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A Profecia de Hedhen – Cristina Aguiar

Quando ela nasceu, Hulda a segurou nos braços. Uma menina de pulmões fortes, ela pensou. Um gemido que vinha do leito, a fez voltar à atenção para a rainha que agonizava após o difícil parto. — Hulda… — ela sussurrou com dificuldade. — Deixe-me ver o meu filho… Hulda abaixou a criança até os braços sem forças da mãe. — É uma menina, senhora – ela disse. — Uma futura rainha. Cirene, a rainha de Salema, cidade principal da terra de Hedhen, beijou a filha e pôs a mão sobre a cabecinha, ainda desprovida de cabelos. — Ela será uma rainha, sim… Uma rainha mais justa do que fui. A criança começou a chorar e Hulda a passou para os braços da parteira que a levou para um quarto adjacente. Cirene pegou a mão de Hulda. — Preciso lhe falar antes que a vida me deixe… Hulda sentou-se. — Estou pronta para ouvir e a obedecer, minha rainha. — Não deixe que minha filha seja criada por Atalia. Minha irmã cultua uma deusa cruel e quer reviver antigas conquistas de tempos que não devem voltar mais. Deborah deve ser uma esperança de novos tempos. Há muitos anos, não nasce uma rainha de linhagem pura. — Não sei como fazer isso aqui no palácio, senhora. Atalia não suporta a minha presença e ela será a regente até que sua filha se torne adulta. — Então, você deve tirar Deborah daqui. Hulda não respondeu, por estar surpresa demais, diante da proposta da rainha. — Hulda, os dias antigos não podem voltar e permanecer. Seria o fim de tudo. A escuridão virá enquanto minha filha cresce e se torna uma mulher. Estará no seu sangue o zelo pela luz.


— Minha rainha, a senhora foi ao Altar de Shilloh? — Sim, eu fui. Ela tem uma missão a cumprir, Hulda. O equilíbrio de Hedhen, que havia no início, será restaurado através da união dos dois grandes Tronos. A Era dos Luminares estará de volta e haverá paz e justiça novamente. A rainha apertou mais forte a mão de Hulda. — Prometa que cuidará dela. — Com minha vida se for preciso, senhora. Partirei ainda essa noite, e sua filha um dia retornará e se sentará no trono que lhe está destinado. Eu prometo. — Que o Pai-Criador esteja com você, minha amiga e conselheira… Hulda sentiu que a força da mão da rainha ia se esvaindo. Quando os olhos dela se fecharam, e o peso da morte se fez sentir no lugar, Hulda permitiu-se chorar pela amiga. Ela deveria sair antes que a notícia da morte da rainha se espalhasse. A noite seria o seu escudo de proteção. A parteira, que era fiel à rainha, contaria que a criança morrera de algum mal terrível e, por estar desfigurada, ela achou por bem, enrolá-la em uma mortalha. Os medos e superstições não deixariam ninguém se atrever a desembrulhar o corpo da criança. Hulda tomou o caminho da montanha. Ela foi a pé, seguindo o rio. Sabia bem para onde ir. A menina em seus braços era leve e dormia tranquilamente. — Durma, pequena. Sua vida não será fácil. Durma enquanto pode. Perto do amanhecer, ela encontrou a trilha que levava as grutas. O mato havia subido o suficiente para cobri-la e escondê-la dos viajantes. Era uma subida difícil, mas Hulda tinha os pés de corça, e não se cansava com facilidade.

Antes do amanhecer, ela chegou a entrada de uma gruta enorme. Dentro dela, o caminho prosseguia pelo interior da montanha. Antes de alcançar o caminho, havia um grande lago de água transparente e fresca. Hulda sentou-se nas margens do lago com a respiração ofegante. — Agora podemos descansar, minha princesa. Ela retirou o manto e o estendeu dobrado em dois, sobre um espaço no chão, onde a areia era macia, e depositou a criança que ainda dormia. Hulda sorriu. Aquela menina era um dos Luminares profetizados no início dos tempos. A mulher pousou a mão suavemente sobre a superfície das águas e estas se agitaram. Como se tivesse ouvido o som de uma campainha, um vulto surgiu vindo de dentro da montanha. Era uma mulher e se vestia igual a Hulda. — Irmã, o que a traz aqui? E quem é essa criança? Hulda contou toda a história a Miriam. Esta olhou para os céus e agradeceu ao Pai-Criador. — A Profecia é real e vai se cumprir. — Duvidava disso? – perguntou Hulda. — Não posso negar que houve momentos em que achei que não havia mais esperanças para Hedhen. Miriam olhou para a menina com ternura. — O que fará com ela? — Ela deve crescer longe daqui. Vou levá-la para o norte, e deixá-la a salvo com um amigo. — O norte – repetiu Miriam com um tom sombrio na voz. — O que foi? — Uma fumaça negra tem subido de Hazorah. Dizem que suas forjas estão criando novas carruagens de ferro. Um exército está sendo preparado. — O poder de Hazorah está renascendo? Desde quando? Miriam olhou para a menina ali deitada. — Faz nove meses.

Atalia observou o rosto pálido da rainha e o cobriu com um véu. Ao lado desta, um pequeno corpo todo embrulhado em panos de linho. Ela deveria estar contente. A rainha morreu e seu herdeiro também. Este, – no caso – não seria problema, pois segundo lhe disseram, havia nascido homem. Os homens não herdavam os títulos das mães. Ela agora era a rainha, mas ainda não se sentia tranquila. Algum segredo parecia mover-se pelo ar. Ela o podia sentir. — Senhora, está tudo pronto para o funeral – a notícia lhe foi dada pela sacerdotisa-chefe de Salema. — Que seja rápido! — ela falou rispidamente. O ritual foi feito com todas as pompas que a rainha Cirene merecia, e o povo chorou sua morte. Atalia passou uma vista pelas pessoas ali presentes em frente ao mausoléu. Viu a Ordem Branca do Templo prestando-lhe homenagens com as espadas douradas e refulgentes para o ar, e fez uma careta. As coisas mudariam. Os tempos mudariam. Atalia era rainha. — O que fará enquanto a menina cresce? Miriam havia acabado de alimentar a pequena com leite fresco e a pôs nos braços de Hulda. — Procurarei o menino. Ele também precisará ser achado. — Não cabe a você, fazer isso. Hulda a encarou. — O que quer dizer? — Faz parte da missão dela, Hulda. É um dos sinais, se lembra? Hulda respirou fundo. — Nunca me atentei para tal fato.

E o que eu farei durante esse tempo? Miriam sorriu e pôs a mão de Hulda sobre a cabecinha de Deborah. — Ela é sua missão. Precisa instruí-la e treiná-la. Ela deve saber quem é, e o que deve fazer. Não é algo que lhe vai ser oculto. Hulda, você precisa criar uma guerreira. — Nunca! Ela veio para dar um fim a essa raça de guerreiras, como poderia ser uma? — Sendo a melhor, mais justa, mais corajosa e a mais verdadeira das amazonas. Será também a última delas, pois ao sentar no trono, ela mudará a ordem das coisas. O que deve cair é a violência, o orgulho, a cobiça e a sede de sangue que Atalia quer restaurar. — E como tornarei Deborah, uma guerreira diferente das outras? — Ensinando-a sobre o Pai-Criador. Hulda olhou ternamente para a criança e sorriu no seu íntimo. — Tem razão, Miriam. Ela pode ser diferente. O semblante de Miriam ficou carregado como se uma nuvem de preocupação pousasse sobre ela. — Ouça, você precisa se certificar de todos os fatos referentes à Profecia antes de tomar qualquer decisão. — Para isso, eu precisaria ir a Ilha dos Profetas. Não posso me separar dela. Pelo menos, não agora! — Deixe-a em um local seguro e vá! Não espere muito, Hulda. Há mais fatos nessa história que desconhecemos. O funeral estava pronto para ocorrer. A cerimônia já havia seguido todos os rituais e o povo começava a se cansar embaixo do sol causticante. Atalia, toda vestida de negro, olhava fixamente o pequeno corpo da criança. Subitamente, ela ergueu o braço antes que os sacerdotes tocassem-no. — Esperem! Antes que o encerrem na câmara funerária, eu desejo ver o meu sobrinho. Não posso viver com isso pesando em meu peito.

