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A Pista do Alfinete Novo – Edgar Wallace

O restaurante de Yeh Ling tinha começado no final da Reed Street e se especializara em pratos chineses. Chegou depois ao coração da rua, adquiriu um aspecto rico mas singelo, um chef francês, garçons italianos capitaneados pelo popular Maciduino, o mais educado dos maîtres d’hôtel e, como o edifício possuía um telhado dourado, o estabelecimento recebeu o nome de Teto de Ouro. Tinha belas dependências revestidas de pau-rosa e com luzes suavemente veladas. Um desconhecido nunca era introduzido nos reservados, mesmo que se apresentasse trajado de maneira impecável. O compartimento número 6 era o mais próximo da porta de serviço, ao qual se chegava por um labirinto de ruelas que conduziam ao velho edifício da Reed Street, cujo aspecto permanecia quase inalterado desde os dias dos primeiros esforços de Yeh Ling. Também se dedicava Yeh Ling devotamente aos assuntos que se prendiam à construção de seu novo edifício em Shanford. Na primeira segunda-feira de cada mês, Yeh Ling ia ao compartimento número 6, onde um homem já o estava esperando. No dia em que começa nossa história, ele entrou e foi logo dizendo ao homem, Jesse Trasmere: — Os lucros diminuíram esta semana, excelência. O tempo esteve muito bom e muitos de nossos clientes saíram da cidade. Trazia uma caixa na mão e um grosso livro debaixo do braço. Retirou da caixa quatro pacotes de notas de dinheiro. Dividiu-os em duas partes: três pacotes para a direita e um para a esquerda. O velho pegou, resmungando, os três pacotes que estavam a seu lado. — A polícia deu ontem uma batida — tornou a falar passivelmente Yeh Ling. — Sempre desconfiam que os chineses têm salas de ópio. — Bah! — exclamou Trasmere, manuseando o dinheiro — Está bem, Yeh Ling. — Introduziu as cédulas numa bolsa negra que tinha a seus pés e prosseguiu: — Lembra-se de um homem de Fi Sang que trabalhou para mim? — O Pau-d’Água? — Acaba de chegar — disse Trasmere. Jesse Trasmere era um homem de traços duros. Tinha de sessenta a setenta anos. Compunha sua indumentária um traje que devia ter sido preto, hoje puído e amarelento, um colarinho de corte antigo e bordas desfiadas e uma gravata de laço, parecendo mais um cordão de sapato que deixasse cair abandonadamente suas pontas sobre uma camisa de cor indefinida. Os olhos eram azuis e duros, e o rosto, de feições rígidas, cheio de calosidades como a pele de uma lagartixa. — Sim — confirmou ele. — E se apresentará aqui logo que lhe seja possível orientar-se na cidade. Yeh Ling, esse homem, é incômodo. E eu ficaria contente se o soubesse dormindo no Espaço da Noite.


