouvi, inclusive, e isso com brio juro Que alguns o igualam ao ouro mais puro.

As crianças, até elas, quem diria, Veem-se o peregrino, vibram de alegria, Saúdam-no, as veias saltando ao pescoço, Berram que é o mais amado dos moços. Mesmo os que jamais o viram admiram As coisas muitas e boas que dele ouviram, E sua companhia desejam, ouvi-lo narrar Histórias tantas de peregrinos sem par. Sim, os que não o amaram de início, Mas o chamaram tolo, estrupício, Hoje que o viram, são fãs ardentes; E aos queridos dão o livro de presente. Por isso, então, ó minha segunda parte Não temas fazer da tua face estandarte Pois ninguém que dele gostou, jamais, Pensará ferir-te com armas mortais: Que trazes repertório tão novo e proveitoso, Para o são e o enfermo, o moço e o idoso. 3. a Objeção Mas há quem diga que ele ri alto demais; Ou que nuvens o envolvem, invernais; Que vaza palavras e histórias muito sombrias, E, nelas, não se veem do peregrino as crias. Resposta Do peregrino seus olhos marejados, claro, Deixam entrever o riso e o pranto amaro Certas coisas conseguem (como não?) Divertir a mente e corroer o coração; Quando Jacó entre ovelhas viu Raquel Beijou-a e chorou, provou o mel e o fel. Nuvens torpes o envolvem, diz o vulgo, Mas isso prova que a sabedoria, julgo, Se cobre com o seu próprio manto. E incitar a mente à busca, no entanto, Do que com muito prazer até se acharia, Coisas ocultas em vazia verborragia, Isso o faz, perscrutando, a mente piedosa, Intuindo o sentido da passagem nebulosa. Também sei que um símile sombrio Intromete-se na imaginação, esguio, E adere ao coração, mais vibrante, Do que a ideia mais dessemelhante. Cuida, livro meu, com todo esforço Que o desânimo não te vergue o dorso. Pois te envio a amigos, não oponentes, Gente, decerto, que te acolherá contente. Aliás, o que o peregrino primeiro ocultou, Tu, meu valente segundo, já revelou; O que Cristão, ao partir, deixou selado, A doce Cristiana torna escancarado. 4. a Objeção Mas há quem já reprove o método do primeiro; Julgam-no romance, conto brejeiro rasteiro. E encontrando esses tais, que lhes direi? Desprezá-los, como desprezam o Rei? Resposta Ah, Cristiana minha! Se os encontrares, Saúda-os amavelmente nos seus lares. Insulto por insulto não, não espero de ti. Mas se te cerrarem o cenho, te peço, sorri. A natureza, quem sabe um relato ruim, Os fez desprezá-lo ou rejeitá-lo assim. Há quem não coma queijo, outros rabada, Uns não amam os amigos, nem sua morada; Uns detestam porco, frango, aves do luco Mais do que lhes apraz a coruja ou o cuco. Deixa que escolham, Cristiana, sossega, E busca o que ao te encontrar se alegra; Basta te apresentares a eles, modesta, Como a peregrina, atriz desta gesta. Vai, então, obra minha, e mostra a todo O que te acolher e saudar com denodo As coisas que guardas ocultas contigo E o que lhe mostrares, isso eu bendigo, Que lhe traga o bem, o leve a ser um dia Peregrino melhor que eu ou tu poderias. Vai, pois, diz aos homens quem tu és: Diz: “Sou Cristiana e, sem temer revés, Eu e meus filhos diremos, à moda do bardo, Quanto pesa a um peregrino o seu fardo” Vai, diz-lhes os homens quem são Que agora partem em peregrinação. Diz: “Eis Misericórdia, minha amiga, Companheira boa de tanta fadiga. Aprendam, fitando-lhe o rosto zeloso, A distinguir o peregrino do ocioso.

