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A Rebelde do Deserto – Alwyn Hamilton

DIZIAM QUE SÓ PESSOAS MAL-INTENCIONADAS andavam pela cidade de Tiroteio depois do anoitecer. Eu não tinha más intenções. Nem boas. Desmontei de Azul e amarrei-a ao poste atrás de um bar chamado Boca Seca. O garoto sentado na cerca me olhava de cima a baixo, desconfiado. Ou talvez fossem seus olhos escuros que davam essa impressão. Abaixei mais a aba larga do chapéu ao deixar o pátio. Tinha roubado o chapéu do meu tio, assim como a égua. Emprestado, na verdade. De acordo com a lei, tudo o que eu tinha pertencia ao meu tio, até as roupas que eu vestia. As portas do bar se abriram com força, deixando sair luz, barulho e um bêbado gordo com o braço em volta de uma garota bonita. Levei a mão imediatamente ao meu sheema, que escondia a maior parte do meu rosto, para verificar se estava firme. Eu estava toda coberta e, mesmo horas depois do pôr do sol, suava como um pecador durante as preces. Devia parecer mais um nômade perdido do que um atirador de verdade, mas, desde que não parecesse uma garota, não fazia muita diferença. Naquela noite eu escaparia dali viva. Se conseguisse sair com uns trocados também, melhor ainda. Não foi difícil achar a arena de tiro do outro lado de Tiroteio. Era o lugar mais barulhento da cidade, e isso significava muito. Tratava-se de um enorme celeiro no fim de uma rua empoeirada, repleto de gente e muito iluminado, apoiado contra uma casa de oração caindo aos pedaços, comtábuas de madeira fechando a porta. Talvez o celeiro tivesse sido usado por algum criador de cavalos honesto, mas devia ter sido muitos anos antes, a julgar pelo aspecto do lugar. Quanto mais perto eu chegava, mais densa se tornava a multidão. Como moscas sobre a carcaça fresca. Um homem com nariz ensanguentado estava preso contra a parede por dois caras, enquanto outro socava seu rosto de novo e de novo. Uma garota à janela gritava coisas que fariam um ferreiro enrubescer. Um grupo de operários, ainda de uniforme, cercava um nômade em uma carroça arrebentada que bradava a venda de sangue de djinni, capaz de realizar os desejos mais secretos das pessoas de bem.


Seu sorriso largo parecia desesperado à luz do lampião, o que não me surpreendia. Havia anos que não se via um ser primordial por aqueles lados, muito menos um djinni. Além disso, ele já devia saber que os habitantes do deserto não acreditariam que os djinnis sangravam algo diferente de fogo puro, e que ninguém em Tiroteio se consideraria uma pessoa de bem. Todos no Último Condado compareciam com frequência suficiente às preces para saber as duas coisas. Tentei manter meu olhar fixo, como se nada daquilo fosse novidade. Se eu subisse além das construções, poderia enxergar, depois da areia e do mato, a Vila da Poeira, onde eu morava, embora não tivesse nada lá além de casas escuras. O povoado acordava e se deitava acompanhando o movimento do sol. Comportamento honesto, do bem, não era compatível com as horas de escuridão da noite. Se fosse possível morrer de tédio, todos lá já teriam virado cadáveres na areia. Mas Tiroteio estava desperta e agitada. Entrei discretamente no celeiro, e ninguém prestou muita atenção em mim. Já havia uma boa multidão reunida na arena. Fileiras de lampiões enormes pendiam dos beirais, dando um brilho oleoso ao rosto dos curiosos. Crianças magricelas colocavam os alvos no lugar, esquivando-se dos golpes de um homem parrudo que gritava para que se movessem mais depressa. Órfãos, a julgar pela aparência. Provavelmente crianças cujos pais trabalhavam nas imensas fábricas de armamento nos arredores da Vila da Poeira, até serem dilacerados pelas máquinas defeituosas. Ou até o dia em que foram trabalhar bêbados e acabaram morrendo queimados. Trabalhar com pólvora não era exatamente seguro. Eu estava tão focada em observar o lugar que quase dei um encontrão no homem gigante que ficava na porta. — Frente ou fundo? — ele perguntou, as mãos levemente apoiadas em uma cimitarra do lado esquerdo do quadril e em uma arma do lado direito. — O quê? — Lembrei no último instante de usar um tom mais grave. Havia treinado imitando meu amigo Tamid a semana toda, mas ainda soava como um menino, não um homem. O segurança não pareceu se importar. — São três fouzas para ficar atrás, cinco para ficar na frente. Apostas a partir de dez.

