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A prisioneira – L. J. Smith

Fogo, pensou Cassie. Tudo que via ao seu redor eram cores ardentes de outono. O laranjaamarelado do bordo, o vermelho brilhante de sassafrás, o carmesim de arbustos de sumagre. Era como se o mundo todo flamejasse com o elemento de Faye. E eu estou presa bem no meio. A sensação enjoativa no fundo do estômago de Cassie piorava com cada passo que ela dava na estrada Crowhaven. A casa amarela vitoriana no fim da estrada estava elegante como sempre. Um prisma pendurado na janela da torre mais alta lançava, com a luz do sol, faíscas de cores diferentes do arcoíris. Uma garota de cabelo longo e marrom claro lhe chamava da varanda. – Depressa, Cassie! Você está atrasada! – Desculpe – Cassie gritou de volta, tentando acelerar o passo quando o que realmente queria fazer era dar meia-volta e correr na direção oposta. Teve a repentina e inexplicável convicção que seus pensamentos privados deviam estar aparecendo no seu rosto. Laurel iria olhar para ela só uma vez e saberia tudo o que acontecera com Adam na noite passada e tudo sobre a barganha com Faye. Mas Laurel só a pegou pela cintura e lhe empurrou para dentro, guiando até o quarto de Diana. Diana estava parada na frente do grande armário de madeira de nogueira; Melanie estava sentada na cama. Sean estava sentado desconfortavelmente no assento em frente à janela, esfregando os joelhos com as palmas. Adam estava de pé ao lado dele. Ele ergueu o olhar quando Cassie entrou. Cassie encontrou aqueles olhos azuis acinzentado por só um instante, mas foi tempo suficiente. Era a cor do oceano no seu ponto mais misterioso, iluminado pelo sol na superfície, mas com profundezas incompreensíveis mais abaixo. O resto de seu rosto era o mesmo de sempre: cativante e intrigante, orgulho salientado nas altas maçãs e boca determinada, mas sensibilidade e humor também ressaltando-se ali. Seu rosto parecia diferente só porque na noite passada Cassie viu aqueles olhos azuis à meia-noite com paixão, e sentiu aquela boca… Nenhuma palavra, olhar ou ação, falou para si mesma ferozmente, fitando o chão uma vez que não ousava olhar para a frente de novo. Mas seu coração martelava tanto que ela esperava ver a frente do suéter vibrando. Oh, céus, como ela poderia continuar com aquilo e manter seu juramento? Levou uma incrível quantidade de energia para se sentar com Melanie e não olhar para ele, bloquear de sua mente o calor carismático da presença dele. É melhor você se acostumar com isso, disse para si. Porque vai fazer muito disso daqui para frente.


– Muito bem; estamos todos aqui – disse Diana. Ela foi para a porta e a fechou. – Esse é umencontro fechado – continuou, virando-se ao grupo. – Os outros não foram convidados pois não tenho certeza se têm os mesmos interesses sinceros que nós. – Isso é falar com gentileza – disse Laurel em voz baixa. – Eles vão ficar chateados se descobrirem – disse Sean, os olhos negros passando entre Adam e Diana. – Então deixe-os ficar – Melanie disse sem emoção. Seus frios olhos cinza se fixaram em Sean e ele enrubesceu. – Isso é muito mais importante do que qualquer ataque que Faye possa ter. Temos que descobrir o que aconteceu com aquela energia sombria… agora. – Acho que sei como – disse Diana. Ela tirou uma bolsa branca de veludo uma delicada pedra azul numa corrente de prata. – Um pêndulo – Melanie disse de imediato. – Sim. Isso é peridoto – Diana falou para Cassie. – É uma pedra visionária… Certo, Melanie? Geralmente, usamos quartzo limpo como pêndulo, mas dessa vez acho que peridoto é melhor; será provavelmente mais fácil encontrar traços da energia sombria. Vamos levá-lo ao lugar onde a energia sombria escapou, e ele irá se alinhar na direção que a energia tomou e começar a oscilar. – Assim esperamos – murmurou Laurel. – Bem, essa é a teoria – disse Melanie. Diana olhou para Adam, que estivera anormalmente quieto. – O que você acha? – Acho que vale a pena tentar. Mas vai ser necessário muito poder mental para controlá-lo. Teremos todos que nos concentrar; especialmente quando não somos um Círculo inteiro. – Sua voz era calma e serena, e Cassie o admirou por isso. Ela manteu o rosto virado na direção de Diana, mesmo que na verdade seus olhos estivessem fixos no armário de madeira de nogueira.

