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A primavera rebelde – Morgan Rhodes

A morte lançou uma grande sombra sobre os quilômetros áridos de Paelsia. A notícia do assassinato do chefe Basilius se espalhou rapidamente, e vilas de toda a região caíram em luto profundo. Lamentavam a morte de um grande homem — um feiticeiro que podia entrar em contato com a magia e que era considerado um verdadeiro deus por muitos habitantes dessa terra sem religião oficial. “O que vamos fazer sem ele?” era um brado constante nas semanas que se seguiram. “Estamos perdidos!” — Sinceramente — Lysandra resmungou para o irmão mais velho, Gregor, enquanto escapuliam do casebre da família no fim da tarde. — Ele nunca mostrou nenhuma magia de verdade. Não passava de conversa fiada! Parece que as pessoas esqueceram que ele cobrava impostos altíssimos. O chefe era um ladrão mentiroso, que vivia com arrogância do alto de seu complexo, fartando-se de vinho e comida enquanto o resto de nós passava fome! — Quieta — Gregor alertou, mas estava rindo. — Você não pode falar tudo o que pensa, pequena Lys. — Certamente você tem razão. — Ainda vai se meter numa encrenca por causa disso. — Eu sei lidar com encrencas. — Lysandra apontou a flecha para o alvo em uma árvore a vinte passos de distância e atirou. Acertou bem no meio. O orgulho a aqueceu naquela noite fria, e ela olhou de relance para o irmão para ver a reação dele. — Bela pontaria. — Ele abriu um sorriso e assumiu o lugar dela, empurrando-a com o cotovelo. — Mas a minha é melhor. Sem esforço, ele partiu a flecha dela em duas. Foi impossível não ficar impressionada. Eles vinham praticando havia meses, em segredo. Ela precisou implorar para que o irmão compartilhasse seus conhecimentos de arco e flecha, mas ele finalmente cedera. Não era comum uma garota aprender a usar armas. A maioria das pessoas acreditava que garotas deveriam apenas limpar, cozinhar e cuidar dos homens. O que era ridículo.


Principalmente porque Lysandra era uma arqueira nata. — Será que eles vão voltar? — ela perguntou a Gregor em voz baixa, observando a pequena vila ali perto, os telhados de palha, as paredes de barro e pedra. Saía fumaça das chaminés de muitas casas. O maxilar dele ficou tenso. — Não sei. Uma semana antes, representantes do conquistador rei Gaius de aparência importante haviamvisitado a vila deles, em busca de voluntários para seguir para o leste e começar a trabalhar em uma estrada que o rei queria construir rapidamente — uma estrada que passaria não só por Paelsia, mas também pelas terras vizinhas, Auranos e Limeros. Gregor e o pai foram escolhidos para dar as boas-vindas aos homens do rei, e a dupla havia encarado os sorrisos reluzentes e palavras suaves sem se deixar intimidar ou influenciar. A vila havia recusado a oferta. O Rei Sanguinário achava que agora os governava. Mas estava redondamente enganado. Eles podiam ser pobres, mas tinham orgulho. Ninguém tinha o direito de lhes dizer o que fazer. Os homens do rei Gaius haviam partido sem discussão. — Basilius idiota — Lysandra murmurou. — Ele provavelmente confiava no rei, mas nós somos espertos o suficiente para não fazer a mesma coisa. Basilius mereceu ser cortado. Era apenas uma questão de tempo. Fico enjoada só de pensar como ele foi idiota. — Sua próxima flecha desviou do curso. Ela precisava trabalhar mais a concentração. — Me conte mais sobre os rebeldes que pretendem desafiar o rei. — Por que quer saber? Quer ser uma das poucas garotas a se juntar ao grupo? — Talvez eu queira. — Venha, pequena Lys — Gregor riu e a segurou pelo pulso. — Podemos procurar uns coelhos para você treinar a pontaria. Por que desperdiçar flechas em árvores e fôlego com palavras tolas? Não se preocupe com os rebeldes.