Yeh Ling sacudiu a cabeça: — Não posso matá-lo. Vossa excelência bem sabe que minhas mãos estão limpas de… — Será que você tem a cabeça oca? Acaso assassino homens ou peço que os assassinem? Mesmo em Amur, onde a vida humana vale menos que nada, não fiz mais do que torturar o sujeito que roubou meu ouro. Não, o Pau-d’Água deve ser tratado de outra forma. Ele costuma fumar o Cachimbo da Experiência Divina. Você não tem sala de ópio porque eu não toleraria tal coisa. Mas conhece certos lugares… · 2 · Trasmere saiu e começou a andar com passo firme e regular, escolhendo cuidadosamente as ruas mais movimentadas. Às oito e meia estava em Peais Avenue, onde tinha sua residência. Em dado momento, um homem que passeava ociosamente pela rua caminhou a seu encontro. — O senhor desculpe, Mr. Trasmere… Não se lembra de mim? Holland! Entrevistei o senhor há coisa de um ano, a propósito de suas divergências com a municipalidade. — Bem, que quer agora? — Nosso correspondente em Pequim nos enviou a proclamação original do general revolucionário Wing Su, ou Sing Wu. Esses nomes chineses são o diabo. Tab Holland tirou do bolso uma folha de papel amarelo coberta de estranhos caracteres. — Não pudemos pôr-nos em contato com nossos intérpretes e, sabendo que o senhor é uma autoridade nesse idioma, o chefe da redação lembrou-se de pedir-lhe a fineza… Jesse tomou o papel de má vontade, prendeu a bolsa entre os joelhos e ajustou os óculos. — “Wing Su Shi, pela graça dos céus, invocando humildemente seus antepassados, dirige-se a todos os homens do Império Chinês…” — começou. Tab, caderno na mão, anotava rapidamente à medida que o outro traduzia. — Muito obrigado, senhor — disse, quando o velho terminou a leitura. — Bem. Nada mais, cavalheiro? — Nada mais. Muito agradecido — falou Tab, tirando o chapéu. Ficou olhando o velho, que prosseguiu seu caminho. Então era aquele o miserável tio de Rex Lander? Não parecia por certo um milionário; mas, afinal de contas, os milionários raramente evidenciam sua riqueza. Quando chegou ao jornal com seu serviço pronto, disse-lhe o redator de plantão: — Sinto muito, Tab. O repórter teatral faltou. Não poderia ir ver a atriz? Tab suspirou, mas foi.

Pouco depois, no teatro, travava-se o seguinte diálogo entre nosso repórter e a atriz Ursula Ardfern: — Holland, Somers Holland, vulgo Tab, do Megafone. O cronista teatral está doente, e ouvimos ontem certos boatos de boa fonte, de que a senhorita está para casar… — E então resolveu vir indagar-me, não? Olhe, isso não fica bem para os senhores… Não, não estou para casar. Não acho que me vá casar algum dia. Os senhores não devem pôr essa notícia no jornal, pois do contrário todos julgarão que estou assumindo atitudes excêntricas. Mas… diga lá: sabe porventura quem é o feliz mortal? — Isso é precisamente o que vim perguntar-lhe. — Sinto-me confusa — continuou ela, dando um muxoxo. — Na verdade, não vou casar. Não diga que estou casada com minha arte, porque não estou, e faça-me o favor de pão dizer também que há galanteios sérios entre um rapaz de posição e mim, porque também não há. É tudo quanto deseja saber? — Quase tudo, Miss Ardfern. Lamento realmente havê-la incomodado. Sempre digo isso às pessoas que incomodo. Mas desta vez falo com sinceridade. — Como obteve a informação? — perguntou ela, levantando-se. Tab tomou involuntariamente uma expressão carrancuda, enquanto dizia: — De um amigo… de um amigo meu. É a primeira vez que ele me traz uma notícia falsa. Boa noite, Miss Ardfern. Tab Holland não era homem de teatro nem tinha tratado com ninguém que pertencesse ao ambiente teatral. Era essa a segunda atriz que havia encontrado em seus vinte e seis anos de vida. E ela era um ser humano, inesperadamente humano. Que era extremamente bonita, reconhecia-o sem surpresa. As atrizes deviam ser formosas, até mesmo Ursula Ardfern, que era uma grande artista, uma vez que se aceitasse o veredicto unânime da imprensa e a exigente e complicada opinião de Rex Lande, Tinha senso de humor, graça, juventude e naturalidade. Tab teria ali permanecido indefinidamente, mas a atriz pôs fim à entrevista de forma inequívoca: — Boa noite, Mr. Holland. Sobre a mesa de toalete ficava o estojo marrom, aberto, entrevisto fugazmente pelo rapaz, que não o esquecia. Estava cheio de belas joias, sendo que principalmente atraíra a atenção de Tab um broche de diamantes, que tinha no centro um rubi em forma de coração.