Diana se virou para Cassie. – E você? – Eu? – perguntou Cassie, assustada, tirando os olhos da porta do armário. Não esperava que lhe perguntassem alguma coisa; não sabia nada sobre pêndulos ou peridoto. Para o seu terror, sentiu o rosto corar. – Sim, você. Você pode ser nova nos métodos que usamos, mas um monte de vezes você tem sensações sobre as coisas. – Ah. Bem… – Cassie tentou procurar pelas suas sensações, arrastando-se para chegar além da culpa e terror que eram predominantes. – Acho… que é uma boa ideia – falou finalmente, sabendo como aquela resposta era estúpida. – Por mim tudo bem. Melanie revirou os olhos, mas Diana assentiu de forma tão séria quanto fizera com Adam. – Muito bem, então, a única coisa a fazer é tentar – disse, abaixando o peridoto e sua corrente de prata na palma da mão esquerda e fechando-a firmemente. – Vamos. Cassie não conseguiu tomar fôlego; ainda se recuperava do impacto dos claros olhos verdes de Diana, levemente mais escuros que o peridoto, mas com aquela mesma transparência delicada, como se houvesse luz brilhando atrás deles. Eu não vou conseguir, pensou. Estava tão surpresa em ver como tudo agora estava inflexível e simples que realmente olhou para Diana nos olhos. Eu não vou conseguir. Terei que contar a Faye… não, contarei a Diana. É isso. Vou contar a Diana eu mesma antes que Faye possa, e eu vou fazê-la acreditar em mim. Ela entenderá; Diana é tão boa, terá que entender. Todos se levantaram. Cassie se levantou também, virando na direção da porta para esconder a agitação – eu devia contar agora? Pedir para ela esperar um minuto? – quando a porta se abriu no seu rosto. Faye estava parada do outro lado. Suzan e Deborah estavam atrás dela.

A garota de cabelo loiroavermelhado tinha um olhar maldoso, e a carranca habitual da motociclista estava ainda mais obscura que o normal. Atrás delas estavam os irmãos Henderson, Chris com a testa franzida e Doug com um sorriso extravagante e perturbador. – Indo a algum lugar sem a gente? – perguntou Faye. Ela estava falando com Diana, mas os olhos permaneciam fixos em Cassie. – Não agora – murmurou Laurel. Diana soltou o fôlego. – Não achei que estaria interessada – disse. – Vamos traçar a energia sombria. – Não estou interessada? Quando o resto de vocês estão tão ocupados? É claro, só posso falar por mim mesma, mas tenho interesse em tudo que o Círculo faz. E você, Deborah? A carranca da garota motociclista se alterou brevemente num sorriso malicioso. – Estou interessada – falou ela. – E você, Suzan? – Estou interessada – Suzan concordou. – E você, Chris? – Estou… – Certo – disse Diana. Suas bochechas ficaram coradas; Adam se aproximou dela pelo lado. – Já entendemos. Somos melhores como um Círculo completo, afinal; mas onde está o Nick? – Não faço ideia – disse a voz fria de Faye. – Ele não está em casa. Diana hesitou, então deu de ombros. – Vamos aproveitar ao máximo o que temos – disse. – Vamos para a garagem. Gesticulou para Melanie e Laurel e elas foram primeiro, passando pelo grupo de Faye, que parecia querer ficar e discutir um pouco mais. Adam olhou para Sean e o tirou da porta, depois se juntou aos Henderson. Deborah e Suzan olharam para Faye, logo antes de seguirem os garotos. Cassie ficara no fundo, esperando a chance de falar com Diana sozinha. Mas Diana parecia ter esquecido dela; estava ocupada lidando com Faye.