— Quanto custa para ficar no meio? Droga. Não devia ter dito aquilo. Tia Farrah havia passado o último ano tentando me ensinar na base da paulada a não bancar a esperta, sem muito sucesso. Eu tinha a sensação de que, se esse homem usasse o mesmo método, doeria muito mais. Ele apenas franziu a testa, como se eu fosse burra. — Frente ou fundo. Não existe meio, garoto. — Não estou aqui para ver — eu disse, antes que perdesse a coragem. — Vim atirar. — Então por que está desperdiçando meu tempo? Você tem que falar com Hasan. — Ele me empurrou na direção de um homem gordo com calças largas bem vermelhas e uma barba escura, parado atrás de uma mesa baixa cheia de moedas que vibravam conforme ele tamborilava os dedos. Respirei fundo através do meu sheema e tentei não demonstrar que meu coração estava quase saindo pela boca. — Quanto é para participar? A cicatriz nos lábios dele pareceu se curvar em uma expressão de escárnio. — Cinquenta fouzas. Cinquenta? Era quase tudo o que eu tinha. Tudo o que havia economizado para fugir para Izman, capital de Miraji. Mesmo com meu rosto coberto do nariz para baixo, Hasan devia ter percebido a hesitação. Sua atenção já estava se dispersando, como se soubesse que eu estava prestes a virar as costas e desistir. Essa foi a gota d’água. Joguei o dinheiro na mesa: um punhado sacolejante de moedas de louzi e de meio louzi que eu tinha economizado no último ano. Tia Farrah sempre dizia que eu fazia todo tipo de burrice só para provar que alguém estava errado. Talvez ela estivesse certa. Hasan fitou as moedas, cético, mas quando as contou com a velocidade de um trambiqueiro profissional não pôde negar que estava tudo lá. Por um breve momento a satisfação superou meu nervosismo. Ele empurrou um pedaço de madeira na minha direção, pendurado em um barbante.

O número vinte e sete estava pintado nele em preto. — Já atirou bastante, vinte e sete? — Hasan perguntou. Passei o barbante sobre a cabeça, e o pedaço de madeira bateu contra os tecidos que eu havia enrolado no peito para completar o disfarce. — Um pouco — respondi com cautela. Faltava quase tudo na Vila da Poeira — e no Último Condado inteiro, na verdade. Comida. Água. Roupas. Só havia duas coisas que tínhamos de sobra: areia e armas. Hasan riu. — Então não precisa ficar com as mãos tremendo. Pressionei as mãos contra o corpo para me controlar enquanto me aproximava da arena. Se não conseguisse segurar firme a arma, não faria muita diferença ter aprendido a mirar antes de ler. Me posicionei na areia perto de um homem que mais parecia um esqueleto sob o uniforme maltrapilho da fábrica. Outro homem, com o número vinte e oito pendurado no pescoço grosso, veio se colocar do meu lado. Ao nosso redor, as arquibancadas se enchiam. Os coletores de apostas gritavam probabilidades e valores. Se eu estivesse vendo de fora, acharia que não tinha nenhuma chance de ganhar. Ninguém em sã consciência apostaria em um garoto magricela que não tinha nem coragem de abaixar o sheema e mostrar o rosto. Talvez algum bêbado maluco ganhasse uma pequena fortuna se eu conseguisse provar que as pessoas sensatas estavam erradas. — Boa noite, pessoal! — A voz de Hasan se propagou pela multidão, que fez silêncio. Dezenas de crianças corriam entre nós entregando as pistolas. Uma garota com cabelo emaranhado e pés descalços me entregou uma arma. O peso na palma da mão me trouxe uma sensação instantânea de conforto. Abri o tambor depressa; havia seis balas perfeitamente alinhadas ali.