A moça o acompanhou até a porta. Quando voltou, a criada, que a esperava no camarim, disselhe em tom preocupado: — Gostaria que não levasse essas joias. Mr. Stark, o tesoureiro, se ofereceu para guardá-las no teatro, em lugar seguro, e a senhora sabe que aqui temos guarda-noturno. — Mr. Stark já insistiu muito nesse assunto — respondeu Miss Ardfern serenamente. — Mas prefiro levá-las comigo, depois que as uso no palco. Dê-me o casaco. Pouco depois deixava o teatro pela porta lateral, na frente da qual se achava estacionado umpequeno carro. Miss Ardfern subiu no carro, deixou o cofre das joias a seus pés e pôs o motor em marcha. Tab vira o carro partir. Se alguém lhe tivesse dito que ele era capaz de esperar à saída de um teatro para ver passar uma artista, só para vê-la fugazmente, ficaria indignado. E, no entanto, ali se achava às escondidas, mas tão envergonhado de sua debilidade que se apressou em desaparecer pela rua mais escura. O apartamento de Tab ficava em Doughty Street. Detendo-se um instante para comunicar por telefone o resultado da entrevista, tomou o caminho de casa. Ao entrar, um homem, presumivelmente dois anos mais moço do que ele, olhou-o por cima da poltrona em que estava. — E… ? — perguntou ansiosamente. — Rex, você é um espalhador de notícias falsas, um boateiro digno de figurar entre os basbaques da saída do teatro. — Então ela não está para casar? — inquiriu Rex, com um suspiro. — Ouvi dizer… Era um homem de aspecto infantil. Pele rosada. Rosto tão redondo que parecia o de um anjo. Ficava-lhe bem o apelido de Babe (bebê). Tinha hábitos sibaritas. Tab e ele haviam sido condiscípulos, e quando Rex viera para a cidade a cuidado de um parente, um tio — o ríspido Tosse Trasmere —, para se torturar nos estudos de arquitetura, haviam renovado a antiga camaradagem, e agora moravam juntos no mesmo apartamento.

— Que acha dela? — perguntou ele. — Absolutamente encantadora! — disse Tab, que logo mudou de assunto ao ver um envelope em cima da lareira. —De quem é essa carta? — Do tio Jesse. Escrevi-lhe perguntando se podia me emprestar cinquenta libras. — E o que diz ele? Encontrei-o hoje na rua. — Leia — convidou Rex Lander, sorrindo. Tab tomou o envelope e tirou de dentro uma folha de papel grosso, escrito em pesada letra de colegial. — “Prezado Rex” — começou a ler. — “Seu trimestre vence somente no dia 25. Lamento, por conseguinte, não poder atender ao seu pedido. Deve viver com mais economia, lembrando que, quando herdar meu dinheiro, agradecerá a experiência que lhe haverá dado a vida econômica e que lhe permitirá empregar o grande cabedal que será seu de maneira mais judiciosa e previdente.” — É um avarento — disse Tab, atirando a carta sobre a lareira. — Alguém me disse outro dia que ele tem mais de um milhão. Onde o conseguiu? — Penso que na China. Nasceu lá e trabalhou penosamente nas areias auríferas do rio Amur. Adquiriu depois propriedades onde se descobriu mais ouro. Não sei — acrescentou, coçando o queixo — o que devo pensar. Afinal de contas, pode haver algo de verdadeiro no que ele diz. É possível que o velho seja até um bom amigo que tenho … — De quanto em quanto tempo vocês se veem? — Desperdicei uma semana com ele no ano passado — disse Rex, puxando pela memória. —Ainda lhe devo algo. A verdade é que se eu não gastasse em coisas supérfluas e não me desse tanto luxo poderia viver com meus rendimentos. — Correm boatos de toda espécie a respeito do velho — disse Tab. — Um companheiro me contou outro dia que ele guarda o dinheiro em casa. — É verdade que ele não tem conta nos bancos — falou o outro — e eu soube por acaso que guarda uma soma considerável de dinheiro em Mayfield. A casa é construída como uma prisão e tem um porão que bem se pode dizer que é a caixa-forte mais possante no gênero.