E com ela aprenda a moça, sim, e a menina A prezar o mundo vindouro, com disciplina” Se a donzela piedosa entrega à ira de Deus Os pecadores mais débeis, mesmo que seus, É como os jovens bradando, com gana, Diante de céticos anciãos: “Hosana”. Depois fala do velho amigo Honesto Peregrino esse, sim, de belos gestos. Diz o quanto era tal homem sincero, Que tão bem suportou sofrimento severo. Talvez isso leve alguns a amar a Cristo, A enfim rejeitar o seu pecado malquisto. Conta também como o tal Temeroso Partiu em peregrinação, e, medroso, O quanto sofreu em meio a despeitos Até alcançar enfim o prêmio perfeito. Malgrado a fraqueza, era homem bom; Bom homem, a vida terá como dom. Narra ainda a história do tal sr. Hesitante, Que, tardo, assim mesmo seguia adiante; Conta como quase foi morto na subida, Mas como Grande-Coração lhe salvou a vida. Eis um homem sincero, mas desventurado; Quanta piedade naquele rosto crestado! Fala de Prestes-a-Tropeçar, homem sestroso, Preso a muletas, sim, mas bem virtuoso. Conta o quanto ele e Hesitante amavam E como suas opiniões concordavam. Diz que, apesar das suas falhas bravas, Enquanto um cantava, o outro dançava. Não te esqueças de Valente-pela-Verdade, Que, jovem audaz, primava pela fogosidade. Diz que tinha espírito tão expedito Que homem nenhum o deixava aflito. E conta como ele e Grande-Coração O Castelo da Dúvida puseram no chão. Não te esqueças do sr. Desesperança, Nem de Apavorada, sua filha, criança, Embora vivam os dois sob mantos tantos Que até parece que Deus os largou ao pranto. Mas, firmes, seguiram até a meta final, E viram que o Senhor era de fato real. D ep o i s de n a r r a r e s s a s c o i s a s a o m u n do , Fe r e e s s a s c o r da s , l i v r o m e u , fe r e fu n do , P o i s a m ú s i c a v i r á , e t ã o b e l a e l o u ç ã Q u e fa r á da n ç a r o c o x o , t r e m e r o t i t ã. Os enigmas que trazes dentro do peito Revela-os todos, sem mácula ou defeit o. Mas permaneçam dúbias outras palavra s , Es s a s p a r a o de sfr u t e de m e n t e s m a i s b r a v a s. E que seja uma bênção este meu livro Aos que o amam com amor votivo. E quem nele investiu seu dinheiro suado Não diga jamais: “Fui enganado”. Que este segundo volume dê fruto Para todo peregrino resoluto. E que convença o homem perdido A pôr o pé no caminho sofrido. É a sincera oração do autor, J o hn B unya n Frontispício da edição original, 1684.

1 Cristiana e seus filhos Caros companheiros, foi certamente muito agradável para mim, e proveitoso para você, contar o sonho que tive de Cristão, o peregrino, e sua perigosa viagem rumo à Cidade Celestial. Naquela ocasião, contei-lhes também o que vi a respeito de sua mulher e filhos, e como relutaramem seguir com ele em peregrinação, o que forçou Cristão a partir sem eles, pois não ousou correr o perigo que o ameaçava se permanecesse com a família na Cidade da Destruição. Portanto, como naquele momento lhes mostrei, Cristão deixou-os e partiu. Ora, aconteceu que, por conta de uma variedade de fatores, muitos obstáculos enfrentei e acabei impedido de prosseguir nas minhas viagens habituais pelas regiões de onde Cristão veio, e assim, até agora, não havia tido a oportunidade de fazer novas investigações sobre aqueles que ele deixara para trás, para então lhes fazer um relato sobre eles. Mas interessei-me pelo assunto e decidi voltar para lá. Havendo-me acomodado num bosque, a cerca de quilômetro e meio do lugar, assim que dormi voltei a sonhar. Em meu sonho, um idoso cavalheiro se aproximou de onde eu estava e, como ele seguia pelo mesmo caminho que eu, achei por bem levantar e acompanhá-lo. Em nossa caminhada, como geralmente fazem os viajantes, passamos a conversar, e calhou que nossa conversa recaiu sobre Cristão e suas andanças. Pois assim falei com o velho: – O senhor sabe que cidade é aquela lá embaixo, à esquerda do caminho? – É a Cidade da Destruição, lugar populoso, mas repleto de más qualidades, de gente frívola e inútil – respondeu o sr. Sagacidade, pois esse era o seu nome. – Acho que foi essa a cidade por onde passei certa vez, por essa razão sei que esse relato que o senhor me dá é verdadeiro – disse-lhe eu. SAG. – De fato. Gostaria até de poder falar melhor dos homens que moram ali. – Ora, percebo então que estou diante de um homem muito bem-intencionado, alguém que temprazer em ouvir e falar do que é bom. Por acaso não ouviu falar do que aconteceu a um homem que vivia algum tempo atrás nessa cidade, de nome Cristão, que saiu em peregrinação rumo às regiões superiores? SAG. – Claro que sim! E ouvi falar também dos aborrecimentos, das dificuldades, das batalhas, dos cativeiros, dos clamores, dos gemidos, dos pavores e dos medos que ele enfrentou na sua jornada. Devo dizer-lhe também que toda a nossa terra se lembra bem dele. Algumas famílias ouviram falar dele e dos seus feitos, e buscaram informações sobre a sua peregrinação. – É, acho que posso dizer – continuou Sagacidade – que sua jornada lhe granjeou muitos admiradores dos seus caminhos. Embora enquanto vivia aqui era tido por todos como louco, agora que se foi, todos só lhe têm elogios, pois se diz que vive muito bem onde está. É… muitos daqueles que estão decididos a jamais correr os riscos que ele correu desejam, assim mesmo, o que ele alcançou. – Devem mesmo pensar – disse eu –, se é que pensam algo verdadeiro, que ele vive bem onde está agora, pois ele se encontra na própria Fonte da Vida, e tem o que tem sem labuta nem pesar, pois lá não há sombra de angústia. SAG. – Ah! O povo fala coisas estranhas dele.