Finalmente, cabeça erguida, passou pela alta garota que ainda estava mais ou menos bloqueando a passagem. – Diana… – chamou Faye. Diana não olhou para trás, mas os ombros se tencionaram: estava ouvindo. – Você irá perder todos eles – disse Faye, rindo com seu riso despreocupado enquanto Diana continuava descendo a escadaria. Mordendo o lábio, Cassie avançou furiosamente. Um bom empurrão na barriga de Faye. Mas Faye a rodeou docilmente, bloqueando completamente o vão da porta. – Ah, não, você não. Temos que conversar – disse ela. – Eu não quero conversar com você. Faye lhe ignorou. – Está aqui? – Ela se moveu rapidamente até o armário de madeira de nogueira e puxou uma das maçanetas, mas a gaveta estava trancada. Todas estavam. – Droga. Mas você pode descobrir onde ela guarda a chave. Eu a quero assim que possível, entendeu? – Faye, você não está me escutando! Eu mudei de ideia. Não vou fazer isso depois de tudo. Faye, que estava rondando o quarto como uma pantera, tirando vantagem dessa única oportunidade de examinar as coisas de Diana, parou de andar. Virou-se lentamente para Cassie, sorrindo. – Ah, Cassie – disse. – Você realmente me mata. – Estou falando sério. Mudei de ideia. – Faye só sorriu para ela, encostada na parede e sacudindo a cabeça. Seus olhos dourados brilhavam de diversão, o cabelo negro caindo pelos ombros conforme a cabeça se movia.

Ela nunca pareceu mais bonita… ou mais perigosa. – Cassie, venha aqui. – A voz de Faye estava levemente afiada de impaciência, como uma professora que reclamava muito de um aluno no fundo da sala. – Deixe-me te mostrar uma coisa – continuou Faye, pegando Cassie pelo cotovelo e arrastando-a até a janela. – Agora, olhe ali. Que você vê? Cassie parou de lutar e olhou. Via o Clube, a galera do colégio de Nova Salém, os adolescentes que amedrontavam – e aterrorizavam – estudantes e alunos igualmente. Ela os via reunidos na entrada da garagem de Diana, as cabeças brilhando nos primeiros raios do pôr do sol: o loiroavermelhado de Suzan transformado só em vermelho, os cachos escuros de Deborah tocados de rubi, o cabelo longo e marrom claro de Laurel, o curto cabelo ruivo de Melanie e o amarelo desgrenhado dos irmãos Henderson todos realçados pelo brilho rubro no céu. E ela via Adam e Diana, um perto do outro, o cabelo prateado de Diana caindo no ombro de Adam. Ele estava segurando-a de forma protetora, seu próprio cabelo escuro como vinho. A voz de Faye veio de trás de Cassie. – Se você contar a ela, irá matá-la. Irá destruir a fé dela em tudo que já acreditou. E você irá tirar a única coisa que ela tem a confiar. É isso o que você quer? – Faye… – agitou-se Cassie. – E, acidentalmente, você será banida do Clube. Sabe disso, não sabe? Como acha que Melanie e Laurel vão se sentir quando ouvirem que você bagunçou o namoro de Diana? Nenhumdeles irá falar com você de novo, nem formar um Círculo completo. O pacto também será destruído. Cassie fechou a mandíbula. Queria bater em Faye, mas isso não ajudaria de nada. Porque Faye estava certa. E Cassie pensava que podia aguentar ser banida, ser uma excluída na escola de novo; até pensava que podia aguentar destruir o pacto. Mas a imagem do rosto de Diana… Mataria Diana. Quando Faye terminasse de contar como, iria. A fantasia de Cassie de confessar a Diana e fazer Diana entender desapareceu como uma bolha de sabão num prego.

