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A QUARTA PRAGA – Edgar Wallace

A umas sessenta milhas ao sul da cidade de Florença e à distância tríplice, ao oeste de Roma, descansando sobre três formosas colinas, acha-se situada Siena, talvez a mais – soberba das cidades da Toscana. Sobre o Terzo de la Cità, encontra-se o Palácio Festini. O edifício ergue-se solitário, em sua sombria e arruinada magnificência. Contemplando-o do Batístério de San Giovani, que fica adjacente, tem-se a impressão de que um fragmento se desprendeu e desgarrou do sacro edifício e transitou da cólera súbita para decair no abandono atual. No Palácio, em sua penosa grandeza, viviam os Festini, que pretendiam descender nada mais nada menos do que de Guido Novelio, de quem o arqueologista Compagni escrevera certa vez: «Il conte Guido non aspetto il fine, ma zanza dare colpto di spadna al parti.» Os Festini eram uma família cujo nome, ao ser simplesmente enunciado, tornava imóvel a face da aobreza italiana. Se um se punha a elogiá-los, aceitava-se cortêsmente o elogio. Se alguémcensurava-os escutava-se a acusação em silêncio. Se alguém, entretanto, atrevia-se a interrogar a respeito de sua hierarquia, podia-se ter a certeza de que a pergunta, desde Milão até Roma, provocaria imediatamente uma mudança de assunto da conversação. Qualquer que tivesse sido o vínculo de parentesco dos Festini com: Guido, o Covarde, podiase assegurar que seus herdeiros alardeavam o mesmo método de ação dos Polomei, dos Salvani, dos Ponzi, dos Piccolomini e dos Forteguerri. — «O Conde Guido não esperou seu fim e partiu sem haver dado uma só cutilada com sua espada». As «vendettas» da Idade Média voltavam a sei revividas e sustentadas por êstes produtos da civilização do século XIX e o velho Salvani Festini ultrapassara (e isso era notoriamente evidente) o raio dos próprios rancores de família, para aliar-se ativa ou simpaticamente a cada uma das sociedades que ameaçavam a todos os bons governos da Itália. Era uma tarde bastante quente dos últimos dias do mis de junho do ano de 1899, quando umhomem e dóis jovens estavam sentados diante da mesa de refeições, na sombria sala de jantar do Palácio. O homem, sentado à cabeceira da mesa, tinha, apesar dos anos, os ombros bem largos e tdda a aparência de uma criatura de vigorosa vitalidade. A cabeça leonina, coroada de grande massa de cabelos grisalhos, destacava-lhe a personalidade, mesmo que não possuísse a farta barba, que lhe caia por sobre o casaco de veludo negro. Apesar de tdda a sua aparência patriarcal, havia no rosto pálido, na fineza dos olhos, que olhavam por baixo de farta sobrancelha, algo de sinistro e ameaçador. Comia em silêncio, não se perturbando sequer em responder as perguntas que lhe erampropostas. O moço, sentado à sua direita, era um formoso jovem de dezessete anos e tinha essa compleição marfínea e essa perfeita e definida feição patrícia, que caracterizam a nobreza italiana. Seus olhos, castanhos e brilhantes, a delicadeza da boca, seu quase efeminado queixo evidenciavam, claramente, a raça de onde provinha. Já o outro jovem, sentado do lado oposto, era quatro anos mais velho. Achava-se na idade em que a mocidade caminha para o pleno desenvolvimento e tinha, marcadas em seu contorno facial, tddas as particularidades próprias de sua condição. Era de aspecto débil, de queixo estreito e somente a severa fixidez dos olhos graves salvava-o de uma fealdade positiva. — Mas, pai — perguntou o mais jovem dos dois, — que o leva a pensar que o Governo suspeita de que o senhor esteja informado a respeito da «Mão Vermelha»? O mais velho dos dois jovens nada disse, mas seus olhos inquisitores fixaram-se em seu pai. Salvani Festini pareceu voltar o pensamento ao momento premente e sentiu uma espécie de estremecimento. — Que disse? — perguntou.


