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A Religiao do Cerebro – Raul Marino Jr,

Este livro é o resultado e o testemunho de muitos anos de pesquisas e vivências no dia-a-dia e no convívio com pacientes neurológicos, neurocirúrgicos e psiquiátricos em nosso serviço no Hospital das Clínicas de São Paulo. Suas origens encontram-se nos trabalhos que realizei nos laboratórios de Anatomia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) com o professor Walle H. Nauta, que lançou as bases da anatomia e das conexões macro e microscópicas do sistema límbico e é considerado um dos mais brilhantes neuroanatomistas das últimas décadas. Devo também muitos ensinamentos ao professor Paul D. MacLean, cognominado de pai do sistema límbico, pois o batizou com esse nome e lançou, experimentalmente, as bases da neurofisiologia desse sistema anatômico ao trabalhar com primatas. Durante um ano tive o privilégio de trabalhar com esse gigante do pensamento psiquiátrico e psicofisiológico em seu laboratório no National Institutes of Health, emBethesda, Maryland (Laboratory of Limbic Integration and Behavior), onde fui introduzido nos mistérios dessas estruturas cerebrais profundas e na sua neurofisiologia. Os anos que passei na Harvard Medical School, em Boston, e na McGill University, em Montreal, estudando as aplicações desses conhecimentos em humanos, sobretudo em relação à psicocirurgia e ao tratamento da dor e das epilepsias, motivaram-me a continuar os trabalhos para a aplicação desses conhecimentos em seres humanos. Assim, em 1977, juntamente com uma equipe de médicos fundamos a Divisão de Neurocirurgia Funcional e o Centro de Estudos em Psicofisiologia Humana do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ali descobrimos que a dor e o sofrimento, assim como as doenças mentais, as epilepsias e as alterações hormonais provocadas por tumores da hipófise, podem“imitar” e caricaturar muitas das funções normais de áreas cerebrais com funções elevadas, e que o estudo desse processo pode ampliar nossa visão para a compreensão das funções mais elevadas do cérebro. Nossos psicólogos, neuropsicólogos, neurólogos, neurocirurgiões, eletroencefalografistas, neurofisiologistas e toda uma equipe multidisciplinar têm contribuído muito para a divulgação e o aperfeiçoamento do tratamento desses problemas médicos em nosso meio, junto de nossos estudantes, assistentes e residentes, bem como para a formação de novos especialistas no assunto, já espalhados por todo o país. Trago aqui, de forma resumida, alguns desses conhecimentos que esbarram nos mecanismos mais transcendentais da fisiologia cerebral humana, como já o fiz na década de 1970 com a publicação de Fisiologia das emoções, um dos primeiros livros que abordaram a fisiologia do sistema límbico emnosso meio. Com este livro, pretendo completar aqueles conhecimentos básicos, agora relacionandoos às funções mais superiores — quase digo “sublimes” — do cérebro humano. Os capítulos 4, 5 e 6 deste livro serão fundamentais para quem não tiver familiaridade com a anatomia e a fisiologia do cérebro e também para o leitor ávido dos conhecimentos apenas metafísicos sobre esse órgão. Este, com o decorrer da leitura, terá a oportunidade de entender melhor a importância das funções mais superiores do cérebro na neurologia e, sobretudo, na teologia. Aos que não tiverem uma crença, que não acreditarem num Ser Supremo responsável pela criação tanto do Universo quanto do cérebro do homem, de sua mente, de sua alma e da vida de seu espírito, a leitura deste livro, repleto de citações e de palavras das Escrituras, poderá ser muito proveitosa —somente as Escrituras, como produto supranatural da Revelação, podem explicar o funcionamento de um simples neurônio ou a “máquina” complexa do órgão do pensamento, o que a ciência, até o momento, não conseguiu fazer. Aos profundamente ateístas, resta conformar-se com as explicações que a experimentação científica nos tem dado e nos dará nas próximas décadas, as quais procuramignorar a força e a energia que nos animam a mente e o pensamento, a consciência e a possibilidade da existência de uma alma e de um espírito, repudiando o sobrenatural como incômodo ao raciocínio humano. Deixo agradecimentos aos professores da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) — ao tempo (1958) ainda localizada na Rua Maria Antonia —, que me introduziram na Lógica, na História da Filosofia e nos rumos do moderno pensamento humano, especialmente os professores Linneu Schutzer, Cruz Costa e Lívio Teixeira. Aos muitos professores da Pontifícia Faculdade Assunção de Teologia (Unifai), agradeço por terem guiado meus primeiros passos no estudo da sublime ciência da teologia