— Todos sabem as regras. Então é melhor segui-las, ou juro por Deus que eu mesmo vou quebrar a cara de quemtrapacear! — Risadas e gritos de comemoração irromperam das arquibancadas. Garrafas erampassadas de mão em mão. Homens apontavam para nós da mesma maneira que meu tio apontava para os cavalos quando estava tentando vendê-los. — Agora, vocês têm seis balas e seis garrafas. Se alguém ainda tiver garrafas de pé quando as balas terminarem, está fora. Os dez primeiros, entrem emposição. O restante de nós ficou parado enquanto os competidores de um a dez se posicionavam lentamente, os pés atrás de uma linha branca pintada no chão de terra batida. Devia ter uns três metros e meio entre eles e as garrafas. Até uma criança seria capaz de acertar. Apesar disso, dois deles conseguiram errar no primeiro tiro. No final, apenas metade havia acertado todos os alvos. Um deles tinha o dobro do tamanho de qualquer outro competidor. Vestia o que talvez um dia tivesse sido um uniforme militar, mas estava tão gasto que não dava para saber ao certo se costumava ter o tom dourado reluzente do Exército ou se estava apenas sujo de areia do deserto. Levava o número um feito em uma pincelada grossa no pedaço de madeira no peito. A maior torcida era para ele. Gritos de “Dahmad! Dahmad! Campeão!” podiam ser ouvidos enquanto ele se virava e segurava uma das crianças que corria de um lado para o outro catando vidro quebrado. Dahmad falou algo baixo demais para que eu escutasse, então empurrou a criança para longe. Ela voltou alguns instantes depois com uma garrafa de bebida alcoólica marrom. Dahmad começou a beber vigorosamente, encostado em uma das barras que separava a arena das arquibancadas. Se bebesse demais, não seria o campeão por muito tempo. A rodada seguinte foi ainda mais deprimente. Só um dos atiradores acertou todos os alvos. Enquanto os perdedores iam embora arrastando os pés, pude ver claramente o rosto do vencedor. Ele não era daquelas bandas, o que me pegou de surpresa.

Todo mundo naquelas bandas era daquelas bandas. Ninguém em sã consciência escolheria ficar no Último Condado se não tivesse nascido lá. Era um rapaz, talvez alguns anos mais velho que eu, e se vestia como um de nós, com um sheema verde enrolado casualmente no pescoço e roupas tão folgadas que ficava difícil saber se era tão forte quanto parecia. Seu cabelo era preto como o de qualquer garoto mirajin; sua pele era escura o suficiente para se passar por um de nós. Mas ele não era um de nós. Tinha feições que eu nunca tinha visto antes, com traços angulares, uma mandíbula quadrada e reta, sobrancelhas que pareciam cortes escuros acima dos olhos mais inquietantes que eu já tinha visto. E não era de se jogar fora. Alguns dos homens derrotados cuspiram aos pés do jovem forasteiro. Ele só levantou o canto da boca, como se estivesse tentando conter o riso. Então, como se tivesse sentido que o observava, olhou de relance para mim. Desviei rápido o olhar. Ainda restavam onze de nós e, apesar de eu ter metade do tamanho de qualquer homem ali, disputávamos espaço na linha por causa dessa pessoa a mais. — Se mexe, vinte e sete! Senti um cotovelo na minha costela. Ergui a cabeça rápido, com uma resposta na ponta da língua. Desisti quando reconheci Fazim Al’Motem do meu lado. Lutei contra a vontade de xingá-lo. Fazim havia me ensinado todos os palavrões que eu conhecia, quando ele tinha oito anos e eu, seis. Quando fomos pegos usando-os, lavaram minha boca com areia, e ele botou toda a culpa em mim. A Vila da Poeira era um lugar pequeno. Eu conhecia Fazim desde criança e passei a detestá-lo assim que adquiri um pouco de bom senso. Ultimamente ele passava a maior parte do tempo na casa do meu tio, onde eu era obrigada a morar, tentando enfiar a mão embaixo da roupa da minha prima Shira. De vez em quando, ele tentava abusar de mim também, quando ela não estava olhando. O que ele estava fazendo ali? Pela arma em sua mão, dava para adivinhar. Maldito. Se alguém percebesse que eu era uma garota, seria um problema.

