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A Rainha dos Condenados – Anne Rice

LIVRO UM: Entrevista com o Vampiro , publicado em 1976, era uma historia real. Qualquer de nós poderia tê-lo escrito — por nos termos tornado o que somos, pelo sofrimento e pela busca. No entanto Louis, o imortal de duzentos anos de idade revela tudo, insiste na solidariedade mortal. Lestat, o vilão que deu a Louis o Dom Negro, deu-lhe pouca coisa mais à guisa de explicações ou consolo. Parece familiar? Louis ainda não desistiu de sua busca à salvação, mesmo que Armand, o imortal mais velho que ele conseguiu encontrar, nada pudesse dizer-lhe sobre a razão por que estamos aqui ou quem nos fez. Não é muito surpreendente, não acham, vampirinhos e vampirinhas? Afinal, nunca se fez um catecismo para vampiros. Isto é, até a publicação de: LIVRO DOIS: O Vampiro Lestat , nesta mesma semana. Subtítulo: “o inicio de sua educação e suas aventuras”. Não acreditam? Procurem na livraria mortal mais próxima. Depois se dirijam a loja de discos mais próxima e peçam para ver o disco que acabou de sair — também intitulado o Vampiro Lestat, com previsível modéstia. Se nada disso adiantar, liguem sua TV a cabo, se não desprezam essas coisas, e esperem um dos muitos videofilmes de rock de Lestat, que ontemcomeçaram a ser exibidos com enojante freqüência. Vão reconhecer imediatamente o que Lestat e. E não se surpreendam ao saber que ele planeja coroar esses ultrajes inéditos aparecendo “ao vivo” no palco, num espetáculo de estréia aqui mesmo nesta cidade. E, vocês adivinharam: na Noite das Bruxas. Mas vamos esquecer no momento a flagrante insanidade de seus olhos sobrenaturais brilhando em cada vitrine de loja de discos, sua voz poderosa cantando os nomes ocultos e as historias secretas dos mais antigos entre nos. Por que ele está fazendo tudo isso? O que e que suas canções nos dizem? Esta explicado em seu livro. Ele nos deu não apenas um catecismo, mas uma Bíblia. E nas profundezas das eras bíblicas somos levados ao confronto com nossos primeiros pais: Enkil e Akasha, regentes do Vale do Nilo antes que aquele lugar se chamasse Egito. Por favor ignorem a chorumela sobre como eles se tornaram os primeiros chupadores de sangue na face da terra; não faz mais sentido do que a historia de como a vida se formou nesse planeta em primeiro lugar, ou como os fetos humanos se desenvolvem desde células microscópicas no ventre de suas mães mortais. A verdade é que descendemos desse venerável par, e, gostando ou não, temos muitas razoes para acreditarmos que o gerador primal de todos os nossos poderes deliciosos e indispensáveis reside emum ou outro de seus corpos tão antigos. Que significa isso tudo? Em poucas palavras: se um dia Akasha e Enkil caminharem de mãos dadas para’ uma fornalha, nos todos arderemos com eles. Se forem esmagados, transformados em poeira brilhante, nós também seremos destruídos. Ah, mas existe esperança…o casal não se moveu em mais de cinqüenta séculos! Sim, e verdade. Apesar de Lestat pretender tê-los despertado tocando violino ao pe de seu santuário. Mas se ignorarmos aquela historia extravagante de que Akasha o tomou nos braços e compartilhou com ele de seu sangue primal, teremos uma situação mais provável, corroborada pelas historias de antigamente, de que os dois não se movem desde antes da queda do Império Romano.