Alguns dizem que ele agora anda de branco (Ap 3.4), que usa uma corrente de ouro no pescoço, que traz na cabeça uma coroa de ouro, engastada de pérolas. Outros dizem que os Seres Resplandecentes, que por vezes lhe apareciam durante a jornada, tornaram-se seus companheiros, e que é tão íntimo deles no lugar onde está agora quanto aqui umvizinho conhece o outro. – Além disso – disse Sagacidade –, sabe-se com certeza que o Rei do lugar onde ele está agora lhe concedeu uma morada rica e agradável na corte, e que diariamente ele come e bebe, caminha e conversa com esse Rei, e recebe os sorrisos e as graças daquele que é juiz de tudo por lá. Alguns esperam que esse Príncipe, o Senhor daquelas terras, breve virá por estas bandas, e vai querer saber por que, se é que saberão lhe dar motivos, seus vizinhos o tinham em tão pouca conta e tanto o desprezaram ao perceber que ele se tornaria peregrino. – Dizem que hoje – comentou ainda – ele caiu nas graças do Príncipe, e que seu soberano está muito irritado com as indignidades que lançaram sobre Cristão quando ele se fez peregrino. Dizemtambém que esse Príncipe considerará todas as ofensas como feitas a ele mesmo, e não admira, pois foi pelo amor que tinha pelo seu Príncipe que ele se aventurou assim. – De minha parte, isso muito me alegra – disse eu. – Fico feliz por esse pobre homem, pois agora ele goza o descanso da sua fadiga (Ap 14.13) e colhe o fruto das suas lágrimas com alegria. Hoje ele está fora do alcance da artilharia dos seus inimigos e fora do alcance dos que o odeiam. – Também me alegro – continuei – ao ver os rumores desse fato se espalhando pela nossa terra. Quem sabe isso não trará efeitos positivos para aqueles que ficaram para trás? Mas, enquanto a lembrança ainda está viva na minha mente, gostaria de saber se o senhor ouviu algo sobre a mulher e os filhos desse homem. Pobres criaturas! O que lhes terá ocorrido? SAG. – Quem? Cristiana e seus filhos? Provavelmente se sairão tão bem quanto o próprio Cristão, pois, embora tenham sido insensatos no começo, não se deixando convencer nem pelas lágrimas, nempelas súplicas de Cristão, depois pensaram melhor e mudaram de ideia. E assim fizeram as malas e também partiram atrás dele. – Ótimo, excelente! – exclamei. – Mas foram todos: mulher, filhos e tudo o mais? SAG. – Isso mesmo. Posso até lhe contar como aconteceu, pois presenciei os fatos e conheço muito bem a história. – Pois eu gostaria muito de ouvir… SAG. – Terei o maior prazer. Afirmo que todos eles partiram em peregrinação, a boa mulher e seus quatro meninos. E como vamos caminhar juntos um bom trecho, vou lhe contar tudo, do começo ao fim. – Essa tal Cristiana, pois esse passou a ser o seu nome desde o dia em que ela e os filhos adotarama vida de peregrinos – começou a contar Sagacidade –, depois que o marido cruzou o rio, nada mais ouviu sobre ele.

