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A Pior Prisao do Mundo – Augusto Jorge Cury

Qual é a pior prisão do mundo? É aquela que aprisiona o ser humano por fora ou por dentro? É aquela que acorrenta seu corpo ou aprisiona sua alma? A pior prisão do mundo não é a que restringe os movimentos do corpo, mas a que confina os pensamentos e controla a emoção e, conseqüentemente, engessa a capacidade de pensar e impede a poesia da vida. Diversas doenças psíquicas causam esse tipo de prisão, entre as quais a dependência psicológica das drogas. Nenhuma espécie ama tanto a liberdade como a espécie humana, e nenhuma outra consegue perdê-la com mais facilidade. Faremos, neste livro, uma das mais belas viagens uma viagem para dentro da mente humana. Compreenderemos o seu funcionamento básico e como se desenvolve a pior prisão do mundo. Discorrerei sobre alguns componentes construtores do fenômeno da inteligência. Perguntas intrigantes ligadas às dificuldades que o homem tem em ser líder do seu próprio mundo serão respondidas. Por que o homem governa com relativa habilidade o mundo que o rodeia, mas temenorme dificuldade de administrar seus pensamentos negativos, suas reações impulsivas, sua dor emocional? Por que ele é tão sóbrio quando está numa esfera tranqüila, mas perde a lucidez e a coerência quando está sob focos de tensão? A Pior Prisão do Mundo é um livro com textos extraídos de O Cárcere da Emoção, que é um livro em que descrevo os mais diversos cárceres que podem ser produzidos no território da emoção: o cárcere da depressão, dos transtornos obsessivos, da síndrome do pânico, da timidez, da ansiedade, do medo de expor as idéias em público, do ciúme fatal. Entre esses cárceres está o cárcere das drogas. O Cárcere da Emoção será publicado no início de 2001, todavia, senti que deveria publicar primeiramente A Pior Prisão do Mundo, enfatizando o cárcere das drogascárcere das drogas, em virtude da necessidade urgente de orientações precisas sobre uma das mais graves e epidêmicas doenças da atualidade: a dependência psicológica de drogas. Há quase vinte anos, dedico parte significativa do meu tempo para pesquisar o funcionamento da mente e o desenvolvimento da inteligência no campo da Psicologia e da Educação e para exercer a Psiquiatria e a Psicoterapia. Não farei uma descrição sistemática das drogas enquanto substâncias químicas, antes, discorrerei sobre um assunto mais importante, concernente à minha área o funcionamento da mente de pesquisa, que é o funcionamento da mente o funcionamento da mente. Estudaremos o que as drogas causam no complexo funcionamento da mente humana e por que elas causam o mais drástico aprisionamento humano. Também estudaremos quais são os princípios que devem regular as relações entre pais e filhos e entre professores e alunos. Ainda estudaremos a necessidade de estimular o desenvolvimento saudável da personalidade dos jovens, livre de drogas e de outras doenças psíquicas, bem como os procedimentos que devemos ter quando um jovem já está fazendo o uso de drogas. Seremos ajudados a enxergar o mundo das drogas sob outra perspectiva, sob uma ótica mais grave do que sempre imaginamos. Por exemplo: o uso contínuo de drogas pode queimar etapas da vida de um jovem, fazendo com que ele envelheça no único lugar em que não é permitido envelhecer o território da emoção. Infelizmente, a dependência de drogas tem gerado velhos novelhos no corpo de jovens. Os mecanismos que descreverei são universais e estão presentes no desenvolvimento de muitas doenças psíquicas. É preciso revolucionar nossas relações sociais. É um fato muito triste, mas pais e filhos, professores e alunos, que dividem o mesmo espaço físico e respiram o mesmo ar, estão vivendo em mundos totalmente distintos. Estão próximos fisicamente, mas distantes interiormente, o que os torna um grupo de estranhos. O bom comportamento e o melhor rendimento em provas escolares não indicam necessariamente que uma criança ou um jovem sejam saudáveis psíquica e socialmente ou que tenham defesa emocional contra as intempéries da vida. Prova disso é que o uso de drogas não se restringe apenas aos que têm aparentes problemas de personalidade e que cresceram em lares desajustados; temos visto excelentes jovens que cresceram em famílias estruturadas e fazem uso de drogas. Talvez, tais jovens não tiveram graves problemas psíquicos, mas certamente eles não aprenderam a proteger sua emoção nos focos de tensão, a trabalhar suas dores e contrariedades, a expandir a arte de pensar e o prazer de viver.


