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A Rainha Vermelha – Victoria Aveyard

ODEIO A PRIMEIRA SEXTA. O vilarejo fica lotado, o que agora, no auge do verão, é a última coisa que alguémdesejaria. Não é tão ruim aqui na sombra, mas o fedor dos corpos suados do trabalho da manhã é forte o bastante para azedar o leite. O ar tremeluz com o calor e a umidade, e até as poças da tempestade de ontem estão quentes e agitam-se com pequenos arco-íris de óleo e graxa. A feira esvazia à medida que as barracas vão fechando. Os mercadores estão distraídos, despreocupados. É fácil pegar o que eu quiser dos estoques. Quando terminar, estarei com os bolsos abarrotados de quinquilharias e ainda terei uma maçã para a viagem. Nada mal para poucos minutos de trabalho. A multidão se move e eu me deixo ser arrastada pela corrente humana. Minhas mãos entram e saem num só gesto, sempre toques rápidos. Umas notas do bolso de um homem, a pulseira de uma mulher, nada muito grande. Os aldeãos estão ocupados demais seguindo o fluxo para notar uma batedora de carteira. As altas construções sobre palafitas que dão nome ao vilarejo (Palafitas, quanta originalidade…) erguem-se ao redor, três metros acima do solo lamacento. Na primavera, a margem sul do rio geralmente fica alagada, mas estamos em agosto, mês em que desidratação e insolação afligem o vilarejo. Quase todo mundo espera ansiosamente a primeira sexta-feira do mês, quando a escola e o trabalho terminam mais cedo. Eu não. Preferiria estar na escola numa sala cheia de crianças semaprender nada. Não que eu vá permanecer muito mais tempo na escola. Meu décimo oitavo aniversário está chegando e, com ele, o recrutamento. Não tenho formação profissional nem emprego, de modo que acabarei na guerra com outros desocupados. Não é de estranhar a falta de trabalho: todo homem, mulher e criança faz de tudo para ficar longe do Exército. Meus irmãos foram para a guerra quando completaram dezoito anos; mandaram os três combater Lakeland. Apenas Shade sabe escrever um pouco, e ele me manda cartas sempre que pode. Não tenho informações sobre meus outros irmãos, Bree e Tramy, há mais de um ano.


Mas notícia ruim sempre chega depressa. As famílias podem passar anos sem novidades para um dia se deparar com os filhos na porta de casa — de licença ou às vezes felizes por terem sido dispensados. No geral, porém, o que as pessoas recebem é uma carta em papel grosso com o selo da Coroa estampado ao pé de umcurto agradecimento pela vida do filho. Talvez ganhem até alguns botões de seus uniformes despedaçados. Eu tinha treze anos quando Bree partiu. Ele me deu um beijo na bochecha e um par de brincos que eu teria de dividir com minha irmã mais nova, Gisa. Eram dois pingentes com contas de vidro rosado como o pôr do sol. Naquela mesma noite, nós duas furamos a orelha sozinhas. Tramy e Shade mantiveram a tradição. Agora Gisa e eu levamos as três pequenas joias numa orelha, para lembrar dos nossos irmãos que lutam em algum lugar. Não acreditei que eles teriam mesmo de ir embora até o dia em que o legionário apareceu com sua armadura reluzente e os levou consigo, um após o outro. No próximo outono, ele virá me buscar. Já comecei a economizar — e roubar — para comprar os brincos de Gisa quando partir. Não pense nisso. É o que minha mãe sempre diz sobre o Exército, sobre meus irmãos, sobre tudo. Ótimo conselho, mãe. No fim da rua, no cruzamento da Mill com a Marcher, mais aldeões juntam-se à marcha e a multidão aumenta. Um bando de moleques — ladrõezinhos em treinamento — se move pelo tumulto com seus dedos grudentos e curiosos. São jovens demais para serem bons nisso, e os agentes de segurança logo intervêm. Normalmente as crianças seriam mandadas para o tronco ou para a cadeia no entreposto, mas os agentes querem ver a Primeira Sexta. Eles se contentam em dar algumas surras e deixar os ladrões irem. Pequenas caridades. A menor pressão na minha cintura me faz virar para trás instintivamente. Agarro aquela mão tola o bastante para tentar furtar de mim. Aperto tão forte que o diabinho não vai conseguir escapar.