O sacerdote olhou para a sacerdotisa-chefe e recebeu sua aprovação. Respeitosamente, ele foi desatando as faixas que encobriam a criança. De repente, um murmúrio perpassou a multidão. O sacerdote, de mãos trêmulas, olhou para a rainha. Atalia não esboçou nenhum gesto de surpresa. Apenas podia-se ver o brilho frio e gélido em seus olhos negros como a noite. No lugar do corpo da criança, havia um boneco de louça e pano. Ela virou-se para Kyara, a capitã de suas tropas e sua mais fiel confidente. — Tragam-me a parteira – ela sussurrou por entre os dentes. — Queimem esse embrulho! – ordenou aos sacerdotes. Ao final daquela cerimônia, vários sentimentos agitavam os corações: Alguns aguardavam com ansiedade e angústia o que resultaria da ira da rainha; outros voltaram para casa com uma alegre esperança no coração. A parteira foi jogada diante do trono de Atalia. A mulher tremia e a rainha sorriu. Não seria difícil retirar dela o que queria. — Você fez o parto de minha irmã e ela não teve um boneco! O que foi que nasceu dela e que destino lhe foi dado? A mulher guardou silêncio. — Você tem família. Um marido e duas criancinhas, não é? O que você acharia de vê-los arder na fogueira como sacrifício à grande deusa da terra? — Não! – a mulher atirou-se aos pés da rainha. — Então, diga-me o que eu quero saber. A mulher respirou fundo. — A criança nasceu desfigurada e morta! Ela foi queimada. O último pedido da rainha antes de morrer. Eu juro! Atalia fez um sinal para Kyara e duas crianças, um menino e uma menina, ambos gêmeos, foram arrastados para dentro por duas guerreiras. — Meus filhos! – a parteira tentou correr para eles, mas foi impedida por Kyara. — Seus filhos morrerão aqui mesmo, à sua frente, se não contar a verdade – a voz da guerreira era tão fria quanto a da rainha. — Uma menina! – exclamou a mulher.

— A rainha teve uma menina! Forte, saudável, perfeita! Atalia ficou em pé com o rosto sem cor. — E onde ela está? — Isso eu não sei, eu juro! – a mulher falava entre soluços. — Hulda, a profetisa, a levou. Ela disse que a menina deveria ser protegida para que o povo tivesse uma esperança, mas não me disse para onde a levaria. Kyara lançou um olhar para a rainha. Atalia desceu os degraus e passou pela mulher em pranto sem nada dizer. Parecia em estado de choque. — Majestade, o que devo fazer com eles? — Tire-os de minha frente e de minha terra. Que sejam banidos para sempre! Kyara preferia ter matado a todos e se surpreendeu com a atitude da rainha, mas cumpriu as ordens sem questionar. O velho Héber levantou os olhos e viu a carruagem que trazia uma visita inesperada. — Hulda, minha amiga, o que a traz aqui? Hulda desceu com a pequena Deborah nos braços e se aproximou do homem grisalho e obeso. — Preciso de sua ajuda, meu velho amigo. Héber levou Hulda para uma das tendas coloridas do acampamento e ouviu a sua história. — Não foi muito prudente ter vindo para cá. Hazorah está se erguendo. O rei Jabim é amante das artes mágicas dos velhos feiticeiros e colocou o poço da visão para funcionar novamente. Se, Atalia se unir a ele, encontrará a menina rapidamente. Hulda ficou calada e pensativa por um tempo. O velho Héber observou a pequena marca na cintura da menina. Uma meia lua. — A marca do destino. Uma Luminar autêntica! Ele suspirou e levantou-se. — Pode me acompanhar? Preciso lhe mostrar algo. Hulda deixou a menina dormindo e acompanhou Héber até uma tenda menos colorida e comtoques mais graciosos. Lá dentro, uma jovem mulher amamentava uma menininha da idade de Deborah.