– E o que eu quero é tão razoável – continuava Faye, quase cantando. – Eu só quero que você lhe na caveira por um tempinho. Sei o que estou fazendo. Você irá conseguir isso para mim, não vai, Cassie? Não vai? Hoje? Cassie fechou os olhos. Nas pálpebras fechadas, a luz era vermelha como chamas. 2 Em algum lugar no primeiro andar, Cassie parou sentindo culpa. Ela não sabia exatamente como aconteceu. Mas era necessário, se fosse sobreviver a isso. Estava fazendo tudo o que podia para proteger Diana – e Adam, também, de uma forma. Adam nunca deveria saber sobre a chantagem de Faye. Então, Cassie faria o que fosse preciso para proteger os dois, mas, por Deus, não sentiria culpa bem no meio daquilo. E de alguma forma tinha que dar um jeito em Faye, pensou, marchando atrás da alta garota, passando pelo escritório do pai de Diana. Ela tinha que impedir que Faye fizesse algo muito radical com a caveira. Não sabia como; tinha que pensar a respeito disso mais tarde. Mas, de alguma forma, faria. Se Faye olhasse agora para trás, Cassie pensou, iria se surpreender ao ver o rosto da garota atrás dela. Pela primeira vez na sua vida, Cassie sentia que os olhos eram severos, como o aço azul de um revólver ao invés do azul suave de flores silvestres. Mas agora tinha que parecer neutra – composta. O grupo na entrada da garagem olhou quando ela e Faye saíram pela porta. – Por que demoraram tanto? – perguntou Laurel. – Estávamos planejando matar todos vocês – Faye disse jovialmente. – Vamos? – Gesticulou em direção à garagem. Só havia traços do círculo de giz de ontem deixado no chão. Mais uma vez, a garagem estava vazia de carros – tinham sorte pelo pai de Diana trabalhar tanto no escritório de advocacia. Diana, o punho esquerdo ainda fechado, se aproximou da parede da garagem, diretamente atrás do lugar onde Cassie estivera sentada quando realizaram a cerimônia da caveira.

Cassie a seguiu e então respirou fundo rispidamente. – Está queimado. – Não percebera isso na noite passada. Bem, claro que não; estava muito escuro. Diana assentia. – Espero que ninguém continue discutindo sobre a suposta existência de uma energia sombria – disse, com um olhar voltado a Deborah e Suzan. A madeira e reboco da parede da garagem estava chamuscada num círculo de aproximadamente quarenta e cinco centímetros de diâmetro. Cassie olhou para ele, e então para o resto do círculo de giz no chão. Estivera sentada ali, mas parte dela estivera dentro da caveira. Diana falou a todas elas para olhar nela, se concentrar, e de repente Cassie se encontrou dentro dela. Foi onde viu – sentiu – o poder sombrio. Começou a correr para fora, aumentando, determinado a sair do cristal. E vira um rosto… Ficou grata, de repente, pela voz calma de Adam. – Bem, sabemos em que direção começou. Vamos ver se o cristal concorda. Estavam todos em volta de Diana. Ela olhou para eles, então estendeu o punho esquerdo, a palma para cima, e abriu a mão. Pegou a ponta superior da corrente de prata com a mão direita e a esticou, de forma que o peridoto descansasse em sua palma. – Concentrem-se – disse. – Terra e Ar ajudem-nos a ver o que precisamos ver. Mostre os traços da energia sombria para nós. Todos se concentrem no cristal. Terra e Ar, vento e árvore, mostrem-nos o que precisamos ver , pensou Cassie, a mente automaticamente formando uma frase do simples conceito. A madeira da parede, o ar externo; aquilo que precisava ajudálos. Ela se encontrou murmurando as palavras em voz baixa e rapidamente parou, mas os olhos verdes de Diana brilharam para ela.