Mas, em vez de um moleque mirrado, me deparo com um rosto sorridente. Kilorn Warren. Aprendiz de pescador, órfão de guerra e provavelmente meu único amigo de verdade. Costumávamos brincar de lutinha quando crianças, mas agora que estamos mais velhos e ele tem uns trinta centímetros a mais que eu, procuro evitar disputas. Acho que Kilorn pode ser útil. Para alcançar prateleiras altas, por exemplo. — Você está mais rápida — ele ri, soltando-se da minha mão. — Ou você mais lento. Ele faz uma cara de tédio e apanha a maçã da minha mão. — Esperamos Gisa? — pergunta, abocanhando a maçã. — Ela tem um passe para ficar o dia inteiro. Trabalhando. — Então é melhor irmos. Não quero perder o espetáculo. — Que tragédia seria… — Tsc, tsc, Mare — ele provoca, balançando o dedo na minha cara. — É pra ser divertido. — É pra ser um aviso, seu burro. Nisso ele já caminha a passos largos, forçando-me a quase correr para acompanhar o ritmo. O andar gingado, desequilibrado. “Passos de marujo” é como ele chama, embora nunca tenha estado emalto-mar. Mas acho que as longas horas no pesqueiro do seu mestre, ainda que no rio, tendem a produzir algum efeito. O pai de Kilorn foi mandado à guerra, assim como o meu. Mas, enquanto o meu regressou sem uma perna e um pulmão, o sr. Warren voltou dentro de uma caixa de sapatos. A mãe de Kilorn fugiu logo em seguida, deixando o filho abandonado à própria sorte.

Ele quase morreu de fome, mas por algummotivo continuou pegando no meu pé. Eu o alimentava só para não ter de enxotar aquele saco de ossos o tempo todo. Hoje, dez anos depois, aqui está ele. Pelo menos ocupa um posto de aprendiz e não vai ter que encarar a guerra. Chegamos ao pé do monte onde a multidão se apinha entre empurrões e cutucões. É obrigatório comparecer à Primeira Sexta, a menos que você seja um “trabalhador essencial”, como minha irmã. Como se bordar seda fosse essencial. Mas os prateados adoram seda… Até os agentes de segurança podem ser subornados com peças costuradas pela minha irmã. Não que eu saiba algo sobre isso. As sombras ao redor escurecem à medida que subimos os degraus de pedra rumo ao topo da montanha. Kilorn vai de dois em dois e quase me deixa para trás. Mas ele se detém e espera, sorrindo para mim com malícia, e tirando uma mecha do cabelo castanho de seus olhos verdes. — De vez em quando esqueço que você tem pernas de criança. — Melhor do que ter cérebro de criança — rebato, dando-lhe um tapinha na bochecha ao passar. O som da sua risada sobe os degraus atrás de mim. — Você está mais mal-humorada do que o normal. — É que odeio essas coisas. — Eu sei — ele sussurra, sério pela primeira vez. Eis que chegamos à arena, com o sol escaldante sobre nossa cabeça. Construída há dez anos, a arena é de longe a maior estrutura de Palafitas. Não é nada perto das construções colossais das cidades, mas ainda assim os arcos ascendentes de metal e os milhares de metros de concreto bastampara fazer uma menina da aldeia perder o fôlego. Os agentes de segurança estão por toda parte; os uniformes preto e prata destacam-se na multidão. É a Primeira Sexta, e eles não veem a hora de assistir aos eventos. Portam armas pequenas, apesar de não precisarem. Os agentes são prateados, e os prateados não têm nada a temer de nós, vermelhos.