Se tem alguém que logo se juntará a eles para lutar contra o rei, esse alguém sou eu. — Não são tolas — ela murmurou. Mas ele tinha razão — pelo menos no que dizia respeito ao treino de pontaria. As árvores eram mesmo escassas por ali. A maior parte da região era marrom e seca, com algumas pequenas áreas verdes, onde a mãe deles e outras mulheres plantavam hortas que, a cada ano, davam cada vez menos vegetais e mais lágrimas. A mãe deles não havia parado de chorar desde que ficou sabendo da morte de Basilius. O coração de Lysandra ficava apertado ao ver a mãe tão triste, tão inconsolável, mas tentava argumentar com ela: — Acredito que criamos nosso próprio destino, cada um de nós — ela havia dito à mãe na noite anterior. — Não importa quem nos lidera. A resposta foi um olhar triste, cansado e paciente. — Você é tão ingênua, filha. Rezo para que isso não a desvie de seu caminho. E agora a mãe orava ao chefe morto pela filha transgressora. O que não era nenhuma surpresa. Lysandra sempre trouxera muito sofrimento à mãe por não ser uma filha adequada que fazia coisas adequadas. Lysandra estava acostumada a não se encaixar no grupo de amigas — elas não conseguiam entender sua fascinação por fazer flechas até surgirem bolhas nos dedos ou continuar fora de casa até o nariz ficar tão vermelho que praticamente brilhava no escuro. Gregor estendeu o braço para interromper os passos de Lysandra. — O que foi? — ela perguntou. — Veja. Estavam a menos de dois quilômetros da vila. Diante deles havia uma pequena clareira, semnenhuma vegetação. Estava cercada de arbustos secos e árvores desfolhadas. Uma senhora de idade, que Lysandra reconheceu como Talia, a mais velha da vila, estava parada no centro, com uma carcaça de raposa-vermelha diante de si. A mulher havia drenado o sangue do animal em um copo de madeira. Com esse sangue, desenhava símbolos na terra árida e rachada usando a ponta do dedo. Lysandra nunca tinha visto nada parecido com aquilo.

— O que Talia está fazendo? O que ela está desenhando? — Quatro símbolos — Gregor disse em voz baixa. — Sabe o que são? — Não, o quê? — Os símbolos dos elementos: fogo, ar, água e terra. — Ele apontou para cada um: um triângulo, uma espiral, duas linhas onduladas empilhadas, e um círculo dentro de outro círculo. Ele engoliu emseco. — Eu não fazia ideia. A anciã da vila… é uma bruxa. Uma Vetusta. — Espere. Está dizendo que a velha e inofensiva Talia é uma… bruxa? — Lysandra esperou que ele começasse a rir e dissesse que estava apenas brincando. Mas ele estava falando sério. Extremamente sério. Gregor franziu a testa. — Eu tinha minhas suspeitas, mas aqui está a prova. Ela manteve em segredo durante todos esses anos. Você sabe o que pode acontecer com as bruxas. Em Limeros, um dos reinos vizinhos, elas eram queimadas. Enforcadas. Decapitadas. Bruxas eramconsideradas más mesmo ali em Paelsia. Má sorte. Uma maldição sobre a terra que a fazia definhar e morrer. Em Limeros, muitos acreditavam que as bruxas haviam amaldiçoado a terra e a transformado em gelo. Lysandra se lembrou da reação incomum de Talia quando soube que o chefe havia sido assassinado pelo rei Gaius. Ela meneou a cabeça, sombriamente, limpou a poeira da saia e disse três palavras. — E assim começa.

Todos achavam que a velha era louca, então não deram atenção às suas divagações, mas por algum motivo aquelas palavras repercutiram em Lysandra e lhe causaram um arrepio. — O quê começa? — Ela segurou o braço da velha. — Do que a senhora está falando? Talia virou os olhos claros e úmidos para Lysandra. — O fim, minha querida. O fim está começando. Demorou um tempo até Lysandra falar de novo com Gregor. Ela sentia seu coração bater forte. — Como assim, Vetusta? — É alguém que venera os elementos. É uma religião antiga; quase tão antiga quanto os próprios elementia. E pelo jeito — ele apontou a cabeça para a clareira — Talia está fazendo magia de sangue esta noite. Lysandra sentiu um calafrio. Magia de sangue. Ela já tinha ouvido falar disso antes, mas até então nunca havia tido nenhuma prova. Gregor sempre acreditou mais do que ela no que não podia ser visto e raramente era comentado — magia, bruxas, lendas. Lysandra mal ouvia os contadores de história, estava mais interessada em fatos concretos do que em histórias fantásticas. Agora desejava ter prestado mais atenção. — Qual é o objetivo? — ela perguntou. Naquele exato momento, os olhos de Talia se voltaram diretamente para eles, como os de um falcão, distinguindo-os na pouca luz do anoitecer. — É tarde demais — ela disse, alto o bastante para eles escutarem. — Não consigo evocar magia suficiente para nos proteger. Só consigo ver as sombras do que está por vir. Não tenho poder para detê-los. — Talia! — A voz de Lysandra soou incerta ao chamar a mulher. — O que está fazendo? Saia daí, isso não é certo. — Você precisa fazer uma coisa por mim, Lysandra Barbas.