Certas ideias, então, vieram-lhe à cabeça. Primeiro, por ter perdido o marido, e porque o vínculo amoroso dessa relação se havia rompido irremediavelmente. – Você sabe – disse-me ele – que a natureza não deixa de perturbar os vivos com muitos e tristes pensamentos a respeito da perda de entes queridos. Essa perda do marido, então, custou-lhe muitas lágrimas. Mas isso não foi tudo. Cristiana também começou a pensar se a sua conduta imprópria para com o marido não fora a causa de não mais tê-lo visto, e de ele lhe haver sido tirado. – Por conta disso – continuou ele – começaram a lhe fervilhar na mente todos os seus atos impiedosos, perversos e iníquos para com o querido marido, e isso, por lhe pesar a consciência, terminou por sobrecarregá-la de culpa. Pesava-lhe bastante também a lembrança dos muitos lamentos, das amarguradas lágrimas e suspiros do marido, e de como ela endurecera o coração diante de todas as suas súplicas e ternos argumentos usados para convencê-la, bem como aos filhos, de seguirem com ele. – Tudo o que Cristão lhe disse ou fez enquanto suportava ainda o peso do fardo nas costas – contou-me Sagacidade –, agora lhe voltava como raio e lhe cortava o coração; especialmente este clamor do marido: “Que farei para ser salvo?” soava ainda em seus ouvidos, trazendo-lhe imensa angústia. À medida que caminhávamos, Sagacidade foi relatando toda a história sobre a tristeza de Cristiana e de seus filhos. CRIST. – Meus filhos, estamos todos em falta. Pecamos contra o seu pai, e ele se foi. Seu pai queria que fôssemos com ele, mas eu mesma não quis e também privei vocês da vida. – Aí os meninos rebentaram em lágrimas, bradando que queriam ir atrás do pai. CRIST. – Ah! se tivéssemos ido com ele, estaríamos muito melhor do que agora. Antes eu tolamente imaginava que as preocupações do seu pai provinham de uma louca fantasia dele, ou que ele tivesse se curvado ao peso da própria melancolia. Agora não me sai da cabeça que elas provinham de outra causa: que a luz das luzes lhe fora dada, e pela ajuda desta, como agora percebo, ele escapou ao laço da morte. Todos então choravam e se lamentavam: – Ah, maldito dia! À noite, Cristiana teve um sonho, e eis que viu um largo pergaminho se abrir diante dela, no qual estavam registradas todas as suas ações. O conteúdo desse documento parecia-lhe tão sombrio, que ela clamou em alta voz no sono: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecadora”. E os filhos a ouviram. Depois disso, Cristiana imaginou ver dois homens tenebrosos ao lado da sua cama, que diziam: “Que faremos com esta mulher? Ela clama por misericórdia acordada e dormindo. Se continuar assim, também vamos perdê-la, como perdemos seu marido. Por esse motivo precisamos, de um jeito ou de outro, evitar que ela pense no que vai acontecer daqui por diante, senão nem o mundo todo poderá impedir que ela se torne peregrina.

1 Ora, ela acordou coberta de suor e também tremia muito. Adormecendo novamente, imaginou ver Cristão, seu marido, num lugar de bem-aventurança entre muitos imortais, com uma harpa na mão. Lá estava ele de pé tocando a harpa perante alguém que, sentado num trono, tinha um arco-íris sobre a cabeça. Imaginou-se também se prostrando com o rosto no chão, aos pés do Príncipe, dizendo: “Agradeço sinceramente ao meu Senhor e Rei por ter-me trazido até este lugar”. Então se ouviu um clamor daqueles que estavam ao redor tocando harpas (Ap 14.2), mas homem nenhum pôde compreender o que diziam, senão Cristão e seus companheiros. Na manhã seguinte, ao levantar, orou a Deus e conversava um pouco com os filhos quando ouviu forte batida à porta. Cristiana, então, gritou lá de dentro: – Se você vem em nome de Deus, entre. – Amém – disse o homem, que então abriu a porta e a saudou: – A paz esteja nesta casa. Cristiana, sabe por que eu vim? Ela corou e tremeu. Também seu coração começava a arder de desejo de saber de onde ele vinha e o que queria com ela. E ele disse: – Meu nome é Segredo e moro com os sublimes, onde se diz que você deseja ir para lá. Também ouvi dizer que você está ciente do mal que causou ao seu marido, por ter endurecido seu coração contra o caminho dele, conservando também na ignorância estes meninos. Sendo assim, Cristiana, o misericordioso me enviou para dizer-lhe que é um Deus pronto a perdoar, e que se deleita em multiplicar o perdão dos pecados. Ele também quer que você saiba que ele a convida a ir à presença dele, à sua mesa, onde vai lhe dar os manjares da sua casa e a herança de Jacó, seu pai. – Lá vive Cristão – continuou Segredo –, que foi seu marido, com multidões de companheiros, sempre olhando aquela face que dá vida a quem a vê. E todos eles muito se alegrarão ao ouvir o somdos seus passos na soleira da casa do Pai. Ouvindo isso, Cristiana se viu muito envergonhada e prostrou-se de rosto ao chão. O visitante retomou a palavra. – Cristiana, aqui também lhe trouxe uma carta do Rei do seu marido. Ela a tomou e abriu. O papel tinha o aroma dos melhores perfumes e nele estava escrito, em letras de ouro, mais ou menos o seguinte: o Rei queria que ela seguisse os passos do marido, Cristão, pois esse era o caminho que levava à sua cidade, para que lá pudessem habitar na sua presença cometerno júbilo. A boa mulher ficou espantada, e disse ao visitante: – Será que o senhor não poderia nos levar, eu e meus filhos, para que também nós possamos adorar esse Rei? – ao que respondeu o visitante: – Cristiana, o amargo precede o doce. Você deve padecer dificuldades, como aquele que antes de você entrou na Cidade Celestial. Portanto, aconselho-a a fazer como Cristão, seu marido.

