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A Rainha Descalca – Ildefonso Falcones

No momento em que ia pôr pé no cais de Cádiz, Caridad hesitou. Encontrava-se justo no final da passarela da falua que os havia desembarcado d’ A Rainha, a nau da armada que havia acompanhado as seis embarcações mercantes de registro com valiosas mercadorias do outro lado do oceano. A mulher ergueu os olhos para o sol de inverno que iluminava o bulício e a azáfama que se vivia no porto: uma das embarcações mercantes que haviam navegado com eles desde Havana estava sendo descarregada. O sol se infiltrou pelas frestas de seu surrado chapéu de palha e a ofuscou. O escarcéu a sobressaltou, e ela se encolheu assustada, como se os gritos fossem contra ela. – Não fique aí parada, negra! – espetou-a o marinheiro que a seguia ao mesmo tempo que se adiantava a ela sem contemplação. Caridad cambaleou e esteve a ponto de cair na água. Outro homem que ia atrás dela fez menção de também adiantar-se a ela, mas então a mulher saltou desajeitadamente ao cais, se afastou e voltou a parar enquanto parte da marinhagem continuava desembarcando entre risos, pilhérias e todo tipo de apostas impudentes acerca de qual seria a fêmea que os faria esquecer a longa travessia oceânica. – Desfruta de tua liberdade, negra! – gritou outro homem quando passou junto a ela, ao mesmo tempo que se permitia aplicar-lhe uma surda palmada nas nádegas. Alguns de seus companheiros riram. Caridad nem sequer se mexeu, tinha o olhar fixo na longa e suja coleta que, dançando nas costas do marinheiro e roçando seu camisão esfarrapado ao ritmo de umcaminhar instável, se afastava em direção à porta de Mar. “Livre?”, conseguiu perguntar-se então. Que liberdade? Observou, para além do cais, as muralhas, onde a porta de Mar dava acesso à cidade: grande parte dos mais de quinhentos homens que compunham a tripulação d’ A Rainha se ia aglomerando diante da entrada, onde um exército de funcionários – alcaides, cabos e interventores – os revistava em busca de mercadorias proibidas e os interrogava acerca da derrota das naus, para o caso de alguma delas se ter separado do comboio e de sua rota para contrabandear e burlar a fazenda real. Os homens esperavam impacientes que se cumprissem os trâmites rotineiros; os mais afastados dos funcionários, amparados na multidão, exigiam aos gritos que os deixassem passar, mas os inspetores não cediam. A Rainha, majestosamente fundeada no caño do Trocadero, havia transportado em seus porões mais de dois milhões de pesos e quase outros tantos em marcos de prata lavrada, além dos tesouros das Índias, e de Caridad e don José, seu senhor. Maldito don José! Caridad havia cuidado dele durante a travessia. “Peste das naus”, disseram que ele tinha. “Morrerá”, asseguraram também. E em verdade chegou sua hora após uma lenta agonia ao longo da qual seu corpo se foi consumindo dia a dia entre tremendas inchações, febres e hemorragias. Durante um mês, senhor e escrava permaneceram encerrados num pequeno camarote de ar viciado e com uma só rede, a popa, que don José, após pagar com seu bom dinheiro, conseguiu que o capitão lhe construísse com tabuões, roubando espaço ao que era de uso comum dos oficiais. “Eleggua, faz que sua alma não descanse jamais, que vague errante”, havia desejado Caridad percebendo no reduzido espaço a poderosa presença do Ser Supremo, o Deus que rege o destino dos homens. E, como se seu senhor a houvesse ouvido, suplicou-lhe compaixão com seus arrepiantes olhos biliosos ao mesmo tempo que estendia a mão em busca do calor da vida que sabia se lhe escapava. Só comele no camarote, Caridad lhe negou esse consolo. Por acaso não havia estendido também ela a mão quando a separaram de seu pequeno Marcelo? E que havia feito então o senhor? Ordenar ao capataz da veiga que a segurasse e gritar ao escravo negro que levasse o pequeno. – E fá-la calar-se! – acrescentou na esplanada diante da casa-grande, onde os escravos se haviamreunido para saber quem seria seu novo senhor e que sorte os aguardava a partir de então.