Lysandra olhou para Gregor, confusa, e voltou a olhar para Talia. — O que quer que eu faça? Talia estendeu as mãos cobertas de sangue ao lado do corpo, arregalando cada vez mais os olhos, como se tivesse visto algo amedrontador ao seu redor. Algo realmente terrível. — Corra! No mesmo instante, uma enorme flecha flamejante cortou o ar e acertou Talia bem no centro do peito. Ela cambaleou e caiu no chão. Suas roupas pegaram fogo antes que Lysandra conseguisse entender o que estava acontecendo. Lysandra agarrou o braço de Gregor. — Ela está morta! Ele ergueu a cabeça rapidamente e olhou na direção de onde tinha vindo a flecha, depois puxou Lysandra para o lado a tempo de desviar da outra flecha apontada diretamente para eles, que acabou acertando uma árvore. — Temia que isso fosse acontecer. — Isso o quê? — Lysandra vislumbrou uma figura a uns cinquenta passos de distância, armada com arco e flecha. — Ele a matou! Gregor, ele a matou! Quem é ele? A figura havia localizado os dois e começado a persegui-los. Gregor praguejou alto e a agarrou pelo pulso. — Vamos, precisamos correr! Ela não discutiu. De mãos dadas, correram de volta para a vila o mais rápido possível. Estava em chamas. O caos havia se instalado rapidamente pelo local. Gritos horrorizados de medo e dor cortavam o ar — gritos de moribundos. Vários homens de uniforme vermelho galopavam pelas ruas, segurando tochas usadas sem piedade para incendiar cada casebre. Moradores corriam das casas em chamas, tentando escapar de uma morte tórrida. Na outra mão, os guardas levavam espadas afiadas e golpeavam muitos, atravessando carne e osso. — Gregor! — Lysandra gritou quando fizeram uma parada abrupta, escondendo-se dos soldados atrás de um casebre de pedra. — O rei Gaius… Isso é obra dele! Ele está matando todo mundo! — Nós dissemos não a ele. Ele não gostou da resposta. — Gregor a segurou pelos braços, olhando-a fixamente nos olhos. — Lysandra, irmãzinha.

Você precisa ir. Precisa fugir daqui. O fogo aquecia o ar, transformando o anoitecer em uma claridade aterrorizante ao seu redor. — Do que você está falando? Eu não posso ir! — Lys… — Preciso encontrar a mamãe! — Ela se soltou de Gregor e correu para a vila, desviando dos obstáculos no caminho. Ela parou do lado de fora de sua casa, agora engolida pelo fogo. O corpo de sua mãe estava perto da entrada. O de seu pai estava a apenas dez passos de distância, caído em uma poça de sangue. Antes que ela pudesse absorver totalmente o horror daquilo, Gregor a alcançou. Ele a agarrou e jogou sobre o ombro, correndo para fora dos limites da vila antes de deixá-la cair desajeitadamente no chão. Ele jogou o arco e algumas flechas para ela. — Eles estão mortos — ela sussurrou. Seu coração parecia uma pedra que havia caído sobre o estômago. — Eu estava prestando atenção enquanto corria. Os guardas do rei estão reunindo todos os sobreviventes para obrigá-los a trabalhar na estrada. — A voz dele falhou. — Preciso voltar para ajudar os outros. Vá… Encontre os rebeldes. Faça o que puder para impedir que isso aconteça emoutros lugares, Lys. Você entendeu? Ela sacudiu a cabeça, os olhos queimando por causa da fumaça e das lágrimas de ódio. — Não, eu não vou deixar você! Você é tudo o que me resta! Gregor segurou o queixo dela com força. — Venha comigo — ele resmungou — e eu mesmo cravo uma flecha no seu coração para livrá-la do destino dos nossos amigos e vizinhos. E então se virou e correu de volta para a vila. Tudo o que Lys podia fazer era vê-lo partir. 1 _________________________________________ JONAS _________________________________________ AURANOS Quando o Rei Sanguinário queria provar alguma coisa, fazia isso da maneira mais dura possível. Era meio-dia.