– Continue – disse Diana tensa numa voz baixa, e Cassie recomeçou, sentindo-se autoconsciente. Diana removeu a mão que segurava o cristal. Ele rodopiou na corrente, torcendo-se até a corrente estar enroscada firmemente, e depois se torcendo para o outro lado. Cassie observou o borrão verde pálido, murmurando cada vez mais rápido os versos. Terra e Ar… Não, era inútil. O peridoto estava só girando loucamente como umcume enlouquecido. De repente, com golpes amplos e largos, o cristal começou a balançar para frente e para trás. A respiração de alguém sibilou no outro lado do círculo. O peridoto se esticou; não se torcia mais, mas balançava constante e firmemente. Como um pêndulo, percebeu Cassie. Diana não estava fazendo aquilo; a mão que segurava à corrente permanecia parada. Mas o peridoto balançava muito, para trás no centro do círculo de giz no chão e para frente no lugar queimado na parede. – Bingo – disse Adam suavemente. – Conseguimos – sussurrou Melanie. – Muito bem, agora vocês vão ter que desfazer o alinhamento para sair. Andem, com cuidado, até a porta, e então tentem voltar a esse exato lugar no outro lado da parede. Diana molhou os lábios e assentiu, então, segurando a corrente de prata sempre na mesma distância do corpo, virou-se calmamente e fez o que Melanie disse. O pacto se quebrou para lhe dar espaço e se reagrupou em torno dela no lado de fora. Encontrar o lugar certo não foi difícil; havia outro círculo queimado na parede externa, um pouco mais fraco que o de dentro. Quando Diana trouxe o cristal ao alinhamento mais uma vez, este recomeçou a balançar. Direto para o lugar queimado, direto para fora. Descendo a estrada Crowhaven, na direção da cidade. Um calafrio subiu pela espinha de Cassie. Todo mundo olhou para todo mundo. Segurando o cristal longe dela, Diana seguiu a direção da oscilação.

Todos avançavam atrás dela, apesar de Cassie notar que o grupo de Faye mantinha a retaguarda. A própria Cassie ainda estava lutando em cada segundo para não olhar para Adam. Árvores farfalharam em volta. Bordo vermelho, faia, olmo – Cassie podia identificar várias delas agora. Mas tentou manter os olhos na oscilação rápida do pêndulo. Andaram e andaram, seguindo a curva da estrada Crowhaven em direção à água. Agora, grama e sebes cresciam pobremente no solo arenosos. A pedra verde pálida balançou num ângulo, e Diana virou para segui-lo. Agora rumavam ao oeste, seguindo uma estrada suja e profundamente esburacada. Cassie nunca esteve ali antes, mas os outros membros do Círculo obviamente já – trocavam olhares cautelosos. Cassie viu uma grade à frente, e depois uma linha irregular de lápides. – Ah, ótimo – murmurou Laurel do lado de Cassie, e de algum outro lugar no fundo, Suzan disse: – Eu não acredito nisso. Primeiro temos que andar por quilômetros, e agora… – Qual é o problema? Só vamos visitar alguns de nossos ancestrais debaixo da terra – disse Doug Henderson, seus olhos azul-esverdeados brilhando estranhamente. – Cala a boca – disse Adam. Cassie não queria entrar. Vira vários cemitérios na Nova Inglaterra – parecia que tinha um emcada rua de Massachusetts, e ela foi ao funeral de Kori na cidade. Esse não era tão diferentes dos outros: era uma terra quadrada e pequena com várias lápides espalhadas, várias delas quase completamente gastas com o tempo. Mas Cassie mal pôde seguir os outros na escassa grama marromentre os túmulos. Diana os levou direto para o meio do cemitério. A maioria das lápides eram pequenas, quase mais baixas que os joelhos de Cassie. Tinham formas de arco, com dois arcos menores em cada lado. – Quem quer que tenha esculpido esses, tinha um terrível senso de humor – tomou fôlego. Várias lápides estavam gravadas com feias caveiras, algumas delas aladas, outras em frente a ossos cruzados. Uma tinha um esqueleto inteiro, segurando um sol e uma lua nas mãos. – A morte vence – disse Faye suavemente, tão perto que Cassie sentiu calor atrás do pescoço.