Durante todo esse tempo foram mantidos numa bela cripta particular por Marius, um velho vampiro romano, que certamente sabe o que e melhor para todos nos. E foi ele quem disse ao Vampiro Lestat para jamais revelar o segredo. Não é um confidente muito confiável, o Vampiro Lestat. E quais são seus motivos para o livro, o disco, os filmes, o show? Impossível saber o que se passa na mente desse bandido, exceto que ele faz tudo o que deseja fazer — nisso nos podemos confiar. Afinal, ele não fez um bebe vampiro? E fez de sua própria mãe, Gabrielle, um vampiro, ela que durante anos foi sua amorosa companheira? Ele pode até voltar os olhos para o papado, esse demônio, por pura sede de excitação! Em resumo: Louis, um filosofo errante que nenhum de nos consegue encontrar, confiou nossos segredos morais mais profundos a inúmeros estranhos. E Lestat ousou revelar nossa historia ao mundo, pavoneando seus dotes sobrenaturais diante do publico mortal. Agora a Pergunta: Por que esses dois ainda existem? Por que ainda não os destruímos? Ah, o perigo que o grande rebanho mortal representa para nós não e de modo algum uma certeza. Os aldeões ainda não estão a nossa porta, tochas nas mãos, ameaçando incendiar o castelo. Mas aquele monstro esta provocando uma mudança na perspectiva mortal. E embora sejamos demasiado inteligentes para corroborar suas tolas invencionices perante os registros humanos, esse ultraje excede a todos os precedentes. Não pode ficar sem punição. Outras observações: se a historia que o Vampiro Lestat contou e verdadeira — e há muitos que juram que e, embora não saibam explicar por que — o velho Marius, que tem dois mil anos, de idade, não: pode vir punir a desobediência de Lestat? Ou talvez o Rei e a Rainha, se tiverem ouvidos para ouvir, despertem ao som de seus nomes levados por ondas de radio por todo o planeta. Que poderá acontecer a nos todos se isso ocorrer? Prosperaremos sob seu novo Reinado? Ou eles fixarão o momento da destruição universal? Seja como for, a rápida eliminação do Vampiro Lestat não poderá evitá-lo? O Plano: destruir o Vampiro Lestat e todos os seus seguidores assim que ousarem mostrar-se. Destruir todos os que lhe prestarem lealdade. Um Aviso: inevitavelmente, existem por ai outros bebedores de sangue muito antigos. Todos nos de vez em quando já os vimos de relance, ou sentimos sua presença. As revelações de Lestat não apenas chocam, mas também despertam uma consciência adormecida dentro de nós. E certamente, com seus grandes poderes, esses antigos conseguem ouvir a musica de Lestat. Que seres imemoriais e terríveis, incitados pela história, por um propósito ou simplesmente por curiosidade, podem estar em marcha, lenta e inexorável, para atender a seu chamado? Copias desta Declaração foram enviadas a todos os pontos de encontro da Conexão Vampiro, e para casas Comunais em todo o mundo. Mas vocês precisam prestar atenção e espalhar a ordem: o Vampiro Lestat tem que ser destruído, e com ele sua mãe, Gabrielle, seus seguidores, Louis e Armand, e todo e qualquer imortal que lhe prestar lealdade. Feliz Dia das Bruxas, vampirinhos e vampirinhas. Nós nos veremos no show. Vamos cuidar para que o Vampiro Lestat não saia vivo de lá. A figura de cabelos louros e paletó de veludo vermelho leu novamente a. Declaração, de seu confortável lugar no canto oposto.

Os olhos eram quase invisíveis atrás das lentes escuras e da aba do chapéu cinzento. Usava luvas de camurça cinzenta, e os braços estavam dobrados sobre o peito enquanto ele se recostava no lambril escuro, o salto da bota preso na travessa da cadeira. — Lestat, sua criatura danada! — sussurrou. — Você e um príncipe dos moleques! Soltou uma risadinha. Depois examinou o grande e sombrio salão. Não lhe era desagradável o intrincado mural de tinta preta desenhado com tanta habilidade, como teias de aranha na parede branca. Gostava do castelo em ruínas, do cemitério, da arvore morta erguendo as garras para a lua. Era o lugar-comum reinventado como se não fosse um lugar-comum, um gesto artístico que ele invariavelmente apreciava. Também era belo o teto com enfeites de gesso, sua frisa de demônios saltitantes e bruxas montadas em vassouras. E o incenso tão doce — uma antiga mistura indiana que ele próprio uma vez queimara no santuário de Aqueles Que Devem Ser Preservados muitos séculos antes. Sim, esse era um dos mais bonitos pontos de encontro clandestinos. Menos agradáveis eramseus ocupantes, o punhado de figuras magras e brancas que se juntavam em volta das velas colocadas nas mesinhas de ébano. Eram em numero excessivo para essa cidade moderna e civilizada. E sabiamdisso. Para caçar hoje à noite, teriam que procurar longe, e os jovens sempre precisam caçar. Os jovens precisam matar. São famintos demais para fazer de outra maneira. Mas agora só conseguem pensar nele — quem era, de onde tinha vindo? Seria muito velho e muito forte, e o que faria antes de ir embora? Sempre as mesmas perguntas, embora ele tentasse esgueirar-se para dentro de seus “bares de vampiro” como qualquer bebedor de sangue errante, olhos desviados, mente bloqueada. Hora de deixar suas perguntas sem resposta. Já tinha o que queria: uma idéia das intenções deles. E a pequena fita cassete de Lestat no bolso do paletó. Antes de ir — para casa conseguiria uma fita de vídeo dos filmes de rock. Levantou-se para sair. E um dos jovens levantou-se também. Houve um silencio tenso, não só de palavras, mas também de pensamentos, enquanto ele e o rapaz se dirigiam à porta.

Apenas as chamas das velas se moviam, lançando seu reflexo tremulo no chão de cerâmica negra como se fosse água. — De onde vem, estranho? — perguntou o rapaz educadamente. Não devia ter mais de vinte anos quando morreu, e isso não devia ter sido há mais de dez anos. Tinha os olhos pintados, os lábios untados, os cabelos manchados de cor agressiva, como se os dotes sobrenaturais não fossem suficientes. Sua aparência extravagante não se assemelhava ao que ele realmente era: um fantasma magro e forte que, com sorte, viveria milênios. Que é que lhe tinhamprometido com sua gíria moderna? Que ele conheceria o Bardo, o Plano Astral, os reinos etéreos, a música das esferas, o som de uma só mão batendo palmas? O rapaz tornou a falar: — Qual é a sua opinião sobre o Vampiro Lestat, sobre a Declaração? — Perdoe-me, por favor. Estou de saída. — Mas certamente sabe o que Lestat fez — insistiu o jovem, colocando-se entre ele e a porta. Ora, isso já não era educado. Ele estudou com mais atenção aquele rapaz atrevido. Será que devia fazer alguma coisa para mexer com eles? Para que falassem sobre isso durante séculos? Não conseguiu reprimir um sorriso. Melhor não. Logo haveria bastante confusão, graças ao seu amado Lestat. — Em resposta, deixe-me dar-lhe um pequeno aviso — disse em tom baixo ao joveminquisidor. — Você não conseguiria destruir o Vampiro Lestat; ninguém consegue. Mas a razão disso, honestamente, não sei. O jovem ficou confuso, e um pouco ofendido. O outro continuou: — Mas agora deixe-me perguntar-lhe uma coisa. Por que essa obsessão com o Vampiro Lestat? O que me diz de conteúdo das revelações dele? Vocês, crianças, não tem vontade de procurar Marius, o guardião de Aqueles Que Devem Ser Preservados? Não querem ver, vocês mesmos, a Mãe e o Pai? O rapaz ainda estava confuso, mas encheu-se de brios. Não conseguia formular uma resposta inteligente, mas a verdadeira resposta estava bem clara em sua alma — na alma de todos os que os assistiam. Aqueles Que Devem Ser Preservados talvez existissem, talvez não; Marius também, talvez não existisse. Mas o Vampiro Lestat era real, tão real quanto qualquer outra coisa que aquele aprendiz de imortal conhecia, e o Vampiro Lestat era um bandido ambicioso que arriscava a prosperidade secreta de toda a sua espécie apenas para ser amado e enxergado pelos mortais. Quase riu na cara do jovem. Um adversário tão insignificante! Era preciso admitir que Lestat compreendia lindamente esses tempos sem fé. Sim, revelara os segredos que devia guardar, mas assim fazendo ele não traíra nada nem ninguém.

— Cuidado com o Vampiro Lestat — respondeu finalmente ao rapaz, com um sorriso. — Há poucos imortais de verdade neste mundo. Ele pode ser um deles. Então ergueu o rapaz do chão e colocou-o fora de seu caminho. E atravessou a porta para dentro do bar oficial. O salão da frente, espaçoso e opulento, com seus painéis de veludo negro ferragens de cobre laqueado, estava atulhado de mortais barulhentos. Vampiros do cinema olhavam com raiva em suas molduras douradas, nas paredes forradas de cetim. Um órgão derramava a vibrante Tocata e Fuga de Bach, sob o burburinho das conversas e violentas explosões de risadas embriagadas. Ele adorava a visão de tanta vida em exuberância. Adorava ate mesmo o cheiro antigo de malte e de vinho, e o perfume dos cigarros. Enquanto abria caminho ate a porta, deleitou-se com o aperto suave e fragrante dos humanos contra seu corpo. Adorava o fato de que os vivos não lhe prestavam a menor atenção. Finalmente o ar úmido, o movimento de início da noite nas calçadas da Rua Castro. O céu tinha, um brilho de prata lustrada. Homens e mulheres caminhavam apressados para fugir da chuva leve e obliqua, e juntavam-se aos punhados nas esquinas esperando que as grandes lâmpadas bulbosas sinalizassem atenção, ande. Os alto-falantes da loja de discos do outro lado da rua berravam a voz de Lestat acima do rugido do ônibus que passava, pneus sibilando no asfalto molhado: Em meus sonhos ainda a possuo, Anjo, amada, Mãe. E em meus sonhos beijo-lhe os lábios, Amante, Musa, Filha. Ela deu-me a vida, Eu dei-lhe a morte, Minha linda Marquesa. E os caminhos do inferno percorremos, Dois órfãos juntos então. Será que ela esta noite ouve meus cânticos de Reis e Rainhas, e Antigos Mistérios? De juras quebradas, de dores? Ou percorre veredas distantes Onde as rimas e as canções não a encontram? Volta para mim, minha Gabrielle, Minha linda Marquesa. O castelo esta em ruínas na colina, A aldeia perdida sob a neve, Mas tu es minha para sempre. Será que já estava lá, a mãe? A voz foi enfraquecendo num jorro suave de notas elétricas, finalmente engolida pelos ruídos confusos à sua volta. Enfrentando a brisa úmida, pôs-se a caminho da esquina. Ruazinha bonita, movimentada. O florista ainda vendia seus botões sob o toldo.

O açougue estava repleto de fregueses que saiam do trabalho. Por trás das janelas dos cafés, mortais faziam sua refeição noturna ou liam com calma seus jornais. Dúzias esperavam pelo ônibus que descia, formando uma fila que atravessava toda à frente de um velho cinema. Ela estava aqui, Gabrielle. Ele tinha essa sensação vaga, porém, infalível. Quando chegou ao meio-fio, pôs-se de costas para o poste de luz da rua, respirando o vento fresco que vinha da montanha. Era uma boa vista do centro da cidade, a larga e reta Rua do Mercado. Quase como umbulevar em Paris. Em toda a volta, as suaves subidas e descidas urbanas, cobertas com alegres janelas iluminadas. Sim, mas onde estava ela, precisamente? Ele sussurrou: Gabrielle…Fechou os olhos. Tentou escutar. Primeiro veio o grande rugido de milhares de vozes, imagens em cima de imagens. O mundo inteiro ameaçava abrir-se e engoli-lo com suas incessantes lamentações. Gabrielle. O trovejante clamor lentamente esvaeceu-se. Ele percebeu uma faísca de sofrimento, vinda de um mortal que passou por perto. E num prédio alto na colina uma mulher agonizante sonhava com as contendas da infância, sentada inerte a janela. Então, num silencio distante e regular, ele viu o que queria ver: Gabrielle, que esta cava os passos. Tinha ouvido a voz dele. Sabia que estava sendo observada. Uma mulher alta e loura, cabelos presos numa trança nas costas, parada numa das ruas limpas e desertas do centro, não muito distante dele. Usava calças e jaqueta caqui, um velho suéter marrom. E umchapéu não muito diferente do dele cobria-lhe os olhos; apenas Um pedaço do rosto era visível acima do colarinho levantado. Ela então fechou a mente, rodeando-se de um escudo invisível. A imagem desapareceu.

Sim, ali, esperando por seu filho Lestat. Por que ele chegara a temer por ela, a insensível, que nada teme por si mesma, só por Lestat? Tudo bem. Ela ficou feliz. E Lestat também ficaria. Mas e o outro? Louis, o suave, com os cabelos negros e olhos verdes, cujos passos faziam um somdescuidado quando ele caminhava. Louis, que chegava a assoviar pelas escuras para que os mortais o ouvissem aproximar-se. Louis onde está você? Quase instantaneamente ele viu Louis entrando em uma sala de visitas deserta. Acabara de subir a escada que vinha do porão, onde passara o dia dormindo numa cripta atrás da parede. Não tinha a menor consciência de estar sendo observado. Atravessou com passos de seda o aposento empoeirado e postou-se junto à janela, observando, através da vidraça suja, o intenso fluxo de carros. A mesma velha casa na Rua Divisadero! Na verdade, nada tinha mudado nessa criatura elegante e sensual que tinha causado aquele pequeno tumulto com seu Entrevista com o Vampiro. A diferença era que agora Louis estava esperando Lestat. Tivera sonhos perturbadores; temia por Lestat, e estava cheio de — antigos e desconhecidos anseios. Afastou a imagem com relutância. Tinha muita afeição por aquele ali, Louis. E a afeição não era sábia; pois Louis tinha a alma terna e educada, sem coisa alguma dos poderes estonteantes de Gabrielle ou de seu diabólico filho. No entanto, tinha certeza de que Louis viveria tanto quanto eles. São curiosos os tipos de coragem que formam a resistência. Talvez tivesse algo a ver com aceitação. Nesse caso, então, como explicar Lestat, derrotado, marcado, e novamente de pé? Lestat, que nunca aceitava coisa alguma? Ainda não tinham se encontrado, Gabrielle e Louis. — Mas tudo bem. Que deveria fazer? Aproximá-los? Essa idéia…Além disso, Lestat logo cuidaria desse assunto. Agora sorria novamente. “Lestat, sua criatura danada! Sim, o príncipe dos moleques!” Evocou com vagar cada detalhe do rosto e da forma de Lestat. Os gelados olhos azuis que escureciam com o riso; o sorriso generoso; o modo como as sobrancelhas juntavam-se num amuo infantil; as súbitas explosões de alegria e humor blasfemo.