Nunca vi esse porão, mas vi o velho descer lá. Não tem mesmo conta nos bancos. Paga tudo em dinheiro. E sabe-se que não é nada generoso. Por exemplo, há seis meses o casal que cuidava de Mayfield tinha o costume de dar as sobras da comida do dia a um parente mais pobre e ele o proibiu logo que soube. Quando estive lá no ano passado, ele conservava fechados todos os aposentos, exceto seu dormitório e a sala de jantar; esta também era usada como gabinete. — Qual é a criadagem? — Walters, o mordomo, e duas mulheres que vêm diariamente, uma para cozinhar e outra para fazer a limpeza. Mas a cozinha foi construída fora da casa e tem dimensões reduzidas. — Mr. Trasmere deve ser de um trato admirável — disse Tab ironicamente. — Não é precisamente jovial. Muda de cozinheira todos os meses. Há poucos dias encontrei Walters, que me disse que a nova era a melhor de todas que haviam aparecido. Houve um silêncio prolongado. Depois Tab ergueu-se e sacudiu a cinza do cachimbo. — Ela é muito bonita — murmurou. E Rex Lander olhou para o companheiro com ar desconfiado, porque sabia que, indiscutivelmente, Tab não estava se referindo à cozinheira. · 3 · Uma hora da tarde. Trasmere acabava de se levantar. Imediatamente vestiria seu puído traje preto para permanecer de pé e vigilante até a madrugada do dia seguinte. Nunca se metia na cama antes que as estrelas começassem a empalidecer, e também não permanecia nela além das duas da tarde. Às seis e meia em ponto, Walters ajudava-o a pôr o casaco; um leve se fazia calor, um pesado e forrado de pele se fazia frio. E Jesse Trasmere saía a pescar negócios. Mas, antes de deixar a casa, cumpria o ritual de costume: fechava segura e cuidadosamente as portas, encerrava o mordomo emseu quarto e saía para a rua. Às oito e meia em ponto estava de volta; invariavelmente jantava fora.

Walters lhe servia uma xícara de café simples e às dez se retirava para seu cubículo, separado da parte principal da casa por uma pesada porta que Trasmere fechava sempre à chave. Uma vez, nos primeiros dias de serviço, Walters protestou: — Suponha, senhor, que haja um incêndio na casa… — insinuou. — Se a casa não lhe agrada, pode deixá-la. Estes são os hábitos de minha propriedade, e não há outros. Toda manhã Walters achava a porta aberta. O criado não tinha oportunidade de descobrir nada a respeito do amo além do que este lhe permitia ver e ouvir. Walters estava ansioso por saber o que havia no porão. Ao que parece, Trasmere possuía uma só chave, que devia conservar pendurada no pescoço durante a noite e bem oculta em suas roupas durante o dia, de modo que as buscas de Walters não davam resultado. Certa manhã, ao levar ao patrão a água que este usava para fazer a barba, achou-o desmaiado. Trasmere sofria periodicamente desses colapsos. Perto havia uma barra de sabão de barba e Walters era um homem de recursos… Quando voltou a si, Trasmere indagou: — Veio alguém esta manhã? — Não, senhor. — Pôs no jornal o aviso de que saio da cidade por dois ou três dias? — Sim, senhor. — Chegará um homem da China; não quero vê-lo — explicou. Em certas ocasiões era comunicativo com o criado, mas Walters, que o conhecia perfeitamente, não cometeu o erro de fazer perguntas. — Não, não quero vê-lo. Foi meu sócio há vinte ou trinta anos. Jogador, beberrão, ordinário. Perdeu-se porque… Bem, se ele vier, você não deve deixá-lo entrar. Se fizer perguntas, não lhe responda. Você não sabe de ninguém. O velho Jesse permaneceu mais de meia hora sentado, a refletir, depois que Walters o deixou. Então dirigiu-se para sua velha escrivaninha e abriu-a. Tirou papel, um recipiente com nanquim, um pincel e começou a escrever. Os intrincados caracteres chineses apareceram com rapidez mágica. Apanhou um cilindro de aço da grossura e do comprimento de um lápis.