Mas, se Fazim me reconhecesse, seria ainda pior. Eu já tinha me metido em muita encrenca desde que me pegaram falando palavrão, mas só fui espancada quase até a morte uma vez. Foi logo depois que minha mãe morreu, quando tentei pegar um dos cavalos do meu tio para fugir da Vila da Poeira. Estava na metade do caminho para Juniper quando eles me alcançaram. Não consegui montar um cavalo por um mês depois que tia Farrah me surrou com uma vara. Se ela descobrisse que eu estava em Tiroteio apostando dinheiro roubado, ia me bater tanto que aquela surra pareceria um afago. A coisa inteligente a fazer seria virar as costas e dar o fora dali. Mas, se fizesse isso, perderia cinquenta fouzas. E dinheiro era mais difícil de conseguir do que inteligência. Percebi que estava com a postura de uma garota e me endireitei antes de encarar os alvos. As crianças ainda corriam de um lado para o outro, alinhando as garrafas. Fazim acompanhava o movimento delas com o cano da arma, gritando “Pou, pou, pou!” e rindo quando elas se assustavam. Desejei que seu tiro saísse pela culatra, apagando o sorriso de seu rosto. As crianças saíram rápido do caminho, então ficamos apenas nós, os atiradores, e as garrafas. Éramos o último grupo da primeira rodada. As armas pipocavam ao meu redor. Me concentrei nas seis garrafas à minha frente. Poderia acertar um tiro daqueles de olhos vendados. Mas era melhor ser cuidadosa. Verifiquei a distância, alinhei o cano, conferi a mira. Quando me dei por satisfeita, puxei o gatilho. A garrafa mais à minha direita quebrou, e deixei meus ombros relaxarem um pouco com o alívio. Mais três garrafas caíram em rápida sucessão. Meu dedo pressionou o gatilho pela quinta vez. Um grito perturbou minha concentração.

Semqualquer outro aviso, um corpo se chocou contra o meu. O tiro saiu a esmo. Fazim tinha sido empurrado para o lado por outro atirador, me acertando no caminho até o chão. A multidão vaiava enquanto Fazim brigava na areia com o homem. O grandalhão da porta já estava apartando a briga. Fazim foi arrastado para o canto pelo pescoço. Hasan observou os dois homens partirem com um ar entediado e então se virou para a multidão. — Os vencedores desta rodada… — Ei! — gritei, sem pensar. — Quero outra bala. Risos soaram ao meu redor. Lá se foi o plano de não chamar atenção. Minha orelha ardia com os olhares sobre mim. Mas aquilo era muito importante. Importante demais para não falar. Uma expressão de escárnio cobriu o rosto de Hasan, e senti uma mistura de humilhação e raiva dentro de mim. — Não é assim que funciona, vinte e sete. Seis balas, seis garrafas. Não tem segunda chance. — Mas isso não é justo! Ele me empurrou. Gesticulei em direção a Fazim, que apalpava a mandíbula, encostado na parede. — Você não está na escola, garoto. Não precisamos ser justos. Você pode usar sua última bala e perder ou simplesmente abandonar a competição. Eu era a única que ainda tinha uma bala na pistola. A multidão começou a vaiar para que eu saísse logo dali, e meu rosto oculto ficou vermelho de raiva.