Todo mundo sabe disso. Não somos iguais, embora talvez não dê para perceber só de olhar. A única coisa que nos diferencia — ao menos por fora — é que os prateados andam eretos. Já nossas costas são curvadas pelo trabalho, pela esperança frustrada e pela inevitável desilusão com nosso fardo na vida. O calor dentro da arena descoberta é o mesmo do lado de fora, e Kilorn, sempre na ponta dos pés, me conduz para debaixo de uma sombra. Não há assentos para nós, apenas uns bancos grandes de concreto, mas os poucos nobres prateados desfrutam de camarotes frescos e confortáveis na parte superior. Lá, dispõem de bebidas, comida, gelo — mesmo no auge do verão —, cadeiras estofadas, luz elétrica e outras comodidades que jamais teremos. Os prateados nem ligam para isso e reclamamda sua “condição miserável”. Vou dar a eles uma condição miserável se um dia tiver a chance. Tudo o que há para nós são bancos duros e alguns telões com tantos chuviscos e chiados que mal podemos enxergar. — Aposto um dia de salário que hoje haverá mais um forçador — Kilorn diz enquanto joga o resto da maçã no chão da arena. — Sem apostas — disparo. Muitos vermelhos apostam nas lutas com a esperança de ganhar um pouquinho de dinheiro que os ajude a atravessar mais uma semana. Eu não aposto nem com Kilorn. É mais fácil surrupiar a bolsa do corretor de apostas do que ganhar algum dinheiro jogando. — Você não devia desperdiçar seu dinheiro desse jeito. — Não é desperdício quando você tem razão. Sempre tem um forçador espancando alguém. Os forçadores geralmente participam de metade das lutas. Seu talento e sua técnica os tornam mais aptos à arena do que a maioria dos prateados. Para eles, parece prazeroso usar sua força sobrehumana para arremessar outros campeões como bonecas de pano. — E o outro? — pergunto, pensando na gama de prateados que poderiam aparecer. Telecs, lépidos, ninfoides, verdes, pétreos: todos uma dureza de ver. — Não sei direito. Tomara que seja legal.

Um pouco de diversão não cairia mal. Kilorn e eu não vemos as Efemérides da Primeira Sexta com os mesmos olhos. Para mim, assistir a dois campeões se digladiando não é nada agradável, mas Kilorn adora. “Deixe que se destruam”, diz. “Não são nossa gente.” Ele não entende o que são esses shows. Não se trata de um simples entretenimento, um descanso para o nosso trabalho cansativo. É uma mensagem fria e calculista. Apenas prateados podem lutar na arena porque apenas eles podem sobreviver à arena. Lutam para nos mostrar sua força e seu poder. “Vocês não são páreo para nós. Somos melhores. Somos deuses”: é isso que cada golpe dado pelos campeões quer dizer. E eles têm toda a razão. No mês passado, assisti a uma luta entre um lépido e um telec. Embora o lépido se movesse mais rápido do que conseguíamos ver, o telec o imobilizou completamente. Ele ergueu o adversário do chão apenas com o poder da mente. O lépido começou a sufocar; acho que o telec agarrou a garganta dele de algum jeito invisível. A luta terminou quando o lépido ficou azul. Kilorn comemorou. Ele tinha apostado no telec. — Senhoras e senhores, prateados e vermelhos, bem-vindos à Primeira Sexta, a Efeméride de agosto. A voz do locutor ecoa pela arena, amplificada pelas muralhas. Soa entediada, como de costume, mas não o culpo por isso. Antes as Efemérides estavam bem longe de serem disputas; eram simples execuções.