Sua voz era grossa, mas não desagradável, quando se dirigiu ao jovem. E o brilho de umorgulho inconsciente, que se refletiu em seus olhos ao fitar o rapaz suavizou, em parte, a severa expressão de sua fisionomia. — Estou muito bem informado, meu filho, — disse em brando resmungo. — Bem sabe que disponho de excelentes informantes. Os carabineiros estão dando prosseguimento às suas investigações e esse infernal amigo seu, — disse, voltando-se para o mais velho dos dois jovens, —está à frente das investigações. O jovem, a quem ele se dirigiu, esboçou um sorriso. — Quem é? — perguntou incertamente. O ancião olhou para o filho com suspeita. — Tillizini, — respondeu de maneira breve. — O velho louco… porque não poderá ficar tranquilo com seus livros e com suas conferências…? — Foi muito bondoso para comigo, — disse o mais velho dos dois. Falava com reflexão, muito pensativamente. — Sinto muito que o aborreça pai, mas esta é precisamente sua fraqueza… a investigação de crimes… — Crime! — protestou o ancião. — Como pode atrever-se, meu filho, sentado à minha própria mesa, a qualificar como crime as ações da «Mão Vermelha»? Seu rosto tornou-se rubro de raiva e olhou para seu rebento com tanta maldade, que essa centelha de furor teria feito estremecer a outro homem mais susceptível. Antonio Festini, porém, possuía muitas qualidades que não são muito comuns a seus compatriotas. A fleuma e a atitude mental de impassibilidade eram-lhe inatas. Não se sentiu nem inquieto, nem embaraçado diante desta nova expressão de desagrado do pai. Conhecia bem e desculpava o favoritismo que seu pai demonstrava para com seu irmão mais jovem, Simone. E isto não o levava a gostar menos do irmão e não provocava tampouco nele nenhum sentimento de rancor para com o pai. Continuou, pois, tranquilo. Algum remoto antepassado, imperturbável e frio, talvez carregando nas veias uma dose de sangue ainda mais frio, devia ter transmitido a esse jovemimpassível, alguma coisa do seu poder de auto-domínio. Bem sabia que seu pai odiava o velho professor de Antropologia de Florença, porque os Festini, até os dias atuais, mantinham o mesmo espírito da antagonismo, que os sienenses de quinhentos anos atrás, demonstravam sempre contra os florentinos. Em Siena, havia escolas suficientes. A cidade contava com um estabelecimento famoso por seus advogados e doutores. Simone cursava suas aulas e o que era bom para ele devia ser bom também para Antônio. O filho mais velho, porém, escolhera Florença, com essa deliberação própria, tão peculiar nele, desde os dias de sua infância e, apesar de toda a oposição de seus antepassados, desrespeitou a tradição dos Festini e foi a Florença a fim de aperfeiçoar seus estudos.