Com pancadas de tremer os ossos, o machado do carrasco desceu sobre o pescoço de três rebeldes acusados, separando a cabeça dos corpos. O sangue escorreu pelas toras de madeira e se espalhou pelo chão de pedra lisa diante de uma multidão que já somava mais de mil pessoas. E tudo o que Jonas podia fazer era observar horrorizado as cabeças serem enfiadas em estacas altas na praça do palácio, para todos verem. Três garotos que mal haviam se tornado homens estavam mortos porque foram considerados perigosos e encrenqueiros. As cabeças decapitadas encaravam a multidão com olhos vazios e expressão inerte. Sangue escarlate escorria pelas estacas de madeira enquanto os corpos eramlevados para serem queimados. O rei que havia conquistado aquela terra de maneira rápida e brutal não concedia segundas chances — especialmente a quem representasse qualquer oposição pública a ele. A rebelião seria combatida com rapidez, sem remorso — e abertamente. A cada descida fatal da lâmina, uma agitação crescente avançava pelas massas, como uma névoa densa que não dava mais para ignorar. Auranos uma dia fora um reino livre, próspero e pacífico — mas agora alguém com gosto por sangue estava no trono. A multidão estava ombro a ombro na grande praça. Ali perto, Jonas podia ver jovens nobres, bemvestidos, com o maxilar tenso e expressão preocupada. Dois homens gordos e bêbados brindavamcom cálices cheios de vinho, como se comemorassem um dia repleto de possibilidades. Uma velha senhora de cabelos grisalhos e rosto marcado por linhas de expressão, usando um vestido fino de seda, olhava para os lados desconfiada. Todos estavam empoleirados, procurando o melhor lugar para ver o rei quando ele aparecesse no terraço de mármore lá em cima. O ar estava tomado pelo odor da fumaça das chaminés e das cigarrilhas, pelos aromas de pão e carne sendo assados, e pelos óleos e perfumes florais de fragrância carregada usados largamente como substituição a banhos regulares. E o barulho — uma cacofonia de vozes, sussurros conspiratórios e gritos guturais —impossibilitava que se pensasse direito. O palácio auraniano brilhava diante deles como uma enorme coroa de ouro, com torres elevandose até o céu azul e límpido. Ele ficava no centro da Cidade de Ouro, uma cidade murada com mais de três quilômetros de largura e extensão. Até as paredes possuíam ranhuras cobertas de ouro, que refletiam a luz do sol como uma pilha de moedas de ouro no meio de uma vasta área verde. Lá dentro, vias pavimentadas com pedras levavam a quintas, comércios, tavernas e lojas. Apenas pessoas privilegiadas e importantes podiam fazer daquela cidade seu lar. Mas hoje os portões estavam abertos para quem quisesse ouvir o discurso do rei. — Este lugar é impressionante. — Era difícil ouvir a voz de Brion no meio do falatório incessante da multidão.