Com uma das extremidades fez pressão no papel e, ao retirar o cilindro, apareceram dois caracteres chineses dentro de umcírculo vermelho. Era esta a sua hong, a sua rubrica; mil comerciantes, de Xangai a Fi Chen, pagariam os cheques que levassem essa marca misteriosa, ainda que se tratasse de somas astronômicas. Depois que o papel secou, o velho dobrou-o em pequenas pregas e dirigiu-se para a lareira apagada. Fora, na escada, Walters esticava o pescoço com profundo interesse, para ver o que acontecia. De sua posição, e através da bandeira da porta, dominava pelo menos uma terça parte da peça. Mas agora Jesse estava fora de sua vista, e, embora o criado fizesse os maiores esforços, nada podia ver. Somente percebeu que, ao reaparecer, Trasmere já não tinha o papel na mão. Tinha sido um transtorno para os projetos do velho que o navio-correio da China tivesse feito uma viagem recorde, chegando trinta e seis horas antes do tempo marcado. Trasmere não lia jornais, e não ficara sabendo do fato. Walters demorou algum tempo antes de acudir ao chamado da campainha, pois estava ocupadíssimo em seu quarto com um assunto que absorvia toda a sua atenção. Quando abriu a porta, deu com um homem desconhecido, de cara amarelada, parado no umbral. Vestia um velho traje que parecia não lhe pertencer; camisa e colarinho sujos; sapatos cambaios. Com as mãos sumidas nos bolsos da calça, o chapéu amarfanhado atirado para a nuca, recebeu a pergunta e o deferente gesto de Walters com um ar de insolência. Estava bêbado. — Por que diabo me deixa esperando na porta da casa de meu amigo Jesse? Hein? — Mr. Trasmere não está. Qual é seu nome, cavalheiro? — Wellington Brown. Wellington Brown, de Chei Fu. Esperarei aí dentro. — Mr. Trasmere me deu ordens rigorosas para não deixar entrar ninguém na sua ausência. O rosto de Wellington Brown se crispou ainda mais de ira. — Oh! Eu vou entrar! A luta foi breve, porque Walters era robusto e Wellington Brown um homem de quase sessenta anos. Foi arrojado contra a parede e teria caído no chão se Walters não o amparasse. — Não tive intenção de machucá-lo — disse Walters, penalizado.

O intruso ergueu o braço. — Ajustarei contas com seu patrão… lembre-se bem, lacaio! · 4 · Naquela noite, às nove em ponto, soou longamente a campainha da porta do apartamento de Tab Holland. — Que é que há? — perguntou ele. Estava em mangas de camisa, lutando pela vida. Rex Lander saiu do dormitório. — Vá ver quem é, Babe, que estou ocupado. Lander tremeu. Sempre acontecia isso quando lhe pediam um esforço físico, por menor que fosse. Abriu a porta, e Tab, ouvindo uma voz forte e desconhecida, aproximou-se. No corredor se via um vulto barbudo e dominante, que falava energicamente. — Quem é que está enganado? — indagou Tab. — Todos, senhor — exclamou o visitante —, todos estão enganados! Um homem, um cavalheiro, não pode ser roubado ou assaltado… — Refletiu por um momento e acrescentou: —impunemente… — Traga-me para dentro esse arenque defumado — disse Tab. Wellington Brown entrou cambaleando. Estava abominavelmente embriagado. — Qual dos senhores é Rex Lander? Sou Wellington Brown, de Chei Fu, que vive da misericórdia de um velho salafrário! Um pensionista! O que ele me paga é uma insignificância diante do que me roubou! Posso dizer-lhes muito do velho Trasmere… — Trasmere, meu tio?! — exclamou Lander com espanto. — Posso dizer-lhe algo a respeito dele. Fui seu contador e secretário. Sei de muitas… Direi tudo! — Será melhor que se acalme… — disse Rex friamente. — Por que veio aqui? — Porque o senhor é sobrinho dele. Essa é a razão. E ele me roubou… me roubou! Arrebatou o pão da boca de crianças inocentes! Arrebatou o pão dos órfãos e também me roubou, expulsando-me do Sindicato do Comércio Manchuriano. Expulsou-me dizendo: “Morra!” — E que fez você? — perguntou Tab em tom sarcástico. O homem olhou-o irritado. — Quem é este? — perguntou. — Um amigo meu — respondeu Rex.