Cassie deu um pulo, mas se recusou a olhar para trás. – Assustador – disse Laurel quando Diana diminuiu o passo. O céu escurecia. Estavam no centro do cemitério, e uma fria brisa soprou na pouca grama, trazendo um fraco cheiro de sal com ela. Os cabelos na parte de trás do pescoço de Cassie formigavam. Você é uma bruxa, lembrou a si mesma. Deveria amar cemitérios. São provavelmente seu habitat natural. O pensamento não lhe deixou menos assustada, mas agora o medo se misturou com algo mais – um tipo de estranha animação. A escuridão se reunindo no céu e nos cantos do cemitério parecia mais próxima. Ela era parte disso, parte de todo um mundo novo de sombras e poder. Diana parou. A corrente de prata era uma linha fina na luz, com uma bola pálida abaixo. Mas Cassie podia ver que o peridoto não mais balançava como um pêndulo. Em vez disso, mexia-se erraticamente, emcírculos. Ia por um tempo para um lado, depois diminuía a velocidade e voltava para o outro lado. Cassie olhava para ele, então olhou para o rosto franzido de Diana. Todos observavam a pedra circulando em silêncio. Não conseguiu mais aguentar. – O que significa? – sibilou para Laurel, quem apenas sacudiu a cabeça. Diana, porém, olhou para cima. – Tem algo errado com ele. Trouxe-nos até aqui… e depois simplesmente parou. Mas se encontramos o lugar, não deveria estar se mexendo. A pedra só devia meio que apontar e tremer; certo, Melanie? – Como um cachorro direito – disse Doug, com seu sorriso malicioso.

Melanie o ignorou. – Essa é a teoria – disse. – Mas nunca tentamos antes. Talvez signifique… – Sua voz falhou enquanto olhava em volta do cemitério, depois deu de ombros. – Eu não sei o que significa. O calafrio atrás do pescoço de Cassie aumentava. A energia sombria veio aqui… e fez o quê? Desapareceu? Se dissipou? Ou… Laurel respirava rápido, seu rosto élfico anormalmente tenso. Cassie instintivamente se aproximou um pouco dela. Ela, Laurel e Sean eram os juniores, os membros mais novos do Círculo, e bruxa ou não, os braços de Cassie ficaram arrepiados. – E se ainda estiver aqui, em algum lugar… esperando? – perguntou. – Duvido – disse Melanie, a voz calma e inflexiva como sempre. – Não poderia vaguear semser restaurada de alguma forma; iria simplesmente evaporar. Veio-se aqui e fez algo, ou… – Contudo, novamente só pôde terminar a frase com um dar de ombros. – Mas o que poderia fazer aqui? Não estou vendo nenhum sinal de dano, e sinto… – Ainda franzindo a testa, Diana pegou o peridoto na mão esquerda e o segurou. – Esse lugar está confuso, estranho, mas não sinto nenhum dano que a energia sombria pode ter causado. Cassie? Cassie tentou procurar pelas sensações. Confusão – como Diana disse. E sentiu medo e raiva e todos os tipos de emoções agitadas – mas talvez fosse só ela. Ela não estava no estado para ler qualquer coisa claramente. – Eu não sei – teve que dizer a Diana. – Não gosto daqui. – Pode ser, mas não é isso. Eu não vejo queimaduras que a energia sombria tenha deixado nem sinto nada destruído ou ferido – disse Diana. – Por que você está perguntando a ela, aliás? – disse Deborah, numa voz impaciente, virando a cabeça de cabelos negros para Cassie. – Ela nem é uma de nós… – Cassie faz mais parte do Círculo do que você – interrompeu Adam, anormalmente breve.