— Você acha? — Jonas desviou sua atenção sombria das cabeças empaladas. Os olhos azulescuros do amigo estavam fixos no palácio reluzente, como se fosse possível roubá-lo e vendê-lo. — Eu poderia me acostumar a viver aqui. Ter um teto sobre a cabeça; ladrilhos dourados sob os pés bem tratados. Toda a comida e bebida que eu pudesse engolir. Estou dentro. — Ele olhou para cima, viu os rebeldes executados e fez uma careta. — Isto é, considerando que eu continuasse com a cabeça intacta. Os rebeldes executados naquele dia eram auranianos, portanto não faziam parte do grupo de Jonas e Brion — jovens rapazes com ideias afins que desejavam se revoltar contra o rei Gaius em nome de Paelsia. Desde o cerco ao castelo, três semanas antes, eles estavam vivendo no meio da floresta que separava Auranos de sua pobre terra natal. As Terras Selvagens — como a área era conhecida — tinham a terrível reputação de abrigar bandidos perigosos e animais ferozes. Alguns tolos supersticiosos também acreditavam que demônios e espíritos perversos viviam na sombra das árvores altas e espessas, que bloqueavam toda a claridade, deixando passar apenas um pequeno feixe de luz do sol. Jonas era capaz de lidar com bandidos e feras. E, ao contrário da maioria esmagadora de seus conterrâneos, ele acreditava que tais lendas haviam sido criadas apenas para incitar o medo e a paranoia. Quando ouviu a notícia das execuções marcadas para aquele dia, Jonas quis ver com os próprios olhos. Ele estava certo de que elas fortaleceriam sua determinação, sua convicção de fazer qualquer coisa, assumir qualquer risco, para ver os reinos tomados escaparem como areia das mãos do tirano que agora os governava. Em vez disso, elas o encheram de terror. O rosto de cada garoto se transformou no de seu irmão morto, Tomas, quando o machado caiu e o sangue foi derramado. Três garotos com a vida inteira pela frente — agora silenciados para sempre por dizer algo diferente do que era permitido. Tais mortes seriam consideradas por muitos como obra do acaso. Destino. Os paelsianos, principalmente, acreditavam que o futuro já estava determinado e que era preciso aceitar o que lhes era oferecido — fosse bom ou ruim. Isso só servia para criar um reino de vítimas com medo de enfrentar a oposição. Um reino facilmente tomado por alguém feliz em roubar o que ninguém lutaria para manter. Ninguém, ao que parecia, exceto Jonas.

Ele não acreditava em acaso, destino ou respostas mágicas. O destino não estava determinado. E se ele tivesse ajuda suficiente daqueles dispostos a lutar ao seu lado, sabia que era capaz de mudar o futuro. A multidão ficou em silêncio por um instante, até que o burburinho começou a crescer novamente. O rei Gaius havia surgido no terraço — um homem alto e belo, com olhos escuros e penetrantes que analisavam a multidão como se memorizasse cada rosto. Jonas sentiu uma necessidade repentina de se esconder, como se fosse possível identificá-lo no meio da multidão, mas se obrigou a permanecer calmo. Embora já tivesse encontrado o rei frente a frente, não seria descoberto ali. O manto cinza, similar ao usado por metade dos homens ali presentes, incluindo Brion, era suficiente para ocultar sua identidade. Ao lado do rei no terraço estava Magnus, príncipe herdeiro do trono. Magnus era quase a imagemespelhada de seu pai, só que mais jovem, é claro, e com uma cicatriz que atravessava seu rosto, visível mesmo de longe. Jonas havia encontrado rapidamente o príncipe limeriano no campo de batalha e não tinha esquecido que Magnus impedira que uma espada perfurasse seu coração. Mas agora não estavammais lutando do mesmo lado. Eram inimigos. A majestosa rainha Althea, com cabelos escuros e mechas grisalhas, juntou-se ao filho à esquerda do rei. Era a primeira vez que Jonas a via, mas era fácil reconhecer aquela mulher. Ela lançou um olhar soberbo para a multidão. Brion segurou o braço de Jonas, que olhou para o amigo achando um pouco de graça. — Você quer me dar a mão? Eu não acho que… — Apenas fique calmo — Brion disse, sem sorrir. — Se perder a cabeça, pode acabar, hum, perdendo a cabeça. Entendeu? Logo em seguida Jonas entendeu o motivo. Lorde Aron Lagaris e a princesa Cleiona Bellos, filha mais nova do antigo rei, juntaram-se aos demais no terraço. A multidão comemorou ao vê-los. Os cabelos longos, claros e dourados da princesa Cleo refletiam a luz do sol. Jonas já havia odiado aqueles cabelos e sonhado em arrancá-los pela raiz. Para ele, simbolizavam a riqueza de Auranos, que se mantinha a uma curta distância da pobreza desesperada de Paelsia.