Prisioneiros e inimigos do Estado eram transportados para Archeon, a capital, e mortos diante de uma plateia de prateados. Acho que os prateados gostavam disso, então começaram as lutas. Não para matar, mas para divertir. Foi então que surgiram as Efemérides de hoje, que se espalharam por outras cidades, para arenas e públicos diferentes. Com o tempo, permitiu-se a entrada de vermelhos, confinados aos assentos mais baratos. Não demorou muito até os prateados construírem arenas por toda parte, mesmo em vilarejos como Palafitas. E a participação dos vermelhos, que antes era um ato de benevolência, tornou-se obrigatória. Meu irmão Shade diz que é porque nas cidades com arena os vermelhos cometem menos crimes e discordam menos do regime; até o número de atos rebeldes cai. Agora os prateados não precisam apelar para execuções, ou mesmo legiões de agentes de segurança para manter a paz: dois campeões já bastam para nos assustar. Hoje, os dois em questão fazem bem seu trabalho. O primeiro a pisar na areia branca é apresentado como Cantos Carros, um prateado de Harbor Bay, a leste de Palafitas. O telão explode em cores para formar uma imagem nítida do guerreiro. Ninguém precisa dizer que é um forçador. Os braços são como troncos de árvores, cheios de nervos e veias, a pele toda repuxada. Quando ele sorri, reparo que os dentes ou estão quebrados ou já não estão na boca. Talvez ele tenha brigado com a escova de dentes na infância. Do meu lado, Kilorn está aos gritos, e os outros aldeões rugem com ele. Um agente de segurança atira pães aos que gritam mais alto para premiar o esforço. À minha esquerda, outro agente entrega um papelzinho amarelo brilhante para uma criança que se esgoela. É um lec, um vale de cota extra de eletricidade. Tudo isso para que torçamos e gritemos; tudo para nos forçar a ver, ainda que não queiramos. — Isso mesmo, ele quer ouvir vocês! — o locutor quase bocejou, forçando o entusiasmo na voz o máximo que podia. — E aqui temos seu oponente. Diretamente da capital, Samson Merandus. Provavelmente um parente distante de alguém famoso tentando ganhar renome na arena.

Parece pálido e lânguido ao lado do conjunto de músculos em forma humana que era seu oponente, mas sua armadura de aço temperado é boa e reluzente. Embora devesse estar assustado, parece estranhamente calmo. O sobrenome soa familiar, o que não é incomum. Muitos prateados pertencem a famílias ilustres — chamadas Casas —, com dúzias de membros. A Casa que governa nossa região, Capital Valley, é a Casa Welle, embora eu nunca tenha visto o governador Welle na vida. Ele nunca aparece mais de uma ou duas vezes por ano, e mesmo assim nunca se rebaixa a ponto de entrar num vilarejo vermelho como o meu. Vi uma vez seu barco cruzar o rio, uma máquina elegante com bandeiras auriverdes. Ele é um verde. Quando passou, as árvores nas margens floresceram e o chão recobriu-se de flores. Achei bonito, até um dos garotos mais velhos jogar pedras no barco. Elas caíram no rio, inofensivas. Mas o menino foi para o tronco mesmo assim. — O forçador leva, sem dúvida. Kilorn observa o campeão mirrado. — Como você sabe? Qual é o poder de Samson? — Isso importa? Ele vai perder de qualquer jeito — zombo, preparando-me para assistir. O gongo soa na arena. Muitos se levantam, ansiosos para assistir, mas permaneço sentada em um protesto silencioso. Por mais calma que pareça, a raiva ferve dentro de mim. Raiva e inveja. “Somos deuses” é a frase que ecoa na minha cabeça. — Campeões, adentrem a arena. Eles entram, pisando forte, um de cada lado. Armas de fogo são proibidas nos combates em arena, então Cantos puxa uma espada curta e larga. Duvido que vá precisar dela. Samson não saca nenhuma arma, mal contrai os dedos.