Cassie viu o olhar entretido que Faye o lançou e quis intervir, mas Diana concordava calorosamente com Adam, e Deborah controlando-se, fitando os dois. Parecia que um argumento estava para sair. – Silêncio! – gritou Laurel agudamente. – Ouçam! – Cassie ouviu assim que as vozes morreram; o quieto barulho de passos nos pedregulhos no lado da estrada. Era notável apenas na quietude mortal do crepúsculo outonal. – Tem alguém vindo – disse Chris Henderson. Ele e Doug estavam equilibrados para uma briga. Estavam todos terrivelmente nervosos, percebeu Cassie. O barulho de passos soava alto como bombinhas, irritando seus nervos tensos. Viu uma forma obscura ao lado da pista, e então viu Adam avançar, ficando na frente de Diana e dela. Vou ter que falar com ele sobre isso, pensou irrelevante. Os passos pararam, e a forma obscura veio na direção deles. Adam e os irmãos Henderson pareciam prontos para agarrá-lo. Disputa esquecida, Deborah também estava pronta. Sean agachavase atrás de Faye. O coração de Faye começou a martelar. Então percebeu um ponto vermelho, como um pedaço de carvão minúsculo queimando, flutuando perto da figura, e ela ouviu uma voz familiar. – Se me querem, já conseguiram. Quatro contra um devia ser meio justo. Com um salto, Chris Henderson saiu correndo. – Nick! Doug sorriu, enquanto ainda conseguia parecer que ia pular na figura que se aproximava. Adam relaxou e recuou. – Tem certeza, Adam? Podemos resolver isso aqui e agora – disse Nick quando alcançou o grupo, a ponta do cigarro brilhando enquanto inalava. Os olhos de Adam se estreitaram, e então Cassie viu o sorriso intrépido que ele abrira no Cape Cod, quando quatro caras com uma arma o caçaram. O que havia de errado com ele, o que havia de errado com todo mundo essa noite? imaginou.

Estavam agindo como loucos. Diana abaixou uma mão restringente no braço de Adam. – Sem luta – disse calmamente. Nick olhou para ela, depois deu de ombros. – Meio assustado, você, não é? – disse, observando o grupo. Sean emergiu de trás de Faye. – Sou só muito nervoso. – É, deve ser… de uma árvore – disse Faye com desdém. Nick não sorriu, mas, por outro lado, Nick nunca sorria. Como sempre, seu rosto era bonito porém frio. – Bem, talvez você tenha um motivo para estar nervoso; pelo menos alguns de vocês – disse. – Que significa isso? Viemos aqui procurando a energia sombria que escapou na noite passada – disse Adam. Nick ficou parado, como se uma nova ideia lhe prendesse, e então o cigarro brilhou de novo. – Vai ver vocês estão olhando no lugar errado – disse sem expressão. – Nick, você poderia simplesmente nos contar o que quer dizer? – disse Diana numa voz calma. Nick olhou para todos eles. – Eu quero dizer – disse deliberadamente – que, enquanto vocês estão passeando aqui, apareceu um grupo no Devil’s Cove, tirando as pedras de cima do velho Fogle. Fogle? Cassie não se lembrava do nome. E então de repente viu na mente – num prato de ferro num escritório com uma mesa de madeira. – Nosso diretor? – ofegou. – Exatamente. Disseram que ele foi pego numa avalanche. – Uma avalanche? – perguntou Laurel, descrente. – Nessa região? – Como então você explica o bloco de duas toneladas de granito que estava em cima dele? Sem mencionar todas as coisas menores. Houve um momento de chocado silêncio.