Conseguia evocar ate mesmo a postura felina do corpo. Tão incomum num homem de compleição musculosa. Tanta força, sempre tanta força e tanto otimismo incontrolável! Na verdade ele não sabia muito bem o que pensar sobre toda a empreitada; sabia apenas que achava engraçado e fascinante. Claro que não pensara em vingar-se de Lestat pela revelação de seus segredos. E certamente Lestat tinha contado com isso, mas, na verdade, disso não se podia ter certeza. Talvez Lestat realmente não se importasse. Desse assunto ele sabia tanto quanto os idiotas lá no bar. O que lhe importava era que pela primeira vez em tantos anos ele se encontrava pensando emtermos de passado e futuro; encontrava-se agudamente cônscio da natureza dessa era. Aqueles Que Devem Ser Preservados eram uma ficção até para seus próprios filhos! Estavam distantes os dias emque ferozes bebedores de sangue procuravam seu santuário e seu sangue poderoso. Ninguém mais acreditava ou se importava! E aquela era a essência da época; pois seus mortais eram de uma laia ainda mais materialista, a todo momenta rejeitando o miraculoso. Com uma coragem sem precedentes eles baseavam seus maiores avanços éticos nas verdades engastadas no mundo físico. Já fazia duzentos anos que ele e Lestat tinham discutido exatamente essas coisas no Mediterrâneo — o sonho de um mundo ateu e verdadeiramente moralizado, onde o amor ao próximo seria o único dogma. Um mundo ao qual não pertencemos. E agora esse mundo estava quase realizado. E o Vampiro Lestat entrara para o folclore popular, onde todos os velhos demônios deveriam estar, e levaria com ele toda a tribo maldita, inclusive Aqueles Que Devem Ser Preservados, embora esses talvez nunca venham a saber disso. A simetria daquilo tudo fê-lo sorrir. Via-se não apenas assustado, mas também fortemente seduzido por tudo o que Lestat tinha feito. Entendia muito bem a atração da fama. Ora, ele próprio ficara desavergonhadamente satisfeito ao ver seu próprio nome rabiscado na pare de do bar. Tinha achado graça, mas tinha se deliciado com isso. Típico de Lestat, criar um enredo tão inspirador, e era isso mesmo. Lestat, o exuberante ator de rua do anti go regime, agora levado ao estrelato nesta era formosa e inocente. Mas será que tinha razão ao afirmar para o filhote no bar que ninguémpoderia destruir o príncipe-moleque? Aquilo era pura fantasia. Uma boa propaganda. O fato e que qualquer um de nós pode ser destruído…de um jeito ou de outro.

Até Aqueles Que Devem Ser Preservados. Com certeza. Eram fracos, naturalmente, aqueles jovens “Filhos da Escuridão”, como costumavam definir-se. Seu numero não aumentava perceptivelmente a sua força. Mas e os mais velhos? Se ao menos Lestat não tivesse usado os nomes de Mael e Pandora…Mas não havia também bebedores de sangue ainda mais velhos que esses, e dos quais ele próprio nada sabia? Pensou naquele aviso na parede: “seres imemoriais e terríveis… em marcha, lenta e inexorável, para atender a seu chamado”. Um arrepio assustou-o; era o frio — mas por um instante ele pensou ter visto uma selva, um lugar verde e fétido, impregnado de um calor insalubre e abafado. Como tantos sinais e mensagens súbitas que recebia, essa sumiu sem explicação. Ha muito aprendera a cortar o infinito fluxo de vozes e imagens que seus poderes mentais lhe permitiam ouvir; no entanto, de vez em quando chegava ate ele alguma coisa violenta e inesperada, como um grito agudo. Seja como for, ele já se demorara demais nesta cidade. Não pretendia interferir, acontecesse o que acontecesse! Teve raiva de seu súbito acesso de sentimentalismo. Sentiu vontade de estar em casa. Já fazia tempo demais que estava longe de Aqueles Que Devem Ser Preservados. Mas adorava observar a energética multidão humana, o desajeitado desfile de transito brilhante. Sequer se importava com os odores venenosos da cidade; não eram piores que o Fedor da antiga Roma, ou da Antioquia, ou de Atenas quando pilhas de excremento humano alimentavam as moscas onde quer que se olhasse, e o ar recendia inevitavelmente a doença e fome. Não; ele gostava bastante das cidades da Califórnia, limpas e de cores claras. Poderia deixar-se ficar para sempre entre seus habitantes de olhos claros e propósitos firmes. Porém tinha que voltar para casa. O show ainda demora ria, e ele poderia então ver Lestat, se assim decidisse… Que delícia não saber o que iria fazer, exatamente como os outros, aqueles que nem mesmo acreditavam nele! Atravessou a Rua Castro e subiu apressado a calçada larga da Rua do Mercado. O vento cedera; o ar estava quase quente. Seu andar era rápido, e ele chegou ate a assoviar, como Louis costumava fazer. Sentia-se bem. Humano. Então parou diante da loja que vendia rádios e televisores. Lestat estava cantando em todas as telas, grandes e pequenas. Riu consigo mesmo do grande espetáculo de gestos e movimentos.