— Esta é Jael, minha neta. Também nasceu recentemente. Hulda o olhou, estarrecida. — Ela também tem uma marca – Héber falou solenemente. — Uma estrela. Você não veio aqui por acaso, minha amiga. Hulda aproximou-se e viu a pequena estrela no lado direito da menina. Era uma menina de apetite. Tinha uma cabeleira de cachos castanhos e pele branca e translúcida. — Outra Luminar! — Elas não podem ficar aqui, Hulda. Suas vidas correm perigo. — Para onde eu poderia ir? Antes tinha que proteger uma, agora são duas! O velho mordeu os lábios. — Existe um lugar – disse a mãe da menina. — Atravessando o Grande Rio, existe uma terra em que o povo é aparentado conosco. As mulheres são guerreiras, mas adoram o Pai-Criador, como nós. Elas se tornaram guerreiras para defender suas cidades enquanto os homens iam para a guerra. É um lugar onde a harmonia ainda reina. — Gades! – lembrou-se Hulda. — Tem razão. Elas estarão seguras lá. Naquela noite, ficou decidido que Héber levaria as meninas para Gades, enquanto Hulda iria para o Litoral e embarcaria para a Ilha dos Profetas, a fim de pesquisar tudo sobre a Profecia e depois voltaria. Antes de ir, ela disse a Héber que as meninas deveriam ser treinadas nas armas. Era uma prerrogativa, para o que elas iriam passar quando chegasse a hora. Assim ficou acertado. PRIMEIRA PARTE CAPÍTULO 1 Deborah e Jael O tempo foi passando e as meninas foram crescendo junto às montanhas, intercaladas por verdes vales e muitas cachoeiras.

Hulda sempre as visitava. Do outro lado do rio, a terra jazia em umvéu de desesperança. As conquistas ordenadas por Atalia eram sempre um verdadeiro massacre. Quase todos os reinos de Hedhen, eram-lhe tributários e Jabim, o rei feiticeiro de Hazorah, criou umexército poderoso e indestrutível que portava armaduras de ferro. Cidades eram saqueadas, os homens eram mortos e mulheres jovens eram levadas para se incorporarem ao exército de guerreiras de Atalia. Hulda viu as meninas crescerem longe dessa realidade e se sentia aliviada. Atalia continuava sua busca pela sobrinha e, a cada ano que se passava, sentia-se mais ameaçada. Suas conquistas eram apenas um pano de fundo macabro para realizar essas buscas. Vinte e três anos! Hulda suspirou ao ver as duas moças lutando na campina verde do vale. Já eram duas mulheres feitas. Deborah era mais alta. Tinha uma expressão sempre atenta nos olhos grandes e negros que combinavam com os cabelos, uma pele bronzeada e uma autoridade natural que emanava dela. Jael era um pouco mais baixa, de cabelos castanhos, olhos cor de mel, e uma agilidade muito peculiar. O corpo era bem proporcionado e atlético. Ambas eram conscientes da missão que tinham pela frente e treinavam para estarem prontas, quando o momento chegasse. Hulda sentou-se sobre a relva e ficou observando a luta equilibrada. As espadas se tocaram no ar com firmeza. Deborah deu um giro e Jael pulou para trás com uma cambalhota, conseguindo amparar um segundo golpe que vinha por cima. Devido à posição, ela caiu e Deborah aproveitou para prender-lhe as pernas com os joelhos enquanto empurrava a espada de Jael para baixo. — Não pode vencer sua rainha, Jael – Deborah falou. — Aceite isso. Com um esforço supremo, Jael juntou os joelhos e empurrou Deborah, que caiu de costas e se viu na mesma situação em que havia deixado à irmã de criação. — Só que você ainda não é a rainha – Jael rebateu. Deborah a empurrou, e ambas se levantaram. Após uma série de golpes, as espadas se chocaram com tal força que acabaram caindo ambas no chão.