– Ele está… – Cassie não terminou a pergunta. – Ele não estava com a melhor das aparências quando tiraram aquele bloco dele – disse Nick e, então, com menos sarcasmo: – Está morto desde ontem à noite. – Oh, céus – sussurrou Laurel. Houve outro silêncio, mais chocado e ainda mais longo dessa vez. Cassie sabia que estavam todos vendo a mesma coisa: uma caveira de cristal cercada por umcírculo protetor de velas… e uma das velas se apagando. – Foi culpa de Faye – começou Sean com um lamento, mas Faye o interrompeu sem nem virar a cara. – Foi culpa dele. – Esperem aí – disse Diana. – Não sabemos se a energia sombria tem algo a ver com isso. Como poderia, quando sabemos que ela veio aqui e depois parou? – Não acho que isso é muito conforto – Melanie falou em voz baixa. – Porque se não foi a energia sombria, quem foi? Havia um tipo de estranho deslocamento no grupo, como se todos estivessem recuando e olhando para todos os outros. Cassie sentiu um vazio na boca do estômago novamente. O diretor era – tinha sido – um renegado, que odiava bruxas. E isso significava que todos tinham um motivo – especialmente alguém que culpava os renegados pela morte de Kori Henderson. Cassie olhou para Deborah, e depois para Chris e Doug. A maioria do grupo fazia o mesmo. Doug olhou para trás, depois abriu um sorriso malicioso e desafiador. – Quem sabe fomos nós que fizemos isso – disse, os olhos brilhando. – Fizemos? – disse Chris, confuso. Deborah só tinha desprezo. Mais um momento de silêncio, quebrado por Suzan numa voz petulante. – Olhem, já é uma terrível notícia sobre Fogle, mas temos que ficar em pé aqui para sempre? Meus pés estão me matando. Adam pareceu se sacudir. – Ela tem razão; devíamos sair desse lugar. Não há nada a ser feito aqui.

– Ele pôs um braço em volta de Diana e gesticulou para todos à frente. Cassie demorou-se. Queria falar uma coisa com Diana. Mas Diana agora se movia, e Cassie não teve a chance. Com os Henderson na frente, o grupo ia numa direção diferente da qual vieram, andando até o nordeste do cemitério. Quando se aproximaram da estrada, Cassie notou o chão levantado. Havia um pequeno barranco de terra coberta de grama perto da grade nesse lado; quase tropeçou ao passar. Mas ainda mais estranho era o que via quando eles passaram por ela e ela olhou para trás. A frente do barranco tinha placas de pedra, e havia uma porta de ferro, talvez com sessenta centímetros quadrados, posta entre elas. A porta tinha uma dobradiça de ferro e um cadeado nele, mas não podia ser aberta de qualquer forma. Posto logo acima havia um grande e irregular bloco de cimento. Grama crescia em volta do cimento, mostrando que ele estava ali faz tempo. As mãos de Cassie estavam frias, o coração martelava e ela estava tonta. Tentou pensar, notando com somente parte da mente que estava passando por túmulos mais recentes agora, placas de mármore com a escrita não gasta pelo tempo. Tentava imaginar o que havia de errado com ela – era só reação a todos os eventos dos passados dia e noite? Era por isso que ela estava tremendo? – Cassie, você está bem? – Diana e Adam se viraram. Cassie ficou grata pela crescente escuridão quando encarou os dois e tentou clarear a mente. – Claro. Só… me senti estranha por um minuto. Mas espere, Diana. – Cassie se lembrou do que queria dizer. – Sabe, você estava perguntando sobre as minhas sensações antes… bem, eu tenho uma sensação sobre o sr. Fogle. Acho que a energia sombria teve algo a ver com isso, de alguma forma. Mas… – Fez uma pausa. – Mas eu não sei.

Tem algo estranho acontecendo. – Você pode repetir isso – disse Adam, e estendeu a mão na direção do braço dela para fazêla se mover mais uma vez. Cassie o evitou e atiroulhe um olhar repreensivo enquanto Diana não olhava. Ele olhou para a própria mão, assustado. Havia algo estranho acontecendo, algo mais estranho do que qualquer um deles podia imaginar, pensou Cassie. – O que é aquilo lá atrás, com a porta de ferro?

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