Sozinha na linha, ergui a arma. Podia sentir o peso da única bala no tambor. Deixei escapar um longo suspiro que afastou o sheema dos meus lábios. Um tiro. Duas garrafas. Dei dois passos para a direita e meio para trás. Contorci o corpo e tentei visualizar tudo na cabeça. Se mirasse em uma, não teria como acertar a outra. Se pegasse de raspão, nenhuma das duas quebraria. Cinquenta fouzas. Me desliguei da gritaria em volta. Ignorei o fato de que todos ali estavam me olhando e de que o plano de manter a discrição tinha ido por água abaixo. Agora eu sentia medo. O mesmo medo que me corroera nos três dias anteriores. Desde a noite em que tinha me esgueirado pela casa do meu tio depois de anoitecer, a caminho da casa de Tamid, e ouvido tia Farrah mencionar meu nome. — … Amani? Eu não tinha conseguido ouvir o que fora dito antes, mas bastou meu nome para me fazer parar. — Ela precisa de um marido. — Dava para ouvir melhor a voz do meu tio Asid do que a de sua primeira esposa. — Um homem poderia botar aquela menina nos eixos na marra. Em menos de ummês, vai fazer um ano que Zahia morreu, e Amani vai poder casar. — Depois que minha mãe foi enforcada, aos poucos as pessoas pararam de pronunciar seu nome como um xingamento. Agora meu tio mencionava sua morte como um assunto casual. — Já é difícil achar marido para suas filhas. — Tia Farrah soava irritada. — Agora quer que eu ache um para a fedelha que minha irmã deixou? — Tia Farrah nunca dizia o nome da minha mãe.

Não depois que ela foi enforcada. — Eu vou tomar a menina como esposa, então — tio Asid falou, como se estivesse negociando a venda de um cavalo. Quase desabei na areia. Tia Farrah soltou um som de desdém. — Ela é nova demais. — Havia um tom impaciente em sua voz que normalmente encerraria a conversa. — Não é mais nova do que Nida era. E já está morando na minha casa mesmo. Comendo minha comida. — Como primeira esposa, tia Farrah normalmente dominava a casa, mas de vez em quando seu marido teimava com algo, e agora estava se entusiasmando com aquela ideia numa velocidade assustadora. — Ela pode ficar aqui como minha esposa ou partir como esposa de outra pessoa. Por mim, ela fica. Por mim, não. Por mim, fugiria ou morreria tentando. De repente, meu foco voltou. Eu e meu alvo. Nada importava além da mira. Puxei o gatilho. A primeira garrafa quebrou no mesmo instante. A segunda balançou por um momento na beirada da barra de madeira. Eu conseguia ver no vidro grosso a marca onde a tinha acertado. Prendi a respiração enquanto a garrafa balançava de um lado para o outro. Cinquenta fouzas que talvez nunca mais visse. Cinquenta fouzas que eram meu único jeito de escapar. A segunda garrafa caiu no chão e se espatifou.

A multidão rugiu. Soltei um longo suspiro. Quando me virei, Hasan estava me olhando como se eu fosse uma cobra que tivesse escapado de uma armadilha. Atrás dele o forasteiro me observava, as sobrancelhas erguidas. Eu não conseguia parar de sorrir por trás do sheema. — Como me saí? Os lábios de Hasan se contorceram. — Em posição para a segunda rodada. 2 EU JÁ TINHA PERDIDO A CONTA de quanto tempo fazia desde que começamos a atirar. Tempo suficiente para o suor começar a se acumular no fim das minhas costas. Tempo suficiente para Dahmad, o Campeão, tomar três garrafas inteiras de bebida entre as rodadas. E tempo suficiente para a maior parte dos competidores ser eliminada do jogo. Mas eu seguia em frente. O alvo me encarava do outro lado da arena: garrafas se movendo sobre uma placa de madeira que girava lentamente conforme um garoto acionava a manivela. Apertei o dedo com força no gatilho seis vezes. Não consegui ouvir o vidro estilhaçar de tanto que a multidão gritava. Alguém colocou a mão no meu ombro. — Os finalistas da noite! — Hasan gritou, perto do meu ouvido. — O campeão da casa, Dahmad! — O homem cambaleou por causa da bebida e ergueu os braços. — A Cobra do Oriente, desafiandoo mais uma vez. — O forasteiro mal registrou as provocações e os gritos; apenas curvou o canto da boca, sem erguer a cabeça. — E uma surpreendente revelação. — Ele levantou meu braço com força e a multidão enlouqueceu, gritando, batendo os pés e fazendo o celeiro tremer. — O Bandido de Olhos Azuis. O apelido acabou com a minha animação. Senti um arrepio de pânico.