Tillizini, o notável homem de ciência, concebeu uma profunda amizade pelo rapaz. Tomou-o sob sua proteção, formando-o pela sua escola, tão tortuosa, tão irregular e tão pouco consequente. Tillizini era um mestre no estudo do crime e possuía um conhecimento enciclopédico dos homens. Estava à disposição das polícias secretas de um a outro extremo da Itália e, segundo os rumôres circulantes, eram enormes as somas de dinheiro que recebia dos governos de outras nações. Foi o próprio Tillizini que se dedicou voluntariamente, a dar com a pista da «Mão Vermelha», que durante tantos anos aterrorizara o Sul da Itália e que acabava de estender suas operações à região sententrional. E era lamentável o fato de que suas atividades estivessem coroadas de êxito. Suas investigações levaram-no a dar com a pista de nada menos que a pessoa do considerado Mateo degli Orsini, o advogado romano, que durante tantos anos dirigira as operações de uma das mais poderosas ramificações da «Mão Vermelha». Havia uma sensação de temor no peito do ancião, mas ele era também um Festini de primeira água e não poderia demonstrar temor, embora fôsse o medo que lhe aumentava a fúria. — Ainda ouvirá uma história diferente a respeito deste Tillizini, — murmurou, — não se esqueça disto, Antônio. Algum dia, encontrá-lo-ão morto: uma faca no coração, ou com a garganta cortada ou com uma ferida de bala, no meio da cabeça… quem, sabe…? «A Mão Vermelha» não é uma organização com a qual se possa brincar. Olhou longa e insistentemente pata seu filho. Simone inclinou-se para a frente, os cotovelos sobre a mesa, o queixo nas mãos e fitou o irmão com interesse desapaixonado. — O que Tilizini sabe sobre mim? — perguntou o ancião de improviso. — Que foi que você lhe disse? Antônio sorriu. — Essa é uma pergunta abusda, pai, — disse-lhe. — Chegou a pensar que eu falaria a seu respeito com o senhor Tillizini? — Por que não? — disse o outro, como se protestasse. — Oh! Sei como você é. Você herdou alguma coisa de sua mãe. Esses Bonnichi seriam capazes de vender tuas esposas a troco de uma centena de liras! Nem mesmo essa referência à sua própria mãe conseguiu modificar a serenidade do jovem. Continuou sentado com as mãos metidas nos bolsos, a cabeça um pouco inclinada para a frente, olhando para seu pai, friamente, com especulativa curiosidade. Durante minutos, permaneceram, assim, entreolhando-se mutuamente e o mais jovem, sentado do outro lado, olhava também do pai para o irmão, deste para aquele, alternativamente, com vivo interesse. Finalmente, o ancião retirou o olhar com um gesto de enfado. Antônio inclinou-se sobre a mesa, servindo-se de um cacho de uvas de uma grande travessa, com a mão e nem o gesto de fastio, nem o temor tizeram-no perder a serenidade. O velho voltara a falar com seu filho favorito. — De hoje até amanhã, você pode esperar a visita do «birri», — disse.

— Virão procurar pelos papéis. Uma récua de sujos napolitanos entrará nesta casa, para dar busca. Suponho que você esteja desejando que eu convide seu amigo Tillizini para jantar? — perguntou, olhando para o outro com um trejeito de desdém. — Quanto a isto, faça o que melhor lhe agradar, pai, muito me agradaria que o convidasse… — Se lhe agradaria! — disse o ancião. — Se eu tivesse a certeza de que esse velho cachorro se afogaria, não vacilaria um minuto em fazê-lo. Conheço seu Tillizini, — acrescentou desagradavelmente. — Paulo Tillizini… — E deu um sorriso, mas não havia nenhuma nota alegre em sua fisionomia. Antônio levantou-se da mesa, dobrou o guardanapo em um quadrado e deixou-o descuidosamente entre os copos venezianos, que estavam à sua frente. — Tenho sua licença para me retirar? — perguntou, com cerimoniosa inclinação de cabeça. Fazendo outra inclinação, diante de seu irmão, o jovem retirou-se da sala de jantar. Atravessou o sombrio e imponente vestíbulo e encaminhou-se para a pesada porta do Palácio. Um criado de libré abriu-a para ele e o jovem saiu à plena luz do dia. A emanação do calor da rua chegava até ele, como se fosse o de uma fornalha acesa. Não tinha plano definido para passar a tarde, mas, achava-se ansioso para evitar novos conflitos com seu pai e ainda que não aprovasse a associação que sua casa formara com tantas quadrilhas de bandidos e culpados, que tiranizavam toda a Itália, sentia-se ansioso por encontrar ummodo pelo qual pudesse evitar a terrível desgraça que ameaçava cair sobre todos. No que a ele se referia, não entrava em linha de consideração o seu sentimentalismo. Chegara a um ponto desde o qual podia considerar, não só a seu pai, como também a seu irmão mais moço (tão ansioso estava por ajudá-los e tão desejoso, ao mesmo tempo de que chegasse o dia em que pudesse tomar parte ativa nas operações da Liga), como se fossem pessoas afastadas de todos os seus afetos. Era muito natural que seus passos o conduzissem até a Piazza del Campo. Siena inteira encaminhava-se para este lugar histórico, com seus pavimentos de coloração vermelha e a inevitável associação que recordava seus triunfos e processos famosos. Deteve-se junto ao pavimento central que marca a trajetória, do Pallio, completamente absorto em seus pensamentos, sem notar os olhares curiosos que se fixavam em sua direção. Porque, apesar do calor reinante, toda Siena parecia estar na rua. Se, contudo, estivesse menos absorvido, em seus pensamentos e apreensões, parecer-lhe-ia curioso que os sienenses, que sempre dedicavam estas horas ao repouso da sesta, se agrupassem na praça e nas ruas, numa tarde tão quente como aquela, do mês de junho. Enquanto se encontrava parado ali, abstraído e meditativo, ouviu que o chamavamsuavemente, às suas costas. Tirou o leve chapéu de feltro que usava e, sorrindo, estendeu a mão. — Não esperava ter o prazer de vê-lo, senhor Tillizini, — disse. O prazer do encontro, não obstante, ficou estragado pouco depois, ao certificar-se, comalguma contrariedade, de que a visita do professor estava sombriamente relacionada com as atividades de sua casa.