Somente um jovem que desenvolve essas importantes funções da inteligência tem uma vacina segura contra o uso de drogas e outras doenças psíquicas e psicossomáticas. Nos capítulos finais, discorro, psicológica e filosoficamente, sobre a necessidade de expandirmos a arte de pensar e resgatarmos o sentido da vida. Somos estimulados a fazer um brinde à sabedoria e a nunca desistir de nós mesmos, por piores que sejam os nossos problemas e por mais amargas que sejam nossas dificuldades. A Pior Prisão do Mundo interessa não apenas aos que desejam compreender com profundidade o cárcere das drogas e os segredos do funcionamento da mente humana, mas também aos que almejamenriquecer sua qualidade de vida e construir um oásis em seu deserto. Prisioneiros no território da emoção A pior prisão do mundo é aquela que aprisiona a emoção humana e nos impede de ser livres e felizes. Ninguém pode contemplar o belo e irrigar sua vida com sentido se for prisioneiro dentro de si mesmo. Quem está aprisionado exteriormente, por barras de ferro, ainda pode ser livre para pensar e sentir. Quem é prisioneiro interiormente, no âmago da sua alma, além de perder a liberdade de pensar e sentir, perde também o encanto pela vida, esmaga o mais belo elo da existência*. É contraditório, mas nunca antes vivemos num mundo tão livre, sem escravidão e comconsideráveis níveis de respeito pela expressão do pensamento, e também nunca tivemos uma quantidade tão grande de homens prisioneiros de * (Cury, Augusto J., O Cárcere da Emoção, editora Academia de Inteligência, São Paulo) tantas doenças psíquicas, vítimas de tantas misérias emocionais. Os escravos do passado erammais livres do que aqueles que hoje estão sob o jugo do cárcere da emoção. Os negros do passado, embora tenham sofrido uma das mais terríveis violações dos direitos humanos, tinham mais liberdade do que aqueles que vivem no cárcere das crises depressivas e, principalmente, da dependência das drogas. Não podemos desconsiderar os números. Milhões de jovens e adultos de todas as raças, culturas e condições sociais têm se submetido ao uso contínuo de substâncias psicoativas, ou seja, drogas que têm efeitos na psique. Ninguém que se interessa pelos grandes acontecimentos da humanidade pode se furtar de tentar entender esse grave problema social e descobrir quais são os motivos que impedem que a guerra do uso de drogas chegue ao fim. Por que as grandes e dispendiosas campanhas de repressão, envolvendo batalhões de soldados e aparelhos de rastreamentos, não exterminam com o tráfico de drogas? O que faz com que os projetos de prevenção tenham resultados tão inferiores, muito aquém dos esperados? É preciso compreender o problema sob outra perspectiva. É preciso entender alguns mecanismos fundamentais do funcionamento da mente. Podemos não ser aprisionados pela droga química, mas certamente o somos pelos transtornos depressivos, pelas fobias, pelas reações impulsivas, pela incapacidade de pensar antes de reagir, pelos pensamentos negativos, pela solidão, pela crise do diálogo, pela ansiedade ou pelo estresse. Portanto, embora direcione mais minha atenção para a farmacodependência, este livro poderá ajudar a todos os que se interessam emdescobrir algumas avenidas de sua inteligência. Os farmacodependentes não são prisioneiros da dependência psicológica das drogas 24 horas por dia. O grau de dependência dependerá do tipo de personalidade do usuário, do tipo de droga usada, da freqüência do uso e do tipo de organismo. Contudo, mesmo nas dependências mais leves, quando o gatilho da memória é detonado, tais pessoas começam a ter um desejo compulsivo que trava suas inteligências. Esse desejo aumenta muito o nível de ansiedade, podendo gerar até sintomas psicossomáticos. Por isso, os usuários possuem, em determinados momentos, uma atração pelas drogas, e procuram uma nova dose para tentar se aliviar. Uma pessoa portadora de fobia, tal como a de elevador (claustrofobia), tem reações semelhantes às de um dependente, só que opostas.