Vá até a distante porta estreita, do outro lado da planície, pois é lá o início do caminho que deve tomar, e lhe desejo de todo o coração boa sorte. Também a aconselho a guardar no peito esta carta, para lê-la para si mesma e para seus filhos até que vocês a saibam de cor. Trata-se de uma das canções que deverá entoar na casa da sua peregrinação (SI 119.54). Você deverá também entregá-la no portão, ao fim da jornada. Então, vi no meu sonho que o velho senhor, enquanto me contava a história, parecia bastante comovido. E prosseguiu em seu relato. Cristiana reuniu s filhos e começou a falar-lhes: – Filhos meus, como vocês veem, tenho convivido ultimamente com grande dor na alma por conta da morte do seu pai, não que duvide absolutamente da felicidade dele, pois estou muito contente por ele estar bem. Também tenho me preocupado muito com a minha condição e a de vocês, que acho sinceramente lamentável. Minha conduta também para com o seu pai, quando ele passava por aquela angústia toda, pesa demais na minha consciência, pois endureci o meu coração e o coração de vocês contra ele, e recusei-me a acompanhá-lo na peregrinação. – Essas ideias iriam acabar me consumindo – explicou-lhes a mãe –, não fosse um sonho que tive a noite passada, e também o incentivo que este estranho me deu agora de manhã. Vamos então, filhos meus, façamos as malas e partamos rumo à porta que conduz à Terra Celestial, para que possamos ver o seu pai e estar com ele e seus companheiros, em paz, segundo as leis daquela terra. E seus filhos rebentaram em lágrimas de alegria, vendo que esse era o desejo do coração de sua mãe. O visitante, então, despediu-se, e a família pôs-se a arrumar as coisas para a jornada. 2 A partida Enquanto se preparavam para partir, vieram duas mulheres, vizinhas de Cristiana, e bateram à porta. 1 E ela disse, como antes: – Entre, se vem em nome de Deus. As mulheres ficaram espantadas, pois não estavam acostumadas a esse tipo de linguagem, muito menos da boca de Cristiana. Ainda assim entraram e, ao encontrar a boa mulher preparando-se para deixar a casa, disseram-lhe: – Vizinha, pode nos dizer o que significa isto? CRIST. – Estou me preparando para uma viagem. (Timorata, a mais velha delas, era filha daquele que Cristão encontrou no morro da Dificuldade e quis fazê-lo voltar por medo dos leões.) TIM. – Que viagem é essa? Diga-me. CRIST. – Vou atrás do meu marido. – E, dizendo isso, chorou.

TIM. – Por favor, vizinha querida, nem pense em fazer isso. Pelos seus filhos, não se atire assim covardemente em uma aventura tão arriscada. CRIST. – Não, meus filhos vêm comigo. Nenhum deles quer ficar. TIM. – Pois me pergunto aqui comigo o que ou quem lhe deu essa ideia… CRIST. – Ah, vizinha, soubesse você o que sei, não duvido que fosse comigo. TIM. – Mulher! Que novas são essas que você sabe agora, que desviam os pensamentos das amigas e a tentam a partir sabe-se lá para onde? CRIST. – Desde a partida do meu marido tenho sofrido muito, mas especialmente depois que ele cruzou o rio. Mas o que mais me perturba é o modo como me portei com ele quando o vi naquela angústia. Além do mais, hoje me sinto como ele se sentia naquele momento. Nada me serve mais, senão partir em peregrinação. – Eu o vi em sonho na noite passada – continuou. – Ah, quem dera minha alma estivesse com ele! Ele vive na presença do Rei daquela terra; senta e come com ele à mesa; tornou-se companheiro de imortais, e tem hoje uma casa que lhe foi dada, casa diante da qual os melhores palácios da terra não passam de montes de estrume. – O Príncipe do lugar também mandou me chamar – disse –, com a promessa de receber-me se eu for até ele. Seu mensageiro esteve aqui há pouco e me trouxe uma carta, convidando-me. – E tirou a carta e a leu, dizendo: – O que vocês me dizem?

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