| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Quinta-Coluna – Ernest Hemingway

A Guerra Civil Espanhola estourou em 17 de julho de 1936, quando forças comandadas pelo General Francisco Franco, de tendência fascista, se levantaram contra o governo constitucional republicano. Um dos focos principais da guerra, Madri sofreu um cerco de três anos, com alguns dos mais intensos combates do conflito. A história conta que quatro colunas das forças golpistas avançaram sobre Madri e a mantiveram sob ataque. Havia, no entanto, uma força agindo dentro da cidade, transmitindo informações — indicando alvos para os bombardeios —, realizando atos de sabotagem e assassinatos. Era a chamada Quinta-Coluna, termo que passou a designar grupos ou indivíduos que atuam sub-repticiamente, num país ou num partido, a serviço de seus inimigos. A Quinta-Coluna, única peça de teatro escrita por Hemingway, se passa nessa Madri cercada e submetida ao castigo dos canhões. Como muitos espíritos progressistas ao redor do mundo, Hemingway, profundamente antifascista, era simpático aos republicanos espanhóis e chegou mesmo, segundo se conta, a atuar, se não na frente de batalha, no treinamento militar aos combatentes que defendiam o governo. O caso de Hemingway com a Espanha não era somente político, mas também pessoal e afetivo. O seu amor pelo país já ficara mais do que explícito em romances como O sol também se levanta —seu primeiro livro e também aquele que o apresentou com enorme sucesso à crítica mundial e ao público, em 1926 — e seria afirmado numa de suas obras mais populares, Por quem os sinos dobram, escrita em 1939-1940, já sob o impacto da derrota dos republicanos e das atrocidades cometidas pelos franquistas — como o massacre-bombardeio de Guernica, uma vila de pescadores usada para testar a eficácia da força aérea de Hitler, grande aliado de Franco, e o assassinatoexecução do poeta Federico García Lorca. A Espanha foi a pátria que Hemingway adotou, apaixonado pela alegria do povo, tão solar e cheia de vitalidade, numa depressiva Europa pós-Primeira Guerra, e também pelas touradas, pela comida e mesmo pelo idioma espanhol. Vê-la tomada pelos fascistas causava-lhe uma dor extrema. Tão íntima era sua ligação com o país que a Guerra Civil até acabou com um casamento do escritor. Pauline Pfeiffer era a segunda esposa de Hemingway e católica devota. Até pelo tradicionalismo da sua família, apoiava o conservador Francisco Franco. Conta-se que as desavenças do casal começaram por causa dessa divergência política, e de fato o divórcio veio em 1940, logo após a guerra. Para muitos, Hemingway passou a imagem do homem irrequieto, que só se sentia bem quando junto da violência — fosse a das caçadas ou das pescarias em alto-mar, fosse até mesmo a das guerras. No entanto, como em outros livros seus em que a guerra é cenário ou pano de fundo, a impressão mais forte é que ele abominava a matança indiscriminada e a corrosão de valores causada pelo instinto de sobreviver em ambiente tão brutal. Mesmo seus guerreiros — aqui Philip, o protagonista de A Quinta-Coluna (como Robert Jordan, de Por quem os sinos dobram, o Coronel Cantwell, de Do outro lado do rio, entre as árvores, e Henry, de Adeus às armas) — formam umgrupo de protagonistas-desiludidos, ou melhor, exauridos pela guerra. Todos, em algum momento, confessam a alguém — na maioria dos casos à mulher que os acolhe amorosamente — ter testemunhado horrores. Alguns, através desse amor, se restauram intimamente; outros não têm mais saída. Neles não há mais idealismo; nenhum deles cultua o heroísmo sob fogo. Nenhum fala de uma guerra de episódios grandiosos; em nenhum momento há apologias, nem do nacionalismo nem do desempenho individual. O que resta? O vazio. Um vazio interior, onde deveria, quem sabe, haver uma alma, ou pelo menos um sentido de humanidade. O que há é um nada.