Um zumbido elétrico baixo soa na arena. Odeio esta parte! O som reverbera nos meus ossos e dentes, que latejam tanto que chego a pensar que vão trincar. O ruído termina com uma campainha aguda. Começou. Suspiro. Logo de cara parece que vai ser um banho de sangue. Cantos avança como um touro, levantando areia. Samson tenta desviar, usando o ombro para deslizar por trás do prateado, mas o forçador é rápido. Ele agarra a perna de Samson e o arremessa pela arena feito uma peteca. Os gritos da torcida encobrem o urro de dor que Samson solta ao bater no muro de cimento, mas o sofrimento está escrito em sua testa. Antes de sonhar em levantar, Cantos já está em cima dele e o lança para o alto. O campeão de armadura cai na areia feito um saco de ossos quebrados, mas se levanta, não sei como. — Ele é um saco de pancada? — ri Kilorn. — Vai pra cima, Cantos! Kilorn não liga para um pão a mais ou uns minutos extras de eletricidade. Não é por isso que torce. Ele sinceramente quer ver sangue, sangue dos prateados, sangue prata manchar a arena. Não importa que o sangue seja tudo o que não somos, tudo o que não podemos ser, tudo o que queremos ser. Kilorn só quer vê-lo e se ilude com a ideia de que eles são humanos de verdade, que podem ser feridos e derrotados. Mas sei que não é assim. O sangue deles é uma ameaça, um aviso, uma promessa. Não somos iguais e jamais seremos. Kilorn não se decepciona. Até as pessoas do camarote podem ver o líquido metálico e furta-cor pingar da boca de Samson. O sol de verão reflete-se nele como num espelho d’água e pinta um rio correndo do seu pescoço até a armadura. Esta é a verdadeira distinção entre prateados e vermelhos: a cor do sangue.

Esta única diferença os torna mais fortes, mais inteligentes e melhores que nós. Samson cospe e mais sangue prata reluz na arena. Uns dez metros à frente, Cantos segura forte a espada na mão, pronto para pôr um fim na luta. — Pobre coitado — murmuro. Parece que Kilorn tinha razão: ele não passa de um saco de pancadas. Cantos faz a arena tremer com seus passos. Espada na mão, olhos em chamas. E então ele para. Umpé se mantém suspenso; a armadura ressoa com a interrupção abrupta. No meio da arena, o guerreiro sangrando aponta para Cantos; seu olhar parece capaz de partir ossos. Samson move os dedos e Cantos caminha, perfeitamente sincronizado com os gestos manuais dele. A boca do forçador se abre, como se não fosse bom da cabeça. Como se tivesse perdido a mente. Não acredito no que vejo. Um silêncio mortal recai sobre a arena enquanto assistimos à cena sem entender. Até Kilorn não tinha o que dizer. — Um murmurador — suspiro em voz alta. Nunca tinha visto um deles na arena… Duvido que alguém tivesse. Murmuradores são raros, perigosos e poderosos mesmo entre os prateados, mesmo na capital. Os rumores a seu respeito variam, mas no final todos soam simples e aterrorizantes: eles podem entrar na sua cabeça, ler seus pensamentos e controlar sua mente. E é exatamente isso que Samson faz agora, depois de atravessar a armadura e os músculos de Canto e chegar ao seu cérebro, onde não há defesas. Cantos ergue a espada com as mãos trêmulas. Tenta combater o poder de Samson. Mas, por mais força que tenha, é incapaz de lutar contra sua mente. Outro gesto da mão de Samson faz sangue prata respingar pela arena.

