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A questao dos livros – Robert Darnton

Este é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa e seu passado, presente e futuro. É também uma discussão sobre o lugar dos livros no ambiente digital que se tornou uma realidade essencial da vida para milhões de seres humanos. Longe de deplorar os modos eletrônicos de comunicação, quero explorar as possibilidades de aliá-los ao poder desencadeado por Johannes Gutenberg há mais de cinco séculos. O que livros e e-books têm em comum? Que vantagens mútuas conectam as bibliotecas e a internet? Assim resumidas, essas perguntas podem parecer vazias, mas tomam forma concreta nas decisões cotidianas dos envolvidos na indústria da comunicação — webmasters, engenheiros da computação, financistas, advogados, editores, bibliotecários e um número respeitável de leitores comuns. Como também desempenhei um pequeno papel nisso tudo, ofereço esta antologia de ensaios como ajuda a quem tenta encontrar um caminho no panorama da informação. Meu próprio caminho me levou a um bom número de territórios desconhecidos. Após uma breve carreira de repórter, dedicada quase inteiramente a reportagens policiais para o Newark Star Ledger e o New York Times, me tornei professor universitário. Passei a maior parte do meu tempo no século XVIII, estudando um tema que se tornou conhecido como história do livro. Pesquisar sobre o ramo editorial na era do Iluminismo me proporcionou uma oportunidade de observar o trabalho dos editores no mundo moderno. Passei quatro anos no conselho editorial da Princeton University Press e depois quinze anos como gestor da Oxford University Press americana. A sede da OUP na Madison Avenue ofereceu uma determinada visão do ramo editorial, e também de seu lado acadêmico. Passar um verão como acadêmico residente na rede CBS abriu outra perspectiva, do alto de um escritório corporativo na Sexta Avenida. Ser eleito para o conselho administrativo da Biblioteca Pública de Nova York me trouxe de volta ao cerne do mundo do livro, na esquina da Quinta Avenida com a rua 42. A essa altura, eu publicava livros pela W. W. Norton, a uma quadra de distância, e artigos na New York Review of Books, do outro lado da cidade, entre a Broadway e a rua 57. Nem com um planejamento cuidadoso eu poderia ter feito um trajeto mais revelador pelo mundo contemporâneo do livro. Mas tudo foi acontecendo de improviso, ao sabor da sorte, enquanto as oportunidades iam surgindo. Ao longo do caminho, ajudei a lançar duas iniciativas editoriais de minha criação: Electronic Enlightenment [Iluminismo Digital], um banco de dados formado pela correspondência de Voltaire, Rousseau, Franklin e Jefferson (atualmente é vendido pela Voltaire Foundation, de Oxford, como um pacote por assinatura cujo conteúdo diverge um tanto do que eu havia imaginado originalmente); e Gutenberg-e, uma série de monografias eletrônicas produzidas a partir de teses premiadas na área de história (também vendidas mediante assinatura pela editora, a Columbia University Press). Ambos os projetos foram financiados pela Andrew W. Mellon Foundation e serviram de aprendizado sobre a importância de planos de negócios e a possibilidade de promover o bem público a partir de iniciativas do setor privado. Por fim, me preparei para escrever um e-book de grande alcance sobre os ramos editorial e livreiro na Europa do século XVIII. Antes de preparar um website, porém, recebi um telefonema inesperado do reitor de Harvard. Queria saber se eu aceitaria ser indicado ao cargo de diretor da biblioteca da universidade. Não hesitei muito antes de responder “sim”.


Era uma oportunidade de fazer alguma coisa em relação aos temas que eu havia estudado como fenômenos históricos. De início, o trabalho não envolvia uma carga muito pesada de gestão. Pelo contrário, esperava-se que eu continuasse pesquisando e dando aulas como professor universitário, deixando o gerenciamento das bibliotecas (as estimativas de seu número variavam de quarenta a 104, dependendo da definição de biblioteca) aos bibliotecários-chefes, via de regra reconhecidos como os melhores em sua profissão. Em julho de 2007, contudo, logo que me mudei para o novo escritório, fiquei sabendo que Harvard estava envolvida em conversas secretas com o Google, a respeito de um projeto que me tirou o fôlego. O Google planejava digitalizar milhões de livros, começando com o acervo de Harvard e outras três bibliotecas universitárias, para então disponibilizar as edições digitais no mercado. Tudo seria baseado num banco de dados que se tornaria a maior biblioteca do mundo, muito mais vasta do que qualquer coisa jamais sonhada desde a biblioteca de Alexandria. O Google Book Search, como acabou batizado, foi desenvolvido a partir de uma tentativa de chegar a um acordo sobre uma ação judicial movida contra o Google, em setembro e outubro de 2005, por um grupo de autores e editores que afirmavam que a empresa estava infringindo seus copyrights ao digitalizar livros de bibliotecas de pesquisas e disponibilizar trechos na web. Harvard não tinha relação alguma com a ação judicial, mas precisou ser informada a respeito das negociações porque o Google Book Search nunca decolaria sem conquistar a cooperação das bibliotecas que forneceriam os livros a serem digitalizados. Passei uma parte considerável dos meus dois primeiros anos em Harvard lidando com advogados e me esforçando para compreender as implicações do acordo enquanto ele gradualmente tomava forma. Tudo foi mantido em segredo por força de contrato até que o acordo veio a público em 28 de outubro de 2008. A essa altura, eu já estava consideravelmente instruído a respeito de litígios corporativos e do estranho mundo do Google, onde jovens engenheiros passam o dia sentados em bolas infláveis de borracha, sonhando com algoritmos que permitam buscas sobre qualquer coisa existente. (Durante uma visita a um escritório do Google, perguntei a um funcionário como ele descreveria a hierarquia de status na empresa. “É fácil”, ele respondeu. “Primeiro vêm os engenheiros, depois os advogados, depois os cozinheiros.”) Mesmo deslumbrado com essa visão de uma megabiblioteca digital, eu tinha dúvidas sobre permitir que os acervos de livros de Harvard, construídos com imenso esforço e custos enormes desde 1638, fizessem parte de especulações comerciais. Não me opus ao projeto do Google de tornar livros em domínio público disponíveis gratuitamente na internet, mas a empresa planejava vender assinaturas do banco de dados digitalizado, composto de livros protegidos por direito autoral, e dividir a receita com os reclamantes que estavam processando a empresa. Quanto mais eu aprendia sobre o Google, mais a empresa me parecia um monopólio dedicado a conquistar mercados em vez de um aliado natural das bibliotecas, cujo único propósito é preservar e difundir o conhecimento. Tentei explicar as questões suscitadas pelo Google Book Search em dois artigos publicados na New York Review of Books e incluídos nesta antologia. Desde então um caloroso debate público se desenvolveu e segue ativo enquanto escrevo. O tribunal que determinará o destino do acordo iniciará seus trabalhos em 7 de outubro de 2009. Outra questão que me ocupou intensamente em meus dois primeiros anos em Harvard foi uma versão local do movimento mais amplo conhecido como acesso livre. Em colaboração com Stuart Schieber, um cientista da computação comprometido com a causa do acesso livre, e com o apoio do reitor da universidade, Steven Hyman, defendi uma moção perante o Instituto de Artes e Ciências para disponibilizar gratuitamente na internet todos os artigos científicos produzidos por seus membros. A moção foi aprovada por unanimidade em 12 de fevereiro de 2008. Desde então, moções similares foram adotadas pela Harvard Law School, pela Kennedy School of Government e pela School of Education. Espera-se que os outros institutos que formam a Universidade Harvard sigam o mesmo exemplo, e um “modelo Harvard” de acesso livre está sendo discutido amplamente no mundo acadêmico.

Seu caráter compulsório o distingue de outras políticas de acesso livre. Os membros dos institutos precisam conceder uma licença não exclusiva para Harvard, tornando seus artigos livremente acessíveis a partir de um repositório administrado pela biblioteca através do Office for Scholarly Communication. Todos podem optar pela não participação requisitando o documento adequado, que é concedido automaticamente. Em princípio, contudo, estão comprometidos a difundir os resultados de suas pesquisas de forma livre a qualquer pessoa com acesso à internet. O princípio da abertura fundamenta diversos outros projetos debatidos nos ensaios contidos neste livro. Não espero que meus leitores tenham qualquer interesse particular nos assuntos internos de Harvard, mas a biblioteca da universidade oferece um ponto ideal para lidar com problemas onipresentes no mundo do saber — como sustentar os custos exorbitantes dos periódicos, preservar textos “nascidos digitais”, defender o fair use de textos por estudantes e incluir websites e e-mail entre as fontes armazenadas para futuras pesquisas. Também há problemas práticos. Como continuar adquirindo livros impressos ao mesmo tempo que se avança na frente digital? Como desenvolver um novo modelo de negócios que liberte os periódicos científicos da especulação comercial de editoras? Como legitimar monografias eletrônicas aos olhos de conservadores convencidos de que um livro só pode existir em forma impressa? Essas questões se expandem por todo o futuro da difusão do saber. Espero que interessem a um público amplo, ainda que sejam apresentadas na forma em que me surgiram no meu cantinho de um campus universitário. Acredito que qualquer tentativa de analisar o futuro ao mesmo tempo que lidamos com problemas do presente deva ser norteada pelo estudo do passado. Assim, organizei esta antologia em três seções, começando por especulações sobre o mundo do livro que existirá em cinco ou dez anos e retrocedendo até polêmicas sobre questões atuais e passando dessas a reflexões sobre eras da informação mais antigas, com seus próprios sistemas de comunicação e difusão. Não que estes ensaios tenham sido produzidos para se encaixar numa estrutura pré-fabricada. Foram escritos ao sabor da ocasião, disparados a esmo contra alvos móveis. Se me permitem uma troca de metáfora, eu afirmaria que um ensaio pode ser usado para analisar um assunto da mesma forma que especialistas em metais perfuram uma substância para verificar sua composição. Ensaios de revisão de literatura são especialmente úteis neste sentido. A seção final deste livro contém três desses ensaios, que escrevi para examinar diferentes aspectos da história do livro: papel, o material básico da literatura do século XV ao XXI; bibliografia, a principal ferramenta para formar uma opinião a respeito de textos; e a leitura, o elemento mais fundamental e misterioso do processo de comunicação. A comunicação em si — a noção de estágios inter-relacionados na produção e consumo de livros — é o tema do último capítulo, que tenta caracterizar a história do livro em geral e ilustrar seus métodos a partir da pesquisa em arquivos. Acredito que a história do livro é um dos campos mais vitais das ciências humanas. Talvez seu sucesso expresse um fascínio por um mundo que perdemos, agora que a internet faz o papel impresso parecer arcaico. É possível, mas o estudo do livro não precisa se limitar a nenhuma tecnologia em especial. Retrocedendo às dimensões históricas do meu tema, espero ajudar o leitor a obter um panorama de longo alcance dos problemas atuais. Embora na minha opinião o estudo da história não renda lições que possam ser aplicadas diretamente em circunstâncias do presente, a imersão no passado é capaz de proporcionar uma perspectiva útil para eventos do presente e do futuro. Hoje as pessoas sentem o chão se movendo sob seus pés, tomando o rumo de uma nova era que será determinada por inovações tecnológicas. Enxergamos a mudança nos padrões comportamentais. Uma geração “nascida digital” está “sempre ligada”, conversando por celulares em toda parte, digitando mensagens instantâneas e participando de redes virtuais ou reais.

As pessoas mais jovens que passam por você na rua, ou que sentam ao seu lado no ônibus, ao mesmo tempo estão ali e não estão. Sacodem os ombros e batem os pés ao ritmo de uma música que somente elas podem escutar dentro do casulo de seus sistemas digitais. Parecem funcionar de maneira diferente dos mais velhos, cuja orientação em relação a máquinas surge de outra zona do subconsciente. Gerações mais velhas aprenderam a sintonizar girando botões em busca de canais; gerações mais jovens alternam canais de imediato, apertando um botão. A diferença entre girar e alternar pode parecer trivial, mas deriva de reflexos localizados em áreas profundas da memória cinética. Somos guiados pelo mundo mediante uma disposição sensorial chamada de Fingerspitzengefühl pelos alemães. Se você foi treinado a guiar uma caneta com seu indicador, observe a maneira como os jovens usam o polegar em seus celulares e perceberá como a tecnologia penetra o corpo e a alma de uma nova geração. Seria possível que esta mudança de Fingerspitzengefühl signifique que em breve os leitores vão parar de folhear livros? Ao que parece, as máquinas de leitura conquistaram um lugar no panorama da informação. Porém a máquina mais antiga de todas, o códice, continua a dominar o mercado de leitura, e sua fatia está inclusive aumentando. Segundo o Bowker’s Global Books in Print, 700 mil novos títulos foram publicados no mundo todo em 1998; em 2003 foram 859 mil; em 2007, 976 mil. Apesar da atual crise econômica, em pouco tempo 1 milhão de novos livros serão publicados a cada ano. A capacidade de resistência do códice à moda antiga ilustra um princípio geral da história da comunicação: uma mídia não toma o lugar de outra, ao menos a curto prazo. A publicação de manuscritos floresceu por muito tempo depois da invenção da prensa móvel por Gutenberg; os jornais não acabaram com o livro impresso; a televisão não destruiu o rádio; a internet não fez os telespectadores abandonarem suas tevês. Assim sendo, seria possível que mudanças tecnológicas ofereçam uma mensagem reconfortante de continuidade, apesar da proliferação de novas invenções? Não. A explosão dos modos eletrônicos de comunicação é tão revolucionária quanto a invenção da impressão com tipos móveis. Estamos tendo tanta dificuldade em assimilá-la quanto os leitores do século XV ao se confrontarem com textos impressos. Vejamos, por exemplo, uma carta de Niccolò Perotti, um classicista italiano, para Francesco Guarnerio. Foi escrita em 1471, menos de vinte anos depois da invenção de Gutenberg: Meu caro Francesco, venho elogiando a época em que vivemos por conta da dádiva grandiosa, realmente divina, do novo tipo de escrita que há pouco nos foi trazido da Alemanha. Vi um único homem imprimir num único mês tanto quanto poderia ser manuscrito por diversas pessoas num ano […]. Por este motivo, fui levado a crer que em pouco tempo contaríamos com uma quantidade tão vasta de livros que obra alguma seria impossível de obter por conta de raridade ou falta de recursos […]. Percebo, contudo — oh, esperanças falsas e tão humanas —, que as coisas tomaram um rumo bem diferente do que eu imaginava. Como agora qualquer um é livre para imprimir o que bem desejar, em geral desconsideram aquilo que é melhor e escrevem, meramente para se divertir, aquilo que ficaria melhor se fosse esquecido ou, melhor ainda, apagado de todos os livros. E, mesmo quando escrevem algo digno, distorcem e corrompem aquilo até um ponto em que bem melhor seria não dispor de tais livros em vez de ter mil exemplares espalhando falsidades pelo mundo todo. 1 Perotti soa como alguns dos críticos do Google Book Search, entre os quais me incluo, que lamentam as imperfeições textuais e inexatidões bibliográficas no “novo tipo de escrita” que nos foi trazido pela internet. O futuro, seja ele qual for, será digital.

O presente é um momento de transição, onde modos de comunicação impressos e digitais coexistem e novas tecnologias tornam-se obsoletas rapidamente. Já estamos assistindo ao desaparecimento de objetos antes familiares: a máquina de escrever, agora relegada a antiquários; o cartão-postal, uma mera curiosidade; a carta manuscrita, além das capacidades da maioria dos jovens, incapazes de escrever em letra cursiva; o jornal diário, extinto em muitas cidades; a livraria local, substituída por redes, por sua vez ameaçadas por distribuidores on-line como a Amazon. E a biblioteca? Esta pode parecer a instituição mais arcaica de todas. Ainda assim, seu passado guarda bons presságios para seu futuro. Bibliotecas nunca foram depósitos de livros. Sempre foram e sempre serão centros do saber. Sua posição central no mundo do saber as torna ideais para mediar os modos impresso e digital de comunicação. Livros também podem acomodar os dois modos. Impressos em papel ou armazenados em servidores, eles corporificam o saber, e sua autoridade deriva de algo que excede a mera tecnologia que os tornou possíveis. Devem parte de sua autoridade aos escritores, ainda que tenham conquistado respeito muito antes de o culto do autor tomar forma no século XVIII. Como insistem os historiadores do livro, autores escrevem textos, mas livros são produzidos por profissionais do livro, e esses profissionais exercem funções que vão muito além de manufaturar e difundir um produto. Editores são guardiões de portais, responsáveis por controlar o fluxo do conhecimento. Da variedade sem limites de material suscetível de ser tornado público, selecionam o que, acreditam, irá vender ou deve ser vendido, conforme suas habilidades profissionais e convicções pessoais. Os juízos dos editores, delineados por uma longa experiência no mercado das ideias, determinam aquilo que chega aos leitores, e numa era de sobrecarga de informação os leitores precisam confiar mais do que nunca nesse julgamento. Ao selecionar textos, editá-los, permitir sua legibilidade e trazê-los à atenção dos leitores, os profissionais do livro fornecem serviços que sobreviverão a todas as mudanças tecnológicas. Assim sendo, é com prazer que ofereço estes ensaios em forma de códice, como palavras impressas sobre papel, e fico feliz que minha editora, PublicAffairs, também vá disponibilizá-los na internet e em áudio. A maior parte destes ensaios foi originalmente publicada na New York Review of Books, cujo editor, Robert Silvers, vem corrigindo minha prosa e afiado meus pensamentos há quase quarenta anos. Gostaria de expressar minha gratidão a ele e a Peter Osnos e Clive Priddle, da PublicAffairs, cujas habilidades foram cruciais para transformar estes ensaios em livro. 1 Gostaria de agradecer a Bernard Rosenthal pela gentileza de me enviar a tradução deste trecho para o inglês.

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