– Não suporto… Don José calou-se de repente. O assombro dos escravos era evidente em seus rostos. Caridad havia conseguido safar-se do capataz com um inconsciente bofetão e fez menção de correr para seu filho, mas logo se deu conta de sua imprudência e se deteve. Durante uns instantes só se ouviram os agudos e desesperados gritos de Marcelo. – Quer que a açoite, don José? – perguntou o capataz enquanto voltava a agarrar Caridad com umbraço. – Não – decidiu este após pensar. – Não quero levá-la machucada para a Espanha. E aquele negro grande, chamado Cecilio, a soltou e arrastou o menino para a cabana após um severo gesto do capataz. Caridad caiu de joelhos, e seu choro se misturou com o do menino. Essa foi a última vez que viu seu filho. Não a deixaram despedir-se dele, não lhe permitiram… – Caridad! Que fazes aí parada, mulher? Ao ouvir seu nome, voltou à realidade e entre o bulício reconheceu a voz de don Damián, o velho capelão d’ A Rainha, que também havia desembarcado. De imediato deixou cair sua trouxa, se descobriu, baixou o olhar e o fixou no surrado chapéu de palha, que ela começou a apertar entre as mãos. – Não podes ficar no cais – continuou o sacerdote ao mesmo tempo que se aproximava dela e a segurava pelo braço. O contato durou um instante; o religioso o rompeu aturdido. – Vamos – instou-a com certo nervosismo –, acompanha-me. Percorreram a distância que os separava da porta de Mar: don Damián carregando um pequeno baú, Caridad com sua trouxa e o chapéu nas mãos, sem afastar o olhar das sandálias do capelão. – Deem passagem a um homem de Deus – exigiu o sacerdote aos marinheiros que se apinhavamdiante da porta. Pouco a pouco a multidão foi afastando-se para dar passagem. Caridad o seguia, arrastando os pés descalços, negra como o ébano, cabisbaixa. O simples camisão longo e cinzento que lhe servia de roupa, de pano grosso e tosco, não conseguia ocultar a mulher forte e bem-formada, tão alta como alguns dos marinheiros que levantaram o olhar para reparar em seu duro cabelo negro encarapinhado, enquanto outros o perdiam em seus peitos, grandes e firmes, ou em suas voluptuosas cadeiras. O capelão, sem deixar de andar, limitou-se a levantar a mão quando ouviu assobios, comentários desavergonhados e um que outro convite atrevido. – Sou o padre Damián García – apresentou-se o sacerdote estendendo seus papéis a um dos alcaides uma vez superada a marinhagem –, capelão da nau de guerra A Rainha, da armada de sua majestade. O alcaide examinou os documentos. – Vossa Reverendíssima me permitiria inspecionar o baú? – Bens pessoais… – respondeu o sacerdote enquanto o abria –, as mercadorias se achamdevidamente registradas nos documentos. O alcaide anuiu enquanto remexia no interior do baú.

– Algum contratempo na viagem? – perguntou o oficial sem olhar para ele, sopesando uma barrinha de tabaco. – Algum recontro com naus inimigas ou alheias à frota? – Nenhum. Tudo como estava previsto. O alcaide anuiu. – Sua escrava? – inquiriu apontando para Caridad depois de dar por finalizada a inspeção. – Não consta nos papéis. – Ela? Não. É uma mulher livre. – Não o parece – afirmou o alcaide plantando-se diante de Caridad, que apertou ainda mais sua trouxa e seu chapéu de palha. – Olha-me, negra! – resmungou o oficial. – Que escondes? Alguns dos outros oficiais que inspecionavam a marinhagem pararam seu trabalho e se voltaram para o alcaide e a mulher que permanecia cabisbaixa diante ele. Os marinheiros que lhes haviam aberto espaço se aproximaram. – Nada. Não esconde nada – protestou don Damián. – Ora, padre. Todos aqueles que não se atrevem a olhar para o rosto de um alcaide ocultam algo. – Que vai a ocultar esta desgraçada? – insistiu o sacerdote. – Caridad, dá-lhe teus papéis. A mulher remexeu na trouxa em busca dos documentos que lhe havia entregado o escrivão da embarcação enquanto don Damián continuava falando. – Embarcou em Havana junto com seu senhor, don José Fidalgo, que pretendia regressar à sua terra antes de morrer e que faleceu durante a travessia, Deus o tenha em sua glória. Caridad entregou seus documentos, amassados, ao alcaide. – Antes de falecer – prosseguiu don Damián–, como é usual nos navios de sua majestade, don José fez testamento e ordenou a libertação de sua escrava Caridad. Aí está a escritura de manumissão dada pelo escrivão da capitânia. “Caridad Fidalgo” – havia escrito o escrivão tomando o sobrenome do senhor morto –, “também conhecida como Cachita; escrava negra da cor do ébano toda ela, sã e de forte constituição, de cabelo negro encarapinhado e de aproximadamente vinte e cinco anos de idade.” – Que levas nessa bolsa? – perguntou o alcaide após ler os documentos que asseguravam a liberdade de Caridad.

A mulher abriu a trouxa e lhe mostrou. Uma velha manta e um casaco de flanela… Tudo quanto possuía, a roupa que o senhor lhe dera nas últimas temporadas: o casaco, no inverno anterior; a manta, dois invernos atrás. Escondidos entre as peças de roupa, levava vários charutos que havia conseguido racionar na embarcação depois de roubá-los de don José. “E se os descobrem?”, temeu. O alcaide fez um gesto de inspecionar a trouxa, mas, ao ver as roupas velhas, fechou a cara. – Olha-me, negra – exigiu. O tremor que percorreu o corpo de Caridad se fez patente para quantos presenciavam a cena. Nunca havia olhado para um homem branco quando se dirigia a ela. – Está assustada – intercedeu don Damián. – Eu disse que me olhe. – Fá-lo – pediu-lhe o capelão. Caridad ergueu o rosto, arredondado, de lábios grossos e carnosos, nariz chato e pequenos olhos pardos que tentaram olhar para além do alcaide, para a cidade. O homem franziu o cenho e buscou infrutiferamente o fugidio olhar da mulher. – O seguinte! – cedeu de repente, rompendo a tensão e originando uma avalanche de marinheiros. Don Damián, com Caridad colada a suas costas, cruzou a porta de Mar, um passadiço ladeado por duas torres ameadas, e se internou na cidade. Atrás, no Trocadero, ficavam A Rainha, a nau de duas pontes e mais de setenta canhões em que haviam navegado desde Havana, e as seis embarcações mercantes que ela havia escoltado com seus porões repletos de produtos das Índias: açúcar, tabaco, cacau, gengibre, salsaparrilha, anil, cochonilha, seda, pérolas, tartaruga… prata. A viagem havia sido um sucesso, e Cádiz os havia recebido com repique de sinos. A Espanha se achava em guerra com a Inglaterra; as Frotas das Índias, que até fazia alguns anos cruzavam o oceano fortemente escoltadas por navios da armada real, haviam deixado de operar, assim que o comércio se desenvolveu com as naus de registro, embarcações mercantes particulares que conseguiam permissão real para a travessia. Por isso a chegada das mercadorias e do tesouro, tão necessário para os cofres da fazenda espanhola, havia despertado na cidade um ambiente festivo que se vivia em todas as suas partes. Ao chegar à rua del Juego de Pelota, deixando para trás a igreja de Nossa Senhora do Povo e a porta de Mar, don Damián se afastou das multidões de marinheiros, soldados e mercadores, e se deteve. – Que Deus te acompanhe e te proteja, Caridad – desejou-lhe voltando-se para ela após deixar o baú no chão. A mulher não respondeu. Havia enfiado o chapéu de palha até as orelhas, e o capelão foi incapaz de ver-lhe os olhos, mas os imaginou fixos no baú, ou em suas sandálias, ou… – Tenho coisas que fazer, entendes? – tentou desculpar-se. – Procura algum trabalho. Esta é uma cidade muito rica.

Don Damián acompanhou suas palavras estendendo a mão direita, com a qual roçou o antebraço de Caridad; então foi ele quem baixou o olhar por um segundo. Ao erguê-lo, topou os pequenos olhos pardos de Caridad cravados nele, tal como nas noites de travessia, quando após a morte de seu senhor ele se havia encarregado da escrava e a havia escondido da marinhagem por ordem do capitão. Revirou-se-lhe o estômago. “Não a toquei”, repetiu pela enésima vez a si mesmo. Nunca lhe havia posto a mão, mas Caridad o olhara com olhos inexpressivos e ele… Ele não pôde evitar masturbar-se por baixo da roupa diante da visão daquela fêmea esplendorosa. Assim que faleceu don José, cumpriu-se o rito do funeral: rezaram-se três responsos, e seu cadáver foi lançado pela borda da embarcação dentro de um saco e com duas bilhas d’água amarradas aos pés. Então o capitão ordenou que se desmontasse aquele camarote e que o escrivão assegurasse os bens do defunto. Don José era o único passageiro da capitânia; Caridad, a única mulher a bordo. – Reverendo – disse ao capelão depois de dar aquela ordem –, torno-o responsável por manter a negra afastada da tripulação. – Mas eu… – tentou opor-se don Damián. – Embora não seja sua, pode aproveitar a comida embarcada pelo senhor Fidalgo e alimentála com ela – sentenciou o oficial após não fazer caso ao protesto. Don Damián manteve Caridad encerrada em seu diminuto camarote, onde só havia lugar para a rede que pendia de lado a lado e que durante o dia ele recolhia e enrolava. A mulher dormia no chão, a seus pés, debaixo da rede. Nas primeiras noites, o capelão se refugiou na leitura dos livros sagrados, mas pouco a pouco seu olhar foi seguindo os raios da candeia que, como se tivessem vontade própria, pareciam desviar-se das folhas de seus pesados livros para empenhar-se em iluminar a mulher que jazia encolhida tão perto dele. Lutou contra as fantasias que o assaltavam à vista das pernas de Caridad quando escapavam de sob a manta com que se cobria, de seus peitos, subindo e baixando ao ritmo de sua respiração, de suas nádegas. E, no entanto, quase involuntariamente, começou a masturbar-se. Talvez fosse o ranger dos madeiros de que pendia a rede, talvez a tensão que veio a acumular-se em tão reduzido espaço, o fato é que Caridad abriu os olhos e toda a luz da candeia se centrou neles. Don Damián sentiu que enrubescia e ficou parado um instante, mas seu desejo se multiplicou diante do olhar de Caridad, o mesmo olhar inexpressivo com que agora recebia suas palavras. – Dá-me ouvidos, Caridad – insistiu. – Procura trabalho. Don Damián pegou o baú, deu-lhe as costas e retomou seu caminho. “Por que me sinto culpado?”, perguntou-se enquanto fazia uma parada para mudar o baú de mão. Podia havê-la forçado, desculpou-se como sempre que lhe atenazava a culpa. Era somente uma escrava. Talvez… talvez nem sequer lhe houvesse sido preciso recorrer à violência.

Por acaso todas aquelas escravas negras não eram mulheres dissolutas? Don José, seu senhor, havia-o reconhecido em confissão: ia para a cama com todas elas. – Com Caridad tive um filho – revelou-lhe –, talvez dois, mas não, não creio; o segundo, aquele garoto desajeitado e bobo, era tão escuro como ela. – Arrepende-se? – perguntou-lhe o sacerdote. – De ter filhos com as negras? – remexeu-se o dono de veiga. – Padre, vendia os crioulinhos numtrapiche próximo, de propriedade dos padres. Eles nunca se preocuparam com minha alma pecadora na hora de comprá-los. Don Damián se dirigia à catedral de Santa Cruz, do outro lado da estreita língua de terra em que se assentava a cidade amuralhada fechando a baía. Antes de entrar numa rua, virou o rosto e entreviu a figura de Caridad à passagem da multidão: havia-se afastado até dar com as costas num muro onde permanecia parada, alheia ao mundo. “Vai arrumar-se”, disse-se forçando o passo e entrando na rua. Cádiz era uma cidade rica em que podiam encontrar-se comerciantes e mercadores de toda a Europa e onde o dinheiro corria aos montes. Era uma mulher livre e portanto tinha de aprender a viver em liberdade e trabalhar. Percorreu um longo trecho e, quando chegou a um ponto em que as obras da nova catedral, perto da de Santa Cruz, se divisavam com nitidez, parou. Em que ia a trabalhar aquela pobre desgraçada? Não sabia fazer nada, além de labutar numa plantação de tabaco, onde havia vivido desde os dez anos, quando, procedente do reino dos lucumis, no golfo da Guiné, os mercadores de escravos ingleses a haviam comprado por cinco míseras varas de tecido para revendê-la no ávido e necessitado mercado cubano. Assim havia contado o próprio don José Fidalgo ao capelão quando este se interessou pela razão por que a havia escolhido para a viagem. – É forte e desejável – acrescentou o dono de veiga piscando-lhe um olho. – E ao que parece já não é fértil, o que sempre é uma vantagem uma vez fora da plantação. Depois de dar à luz aquele menino tonto… Don José lhe havia explicado também que era viúvo e que tinha um filho graduado que havia estudado em Madri, aonde se dirigia para viver seus últimos dias. Em Cuba possuía uma rentável plantação de tabaco numa veiga perto de Havana que ele mesmo trabalhava com a ajuda de uma vintena de escravos. A solidão, a velhice e a pressão dos açucareiros por obter terras para aquela florescente indústria o haviam levado a vender sua propriedade e voltar à pátria, mas a peste o atacou aos vinte dias de navegação e se encarniçou com sanha em sua natureza débil e doentia. A febre, os edemas, a pele manchada e as gengivas sangrantes levaram o médico a desenganar o paciente. Então, como era obrigatório nas naus do rei, o capitão d’ A Rainha ordenou ao escrivão que fosse ao camarote de don José para dar fé de suas últimas vontades. – Concedo a liberdade à minha escrava Caridad – sussurrou o enfermo depois de ordenar um par de doações piedosas e de dispor da totalidade de seus bens em favor daquele filho com que não se reencontraria. A mulher nem sequer chegou a curvar seus grossos lábios numa menção de satisfação ao saber que estava livre, recordou o sacerdote parado na rua. “Não falava!” Don Damián recordou seus esforços por ouvir Caridad entre as centenas de vozes que rezavam nas missas dominicais no convés, ou seus tímidos sussurros nas noites, antes de deitar-se, quando ele a obrigava a rezar. Em que ia trabalhar aquela mulher? O capelão era consciente de que quase todos os escravos que obtinham a liberdade terminavam trabalhando para seus antigos senhores por um mísero salário com que dificilmente chegavam a cobrir necessidades que antes, como escravos, tinham garantidas, ou então acabavam condenados a pedir esmola nas ruas, brigando com milhares de mendigos.

E estes haviam nascido na Espanha, conheciam a terra e sua gente, alguns eram espertos e inteligentes. Como poderia mover-se Caridad numa cidade grande como Cádiz? Suspirou e passou a mão repetidas vezes no queixo e no pouco cabelo que lhe restava. Depois deu meia-volta, resfolegou ao levantar de novo o baú e, com ele às costas, se preparou para desfazer o caminho andado. “Que fazer agora?”, perguntou-se. Podia… podia intermediar para que trabalhasse na fábrica de tabaco, disso, sim, ele sabia. “É muito boa com as folhas; trata-as com carinho e delicadeza, como deve fazer-se, e sabe reconhecer as melhores e torcer bons charutos”, havia-lhe dito don José, mas isso significaria pedir favores e que se soubesse que ele… Não podia arriscar-se a que Caridad contasse o que acontecera na embarcação. Nos galpões da fábrica trabalhavam cerca de duzentas charuteiras que não paravam de cochichar e criticar enquanto faziam os pequenos charutos gaditanos. Encontrou Caridad ainda colada ao muro, parada, desamparada. Um grupo de pirralhos zombava dela, diante da passividade das pessoas que continuavam entrando e saindo do porto. Don Damián se aproximou justo quando um dos garotos se preparava para atirar-lhe uma pedra. – Parado! – gritou. Um rapaz deteve seu braço; a jovem se descobriu e baixou o olhar. Caridad se afastou do grupo de sete passageiros que haviam embarcado na nau que ia remontar o rio Guadalquivir até Sevilha e, cansada, tentou acomodar-se entre o monte de volumes dispostos a bordo. A nau era uma tartana de um só mastro e bom porte que havia arribado a Cádiz com um carregamento do valioso óleo da veiga sevilhana. Da baía de Cádiz navegaram em cabotagem até Sanlúcar de Barrameda, onde se encontra a desembocadura do Guadalquivir. Diante das costas de Chipiona, junto a outras tartanas e charangas, prepararam-se para esperar a preamar e ventos propícios para superar a perigosa barra de Sanlúcar, os temíveis baixios que haviam convertido a zona num cemitério de embarcações. Só quando coincidiam todas as circunstâncias precisas para enfrentar a barra, os capitães se atreviama isso. Depois remontariam o rio aproveitando o impulso da maré, que se deixava sentir até às cercanias de Sevilha. – Deu-se o caso de naus que tiveram de esperar até cem dias para cruzar a barra – dizia ummarinheiro que conversava com um passageiro luxuosamente ataviado, o qual de imediato desviou um olhar preocupado para Sanlúcar e suas espetaculares marismas, como se suplicasse que não tivesse a mesma sorte. Caridad, sentada entre uns sacos, contra a borda da embarcação, deixou-se levar pelo cabeceio da tartana. O mar mostrava uma calma tensa, a mesma que a que se apreciava em todos os que se achavam na nau, igual à que imperava nas demais embarcações. Não era tão somente a espera, era também o temor de um ataque por parte de ingleses ou corsários. O sol começou a declinar ao mesmo tempo que as águas adquiriam uma ameaçadora cor metálica, e as inquietas conversas de tripulantes e passageiros decaíram até reduzir-se a sussurros. A crueza do inverno se desatou com o ocaso, e a umidade invadiu Caridad, aumentando a sensação de frio. Tinha fome e estava cansada.