Diante de um elevador ou de um lugar fechado, detona-se o gatilho da memória, gerando reações angustiantes que travam sua capacidade de pensar. A única coisa que interessa é sair do ambiente estressante. Quanto mais tempo ficar nele, mais intensificará a sua ansiedade, que será canalizada para produzir diversos sintomas psicossomáticos, como: taquicardia, suor excessivo, aumento da freqüência respiratória. Esses sintomas funcionamcomo um alarme avisando a pessoa para fugir do ambiente. E somente fugindo ela ficará aliviada. Os portadores de fobia possuem uma aversão compulsiva pelo objeto fóbico e os portadores de dependência, ao contrário, possuem uma atraçãoatração compulsivacompulsiva pelas drogas. Os usuários contínuos de cocaína, crack, heroína e outras drogas têm poucos momentos de alegria e liberdade. São prisioneiros e infelizes, pois com a instalação sorrateira da dependência, eles precisarão cada vez mais dos efeitos das drogas para estimularem a emoção. Nada é mais dramático do que depender de uma substância ínfima para obter algum prazer emocional. Porém, o drama ainda não está completo. À medida que se agrava a dependência, o território da emoção dos usuários mergulha em estado de angústia, ansiedade e irritabilidade. Portanto, nesta nova fase, eles procurarão os efeitos das drogas, não para obter prazer, mas para tentar aliviar a dor decorrente do aprisionamento da alma. No início, drogavam-se porque as drogas produziam um oásis, porém, agora, drogam-se porque o oásis também se tornou seco e sem vida como o deserto. As sociedades estão se democratizando cada vez mais e propiciando a liberdade exterior, todavia, paradoxalmente, em virtude da pulverização das doenças psíquicas, estamos cada vez menos livres por dentro. A farmacodependência, bem como outros transtornos psíquicos, são sinais de que o homem moderno, independentemente dos grandes saltos que deu neste último século, não é livre, saudável e alegre. Só não consegue ler estes sinais quem é incapaz de enxergar com os olhos do coração. Temos de olhar para dentro de nós mesmos e fazer uma revisão de vida. Um fenômeno remoto Desde os primórdios da civilização humana, o homem tem conhecido e feito uso das drogas psicotrópicas. As drogas são substâncias capazes de atuar na alma ou psique, alterando seus processos cognitivos: emoções, pensamentos, raciocínios, memória, vontades, etc. A história antiga revela que há milhares de anos muitos povos já produziam e consumiam bebidas que continham álcool etílico. Relatos históricos também revelam que a maconha era conhecida na China, desde 2.737 a.C., Hipócrates, o pai da Medicina, recomendava o uso do ópio como medicamento para várias afecções. Os índios dos Alpes Andinos, há séculos, mascam as folhas da coca, de onde se extrai a cocaína.

Como podemos perceber, o fenômeno do uso de drogas psicotrópicas é historicamente remoto. Porém, é na atualidade que ele está se intensificando muito, tornando-se um dos problemas sociais mais graves das sociedades modernas. No momento atual, isso tem a ver não apenas com a vontade pura e simples do agente usuário, ou daquele que procura experimentar drogas, mas também e, principalmente, com as transformações sociais que as sociedades, onde eles estão inseridos, têmsofrido, tais como: a) a) A crise do diálogo familiar. Pais e filhos gastam horas e horas ouvindo os personagens da TV, mas não gastam minutos dialogando e trocando experiências uns com os outros. b) O homem conhece cada vez mais o mundo em que está (físico e social), mas não o mundo que é (psíquico). As crianças conhecem cada vez mais o imenso espaço e o pequeno átomo, mas não conhecem a construção da inteligência e o funcionamento da sua própria mente. Esta carência de interiorização educacional faz com que elas percam a melhor oportunidade de desenvolver as funções mais profundas da inteligência: a capacidade de pensar e refletir sobre si mesmas; a capacidade de analisar seus comportamentos e conseqüências e perceber seus limites; a capacidade de autocriticar-se e dar respostas mais maduras para as suas frustrações e sofrimentos; a capacidade de compreender a construção das relações humanas e aprender a se colocar no lugar do outro, etc. c) A descoberta e o uso intensivo, tantas vezes indiscriminado, dos medicamentos psicotrópicos para os diversos tipos de transtornos psicológicos. Não devemos ignorar que os medicamentos também podem causar dependência física e/ou psicológica quando usados inadequadamente. O que podemos e devemos fazer Compreender as causas básicas do uso de drogas e de outras doenças psíquicas nos fará tomar medidas preventivas no campo educacional. Conheci o modelo de tratamento do Centre Medical Marmottan, em Paris, França, umconceituado centro médico psiquiátrico. Também tive a oportunidade de discutir com psiquiatras e conhecer, ainda que parcialmente, o modelo clínico de pacientes farmacodependentes na Alemanha e na Espanha. Embora o tratamento seja importante, precisamos reforçar a tese de que o que mais necessitamos é investir nossas energias no campo da prevenção. É melhor, mais compensador e menos oneroso, social e financeiramente, prevenir que as pessoas usem drogas do que tratá-las