Agora sabia que nada era tão simples como ele pensava. — Ela é prisioneira deles — Jonas sussurrou. — Não me parece uma prisioneira — Brion disse. — Mas, claro, se você está dizendo… — Os Damora mataram o pai dela, roubaram seu trono. Ela os odeia. Como poderia ser diferente? — E agora lá está ela, obediente, ao lado de seu pretendente. Seu pretendente. Jonas olhou fixo para Aron. O assassino de seu irmão estava acima deles, em uma posição de honra, ao lado de sua futura esposa e do rei conquistador. — Você está bem? — Brion perguntou com cautela. Jonas não pôde responder. Estava ocupado visualizando a si mesmo escalando a parede, pulando no terraço e matando Aron com as próprias mãos. Ele já havia imaginado diferentes métodos para acabar com aquele presunçoso desperdício de vida, mas acreditava ter deixado seu desejo de vingança de lado em nome dos objetivos mais elevados de um rebelde. Ele estava errado. — Eu o quero morto — Jonas disse entredentes. — Eu sei. — Brion estava lá quando Jonas ficou de luto por Tomas e, furioso, jurou vingança. — E esse dia vai chegar. Mas não será hoje. Lentamente, bem lentamente, Jonas controlou sua cólera imprudente. Seus músculos relaxaram, e Brion finalmente soltou seu braço. — Está melhor? — o amigo perguntou. Jonas não havia desviado os olhos do rapaz odioso e arrogante no terraço. — Só vou ficar bem quando o vir sangrar. — É um de nossos objetivos — Brion afirmou.

— Um objetivo válido. Mas, como eu já disse, não será hoje. Fique calmo. Jonas respirou fundo. — Desde quando você dá ordens? — Como subcomandante do nosso pequeno grupo de rebeldes, se meu capitão enlouquecer de repente, eu assumo. São ossos do ofício. — Bom saber que você está levando isso a sério. — Existe uma primeira vez para tudo. No terraço, Aron se aproximou mais de Cleo e estendeu o braço para segurar sua mão. Ela virou seu lindo rosto para olhar para ele, mas nenhum sorriso se formou em seus lábios. — Ela merecia coisa melhor do que esse cretino — Jonas resmungou. — O quê? — Deixa pra lá. A multidão cresceu ainda mais em questão de minutos, e o calor intenso do dia se abateu sobre eles. Suor escorria da testa de Jonas, e ele o secava com a manga do manto. Finalmente, o rei Gaius deu um passo à frente e ergueu a mão. Fez-se silêncio. — É uma grande honra — o rei disse, com a voz potente o bastante para se projetar com facilidade sobre a multidão — estar aqui diante de vocês como o rei não só de Limeros, mas agora também de Paelsia e Auranos. Houve um tempo em que os três reinos de Mítica eram um só, forte, próspero e pacífico. E agora, finalmente, teremos isso de novo. As pessoas na multidão murmuravam em voz baixa umas com as outras, a maioria dos rostos mostrando traços de desconfiança, de medo, apesar das palavras suaves do rei. A reputação do Rei Sanguinário o precedia. Nas conversas sussurradas antes e depois das execuções, Jonas ouviu muitos dizerem que a partir daquele discurso decidiriam se o rei era amigo ou inimigo. Muita gente duvidava que os rebeldes mortos estivessem certos, qualquer que fosse a anarquia que haviamtentado estabelecer; talvez os rebeldes só piorassem as coisas para todos ao irritar o rei. Tanta ignorância — tanta prontidão para pegar o caminho mais fácil, curvar-se diante do conquistador acreditando em quaisquer palavras que saíssem de sua boca. Tudo isso indignava Jonas até o último fio de cabelo.

Mas até ele precisava admitir que o rei dominava a arte do discurso. Cada palavra parecia coberta por ouro, dando esperança aos desesperançados. — Optei por viver com a minha família neste belo palácio por um tempo, pelo menos até a transição se completar. Embora seja muito diferente de nosso amado lar em Limeros, queremos conhecer todos vocês melhor, e sentimos que é nosso dever de acolhida ajudar a guiar todos os nossos cidadãos rumo a essa nova era. — Também ajuda o fato de Limeros estar congelado como o coração de uma bruxa — Brion zombou, apesar de alguns murmúrios de aprovação à sua volta. — Ele faz parecer um sacrifício viver em um lugar que não está coberto de neve e gelo. — Hoje tenho um anúncio importante a fazer, que beneficiará a todos — o rei afirmou. — Sob meu comando, já foi iniciada a construção de uma grande estrada que irá interligar nossos três reinos. Jonas franziu a testa. Uma estrada? — A Estrada Imperial partirá do Templo de Cleiona, a algumas horas desta cidade, cortará as Terras Selvagens até Paelsia, onde seguirá para o leste, atravessando as Montanhas Proibidas, e depois para o norte, cruzando a fronteira para Limeros, chegando ao Templo de Valoria, seu destino final. Várias equipes já estão posicionadas, trabalhando dia e noite para garantir que a construção da estrada termine o mais rápido possível. — Atravessando as Montanhas Proibidas? — Jonas sussurrou. — Para que serve uma estrada que leva aonde ninguém quer ir? O que o rei estava tramando? Um brilho no céu chamou sua atenção, e ele viu dois falcões dourados sobrevoando a multidão. Até os vigilantes estão interessados. Pensamentos ridículos como esse ele guardava para si em vez de compartilhar com Brion. As histórias sobre imortais que assumiam a forma de falcões para visitar o mundo mortal não passavamdisso: histórias contadas para as crianças na hora de dormir. Sua própria mãe lhe contara essas histórias. Os lábios do rei se abriram num sorriso que pareceria genuíno e caloroso a todos que não conhecessem a escuridão por trás dele. — Espero que estejam tão satisfeitos quanto eu com essa nova estrada. Sei que está sendo umperíodo difícil para todos, e não tenho prazer algum com o sangue derramado no processo. Houve uma onda de murmúrios descontentes e inquietos na multidão, mas deveria haver muito mais. Está funcionando, Jonas pensou. Ele está enganando os que querem ser enganados. — Até parece — Brion exclamou. — Ele adora derramar sangue.