Esse nada corrosivo, que continua devorando a vida, impedindo o amor, impedindo o ser de amar e de se entregar ao amor. Há o fantasma da alma a atormentar os indivíduos. Philip e os demais personagens estão num hotel em Madri e a cidade é submetida a bombardeios incessantes. Mata-se e morre-se com displicência. Mesmo os que deveriam ser os heróis da história (mas não o podem ser até porque não possuem mais alma) cometem atos que, aos seus próprios olhos, são os mesmos que os cometidos pelos inimigos. Bem e Mal fundem-se, são indiscerníveis, e tudo se torna uma questão de sobreviver ou não. Então, ao que se apegar? Note-se que até mesmo os diálogos parecem, em sua maioria, privados de espírito ou de sentido. Há sentido em viver mais um dia? Para quê? E as falas então se tornam belicosas, um duelo, mas o que dizemnunca é tão importante quanto o que apenas tacitamente revelam: a dor, a privação, o vácuo no centro de tudo, o fantasma atormentado. De certo modo, essa perda de rumos é o que torna A Quinta-Coluna e outras obras de guerra de Hemingway universais e capazes de ultrapassar as circunstâncias em que foram escritas. Aqui não se fala somente de uma guerra que aconteceu no século passado, entre as forças comandadas por umgeneral já há muito transformado em menos do que poeira e aquelas motivadas por ideais que se esfarelaram nas décadas seguintes. Aqui se focaliza, com a potência que só um Hemingway é capaz de conferir a um romance, o ser humano em meio a uma turbulência que envolve o amor, a vizinhança da morte, ou mesmo sua iminência, a busca de significados para a vida, o enfrentamento de dilemas que tramam, exatamente, sua desumanização. Em qualquer tempo e lugar, é esse o âmago da melhor Literatura. Ernest Hemingway nasceu nos Estados Unidos em 21 de julho de 1899. Quando sua obra começou a se tornar conhecida do público, virou a referência de uma geração ainda chocada pela carnificina sem precedentes da Primeira Guerra Mundial — na qual Hemingway lutou, como voluntário, na Itália. Ganhou o Prêmio Pulitzer e o Nobel com O velho e o mar, respectivamente em1953 e 1954. Em 2 de julho de 1961, suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça. Admirado por escritores como Gabriel García Márquez e muitos outros, que o chamavam de mestre, Hemingway, cuja obra, a exemplo de A Quinta-Coluna, mostra forte referência autobiográfica, é umdos escritores mais populares e mais conhecidos do século XX. Escritores e críticos destacam seu estilo contundente, a frase trabalhada para parecer não trabalhada, a contenção — seus personagens raramente dão vazão à própria angústia, não a esgotam, mas sim a transmitem, ainda, em carne viva — que faz o teor dramático explodir, como bomba de efeito retardado, nas entranhas do seu leitor. E, particularmente, reconhecem em Hemingway uma diabólica habilidade para cunhar diálogos. Todos esses elementos somados só poderiam fazer — e fazem — de A Quinta-Coluna mais uma leitura imperdível da obra de Ernest Hemingway. Luiz Antonio Aguiar Prefácio Esta peça foi escrita no outono e no início do inverno de 1937, quando todos estávamos prevendo uma grande ofensiva. Havia três importantes projetos de ataque para o Exército do Centro naquele ano, um deles tendo por objetivo a tomada de Brunete. Levado a termo, começou brilhantemente, mas resultou numa batalha terrivelmente sangrenta e inútil. Esperávamos agora que o primeiro dos outros dois se iniciasse. Isso acabou não ocorrendo, e me vali desse intervalo para escrever a peça.

Todos os dias éramos bombardeados pelos canhões postados à retaguarda de Leganés, nos contrafortes das colinas de Garabitas, e o Hotel Florida, onde vivíamos e trabalhávamos, foi atingido por mais de trinta e oito projéteis de grande poder explosivo. Por isso mesmo, se não gostarem da peça, posso botar a culpa nesse bombardeio infernal; se a acharem boa, direi que aqueles obuses de certa maneira me inspiraram a escrevê-la. Quando me deslocava até a linha de frente, distante não mais do que mil e quinhentos metros de nosso hotel ao seu ponto mais próximo, eu sempre deixava os originais escondidos e protegidos nas dobras de meu colchão de campanha. Ao regressar, era muito agradável encontrar intactos tanto o quarto quanto eles. Terminei sua redação e os remeti para fora do país pouco antes da tomada de Teruel. É óbvio que escrevi a peça para tê-la produzida, mas um produtor faleceu logo depois de ter assinado um contrato comigo e viajado para a Califórnia a fim de escolher o elenco. O seguinte, tendo igualmente assinado um acordo, enfrentou problemas na hora de levantar financiamento. Relendo minha peça, achei que ela resistia bem à leitura, independentemente do que pudesse ocorrer quanto à sua montagem teatral. Um dia, quem sabe, aparecerá alguém que se disponha a enfrentar os problemas de sua produção. O título da peça tem a ver com a afirmação das forças insurretas de que havia quatro colunas militares avançando na direção de Madri, no outono de 1936, e uma quinta, integrada por simpatizantes, que já se encontrava na capital e atacaria seus defensores pela retaguarda. Se muitos membros dessa Quinta-Coluna já estão mortos hoje, é oportuno recordar que morreram em refregas onde demonstraram ser tão perigosos e determinados quanto qualquer uma das baixas sofridas pelas outras quatro colunas. As forças inimigas que avançavam sobre Madri não tinham o hábito de poupar seus prisioneiros. Da mesma forma, os membros da Quinta-Coluna que fossem apanhados dentro da cidade nas semanas iniciais da Guerra Civil eram também eliminados sumariamente. Com o correr do tempo, passaram a ser submetidos à Justiça e condenados a trabalhos forçados ou à morte, dependendo da gravidade dos crimes que houvessem cometido contra a República. Nos primeiros dias, entretanto, eram sempre fuzilados. Mereciam isso, pelas regras de luta, e por certo o esperavam. Alguns defensores fanáticos da República Espanhola — note-se que fanáticos jamais conseguemtrazer novos adeptos para as causas que defendem — criticarão minha peça pelo fato de ela deixar claro que os membros da Quinta-Coluna eram fuzilados. Dirão também (e já o disseram muitas vezes) que ela não retrata adequadamente a nobreza e a dignidade da causa do povo espanhol. Emverdade, nem tenta fazer isso, pois muitas peças e novelas terão de ser escritas para alcançar tal propósito. As melhores delas só poderão vir a público quando a Guerra Civil tiver acabado. Em suma: esta peça se ocupa apenas da contraespionagem em Madri, tem os defeitos de umtexto escrito durante os tempos de luta e, se é que tem alguma moral da história, comprova ser impossível para alguém que pertença a determinadas organizações a manutenção de um mínimo de vida particular. Uma das personagens é uma moça chamada Dorothy, mas seu nome bem poderia ser Nostalgia. Bem, talvez seja melhor que você comece logo a ler a peça e que eu termine de falar sobre ela. Só quero acrescentar que se os defeitos encontráveis são frutos de sua redação debaixo de fogo, tal circunstância lhe garantiu certa medida de vitalidade. Mas caberá a você, que vai lê-la, decidir sobre tal ponto.

Sua perspectiva será muito melhor do que a minha.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |