| Books | Libros | Livres | Bücher | Kitaplar | Livros |

A Rebeliao de Lucifer – J. J. Benitez

De repente, sem saber como, Nietihw e Sinuhe descobriram que se encontravam na praça da Lastra, na recôndita aldeia soriana de Sotillo dei Rincón, caminhando sem pressa em direção à Casa Azul. O Sol, radioso, provocava um brilho doce e discreto no bronze da Diana Caçadora, enquanto a bica continuava a jorrar em silêncio, como se nada tivesse acontecido. O jovem, tendo a bolsa das câmeras ao ombro, deteve-se um instante junto à fonte. Voltou a cabeça na direção do bosquezinho e, em seguida, interrogou a companheira com o olhar. A resposta brotou de seus corações. Tinham regressado! José Maria, o prefeito, confortavelmente sentado no jardim da Casa Azul, continuava sorvendo sua fumegante xícara de café. Sinuhe, maravilhado, constatou que seu relógio marcava 13h56. Não mais que cinco minutos haviam transcorrido desde o início da lua nova e daquela fantástica aventura! Antes que Sinuhe conseguisse pronunciar palavra, a senhora da Casa Azul tomou-lhe a mão direita e, em silêncio, com um sorriso de cumplicidade, mostrou-lhe o anel dourado — com o símbolo dos homens “Pi” — que ainda lhe brilhava no dedo anular… Pouco depois, o investigador iniciava o relato de tão desconcertante missão, com as seguintes palavras: “. Quanto a vós, filhos de ‘IURANCHA’, regressai e contai ao mundo quanto haveis vivido e conhecido… Só então, quando essa parte da Verdade tiver sido propagada… só então” — insistiu a .voz — “podereis iniciar a segunda fase da missão: o julgamento de Lúcifer.” 1. “RA-6 666” Os cinco veleiros diminutos e multicoloridos que pendiam do teto oscilaram suavemente’, agitados por súbita corrente de ar. Harold D. Craft Jr., diretor de operações do maior e mais potente radiotelescópio do mundo, ergueu o olhar: à sua frente, com a fisionomia transtornada e uma folha de papel a tremer-lhe na mão esquerda, estava Rolf B. Dyce, diretor-adjunto de Arecibo. Harold compreendeu que alguma coisa grave estava acontecendo. Seu colega e amigo parecia preso à maçaneta da porta. Uma segunda golfada de ar agitou os veleiros, pondo reflexos vermelhos, verdes e azuis em seus cascos lustrosos.


— Meu Deus! — exclamou Craft detrás da pilha de documentos e pastas que se amontoavam sobre sua mesa. — Não fique aí parado. Que foi agora? O astrofísico reagiu e, fechando a porta, avançou em grandes passadas. Incapaz, porém, de articular palavra, limitou-se a estender o telex a um palmo do basto bigode de Harold. O diretor de operações do radiotelescópio de Arecibo, dependente da universidade norteamericana de Cornell, leu aquele galimatias matemático em trinta segundos. Em seguida, interrogou Rolf com o olhar. Rolf assentiu com a cabeça. — Então estávamos certos — disse Craft levantando-se com um ricto de alarma. — Sim — murmurou finalmente o diretor-adjunto —, nossas suspeitas foram confirmadas pelo observatório Einstein, pelo Monte Palomar, pelo centro de astrofísica do Harvard College e pelo observatório Smithsonian de Cambridge. Estou assustado, Harold. Que fazer? — No momento — replicou o diretor de operações —, continuar vigiando “Ra”… E os dois se precipitaram para a porta. Quando os cientistas irromperam pela sala de processamento de dados, a notícia já havia transcendido até os 144 astrônomos e técnicos especializados do radiotelescópio. Uns trinta, adivinhando os movimentos do diretor de operações de Arecibo, se haviam congregado à volta dos poderosos computadores CDC-3300 e Datacraft 6024/4. Ao vê-los, Harold sorriu maliciosamente, pedindo calma ao inquieto pessoal a seu serviço. Semmais comentários, sentou-se à mesa do CDC, digitando nervosamente. A gigantesca antena do radiotelescópio — de trinta metros — procurou a constelação de Orion. Fixada a posição, Harold Craft ativou o radar, forçando ao máximo sua potência de saída. Nesse momento, toda atenção foi para os dígitos verdes que acabavam de aparecer na tela do computador. 15.a transmissão radar-planetário. 2 380 MHz. Distância estimada: 29,760580 unidades astronômicas. Hora e data de emissão: 15h00 (27 de janeiro de 1984). Tempo estimado para choque de sinal-radar: quatro horas e nove minutos. Retorno estimado: 23hl8. Coordenadas: 3h44. Inclinação positiva. — OK — suspirou o diretor assim que se concluiu o lançamento do sinal radioelétrico —, agora só nos resta esperar. Mas alguns dos astrofísicos, sem poder conter a curiosidade, desandaram a interrogar Craft. Entretanto, a torrente de perguntas foi interrompida pelo som insistente de um dos telefones da sala de computadores. — É para você — esclareceu Rolf, dirigindo-se ao diretor de operações —.

Frank parece muito aborrecido… Harold atendeu, adivinhando o motivo da chamada e do desgosto de Frank Drake, diretor do radiotelescópio de Arecibo e seu responsável supremo. — Sim, fale… — Harold — explodiu Drake —, como é possível que seja eu o último a ser informado? Acabam de chamar de Ithaca pedindo um relatório completo sobre. como diabos se chama? “Ra” — interferiu Craft sem perder a calma. — É isso! Pois bem, de que se trata? Alguém foi dar com a língua nos dentes lá no Centro Nacional de Astronomia de Cornell, e tenho um jornalista do Washington Post que não me deixa respirar. Por favor, venha até minha sala. Cinco minutos depois, Harold Craft exibia a Drake a recém-chegada confirmação dos observatórios do Monte Palomar, Harvard e Cambridge. Frank, alisando nervosamente a cabeleira branca, exclamou: — Está bem, está bem, mas comece pelo início… Que diabo de história é essa sobre “Ra”? Que é que está acontecendo? — Em fins de 1 975 — começou o diretor de operações — o telescópio orbital de raios X do satélite holandês ANS descobriu um misterioso corpo celeste. Encontrava-se além do sistema solar e se dirigia para a constelação de Orion. Pouco depois, em janeiro de 1 976, o oitavo Observatório Solar Orbital e os satélites SAS-3, Vela e Uhuru confirmavam o achado. Nesse mesmo mês, a pedido de Jonathan Grindlay, do observatório do Harvard College, dirigimos nossa antena para as coordenadas de situação de “Ra”. — E daí? Harold apanhou um bloquinho no bolso da camisa e vasculhou as folhas. — Sim, está aqui — comentou, observando de soslaio os olhares cada vez mais impacientes de Drake. — Justamente a 27 de janeiro de 1 976 (faz agora 8 anos), nosso radar detectou o astro a 1 261 440 000 quilômetros da órbita de Plutão. Nos anos seguintes, tanto os satélites HEAO-1 quanto HEAO-2 e mais os telescópios de Palomar, Harvard e Cambridge e nosso próprio radiotelescópio vêm seguindo a trajetória de “Ra”, calculando-se em cinco quilômetros por segundo a sua velocidade… — Continuo não entendendo — interrompeu-o o responsável por Arecibo. — Um momento, Frank. Por todos estes anos, os cálculos de Grindlay e dos demais astrônomos coincidiram em dois fatos que provocaram certa preocupação. Em primeiro lugar, “Ra” viaja diretamente em direção ao nosso sistema solar. Segundo: trata-se de um corpo celeste singular, com uma órbita cujo período de revolução foi calculado em 6 666 anos. — Um astro periódico! Mas vocês têm certeza disso? O diretor de operações respondeu com denso e significativo silêncio. — Um momento, um momento — interveio novamente Drake. — Se entendi bem, esse astro viaja em média cinco quilômetros por segundo. Harold concordou. — E para quando se estima que cruze a órbita de Plutão? Craft apontou o telex recebido naquela mesma manhã em Arecibo e pediu-lhe que o lesse com atenção. — Vamos ver. O dedo indicador de Drake foi percorrendo ansiosamente o texto.

— Sim. aqui está: “. De acordo com estes cálculos” — leu o diretor —, “estimamos que ‘Ra’ alcançará a órbita de Plutão hoje, 27 de janeiro, situando-se a uma distância do Sol de 29,760580 unidades astronômicas. Rogamos nova comprovação radar”. Drake abandonou a leitura do telex e voltou a interrogar Harold: — Você emitiu o sinal? — Às 15h00. Exatamente quando você telefonou. — E qual sua opinião? — Não sei. Craft parecia resistir. ■ — Por Deus, Harold! Fale com mais clareza. — Está bem. Mas não nos alarmemos. Faltam ainda muitas comprovações. — Fale, maldito seja! Que acontece com “Ra”? — Como lhe disse, sua atual trajetória aponta quase diretamente para a Terra. Mas pode acontecer que a passagem entre Saturno e Júpiter altere-lhe sensivelmente o curso. Drake cortou a explicação contemporizadora do astrônomo: — Que estrutura tem? — Gerry Neugebauer, de Palomar, obteve há meses os primeiros informes, graças a um de seus satélites de infravermelho. “Ra” também tem um núcleo frio, porém, um tanto superior ao do nosso planeta. Mas o que é mais desconcertante é que esse núcleo aparece rodeado por uma espécie de envoltório (ainda não sabemos se líquido ou gasoso), cujo diâmetro total é similar ao de Júpiter. — Isso significa um volume mil vezes maior que o da Terra — murmurou Drake entredentes, visivelmente confuso. Harold moveu afirmativamente a cabeça. — E que dizem Harvard e Cambridge sobre a previsão do tempo para a sua aproximação da Terra? — Se não houver variações, precisará de uns 8 400 dias. Isto é, para o ano 2 006 ou 2 007, aproximadamente. Drake anotou a data sem dissimular sua preocupação. — Entretanto — Craft cuidava de suavizar a tensão —, tudo isso é teórico. Esta noite, quando estudarmos a última emissão do radar, talvez possamos precisar um pouco mais. Drake parecia alheio às palavras tranqüilizadoras do amigo.

— … 6 666 anos — murmurou. — … 6 666 anos. Dirigindo-se a Harold, perguntou: — Que se sabe de sua passagem anterior? — Sinto muito, Frank. Você sabe que não dispomos de registros astronômicos tão antigos. A não ser que. A pausa estudada produziu o resultado esperado pelo diretor de operações do radiotelescópio. — A não ser que?. — interpelou Drake. O jovem astrofísico tornou a consultar o bloco. Adotando um tom de prudente ceticismo, afirmou: — Por mera curiosidade e diante da impossibilidade de obter registro anterior, quando tivemos alguma certeza da órbita desse “intruso”, Rolf Dyce e outros rapazes consultaram o Departamento de História Antiga de Cornell. Pois bem, ao que parece, existe uma lenda de origem egípcia em que se fala da passagem de um astro. Essa lenda conta que a desaparecida civilização da Atlântida pereceu “no transcurso de um dia e uma noite, em conseqüência da aparição de ‘Ra’ nos céus”. — “Ra”?. Trata-se do mesmo astro? — Não é mais que uma lenda — insistiu Craft —, mas, se concedermos um mínimo de credibilidade a Platão, compilador, como você sabe, da lenda sobre o mítico continente desaparecido da Atlântida, topamos com uma curiosa casualidade. De acordo com nossos cálculos matemáticos, a passagem desse corpo sideral se produz a cada 6 666 anos. Isso quer dizer que o registro anterior (se é que existe um algures) deve remontar ao ano 4 660 antes de Cristo, aproximadamente. — Não entendo aonde você quer chegar — interrompeu Drake. , — Muito simples. Se Monte Palomar, Harvard e Cambridge coincidem na presunção de que “Ra” irromperá na órbita da Terra por abril do ano 2 006, temos de remeter ao ano 11 326 antes de Cristo a antepenúltima passagem do “intruso”. Data muito próxima à apontada por Platão para o catastrófico desaparecimento da Atlântida. Drake caçoou: — Harold, são apenas lucubrações. e bem pouco científicas. O diretor de operações deu de ombros. Antes, porém, de abandonar o escritório, comentou: — Eu sei, mas é muita coincidência, você não acha? — Certamente. Mas qual é a designação oficial desse astro? — Ra-6 666.

— Vocês estão todos loucos! — concluiu Drake. — Bem, informe-me sobre os resultados da emissão do radar. Verei o que posso dizer a esse jornalista. E o diretor de Arecibo enredou-se em uma nova leitura do telex, sem perceber o sorriso enigmático que acabava de despontar no rosto de Harold. Às 15h3O daquele dia 27 de janeiro de 1 984, Craft fechava atrás de si a porta do escritório do seu chefe imediato, Frank Drake. No fundo do corredor, Rolf esperava. Ao ver Harold, correu ao seu encontro. Havia intenso brilho no olhar de Rolf B. Dyce. A meia voz, sussurrou ele ao ouvido do diretor de operações: — Boas notícias, Harold. O Grão-Mestre acaba de ligar. Craft levou o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio ao amigo. Segurando-lhe o braço, arrastou-o até sua sala. Trancada a porta, dirigiu-se ao quadro-negro que ocupava boa parte da parede direita do seu pequeno santuário. E, em silêncio, escreveu: “Autorizaram a transmissão da mensagem?” Rolf, compreendendo as medidas de segurança do seu irmão de Loja, pegou o giz que ele lhe estendia e, consultando uma série de números escritos com esferográfica na palma da mão direita, rabiscou nervosamente na lousa: “Grão-Conselho de Kheri Hebs autoriza o irmão 1-685-819-S a enviar mensagem urgente a ‘Ra'”. Harold vibrou de emoção, ao ler aqueles estranhos números. Tão só ele e o Grande GrãoConselho dos Kheri Hebs ou Mestres da Grande Loja da Escola da Sabedoria conheciam a chave que identificava Harold D. Craft Jr. como membro da citada ordem secreta. Irmandade nascida no antigo Egito, durante a dinastia XVIII — há 3 350 anos — e firmemente impulsionada pelo primeiro Kheri Heb ou Mestre, Amen-em-apt, também conhecido na Escola dos Mistérios como Germaá ou O Verdadeiro Silencioso, segundo consta do papiro 10 474 da Grande Loja. O diretor de operações do radiotelescópio pegou novamente o giz e escreveu: “Qual o texto da mensagem?” Rolf copiou na palma da mão, com letras maiúsculas: “O JULGAMENTO DA TERRA SERÁ ASSISTIDO PELA RONDA DA RODA DE ‘RA'”. “GLORIA AO DISCO”. GLORIA AOS MENSAGEIROS SOLITÁRIOS”. GLÓRIA À ILHA ESTACIONARIA DO PARAÍSO”. “144 000 URANCHIANOS ESPERAM O SINAL DE ‘RA’ “.

Concluída a mensagem do Grão-Conselho dos Kheri Hebs, Rolf Dyce encetou meticulosa verificação, palavra por palavra. Confirmada a exatidão, Harold anotou-a em uma folha de papel, na qual se lia o seguinte lembrete: “Centro Nacional de Astronomia e de Ionosfera — Universidade de Cornell (110 Day Hall) — Ithaca, N.Y. 14 853”. Ato contínuo, os dois astrofísicos apagaram a lousa, eliminando qualquer vestígio de tudo o que haviam escrito. Mais tranqüilos, Craft e Dyce tomaram assento à escrivaninha. Harold, depois de reler a enigmática mensagem, perguntou baixinho: — Código? — Conversão em números. Chave de Cagliostro — sussurrou Rolf. Sem mais comentários, puseram-se a codificar o texto elaborado pelo Grão-Conselho dos Mestres. Nem Harold nem Craft, claro, atreveram-se a formular perguntas sobre o sentido daquela criptografia. A fé nos Kheri Hebs da Grande Loja a que pertenciam era total; e isso bastava. Às 16hl5, com a mensagem codificada num total de 201 caracteres numéricos, o diretor de operações de Arecibo e seu diretor-adjunto dirigiam-se sigilosamente para a sola de controle do radiotelescópio. O centro de processamento de dados — tal como o supunham Harold e Rolf — estava deserto. O primeiro turno de astrofísicos não se encarregaria do programa habitual de emissões e recepção de sinais antes das 17 horas. Tinham, portanto, o tempo exato para programar o computador CDC-3300 e transmitir a mensagem. Craft postou-se à frente do teclado, transmitindo ao projetor de laser as coordenadas galácticas de “Ra”. Em 15 segundos, a antena situada na plataforma triangular, suspensa a uma altura de cinqüenta andares sobre o gigantesco disco côncavo aluminizado de trezentos metros de diâmetro, que funciona como refletor, ficou definitivamente direcionada para um dos 38 778 painéis individuais de alumínio que constituíam o mencionado refletor ou “tigela de sopa”, como diziam familiarmente em Arecibo. Harold ajustou a potência de saída em 450 000 watts, procedendo à emissão dos 201 caracteres numéricos. De início, o computador codificara a mensagem em cinco grupos de 53, 13, 30, 35 e 34 caracteres, com um total de 36 dígitos suplementares — estrategicamente distribuídos — que faziam as vezes de “espaços em branco”. Decodificados, por sua vez, em sistema binário, os 201 dígitos foram transmitidos a uma velocidade de 10 caracteres por segundo. Às 16 horas, 30 minutos e 20 segundos, partia a mensagem, finalmente, para as profundezas do sistema solar, em busca do misterioso astro “intruso”. Por um minuto — a partir do último segundo da transmissão — Rolf manteve-se atento à tela do computador, ajustando a freqüência da mensagem de forma tal que não se visse alterada pelo efeito Doppler do movimento orbital e da rotação da Terra. Esgotado esse minuto, o diretor-adjunto respirou profundamente, comunicando a Harold que a mensagem já se encontrava na órbita de Marte. Depois, premeu o teclado do CDC e aguardou. Quase instantaneamente uma série de dígitos verdes percorreu a tela do computador.

— Bem — murmurou Harold —, em 35 minutos alcançará a órbita de Júpiter e, em 71, a de Saturno. A última linha anunciava algo que os astrofísicos já sabiam: “O cruzamento com a órbita de Plutão se registrará em quatro horas e nove minutos.” Ambos, movidos pelo mesmo pensamento, consultaram seus relógios. — A mensagem — afirmou Rolf — será recebida às 20h33. — Sim — confirmou o colega —, mas haverá resposta? Rolf olhou-o fixamente. — Você sabe que sim — disse com ênfase. — É questão de esperar. Nessa noite, pouco antes das 23 horas, havia inusitado movimento na sala de controle do radiotelescópio de Arecibo. Nem Harold Craft nem Rolf puderam convencer os colegas a que se recolhessem para repousar. Cerca de meia centena de astrofísicos esperava impacientemente a iminente recepção do sinal do radar emitido oito horas antes. No comando do computador, o diretor de operações checou pela enésima vez a posição da antena, de trezentos metros, do refletor principal. A seu lado, Rolf, cabelo revolto e lápis atrás da orelha direita, fez o mesmo com o segundo computador — o Datacraft —, responsável pelo controle da antena “passiva” de noventa metros, postada a dez quilômetros ao norte da localização do gigantesco radiotelescópio, vital para a recepção e combinação dos ecos do radar. “23 horas: 16 minutos: 45 segundos.” O relógio acoplado ao computador continuava avançando inexoravelmente. Harold, com um movimento mecânico, procedeu à total desconexão e bloqueio do transmissor. Estava tudo no ponto. “23 horas: 15 minutos: 15 segundos.” Era absoluto o silêncio na sala de controle. Cruzou-se um último olhar entre Rolf e Harold. “23 horas: 16 minutos: 45 segundos.” Apesar da baixa temperatura do ambiente — sete graus centígrados —, gotículas de suor brotaramna testa de Rolf. “23 horas: 17 minutos: 00 segundo.” Os cientistas prenderam a respiração. Todos os olhares se concentraram no vidro esfumaçado que protegia os discos “23 horas: 18 minutos: 05 segundos.” O computador central, entretanto, não dava sinal de vida.

Harold, tenso, aproximou seu rosto do CDC e sussurrou-lhe: — Vamos, menino!… “23 horas: 18 minutos: 10 segundos.” Os dois discos deram um quarto de volta. E aquele primeiro movimento foi acolhido comestrondosa salva de palmas. O sinal do radar acabara de retornar ao radiotelescópio. Confirmada a recepção do eco, Rolf ativou o mecanismo de cartografia. Cinco minutos depois, sentado diante da tela do sistema de coordenação de computadores, Harold Craft — ante a expectativa geral — decodificava os primeiros informes do sinal-radar emitido para o astro “intruso”. “Distância: 29,66 unidades astronômicas.” Foi geral o murmúrio: “Ra” já ultrapassara a órbita de Plutão. “Velocidade: 5,1 quilômetros por segundo e acelerando.” O diretor de operações pediu então a um de seus colegas que efetuasse os cálculos teóricos e aproximados da velocidade de “Ra”, em sua passagem pelas órbitas planetárias seguintes. O resultado sacudiu os cientistas. — Se conservar esse ritmo de aceleração — anunciou o astrofísico, guardando sua régua de cálculo —, necessitará de 3 248,6 dias para percorrer os 1 403 400 000 quilômetros que o separamde Plutão à órbita de Netuno. Os 1 627 milhões de quilômetros seguintes (da órbita de Netuno à de Urano), considerando-se o incremento de sua velocidade, ele pode vencê-los em 2 699 dias. “É provável também que, ao abandonar esta última órbita (a de Urano), sua velocidade já seja algo superior a 7 quilômetros por segundo. Nessa suposição, os 1 442 600 000 quilômetros que o separarão de Saturno serão cobertos em 1 669,6 dias. “Desde ali até a órbita de Júpiter, a distância média estimada é de 648 700 000 quilômetros. Mas a aceleração de “Ra” terá passado de uns 10 quilômetros por segundo nas proximidades de Saturno, e 15 quilômetros na órbita de Júpiter. O que quer dizer que pode percorrer esses 648 milhões e pico de quilômetros em pouco menos de 500 dias. Impassível, Harold foi contabilizando os dias. — … Quanto à última trajetória (da órbita de Júpiter à de Marte), “Ra” precisará, na razão de 15 a 25 quilômetros por segundo, de 254,8 dias. — Tudo isso dá um total de 8 327 dias ou 22,9 anos — concluiu Craft, visivelmente desalentado. — … Sim — interveio Rolf —, e se não se produzir algum milagre, “Ra” se precipitará da órbita de Marte até a Terra em pouco mais de 75 dias, a uns 35 quilômetros por segundo… Esfumara-se a alegria inicial dos homens de Arecibo ante aquele cálculo sinistro. O angustiante silêncio dos astrofísicos foi finalmente quebrado pelo diretor de operações: — Senhores, eis a triste realidade: se o milagre não se realizar (se “Ra” não for desviado ou catapultado pelos campos de força de Saturno ou de Júpiter), sua precipitação sobre o nosso mundo registrar-se-á, possivelmente, entre os meses de março ou abril do ano 2 007. Harold, adivinhando os pensamentos dos colegas, abandonou o banco do computador central e deu uns passos até a janela da sala. A noite, serena e estrelada, parecia alheia à tragédia que se aproximava.