— Você está em casa dele. E, se o que veio fazer aqui foi falar mal de meu tio, pode ir dando o fora. Wellington Brown pôs o dedo indicador no peito do jovem e, entrecerrando os olhos, disse: — Seu tio é um salafrário! É muito mais do que isso: um ladrão! — Fora! — gritou Babe Lander, empurrando-o para o corredor. — Quem é esse sujeito? — indagou Tab, depois que o homem os livrou de sua presença. — Eu é que vou saber? — disse Rex Lander. — Nunca me enganei a respeito das antigas relações do tio Jesse. Ao que parece, esse homem é pensionista do velho, e deve haver algo de verdade quando diz que foi roubado. Não posso imaginar meu tio fazendo obras de caridade! De qualquer modo, vou vê-lo amanhã e perguntarei o que há. — Você não o verá — replicou Tab. — Nunca lê as notícias da vida social? Seu tio está fora da cidade. Rex sorriu. — Olhe que o velho tem recursos quando não quer ser visto…Foi por causa de Wellington que pôs a notícia na coluna social. Às onze horas Tab terminou seu trabalho, enviou-o à redação por um mensageiro pontual e, pegando o cachimbo, estendeu-se placidamente em sua poltrona. — Agora sou um homem livre até segunda-feira de tarde… Nesse momento, soou o telefone e Tab ergueu-se com um suspiro. Falavam da redação. Quando voltou, contou a Rex que um cavalheiro polaco tinha sido preso, fugido e, entrincheirando-se emcasa, resistia à polícia com o auxílio de água fervente num grande tacho. Estava louco, pelo visto. — Vai? — perguntou Rex com indiferença. — Claro que vou, seu grandessíssimo camelo! — Creio que todos os assuntos são inventados na redação — disse impassivelmente o jovemarquiteto. — Quanto a mim, nunca acredito no que leio nos jornais … Mas Tab já tinha saído. Ficou com os policiais até que conseguiram dominar o demente. Eram duas da madrugada quando ele e Carver, o chefe dos detetives, refaziam as forças num restaurante contíguo à chefatura de polícia. Já passava das três quando Tab tomou o caminho de casa, percorrendo as ruas solitárias. Ao atravessar Park Street ouviu o ruído de um carro em marcha, que passou rente a ele. O carro já tinha sobre Tab a dianteira de uns cem metros quando um pneu estourou.

Uma mulher desceu e examinou a roda. Ao que parecia, viajava sozinha, pois pegou ela mesma a caixa de ferramentas e, deixando-a sobre o calçamento, tirou um macaco. Tab desceu e atravessou a rua. A única pessoa que se divisava naquele momento era um ciclista que tinha parado e examinava as rodas de seu veículo. — Posso ser útil em alguma coisa? — perguntou Tab à dama. Esta se ergueu sobressaltada. — Miss Ardfern! — exclamou o rapaz, atônito. A moça pareceu contrariada, mas, dominando-se, disse com um sorriso: — Oh! É Mr. Tab! Miss Ardfern nada disse enquanto o rapaz levantava o carro. Depois explicou: — Estou fora um pouco tarde, venho de numa reunião. Havia bastante luz: Tab percebeu que a atriz estava vestida com simplicidade e que seus sapatos eram ordinários e já muito usados. Alguém poderia dizer que se achava pobremente vestida. Dentro do carro via-se uma caixa negra e quadrada. Talvez ela tivesse mudado de vestido… mas era surpreendente que uma pessoa trocasse de roupa antes de voltar de uma reunião! · 5 · “Ursula…” — murmurava Tab ao despertar, às onze da manhã. Rex, que havia saído, acabava de voltar. — O amigo de meu tio apareceu de novo — disse ele. — Não o ouviu? Chegou conciliador e de olhos baixos, mas não deixou de ameaçar tio Jesse. — O que veio fazer esse diabo? — Só Deus sabe! Persuadi-o a sair da cidade nesta mesma semana. Ele me prometeu. Mas reconheço que seus juramentos me impressionaram. Ele me disse que matará Jesse Trasmere se o velho não lhe conceder uma reparação. — Um homem que bebe é perigoso — ponderou Tab. — Se não temos de nos preocupar com uminocente lunático, não devemos esquecer que não há nada mais temível do que um homemembriagado. Carver e eu falamos ontem a esse respeito e ele concordou comigo. Você deve prevenir seu tio.