— Consideraria isso um empate – disse Hulda ao se levantar. As moças esqueceram o treinamento e correram para ela. Fazia mais de um ano que Hulda não aparecia. Os abraços foram efusivos. Elas sentaram-se sobre tapetes no terraço da casa onde as moças viviam. Era uma casa armada na encosta da montanha e de lá se podia descortinar uma bela vista da cachoeira que caia formando um lago límpido e convidativo. Enquanto comiam, a conversa girou em torno das muitas viagens de Hulda e no que ela tinha visto pelo caminho. — A situação do outro lado do rio está cada vez pior. Saques, sacrifícios humanos são oferecidos à deusa da terra, meninas são convocadas para o exército de amazonas e sujeitadas a umtreinamento cruel e sádico, a fim de que o seu lado selvagem seja trabalhado. Deborah ouvia o relato com uma grande sombra no olhar. Podia-se ver que ela sofria com a situação. — Quando chegará o tempo? – ela perguntou. — O reinado de Atalia tem que acabar antes que ela acabe com o mundo que conhecemos. — Creio que o tempo virá mais rápido do que imaginamos. Você se sente pronta? — Como saberei se estou pronta? Aqui não há muito que se fazer além de treinar. Se a pergunta é sobre a agilidade com as armas, a resposta é sim, embora eu ache que não é só isso. Estou errada no que digo? Hulda sorriu. — Não, você está certa. O problema é que você terá que passar por uma prova muito pessoal, antes de começar a sua missão. E essa prova, Deborah, eu desconheço como será. — Não é difícil imaginar que está próximo, pelas notícias que trouxe com você – disse Jael que escutava tudo em silêncio. Deborah ficou séria e se fechou em pensamentos. Jael já estava acostumada a esses momentos e não se surpreendeu quando a irmã levantou-se e foi caminhar pela parede do terraço comos olhos cheios de preocupação, fitando o horizonte. A moça fez uma pausa antes de fazer uma nova pergunta. — Hulda, tem notícias de meu avô?Já são quase dois anos, desde que o vi pela última vez.

Por que ele não retornou mais para cá? Ele está… — Não, ele não está morto, Jael. — Então, o que está acontecendo? — Héber é um velho teimoso. Ele insiste em morar na fronteira de Hazorah. Jabim ficou sabendo da habilidade que o seu povo tem em trabalhar com o ferro e deu a Héber a responsabilidade de forjar as armas e armaduras de seu exército. Jael encarou Hulda com a expressão de perplexidade estampada no rosto. — Meu avô tem trabalhado para Jabim? — Contra a sua vontade. — Isso deve estar acabando com ele. Hulda pegou a bolsa que trazia sempre consigo e procurou algo lá dentro. — Foi bom perguntar por ele. Seu avô não lhe esqueceu, menina. Ela retirou de dentro da bolsa, uma adaga feita de ferro e bronze. — Ele fez especialmente para você. Jael pegou a adaga e a observou atentamente sem conter a admiração. O material não se parecia com nada daquele mundo. — O presente perfeito para você – comentou Deborah ao voltar. — Já viu algo assim? – Jael passou-lhe a adaga. Deborah deslizou lentamente os dedos pela superfície da arma. — Ferro – ela olhou para Hulda. — É verdade que esse mineral caiu do céu? — É o que dizem. Deborah devolveu-a a irmã. — Use-a com sabedoria. Jael prestou atenção no tom de advertência usado por Deborah. — Vou me lembrar disso – ela respondeu pegando a adaga de volta. Héber ignorava o encantamento que havia no ferro que vinha da montanha. Jabim, usando antigos ritos que aprendera em Babilos, criou um mineral propício para os seus fins de conquista.