Estava com o casaco, tão cinza e desbotado como seu vestido, ambos de flanela grosseira, em contraste com os demais passageiros que haviam embarcado com ela e que exibiam a seu bel-prazer luxuosas roupas de cores vivas. Notou que lhe batiam os dentes e que estava com a pele arrepiada, de modo que buscou a manta na trouxa. Seus dedos roçaram um charuto, e ela o apalpou com delicadeza recordando seu aroma, seus efeitos. Necessitava dele, ansiava perder os sentidos, esquecer o cansaço, a fome… e até sua liberdade. Enrolou-se na manta. Livre? Don Damián a havia subido àquela embarcação, a primeira que havia encontrado preparada para partir do porto de Cádiz. – Vai para Sevilha – disse-lhe depois de acertar o preço com o capitão e pagá-lo de seu bolso –, para Triana. Uma vez ali, procure o convento das Mínimas e diga que está ali de minha parte. Caridad haveria gostado de ter a coragem de perguntar-lhe o que era Triana ou como encontraria aquele convento, mas ele quase a empurrou para que embarcasse, nervoso, olhando para um lado e para outro, como se temesse que alguém os visse juntos. Cheirou o charuto, e sua fragrância a transportou a Cuba. Ela só sabia onde estavam sua cabana, e a plantação, e o trapiche a que ia todo domingo com os demais escravos para ouvir missa e depois cantar e dançar até a extenuação. Da cabana à plantação e da plantação à cabana, um dia após outro, um mês após outro, um ano após outro. Como ia encontrar um convento? Encolheu-se contra a borda e pressionou as costas contra a madeira em busca do contato com uma realidade que havia desaparecido. Quem eram aqueles estranhos? E Marcelo? Que haveria sido dele? Como estaria sua amiga María, a mulata com quem fazia os coros? E os demais? Que fazia de noite numa embarcação estranha, num país desconhecido, a caminho a uma cidade que nem sequer sabia que existia? Triana? Nunca havia ousado perguntar nada aos brancos. Ela sempre sabia o que tinha de fazer! Não necessitava perguntar. À lembrança de Marcelo, umedeceram-se-lhe os olhos. Tenteou em sua trouxa em busca da pederneira, do fuzil e da isca para fazer fogo. Permitiriam que fumasse? Na veiga podia fazê-lo, era algo habitual. Havia chorado Marcelo durante a travessia. Até… até havia sentido a tentação de lançar-se ao mar para pôr fim àquele constante sofrimento. “Afasta-te daí, negra! Queres cair na água?”, advertiu-lhe um dos marinheiros. E ela obedeceu e se separou da borda. Haveria tido coragem para jogar-se se não houvesse aparecido aquele marinheiro? Não quis pensar no assunto uma vez mais; em lugar disso, observou os homens da tartana: via-os nervosos. A preamar havia começado, mas os ventos não a acompanhavam. Alguns fumavam.

Bateu com destreza o fuzil sobre a pederneira, e a isca não tardou a acender-se. Onde encontraria as árvores com cuja casca e fungos fabricava a isca? Acendeu o charuto, aspirou profundamente e pensou que tampouco sabia onde poderia conseguir tabaco. A primeira puxada tranquilizou sua mente. As duas seguintes conseguiram que seus músculos se relaxassem, e caiu numa tênue tonteira. – Negra, convidas-me a fumar? Um grumete se havia acocorado diante dela, tinha o rosto sujo mas vivaz e agradável. Por alguns instantes Caridad se deixou embalar pelo sorriso com que o rapaz esperava sua resposta e só viu seus dentes brancos, iguais aos de Marcelo quando se lançava em seus braços. Havia tido outro filho, um mulato nascido do senhor, mas don José o vendeu assim que deixou de necessitar dos cuidados do par de velhas que se ocupavam dos filhos das escravas enquanto estas trabalhavam. Todos seguiam o mesmo caminho: o senhor não queria manter negrinhos. Marcelo, seu segundo filho, concebido com um negro do trapiche, havia sido diferente: um parto difícil; um menino com problemas. “Ninguém o comprará”, afirmou o senhor quando, já criado, se manifestaram sua falta de habilidade e suas deficiências. Consentiu-se que ficasse na fazenda como se fosse um simples cão, uma galinha ou algum dos porcos que criavam atrás da cabana. “Morrerá”, auguravam todos. Mas Caridad não permitiu que isso sucedesse, muitas foram as pauladas e chicotadas que levou quando a descobriam alimentando-o. “Nós te damos de comer para que trabalhes, não para que cries um imbecil”, repetia-lhe o capataz. – Negra, convidas-me a fumar? – insistiu o grumete. “Por que não?”, perguntou-se Caridad. Era o mesmo sorriso de seu Marcelo. Ofereceu-lhe o charuto. – Excelente! De onde tiraste esta maravilha? – exclamou o rapaz depois de prová-lo e tossir. – De Cuba?

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