O som estava apagado, enterrado nos minúsculos grãos brilhantes dentro do equipamento. Ele teria que procurar para recebê-lo. Mas não era encantador simplesmente assistir as travessuras do príncipe-moleque de cabelos louros em impiedoso silencio? A câmera afastou-se para mostrar por inteiro a figura de Lestat, que tocava um violino como se num vácuo. De vez em quando uma escuridão estrelada o envolvia. Então subitamente abria-se umpar de portas — era exatamente como o velho santuário de Aqueles Que Devem Ser Preservados. E ali estavam Akasha e Enkil, ou melhor, atores maquilados para esse papel, egípcios de pele branca com cabelos longos, negros e sedosos, e jóias cintilantes. Naturalmente. Por que não tinha imaginado que Lestat levaria a coisa ate esse extrema vulgar e perturbador? Inclinou-se para frente, tentando ouvir a transmissão do som. Ouviu a voz de Lestat acima do violino: Akasha! Enkil! Guardem seus segredos, Guardem seu silêncio, E um dom melhor que a verdade. E então, enquanto o violinista fechava os olhos e se dedicava à música, Akasha levantou-se lentamente do trono. O violino caiu das mãos de Lestat quando ele a viu; como uma dançarina, ela rodeou-o com os braços, puxou-o para si, inclinou-se para tomar-lhe o sangue, ao mesmo tempo que pressionava os dentes dele em sua própria garganta. Era melhor do que ele chegara a imaginar. Uma produção muito inteligente. A figura de Enkil agora despertava, erguia-se e caminhava como um boneco mecânico. Avançava para pegar de volta sua Rainha: Lestat foi lançado ao chão do santuário: E ali terminava o filme. O salvamento por Marius não fazia parte dele. — Ah, quer dizer que não me torno uma celebridade da televisão — ele sussurrou com um breve sorriso. Dirigiu-se para a porta da loja às escuras. A jovem estava esperando para deixá-lo entrar. Tinha na mão a fita de videocassete de plástico preto. — Os doze estão ai — disse. Bela pele escura e grandes olhos castanhos. A faixa de prata em volta do pulso brilhou a luz. Ele achou fascinante. Ela pegou o dinheiro com alegria, sem contá-lo.

— Passaram em uma dúzia de canais. Consegui pegar todos. Terminei ontem à tarde. — Você me serviu bem — ele respondeu. — Eu agradeço. — E pegou outro rolo de notas. — Foi moleza — ela disse. Não queria receber mais dinheiro. Mas vai. Dando de ombros, ela pegou o dinheiro e botou no bolso. Foi moleza. Ele adorava aquelas eloqüentes expressões modernas. Adorava o súbito movimento dos viçosos seios quando ela dava de ombros, e o macio ondular dos quadris sob as grossas roupas de brim que faziam-na parecer ainda mais suave e frágil. Uma flor incandescente. Quando ela tornou a abrir a porta, ele tocou no ninho macio de seus cabelos castanhos. Impensável alimentar-se de alguém que lhe fez um favor; alguémtão inocente. Não faria isso! No entanto girou o corpo dela, os dedos enluvados escorregando através dos cabelos dela para aninhar-lhe a cabeça: — Um beijinho só, minha bela. Ela fechou os olhos; os dentes dele perfuraram instantaneamente a artéria, e a língua lambeu o sangue. Só um gostinho. Um minúsculo clarão de calor que se queimou em seu coração em menos de um segundo. Ele não recuou, lábios pousados na garganta frágil. Podia sentir-lhe a pulsação. A ânsia pela dose inteira era quase mais do que podia suportar. Pecado e remissão. Deixou-a ir.

Alisou-lhe os cachos suaves e elásticos, enquanto olhava dentro de seus olhos enevoados. Não se lembre. — Então adeus — ela disse, sorrindo. Ficou imóvel na calçada deserta. E a sede ignorada e importuna, gradualmente desapareceu. Ele olhou para a capa de papelão do videocassete.

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