Nessa época, o professor Tillizini andava beirando a casa dos oitenta anos. Alto como um álamo, seu rosto ascético e alongado, via-se iluminado por dois olhos de mirar muito vivo, que eram um perfeito reflexo de sua alma. Deu o braço a seu pupilo e a passo lento e vagaroso, conduziu-o através da praça. — Meu caro Antônio, — disse-lhe com grave afeição, — vim vê-lo, porque o governo deseja certas informações… Apesar de ainda não lhe haver dito, você sabe que estamos fazendo investigações sobre certa organização. Pousou sua fraca e branca mão no ombro do jovem e deteve- se para fitá-lo bem no rosto, com intensa atenção. — Antônio, — prosseguiu lentamente, — essa investigação conduz diretamente a seu pai e às atividades que ele vem desenvolvendo. O outro fez um sinal de assentimento. — Já sei, — disse simplesmente. — Agrada-me que já o saiba, — disse Tillizini, com um suspiro de alívio. — Isso preocupoume sobremaneira. Há muito tempo desejava dizer-lhe que seria inevitável uma investigação semelhante, mas pensei que não cumpriria meu dever para com o Estado, se lhe falasse disto. Antônio sorriu um pouco tristemente. — Não tem importância, — disse. — Na realidade, meu pai já o sabe e já está esperando pela visita do senhor. Tillizini concordou com um movimento de cabeça. — Isso era o que eu desejava também, — afirmou, — ou, para ser ainda mais franco, confiava em que seria assim, porque um policial esperado é um policial derrotado, — acrescentou com umsorriso. Continuaram caminhando em silêncio e de repente… — O senhor está mentalmente satisfeito por saber que meu pai acha-se complicado nessas coisas? — perguntou Antônio. O ancião olhou para êle um tanto severamente. — Você por acaso não o está também? — perguntou-lhe. O herdeiro dos Festini não respondeu. E como se fosse por mútuo acordo, ambos mudaram o tema da conversa e falaram de outros assuntos. O velho aristocrata estava aguardando a chegada dos funcionários da Polícia, isso era o que Antônio estava supondo. Falaram do Colégio de Florença e de amizades mútuas. Em seguida, por etapas sucessivas, o professor desviou a conversação para seu tema favorito, o tópico do trabalho de tôda sua existência. — Não é verdadeiramente lamentável, — disse, — que tenho chegado a esta idade, Deus não me dê outros cem anos de vida? Sorriu e encolheu os ombros.

— No fim de cujo prazo, eu havia de requerer outros cem a mais, — acrescentou filosoficamente. É muito certo que não podemos realizar nossos desejos. A mim, me satisfaria, — continuou dizendo, — possuir um filho que desse prosseguimento à minha tarefa. Nesse particular, tampouco pude ver satisfeitos os meus desejos, é certo, devo admiti-lo, — disse com aquela ingenuidade que era seu encanto, — que não me preocupei, no devido tempo, — em arranjar uma esposa. E isso foi um descuido pelo qual me vejo duramente castigado! Deteve-se, no momento em que um alto oficial, que usava uniforme dos carabineiros, atravessava a Piazza del Campo e Antônio Festini separou-se, instintivamente, do lado de seu mestre. Os dois conversaram e, pouco depois, fazendo ao jovem uma ligeira inclinação de cabeça, vendo passar uma sombra por seus olhos, Tillizini acompanhou o oficial em direção ao Palácio Festini. Antônio ficou observando-o, até perdê-lo de vista. Em seguida, reiniciou seu passeio pelos arredores da praça, as mãos nas costas, a cabeça caída sobre o peito. Tillizini acompanhou o alto funcionário policial até à residência dos Festini. Bateu a aldraba que se colocava ao lado da porta e, segundos depois, eram introduzidos no vestíbulo. Foi admitido com toda a cerimônia, que sua hierarquia tinha direito — porque, não era umoficial de carabineiros quem o acompanhava e esse oficial não o tratava com toda deferência? Fizeram-nos passar para o grande salão dos Festini. O aposento estava desprovido de móveis. Os antigos esplendores das pinturas do teto apareciam apagadas e difusos. O outrora formoso chão de mármore estava quebrado em muitos lugares, não tendo sido feita nenhuma tentativa para consertá-lo. As poucas e velhas cadeiras e a mesa francesa, que haviam sido encostadas â parede, pareciam perdidas nessa solidão de mármores gelados. Poucos instantes depois, apareceu o Conde Festini. Continuava vestido com o paletó e o colete de veludo. Usava culote de montar, que tanto ele como seu filho costumavam vestir, invariavelmente, porque ambos eram ótimos cavaleiros e só tinham esse gosto em comum. Cumprimentou Tillizini, com uma inclinação de cabeça, que o professor prontamente correspondeu. — Estou à disposição de sua excelência, — disse formalmente e ficou esperando. — Conde Festini, — falou Tillizini, — vim cumprir missão bem desagradável. — É lamentável, — respondeu o Conde Festini, secamente. — É de meu dever cientificá-lo de que me foi recomendado que procedesse a um exame de seus documentos, pessoalmente. — Isto não só é lamentável, como ultrajante, — disse Festini, mas não com os sinais de irritação que o oficial de carabineiros, cujos dedos brincavam nervosamente com o apito para chamar seus companheiros, esperara. — Não desejo, — continuou Tillizini, — que esta revista se torne mais desagradável a sua excelência do que o estritamente necessário e, por isso, peço-lhe que me considere mais como umamigo que deseja limpar seu nome das acusações que… — Será melhor que poupe suas palavras, — disse secamente o Conde Festini.

— Eu conheçoo, Paulo Tillizini. Pensei que fôsse um cavalheiro e por isso confiei-lhe a educação de meu filho. Vejo, entretanto, que não passa de um esbirro! Nestes dias, — disse com um encolher de ombros, — a nobreza italiana, e se não estou enganado, você provém da casa de um dos Buonsignori… Tillizini fêz um gesto de assentimento. — …nestes dias, — prosseguiu dizendo Festini, — é necessário, segundo entendo, que nossa decaída nobreza encontre meios para prover suas filhas casadoiras do necessário. — Em meu caso, — disse Tillizini, — isso não é necessário. Falou suavemente e com calma. Cada uma das palavras que o Conde Festini pronunciava era, pelo código de honra dos dois homens, um insulto mortal. Tillizini manteve, entretanto, a mesma tranquilidade de aparência que Festini vira tão lamentavelmente reproduzido em seu filho. — Só posso acrescentar isso, — seguiu dizendo o ancião, — quaisquer que sejam os abismos a que possa haver descido um membro da nobreza, para ajudar o Estado a fazer justiça com os homens que desafiaram abertamente as leis do país, é possível, senhor, que um homem caia ainda mais baixo e se converta num desses bandidos que praticam atos abomináveis e cruéis, obrigando a que comece a se mover a máquina da lei? Falou com aquele tom desapaixonado que lhe era peculiar e no rosto do Conde apareceu umenrubescimento pronunciado. — Pode revistar como quiser, — disse-lhe. — Minha casa está à sua disposição. Aqui estão as chaves. Tirou do bôlso uma argola de aço, com uma dúzia de chaves. Tillizini não fêz nenhum gesto para tomar as chaves. — Se tiver a bondade de me conduzir a seu dormitório, não o incomodarei com maiores buscas. O Conde Festini vacilou durante um segundo. Uma rápida nuvem de temor passou-lhe pelo rosto. Em seguida, com uma inclinação de cabeça, estendeu a mão para a porta. Acompanhou-os até ao vestíbulo e começou a subir as escadas. Seu quarto era amplo e dava para a rua. Estava tão pobremente mobiliado, como o resto da casa. Tillizini fechou a porta, ao passar e o oficial ficou parado junto dela, como para impedir a saída de alguém. — Aqui estão minhas chaves. — Muito obrigado, não tenho necessidade delas, — disse Tillizini. Colocou-se diante do Conde com toda sua estatura e prosseguiu com delicadeza: — Creio que será melhor informá-lo do que sei.

Há quatro dias, foi preso um homem, no momento em que colocava uma bomba sobre a linha férrea, que vai de Roma a Florença. Aparentemente, tratava-se de um novo recruta. Mas, depois de preso, soube-se que era um homem que ocupava lugar de destaque nos concílios do ramo florentino de sua excelente sociedade. Festini nada disse. Escutava cheio de interesse. — De certo modo, — continuou falando Tillizini, — este homem descobrira muitos segredos que, estou convencido, a «Mão Vermelha» não tinha nenhuma intenção de revelar. Tive ocasião de atuar como secretário de um dos chefes de sua Ordem. De todo modo, sabia que certos documentos, que o incriminavam e a uma quantidade de pessoas influentes da Itália, achavam-se escondidos nesta casa. — Realmente? — perguntou Festini, com frieza. — Em verdade, o senhor dispõe das chaves e poderá verificar por si mesmo, a realidade da declaração de seu informante. De novo, Tillizini não fez nenhuma tentativa para tomar as chaves que o outro lhe oferecia. — Sabia ao certo o que informava, — disse lentamente. — Indicou-me um lugar oculto, que suponho que seja só de seu conhecimento e dos chefes da quadrilha. Caminhou até um canto do aposento, aonde havia quatro basculantes que iluminavam o interior. Entre a segunda e a terceira janelas pendia um quadro, rodeado por grande moldura dourada. Passou suavemente uma das mãos pelo canto do quadro. Encontrou o que procurava e fez pressão. Imediatamente, abriu-se o fundo da valiosa moldura, como se fosse um estreito caixão. Festini ficou observando-o, sem fazer movimento algum, enquanto se apoderava de um rolo de documentos que estavam escondidos ali. Tillizini examinou-os ràpidamente, à luz da janela e guardou- os com todo cuidado no bolso interior de seu casaco. Olhou para Festini detidamente, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, abriu-se a porta e Simone entrou no aposento. Caminhou diretamente para o lado de seu pai. — Que é que aconteceu? — perguntou, pondo os olhos angustiados em seu pai. — Não houve nada, meu filho, — disse o Conde Festini. Colocou a mão sobre a cabeça do filho e sorriu.