posteriormente quando se tornam dependentes. Eu me alegro pelo fato de alguns textos contidos neste livro serem parte constituinte de ummaterial publicado em formato de revista, que escrevi há anos, e que foi muito usado no País. Além de ter tido sucesso nas bancas, a revista também passou pelo crivo da Secretaria da Educação do Paraná, sendo adotada oficialmente por esse Estado, que a distribuiu a centenas de escolas e instituições. As empresas do Grupo Pirelli, por meio de sua equipe de recursos humanos, nessa época, também adotaram o material, distribuindo mais de onze mil exemplares a seus funcionários e famílias. Agora, no formato de livro, melhoramos muito o nosso trabalho, acrescentando novos capítulos ligados ao funcionamento da mente e, como disse, ao cárcere da emoção. Reformulamos quase que totalmente os textos antigos. Nos novos textos, aplico a Teoria da Inteligência Multifocal, que é uma nova teoria na Ciência sobre o funcionamento da mente e a construção da inteligência. Demorei dezessete anos para desenvolvê-la e, há cerca de dois anos, ela foi publicada com o título de Inteligência Multifocal*. Os fenômenos que constituem esta teoria, tais como o fenômeno da psicoadaptação, do gatilho da inteligência, da âncora da memória, poderão abrir as janelas de nossas mentes para compreendermos como se desenvolve o cárcere da emoção, como preveni-la e tratá-la. A contribuição maior deste trabalho é oferecer informações para diversos segmentos da sociedade: 1) Para pais e educadores que, em razão de suas posições e funções, são responsáveis pela formação da personalidade dos jovens. 2) Para jovens que nunca experimentaram * (Cury, Augusto, J., Inteligência Multifocal, editora Cultrix, São Paulo, 1998).

drogas, visando a orientá-los para que não caiam no ardil deste falso mundo-caleidoscópio. 3) Para jovens ou adultos usuários. Se, por um lado, um amontoado de palavras escritas não é suficiente para solucionar os graves problemas que enfrentam, por outro, pode propiciar mecanismos de ajuda para que vençam a mais drástica e insidiosa prisão humana. 4) Para agentes terapêuticos: médicos, psiquiatras, psicólogos, agentes de casas de recuperação. 5) Para profissionais de recursos humanos, cuja função é procurar melhorar a qualidade de vida dos seus funcionários e desenvolver áreas importantes da inteligência e da relação social deles no trabalho. 6) Para pessoas interessadas em conhecer o funcionamento da mente. Como minha abordagementra no campo psicológico, filosófico e educacional, este livro pode contribuir para expandir a qualidade de vida e ajudá-las a superar outros tipos de cárceres da emoção. or que escrever sobre o Por que escrever sobre o cárcere da dependência Os fenômenos que atuam nos bastidores da mente humana e financiam o cárcere da dependência são extremamente complexos. Esse cárcere é um dos maiores desafios da Ciência e um dos assuntos mais importantes da atualidade. Por ter estudado e ainda estar estudando exaustivamente os fenômenos que estão na base das doenças psíquicas e da construção da inteligência, quero dar minha contribuição na compreensão desse assunto. Quando nos colocamos como aprendizes diante da vida, é possível expandir nossa capacidade de pensar, ainda que tenhamos erros, fragilidades e percalços existenciais. TTodos os que, sobre os alicerces do seu orgulho, diplomamse na vida, matam sua maravilhosa capacidade de aprender. Na vida, ninguém se diploma e todos nós devemos ser eternos aprendizes. Capítulo 2 Perdendo a capacidade de sentir prazer Aqueles cuja emoção gravita em torno dos efeitos das drogas são prisioneiros e infelizes. Se formos avaliar a história dos jovens e adultos farmacodependentes, não poucos deles já atravessaramtantas dores que pensam, numa freqüência muito maior do que a média da população, em suicídio. Por que milhares de jovens, no início de sua história com as drogas, hasteiam a bandeira do prazer, mas, quando se instala a dependência, desejam, ainda que por momentos, o fim da vida? Raramente uma pessoa que mergulha no cárcere da dependência não pensa em suicídio, ainda que, felizmente, esse pensamento não se materialize. Que paradoxo é este? A vida humana não suporta ser aprisionada. A liberdade é um embrião que habita na alma humana e não pode morrer. Se a liberdade perece, ainda que pela busca de um certo prazer, provocase um caos na emoção. Os usuários de drogas são amantes da liberdade, mas, sorrateiramente, matam aquilo que mais os motiva a viver. Passam por freqüentes crises existenciais, muitas vezes não exploradas pelos profissionais de saúde. E assim, à medida que afundam nessas crises que vão se repetindo, eles perdem o sentido existencial e caem num tédio insuportável. Psicoadaptandosicoadaptando—–se aos pequenos eventos da vida A psicoadaptação é um dos mais importantes fenômenos que atuam no inconsciente, nos bastidores de nossas inteligências, e afeta toda nossa história de vida. Ele foi identificado e estudado por mim ao longo de muitos anos de pesquisa psicológica. Por meio dele, podemos compreender as causas que conduzem o ser humano a ser um eterno insatisfeito, um ser que sempre busca novas experiências para garantir seu prazer de viver.