O ferro de seu exército tornava os guerreiros quase indestrutíveis e as armas traziam em si, um veneno mortal. Era um veneno que não matava de imediato, mas que mantinha o corpo vivo e aprisionado emum mundo etéreo, até que sua utilização não fosse mais necessária. Através do poço das visões, ele conseguia saber de cada movimento de seus homens. Naquele momento, ele sorria ao contemplar a visão das terras, além do Grande Rio. Foi para lá que a profetiza Hulda havia levado um exemplar feito com o ferro de sua montanha, enviado pelo velho e tolo, Héber. Há muito tempo que os passos de Hulda eram vigiados, mas ela sempre conseguia despistar os seus rastreadores. Até aquele momento, devido a um deslize de um grande amigo. Atalia entrou na torre do palácio de Salema e olhou para o tanque que continha água do poço das visões. Era sua maneira de ficar em contato com Jabim. Naquele momento, ele estava dando a notícia que ela esperava ouvir há mais de vinte anos. — O outro lado do Grande Rio – ela repetiu. — Só pode ser lá. Junto aqueles renegados. — Posso agir? – Jabim perguntou. — Seu filho espera ansioso por ordens minhas. Sísera, o filho de Atalia, era o comandante das tropas de Jabim. — Sei como meu filho age. Diga-lhe para se conter ou pode por tudo a perder. — Ele saberá como agir. Darei notícias em breve. Na fortaleza-prisão de Haros, Sísera recebeu as ordens do rei. O seu exército já estava pronto. Ele preparou-se com esmero. Cada peça da armadura que ele vestia era como parte de umritual. Para ele, cada campanha engendrada era um sacrifício à grande deusa, sedenta de sangue.

Ele era um homem de feições desfiguradas devido às cicatrizes que trazia no rosto, e isso aumentava seu ódio e sua amargura. Aconselhado por Jabim, ele levou o arco e uma aljava cheia de flechas com pontas de ferro, cheias de encantamento. Eram flechas que já tinham um destino certo: Hulda. A profetisa dessa vez não escaparia. E, finalmente, para o descanso dos senhores daquelas terras, o paradeiro da Herdeira indesejada seria revelado. Hulda conseguiu se descontrair durante o tempo que passou em Gades. As pessoas eram felizes e despreocupadas no lado oriental de Hedhen, e não pareciam preocupadas ou assustadas como que acontecia do outro lado do rio. Na terceira noite que estava lá, houve uma festa para comemorar o aniversário da construção da ponte. Esta era o orgulho da cidade, pois marcava umtrabalho de esforço conjunto. Ela batia palmas e sorria, vendo os casais dançando ao som de uma quadrilha festiva. Deborah aproximou-se com uma caneca nas mãos. — Trouxe para você – ela passou a caneca para Hulda. — Está se divertindo? — Muito – ela deu um gole no líquido morno. — O que é isso? É saboroso! — Chá de menta. Uma especialidade das mulheres a qual nenhum homem resiste. Muitos casamentos acontecem avaliando-se o gosto desse chá. Hulda olhou-a incrédula. — Está brincando, não está? — Claro que estou! – disse Deborah, sorrindo. Hulda passou os olhos pelo povo. — Onde está Jael? — Lá atrás, contando história para as crianças. As pequenas adoram isso. — Ela parece ter muitas histórias para contar. — Jael é caçadora e tem um acervo muito bom para entreter uma plateia pequena e exigente. — E você, não beberá? Deborah sentou-se sobre a relva e cruzou as pernas. — Já bebi demais.

Hulda sentou-se ao seu lado. — Quer conversar? — Sinto o ar pesado – os olhos dela estavam fixos na ponte. — É como se algo estivesse pronto a cair sobre nós. Hulda olhou em direção a ponte e aguçou os olhos proféticos. Ao fechar os olhos, a imagem ficou bem clara. Tochas. Muitas tochas se aproximavam do rio e logo estariam na ponte. — Tem razão – ela soltou a caneca. — Estão muito próximos! Deborah levantou-se em alerta. — O que você viu? — Um exército – Hulda também se levantou. — Vou avisar Jael. Hulda a segurou pelo braço. — Vocês devem sair daqui. Agora! Deborah lhe lançou um olhar decidido. — Cresci aqui, Hulda. Esse povo é o meu povo. Há muito tempo que eles deixaram as guerras de lado. Eu não permitirei que sejam massacrados, sem que eu esteja aqui para ajudá-los. — Sua vida é preciosa, Deborah!

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