Canto enfia a espada na armadura, na própria barriga. Posso ouvir o rangido doentio do metal cortando carne mesmo do meu péssimo lugar. Sangue jorra de Cantos. A arena ecoa de espanto. Nunca vimos tanto sangue aqui antes. Luzes azuis acendem e banham a arena com um brilho etéreo que marca o fim da disputa. Curandeiros prateados correm pela areia para chegar a Cantos, que está caído. Prateados não podemmorrer aqui. A ideia é que lutem com braveza, ostentem seus talentos e deem um espetáculo, mas nada de morrer. Afinal, eles não são vermelhos. Nunca vi os guardas moverem-se tão rápido. Alguns são lépidos e seus vultos nos cercam por todos os lados para nos conduzir à saída. Não nos querem por perto caso Cantos morra na arena. Enquanto isso, Samson se retira como um titã. Seu olhar repousa sobre o corpo de Cantos. Pensei que encontraria um ar de arrependimento nele, mas não. Seu rosto está impassível, inexpressivo e frio. O combate não significava nada para ele. Nós não somos nada para ele. Na escola, aprendemos sobre o mundo antes de nós, sobre anjos e deuses que viviam no céu e governavam a Terra com mãos ternas e gentis. Alguns dizem que não passam de histórias, mas não acredito nisso. Os deuses ainda governam. Ainda descem das estrelas. Só não são mais gentis. DOIS NOSSA CASA É PEQUENA, mesmo para os padrões de Palafitas, mas ao menos temos uma boa vista.

Antes dos ferimentos, durante uma das licenças do Exército, meu pai construiu uma casa tão alta que podíamos avistar o outro lado do rio. Mesmo através da neblina do verão, é possível ver as clareiras que antes formavam uma floresta, destinada ao esquecimento pelos machados. Parecem uma doença, mas as colinas intocadas ao norte e ao oeste tranquilizam nossa memória: há muito mais lá fora. Além de nós, além dos prateados, além de tudo o que conheço. Subo a escada da minha casa escalando os degraus de madeira deformados pelas mãos que sobeme descem diariamente. Dessa altura, vejo alguns barcos que percorrem o rio com bandeiras brilhantes hasteadas. Prateados. São os únicos ricos o bastante para usar transporte privado. Enquanto desfrutam de veículos com rodas, lanchas e até jatinhos para rasgar os céus, não temos mais que os próprios pés ou bicicletas, se tivermos sorte. O destino dos barcos deve ser Summerton, a pequena cidade da casa de verão do rei que se enche de vida nessa época. Gisa esteve lá hoje para ajudar a costureira de quem é aprendiz. Durante as visitas do rei, as duas sempre vão à feira de lá para vender seus produtos aos mercadores e nobres prateados que seguem a família real como filhotinhos. O palácio em si é conhecido como Palacete do Sol. Teoricamente é uma maravilha, mas nunca o vi. Não sei por que a família real possui uma segunda casa, principalmente se o palácio na capital é tão incrível. Só que, como todos os prateados, eles não agem por necessidade. São movidos pelo desejo. E o que desejam, conseguem. Antes de abrir a porta para o caos habitual, acaricio a bandeira que tremula na varanda. Três estrelas vermelhas, uma para cada irmão, sobre um fundo amarelado. E há espaço para mais. Espaço para mim. A maioria das casas possui bandeiras como esta, algumas com faixas negras em vez de estrelas, um silencioso lembrete dos filhos mortos. Dentro de casa, minha mãe transpira à beira do forno enquanto mexe um guisado. Meu pai observa-a da cadeira de rodas.

Gisa borda na mesa, produzindo algo belo e requintado, inteiramente fora da minha compreensão. — Cheguei — anuncio a ninguém em particular. Meu pai responde com um aceno e minha mãe move a cabeça. Gisa não levanta o olhar do seu retalho de seda. Solto meu saco de bens roubados do lado dela, deixando as moedas tilintarem o máximo possível. — Acho que consegui o bastante para um bolo decente no aniversário do papai. E mais baterias, suficientes para durar um mês. Gisa olha o saco e fecha a cara de desgosto. — Um dia as pessoas virão aqui e tomarão tudo o que você tem. — Inveja não é do seu feitio, Gisa — retruco, dando-lhe tapinhas na cabeça. Imediatamente, suas mãos sobem até seu cabelo ruivo, perfeito e brilhante, e o ajeitam de volta num coque meticuloso. Sempre quis ter o cabelo dela, embora nunca tenha dito isso. Enquanto seu cabelo é como o fogo, o meu é castanho como um rio, como costumamos dizer. Escuro na raiz e desbotado nas pontas; as cores desvanecem com o desgaste da vida em Palafitas. A maioria das mulheres deixa o cabelo curto para esconder as pontas grisalhas. Eu não. Gosto de lembrar que até meu cabelo sabe que a vida não deveria ser assim. — Não estou com inveja — ela bufa antes de retomar o trabalho. Ela borda flores de fogo, como se cada uma fosse uma bela chama de pontos sobre a seda negra e brilhante. — Que bonito, Gi. Deixo minha mão contornar uma das flores, maravilhada com o toque sedoso. Gisa lança-me umolhar e abre um sorriso gentil que revela até seus dentes. Apesar das brigas, ela sabe que é minha pequena estrela. E todo mundo sabe que a invejosa sou eu, Gisa. Não sei fazer nada além de roubar daqueles que realmente fazem alguma coisa.