— Vou visitá-lo hoje mesmo. Antes da hora do lanche saíram juntos. Tab tinha de ir à redação e encontrar-se depois com Carver para almoçarem. Depois de deixar o restaurante, Tab falou sobre o estranho e suas ameaças. — Conhece pessoalmente o velho Trasmere? — indagou Carver. — Vi-o duas vezes. A primeira foi na casa dele, quando fui entrevistá-lo a propósito de uma complicação sua com a municipalidade. Rex Lander, que mora comigo, é seu sobrinho. Ouvi muita coisa a respeito do velho. — Lander é o herdeiro? — Rex o espera fervorosamente. Mas diz que o tio Jesse é capaz de deixar todo o dinheiro a algum hospital ou manicômio. Por falar em Trasmere, ali vai o criado dele. E parece que com pressa! Um táxi passou rapidamente, conduzindo Walters, que era seu único ocupante. O fato que chamou vivamente a atenção dos dois homens foi estar o mordomo de Trasmere sem chapéu e com uma expressão muito preocupada. — Que será que aconteceu? — disse Carver. — Walters…o criado do velho Trasmere — replicou Tab —, parece apavorado. — Walters — repetiu o detetive, pensativo. — A cara não me é estranha, nem o nome… Ah, sim! É Walter Felling! — Walter o quê? — Felling. Escapou-me há dez anos. É um ladrão incorrigível. Então ele é criado do velho Trasmere, hein? É sua especialidade. Entra para o serviço de pessoas endinheiradas, até que um dia se apodera de joias e valores do patrão e bate a bela plumagem. Verificou o número do carro? Tab fez um gesto negativo. — A questão é verificar se está fugindo ou se dá cumprimento a algum recado urgente do patrão. Temos de procurar Trasmere de qualquer forma.

A casa de Trasmere não estava muito longe. Foram a pé. Mayfield, a morada do velho, era a residência mais feia de uma rua famosa por suas construções. Feita de horríveis tijolos amarelos, sem ornamento de espécie alguma, erguia-se quadrada e chata em meio de um “jardim” nu. — Não é precisamente o palácio do Príncipe Encantado… — observou Tab, ao abrir o portãozinho de ferro. — Vi coisas mais bonitas — admitiu Carver. — Admito. Deteve-se. Naquele instante abriu-se com violência a porta do edifício e apareceu Rex Lander, que saía da casa com passo apressado. Seu rosto estava lívido e os olhos desvairados. Tab ficou paralisado de espanto. — O que é que há? — perguntou, nervoso. E pôde adivinhar o drama no olhar de Babe Lander e nas palavras que este conseguiu balbuciar: — Meu tio… Entrem…Vejam… Carver correu para a casa e entrou pela porta da sala de jantar, que estava aberta. A sala achava-se vazia, mas junto da lareira abria-se uma porta pequeníssima. — Onde está ele? — indagou o detetive. Rex só podia fazer um sinal: apontava para a estreita abertura. Começava ali uma escadinha de pequenos degraus de pedra que dava para uma passagem mais estreita ainda e limitada por outra porta então também aberta. O corredor era iluminado por três globos de luz distribuídos ao longo do teto, e impregnava o ar um cheiro acre de pólvora. — Que é isto?! — exclamou Carver. Apanhou umas luvas velhas que estavam caídas no cisão e guardou-as no bolso. Olhou para Rex Lander, que, sentado no degrau mais alto, tinha ocultado o rosto nas mãos.

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