— Será melhor descer e esperar lá, até que termine meus negócios com sua excelência. O jovem vacilou. — Por que deverei sair? — perguntou. Pressentia o perigo e custava a se mover. Olhou de um para outro dos presentes, com aparente calma. Mas, estava alerta e sua atitude era a de um verdadeiro felino. — Se me acontecer alguma coisa, Simone, — disse o Conde Festini Suavemente, — quero que saiba que provi amplamente suas necessidades e que há uma provisão que é a maior de todas que lhe posso oferecer: a proteção e a amizade e, como espero, mais tarde, a direção dos camaradas que saberão servi-lo muito bem. E, agora, desça. Inclinou-se e beijou o filho na face. Simone retirou-se. Seus olhos estavam secos, mas cheios de compreensão. Em baixo, no vestíbulo, encontrou-se com o irmão, que acabava de regressar da praça. — Venha para cá, Antônio, — disse o mais jovem, severamente . Dirigiu-se para a sala, onde, uma hora antes, os três haviam almoçado. — Nosso pai foi preso, segundo creio, — disse friamente, como se estivesse fazendo o relato de um acontecimento trivial. — Penso também que sei o que acontecerá, depois. Agora, desejo perguntar-lhe uma coisa: qual será sua atitude, no caso de que eu venha a continuar a tarefa de meu pai? Seus olhos estavam brilhantes e excitados. Parecia que, de repente, se transformara numhomem, ao ter certeza das responsabilidades que o esperavam. Antônio olhou-o tristemente. — Seguirei o caminho reto, Simone, — disse-lhe com toda calma. — O caminho que seja honesto e decentse, será o que seguirei . — Buono! — disse o outro. — Então, a menos que Deus opere um milagre, nos separaremos aqui, você para seu destino e eu, para o meu! Deteve-se. De repente, empalideceu e ao olhar para ele, Antônio acreditou ver gotas de suor em sua fronte. — Que está sentindo? — perguntou e deu um passo em sua direção, mas o irmão obrigou-o a retroceder.

— Não é nada, — disse, — não é nada! Mantinha-se ereto, rígido, com o formoso rosto erguido, com os olhos fixos nas decorações descoradas do teto. Porque, naquele instante, ouvira o estampido de revólver, abafado pelas pesadas janelas e grossas paredes e que claramente lhe dizia qual tinha sido o fim do Conde Festini. Tillizini, que descera apressadamente para lhe dar a infausta notícia, encontrou-o totalmente preparado para recebê-la. — Agradeço a sua excelência, — disse o rapaz. — Já o sabia. Sua excelência não viverá para ver a resultado de seu trabalho, porque já é um homem idoso. Mas, se ainda tiver muitos anos para viver, conhecerá a vingança que tomarei por esse assassinato. Porque, sou ainda muito jovem e pelo favor de Deus, restam-me muitos anos de vida! Tillizini nada disse e quando regressou a Florença era um homem abatido pela tristeza. Três meses mais tarde, visitou novamente Siena e na Via Cavour, em plena luz do dia, foi baleado por dois mascarados, que conseguiram fugir. E sua cátedra, no Colégio de Antropologia de Florença, passou, em seu devido tempo, para o jovem Tillizini. CAPÍTULO I SIR RALPH PROFERE UMA SENTENÇA Era absurdo chamar o assunto de «O Processo da Mão Vermelha», porque a Mão Vermelha não tivera nenhuma participação no feito, pelo menos, no que se referia ao roubo. Havia sido um roubo vulgar, em que interviera um conhecido e humilde membro da localidade de Burboro, agora no banco dos réus. Fôra encontrado dentro da casa, às primeiras horas da manhã. Dera uma explicação incoerente ao vigilante mordomo que o encontrara e além de uma confusa história, segundo a qual alguns italianos misteriosos o haviam encarregado de certa missão, não se pôde encontrar nenhum sinal da extraordinária associação, que estava agitando as pessoas que respeitavam a lei na Grã-Bretanha. Era igualmente absurdo e grosseiro acusar de injustificável sensacionalismo os jornais que qualificavam a ocorrência como o «Caso da Mão Vermelha». Além de tudo, aparecia um italiano mencionado nos termos da acusação, o que, nestes dias de pânico, bastava para justificar a referência. A sessão do Tribunal foi muito concorrida, porque o assunto despertou, logo, algo mais que o interesse habitual. Todo mundo estava presente. Lady Morte-Mannery ocupava a cadeira no estrado, como lhe correspondia por direito. A maior parte dos convidados, procedentes de East Mannery, chegara também e achava-se sentada em lugares privilegiados, para não pouco incômodo dos membros do foro e representantes da imprensa. Estes últimos, indignados, protestavam amargamente ao serem desalojados de seus já restritos domínios, para cumprimento de suas funções. Mas, Sir Ralph Mannery, presidente da sessão, tinha certa maneira de proceder com a imprensa e professava — ainda que nem sempre agisse de acordo com sua teoria — a ideia de que não se devia tomar conhecimento dela, convencido de que ela, a imprensa, não tinha nenhuma importância. Os jornalistas que assistiam às sessões do Tribunal em Burboro sentiam, constantemente, esse misterioso procedimento que é conhecido como «cada um em seu lugar». E desejavam, muito ardentemente, por certo, que o princípio fosse aplicado às presentes circunstâncias, ao ver, como estavam vendo, que seus lugares achavam-se, agora, ocupados pelos convidados do presidente do Tribunal. Hilary George, pertencente à ordem dos «Cavalheiros de Colombo», estava sentado juntamente com seus colegas, advogados, embora só na qualidade de expectador, pois não exercia nenhuma função na sessão que se realizava.