Procurei por Fazim na arena. Mesmo que as pessoas acreditassem que eu era um garoto, eu não tinha como esconder meus olhos. Tudo em mim era tão escuro quanto deveria ser em qualquer garota do deserto, mas meus olhos azuis me destacavam. Apesar de burro, se Fazim estivesse ali, talvez fosse esperto o suficiente para somar dois e dois. Mesmo assim, sorri por trás do sheema e deixei o calor do público me tomar. Hasan soltou meu braço. — Dez minutos para fazer as últimas apostas, pessoal. A rodada final já vai começar. Todos correram para os coletores de apostas. Sem mais nada para fazer, me agachei em um canto vazio da arena, apoiada contra as grades. Minhas pernas ainda estavam meio bambas por conta do nervosismo, minha camisa colava na barriga de tanto suor, e eu sentia o rosto vermelho por trás do sheema. Mas eu ainda estava na disputa. Fechei os olhos. Talvez realmente conseguisse sair dali com o prêmio. Fiz as contas na cabeça. O prêmio era de mais de mil fouzas. Eu teria que roubar e economizar até morrer para conseguir juntar essa quantia. Especialmente com o desastre nas minas de Sazi algumas semanas antes. Um acidente. Explosivos mal colocados. Essa era a história oficial. Mas eu tinha ouvido rumores de sabotagem. Diziam que alguém havia plantado uma bomba. E o mais estranho: diziam que tinha sido um ser primordial. Um djinni punindo Sazi por seus pecados.

Mas não importava o que tinha acontecido, o fato era que, sem o metal das minas, não seriamproduzidas armas, e sem armas não havia dinheiro. Todos estavam apertando o cinto. E eu não tinha nem dinheiro para comprar um cinto. Mas com mil fouzas poderia fazer muito mais que isso. Escapar daquele deserto sem fim, cheio de fumaça de fábrica. Poderia correr direto para Izman. Tudo o que precisava fazer era chegar a Juniper na próxima caravana. De lá haveria trens para Izman. Izman. Eu não conseguia pensar na cidade sem ouvi-la sussurrada como uma prece esperançosa na voz da minha mãe. A promessa de um mundo maior. Uma vida melhor. Que não terminasse em uma queda breve e uma parada abrupta. — Então, “Bandido de Olhos Azuis”. — Abri os olhos e vi o forasteiro agachando perto de mim, apoiando os braços nos joelhos. Ele não me encarou. — É melhor que “Cobra do Oriente”, pelo menos. — Ele estava segurando um odre. Até aquele momento eu não tinha me dado conta de como estava com sede. Meus olhos acompanharam enquanto ele tomava um longo gole. — E ainda tem umar de desonestidade. — Ele olhou para mim com o canto do olho. Havia certo tom na sua voz que faria até a pessoa mais ingênua considerá-lo perigoso. — Você tem um nome de verdade? — Claro. Mas você pode me chamar de Oman.

— Meus olhos poderiam me entregar, mas meu nome verdadeiro, Amani Al’Hiza, entregaria muito mais. O forasteiro deu uma risada curta. — Engraçado, também me chamo Oman. — Engraçado mesmo — concordei secamente, com um sorriso no canto da boca. Metade dos homens nascidos em Miraji deviam se chamar Oman, em homenagem ao nosso aclamado sultão. Não sabia se os pais achavam que isso poderia favorecê-los aos olhos do governante — não que um dia fossem chegar perto dele — ou que Deus poderia favorecê-los por engano. O que eu sabia era que o forasteiro era tão Oman quanto eu. Tudo nele era estrangeiro, dos olhos aos ângulos do rosto e ao modo como usava aquelas vestes de deserto como se não fizessemsentido sobre sua pele. Ele até tinha um sotaque, embora falasse mirajin melhor do que muitos nativos. — De onde você é, aliás? — perguntei, falando sem pensar. Toda vez que abria a boca era mais uma chance de descobrirem que eu era uma garota. Mas era mais forte do que eu. O forasteiro tomou um gole de água. — Nenhum lugar específico. E você?

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