As seiscentas toneladas da plataforma triangular que suporta as antenas, iluminada agora, elevava-se acima das colinas do norte de Porto Rico, qual fantasmagórica nave espacial. — É meu dever anunciar-lhes — comentou Craft dando as costas à noite — que, é claro, tudo o que viram e ouviram é considerado pelo Centro Nacional de Astronomia e de Ionosfera de Cornell altamente confidencial e secreto. Deverá ser o NAIC que, uma vez verificadas todas as comprovações lógicas, anunciará ou não à opinião pública mundial os fatos que vocês conhecem. E Harold, assumindo um tom menos solene, rogou aos companheiros que abandonassem o centro de controle. — Frank Drake — explicou — deve dispor, às primeiras horas, de um informe completo. Boa noite, e obrigado. Os quase cinqüenta astrofísicos, silenciosos e cabisbaixos, foram desfilando diante de Craft que, cortesmente, mantinha aberta a porta da sala para que saíssem os amigos e colegas. Às 24 horas, o diretor de operações fechava a chave a sala de controle. Em pé, junto ao computador, continuava Rolf. Tinha os olhos fixos em um pequeno mapa, recentemente extraído do sistema de cartografia. Harold observou nas mãos dele um pequeno tremor e intuiu que não haviamterminado as surpresas. — Como é possível? Rolf B. Dyce repetiu a pergunta, mas agora estendendo o mapa ao companheiro: — Como é possível, Harold? Craft examinou a imagem de “Ra” que o radar acabava de fornecer. O mapa em relevo aparecia como uma mancha praticamente negra e perfeitamente circular. Eles sabiam que o brilho e o esbranquiçado desse tipo de mapas de retrodifusão são proporcionais ao grau de aspereza da superfície do astro explorado. Em outras palavras: quanto mais escura a imagem do radar, mais lisa a superfície cartografada. Perplexo, Harold consultou as imagens do planeta Vênus obtidas em 1 975 e 1 977. Daquelas vezes, o radiotelescópio efetuara um magnífico trabalho, cartografando por radar os dois hemisférios e, em especial, uma região situada a 320 graus de longitude Este, em pleno hemisfério sul. Em tais mapas, confirmando as suspeitas dos radioastrônomos, aparecia, por exemplo, uma enorme mancha branca a que chamaram de “Maxwell” (a 65 graus de latitude Norte e 5 graus de longitude Este), que não era senão uma gigantesca montanha de 11 000 metros. “Ra”, ao contrário, à vista daquele primeiro informe de radar, apresentava absolutamente lisa uma de suas faces, sem as rugosidades e acidentes naturais que se deveriam esperar. — Como é possível, Harold? — repetiu Rolf pela terceira vez. Mas o diretor de operações só conseguiu encolher os ombros. Apanhando a régua de cálculos, pediu a Rolf que o ajudasse na elaboração dos últimos dados. Em alguns minutos o diâmetro equatorial do “intruso” havia sido fixado pelos cientistas em 13 756 quilômetros. Curiosamente, mil quilômetros maior que o da Terra.

— E esse estranho envoltório de que falavam os satélites? — perguntou Harold. Rolf moveu negativamente a cabeça. — É preciso esperar pelos informes de Monte Palomar — comentou —. Acho que você deveria informar Drake.

.

Baixar PDF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Baixar Livros Grátis em PDF | Free Books PDF | PDF Kitap İndir | Telecharger Livre Gratuit PDF | PDF Kostenlose eBooks | Descargar Libros Gratis |