Sentia curiosidade de ver como era o procedimento da justiça, tal como Sir Ralph a concebia. As sentenças de Sir Ralph eram notórias. Seus julgamentos haviam sido revistos em mais de uma ocasião. Era, talvez, um dos homens mais odiados do país. As mãos amedrontavam os rebentos desobedientes, mencionando o nome de Sir Ralph. Era o pesadelo dos moradores, um tormento moral para os vagabundos, para os que dormiam ao relento e para toda a classe de pessoas desafortunadas e delinquentes. De pequena estatura, magro e ossudo, parecia que suas roupas, muito folgadas, caíam-lhe do corpo como de um cabide. O rosto, branco e alongado, possuía certo ar de solenidade. Seus lábios eram caídos nos cantos da boca, num gesto de desdém. Um par de óculos com aro de ouro assentavase em ângulo inclinado sobre seu nariz, como para sugerir que assim o colocara para não obstruir o campo de sua visão. O cabelo era ralo e encanecido. Usava costeletas um pouco grandes e colarinho à moda de Gladstone. Quando falava, sua voz era queixosa e pouco segura, dando a impressão de que sentia umressentimento pessoal contra o desgraçado réu que estava sentado diante da Justiça, no banco dos réus, impaciente por tê-lo obrigado a abandonar a comodidade de sua biblioteca e ser constrangido a respirar o ar tão rarefeito da sala de julgamento. Sir Ralph estava perto dos sessenta anos. Sua esposa, que parecia extremamente adorável com seu vestido de veludo negro, o enorme chapéu também preto, com penas coloridas, tinha uns trinta anos menos. Era uma formosa mulher, sob muitos aspectos. Beleza como a de Juno, imperial, impressionante. Seus lábios, quando em repouso, eram finos e retos e, para dizer a verdade, um tanto repelentes. Algumas pessoas assim os qualificavam. Hilary George, o temerário caçador, confessava que jamais vira aqueles lábios bem fechados e que, pelo contrário, muitas vêzes parecera-lhe sair deles uma palavra de advertência ao perigo: Cuidado! Cuidado! Era uma formosa mulher, mas dessas beldades que desagradam. Casara-se com Sir Ralph Morte-Mannery, cinco anos antes, na absoluta certeza de que conseguiria sair para sempre da atmosfera de penúria que a acompanhara durante toda a adolescência . Com o casamento dissera «adeus» às preocupações e aperturas com que a mãe, ansiosa por ter projeção social e com uma renda anual de cento e cinquenta libras, a rodeara sempre. Muito cedo, Vera Forsyth compreendeu que havia saído de uma atmosfera de penúria forçada pelas circunstâncias, para passar para outra igualmente mesquinha, mas desta vez praticada por amor à própria mesquinhez. Sir Ralph era um homem mesquinho e miserável. Podia-se quase qualificá-lo de avaro e abrigava a profunda convicção, quando administrava seus centavos, de que, por direito divino, fora eleito, para ser o natural herdeiro de muitas centenas.

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