Teria se banhado com ele se tivesse a oportunidade. Jonas concordava plenamente. O rei Gaius continuou: — Como todos podem ver aqui hoje, a princesa Cleiona está muito bem. Ela não foi exilada nemaprisionada como filha de meu inimigo. Por que seria? Depois de toda a dor e sofrimento que enfrentou bravamente, eu a recebi em minha nova casa de braços abertos. Ele falava como se ela tivesse tido alguma escolha, mas Jonas não acreditava nisso. — Meu próximo anúncio de hoje diz respeito à sua princesa. — O rei Gaius estendeu a mão. —Venha cá, minha querida. Cleo lançou um olhar desconfiado para Aron antes de se virar para o rei. Ela hesitou apenas um instante, e depois atravessou o terraço para se posicionar ao lado do rei. Sua expressão era indecifrável; os lábios estavam apertados, mas a cabeça erguida. Um colar de safiras brilhava em seu pescoço, e joias também enfeitavam seus cabelos, combinando com o vestido azul-escuro. Sua pele brilhava radiante sob o sol. Sussurros empolgados agora se elevavam da multidão, sobre a filha de seu antigo rei. — A princesa Cleiona sofreu uma grande perda, e seu coração está partido. Ela é de fato uma das garotas mais corajosas que já conheci e entendo por que o povo de Auranos a ama tanto. — A voz e a expressão do rei pareciam repletas de afeição quando ele olhava para a princesa. — Todos sabem que ela está comprometida com lorde Aron Lagaris, um belo rapaz que defendeu a princesa de um selvagem em Paelsia que pretendia fazer mal a ela. Brion agarrou o braço de Jonas novamente e cravou a ponta dos dedos. Jonas não havia se dado conta de que tinha dado um passo à frente, com as mãos cerradas ao lado do corpo, incitado pelas mentiras a respeito de seu irmão. — Fique calmo — Brion resmungou. — Estou tentando. — Se esforce mais. O rei puxou Cleo para mais perto.

— Foi assim que lorde Aron provou seu valor ao finado rei Corvin e recebeu a mão da princesa e a promessa de um casamento que sei que os auranianos aguardam ansiosamente. Aron estampou um sorriso no rosto e um olhar de triunfo nos olhos. De repente, Jonas percebeu o que estava acontecendo. O rei estava prestes a anunciar a data do casamento de Aron e Cleo. O rei Gaius apontou a cabeça na direção do rapaz. — Não tenho dúvidas de que lorde Aron formaria um ótimo par com a princesa. Jonas ardia de raiva em silêncio por aquele desgraçado se envaidecer e brilhar à luz de seus crimes — e ser recompensado por eles. O ódio de Jonas era palpável, um monstro horrível que ameaçava renovar sua obsessão de vingança e cegá-lo para todo o resto. O rei continuou: — Ontem cheguei a uma importante decisão. A multidão ficou em silêncio absoluto, inclinando-se para a frente coletivamente na expectativa do que ele diria em seguida. Jonas não conseguia tirar os olhos de lorde Aron e de sua expressão alegre e desprezível. — Eu, neste ato, encerro o compromisso firmado entre lorde Aron e a princesa Cleiona — o rei Gaius disse.

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