Assim que deixar de ser aprendiz, ela poderá abrir sua própria loja. Prateados virão de todo lugar para comprar seus lencinhos, bandeiras e roupas. Gisa conquistará o que poucos vermelhos têm e viverá bem. Ela cuidará dos nossos pais e contratará meus irmãos e eu como seus ajudantes para nos tirar da guerra. Um dia Gisa nos salvará apenas com uma linha e uma agulha. — Minhas meninas… Como o dia e a noite — murmura minha mãe. Ela não quer ofender, mas é uma verdade espinhosa. Gisa é talentosa, linda e doce. Eu sou mais durona, nas palavras de mamãe. O fundo escuro para a luz de Gisa. Acredito que nossos únicos pontos em comum sejam os brincos compartilhados e as lembranças dos nossos irmãos. Meu pai está ofegante em seu canto e bate no próprio peito. É comum, já que ele só tem um pulmão de verdade. Por sorte, um médico vermelho habilidoso o salvou, substituindo o pulmão destruído por um dispositivo que respira pelo meu pai. Não foi invenção dos prateados, que não precisam dessas coisas. Eles têm os curandeiros, que não perdem seu tempo salvando vermelhos, nem mesmo para manter os soldados na linha de frente vivos. A maioria fica nas cidades, prolongando a vida dos velhos prateados, consertando fígados destruídos pelo álcool e coisas do gênero. Assim, somos forçados a depender de um mercado negro de invenções se tivermos problemas. Alguns inventos são idiotas e muitos não funcionam. Mas um metal ruidoso salvou a vida de meu pai. Sempre escuto seu tique-taque, pequenos pulsos que mantêm meu pai respirando. — Não quero bolo. — Bom, então diga o que quer, pai. Um relógio novo ou… — Mare, não considero novo algo que você arrancou do pulso de alguém. Antes de uma nova guerra eclodir na casa dos Barrow, minha mãe tira o guisado do fogo.

— O jantar está servido. Quando põe a panela na mesa, o vapor vai em minha direção. — O cheiro está ótimo, mãe — Gisa mente. Meu pai não tem o mesmo tato e abre um sorriso amarelo diante da refeição. Não quero ser exigente, então forço um pouco da carne goela abaixo. Para minha surpresa, não está tão ruim quanto de costume. — Você usou a pimenta que eu trouxe? Em vez de assentir e sorrir, agradecida por eu ter notado, minha mãe cora e não responde. Sabe que a pimenta é roubada, como tudo que eu trago para casa. Gisa faz uma careta de desânimo e olha para o prato, desconfiando do rumo da conversa. Talvez você pense que a essa altura eu deveria estar acostumada, mas a reprovação deles ainda me incomoda. Minha mãe solta um suspiro e enterra a cabeça entre as mãos. — Mare, eu reconheço seu gesto… Só queria que… — Que eu fosse como Gisa? — completo a frase. Minha mãe sacode a cabeça. Outra mentira. — Não, claro que não. Não é minha intenção.

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