Farei uma pequena síntese desse fenômeno, sem entrar em áreas mais profundas da sua atuação psicodinâmica. Quem quiser estudá-lo, bem como outros fenômenos que alimentam o belo e complexo funcionamento da mente, pode ler Inteligência Multifocal*. Psicoadaptação é a incapacidade da emoção humana de sentir prazer ou dor frente à exposição * (Cury, Augusto J., Inteligência Multifocal, editora Cultrix, São Paulo, 1998) do mesmo estímulo. Cada vez que os estímulos se repetem ao longo da nossa história de vida, nós nos psicoadaptamos a eles e, assim, diminuímos inconscientemente a emoção que sentimos por ele. A repetição do mesmo elogio, da mesma ofensa, mesma paisagem, tela de pintura … faz com que a emoção se psicoadapte e perca a capacidade de reação. Com o decorrer do tempo, ficamos insensíveis. As mulheres sabem bem disso. Quando compram uma roupa e a usam pela primeira vez, elas experimentam um grande prazer. Entretanto, após usá-la algumas vezes, perdem o encanto por ela. O mundo da moda surge pela atuação traiçoeira do fenômeno da psicoadaptação. A maior parte das mulheres não sabe por que tem uma necessidade compulsiva de estar no rigor da moda. Na base dessa necessidade cada vez mais comum em nossos dias está o que poucos enxergam, uma exacerbação da atuação do fenômeno da psicoadaptação, que provoca um alto grau de ansiedade e insatisfação. A primeira vez que colocamos um quadro de pintura na parede, extraímos o prazer de cada detalhe dele. Após um mês, talvez passemos por ele sem sequer notá-lo. Podemos psicoadaptar-nos a tudo o que está ao nosso redor. Até mesmo à nossa própria miséria. Os que se adaptam à sua miséria psíquica e social nunca conseguirão fazer uma faxina em suas vidas. Quanto mais uma pessoa tiver dificuldade em extrair prazer daquilo que possui, mais infeliz e angustiada será, ainda que tenha privilégios financeiros. É possível ter muito e ser pobre no cerne da emoção. Por isso, sempre digo que há ricos que moram em favelas e miseráveis que moram empalácios. A psicoadaptação nem sempre é ruim. Há situações em que ela é extremamente útil, pois pode aliviar-nos as dores e frustrações. Ao passarmos por um fracasso, podemos ficar muito angustiados. Todavia, com o passar do tempo nos psicoadaptamos a ele e, conseqüentemente, podemos superá-lo, bem como a angústia dele decorrente.

Do lado negativo, o fenômeno da psicoadaptação contribui decisivamente para gerar no palco da psique humana experiências de tédio, rotina, mesmice e solidão. Porém, mesmo em tais situações, podemos vislumbrar algo positivo na atuação desse fenômeno. O tédio e a rotina geram uma insatisfação oculta que nos impele a superála. Dessa busca inconsciente de superação, surge toda forma de criatividade humana. Por que a arquitetura, a literatura, a música e todas as formas de artes estão em contínuo processo de transformação? Olhem para o estilo dos carros, o design está sempre sendo modificado. Muitos filósofos e pensadores da Psicologia não compreenderam, mas o fenômeno da psicoadaptação gera uma angústia existencial que impulsiona o homem a buscar novas formas de prazer, novos estímulos que o animem. Apesar de esse fenômeno ter força para alavancar a criatividade, se ele produzir uma insatisfação contínua e acentuada, que não é superada, pode conduzir à instabilidade emocional e à angústia crônica. Os que nunca terminam o que fazem e sempre reclamam de tudo o que têm, padecem desse transtorno. Se aprenderem a ser amigos da perseverança, a lidar com a angústia existencial e a contemplar os pequenos detalhes da vida, é possível que resolvam esse transtorno emocional.

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