e da revelação. Ao professor Huberto Rohden, filósofo, teólogo, autor de mais de sessenta livros de cristianização e cuja convivência mudou os rumos de meu pensamento, expresso minha saudade. A Carlo Carretto, com quem, na Itália, compartilhei de sua santidade, de seus conselhos e da profundeza de sua espiritualidade, deixo estas idéias, muitas delas como continuação de seu próprio pensamento. Agradeço, ainda, a todos os que contribuíram para que estes escritos se tornassem possíveis, sobretudo às secretárias, aos revisores, aos colegas que apresentaram sugestões e à Editora Gente, que se prontificou a lançá-lo. O Autor INTRODUÇÃOA ciência, tal como a entendemos hoje, relaciona-se com tudo aquilo que possa ser calculado, medido, pesado e enumerado. Nada mais que não possa ser observado objetivamente poderá ser chamado de científico. Segundo Einstein, cientista que revolucionou as ciências de todos os tempos, “a finalidade da ciência é uma compreensão tão completa quanto possível da conexão entre as experiências dos sentidos em sua totalidade e, por outro lado, a consecução desse objetivo, valendo-se de um mínimo de conceitos primários e de relações e procurando, tanto quanto possível, uma unidade lógica nas imagens do mundo”. Este livro tentará demonstrar o que já é, de longa data, do conhecimento de neuropsicólogos e de muitos neurofisiologistas: as experiências subjetivas de nossa mente e de nossa consciência não são apenas o resultado de erros de nossas emoções ou de pensamentos aleatórios.


Nosso intelecto, nossa memória, nossa afetividade, nosso aprendizado, nossos sentimentos, nossas intuições, nossas motivações religiosas, nosso estado de espírito e o mundo de nossas emoções podem estar associados a eventos neurológicos observáveis, como parte de nossa função cerebral normal. Estudaremos cada uma dessas funções cerebrais e as correlacionaremos — inclusive a estudos chamados espirituais — como biologicamente observáveis e cientificamente reais, intimamente entrelaçadas com a biologia humana. Como o leitor poderá verificar pela extensa bibliografia no fim do volume, centenas de autores, nas últimas duas décadas, vêm se dedicando ao estudo neurofisiológico das experiências místicas ou espirituais detectadas em voluntários durante a prece, a meditação e a contemplação. Eles as classificam como funções neurológicas do cérebro normal, que funciona como uma janela para o mundo da alma, da consciência e do espírito. Um dos neurocientistas mais importantes do último século, sir John Eccles, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia em 1963 por ter sido o primeiro a registrar a atividade elétrica do corpo celular de um neurônio isolado dentro de seu próprio citoplasma, afirmou, em 1994, que deve haver uma interação entre a alma e o cérebro. Essa interação, segundo ele, seria mediada por uma entidade especial, a qual denominou de psychon, cujo funcionamento deveria ser ao nível das sinapses entre os neurônios. Roger Penrose, matemático de Cambridge, e Stuart Hameroff, pesquisador de anestésicos, não acreditam que fenômenos da consciência possam ser explicados apenas neurobiologicamente, no plano dos neurônios e das redes neurais. Acham que a chave da consciência e dos pensamentos repousa em eventos quânticos, no plano das diminutas estruturas protéicas — os microtúbulos —situadas no interior dos neurônios, estruturas essas que também se encontram em todas as células do organismo e têm outras funções, incluindo a mediação na divisão celular. Nos neurônios, são responsáveis pelo transporte de proteínas ao longo dos axônios, nos sentidos descendente e ascendente e em relação aos dendritos. Penrose e Hameroff têm tentado demonstrar que essas estruturas funcionam num estágio subatômico, mediando funções quânticas, com uma sensibilidade particular aos anestésicos. Isso sugere que elas modulam a consciência, sendo afetadas sobretudo por anestésicos hidrofóbicos, que causam perda de consciência. À medida que nos damos conta desses recentes achados da pesquisa cerebral, surgem questões pertinentes: seria tabu discutir religião no contexto neurológico? Seria a discussão nesse nível uma espécie de heresia em face da ciência experimental? Essa discussão não intimidou William James, um dos pais da moderna psicologia. Há mais de um século, em 1901, ele juntou esses dois tópicos na publicação Religion and neurology, a primeira de suas Edinburgh Lectures, e foi um dos primeiros a lançar o desafio de demonstrar como funciona nosso cérebro em seu livro The varities of religious experience (1925), no qual afirmou: “Para alcançar uma ciência crítica sobre as religiões, o material básico deve proceder de fatos da experiência pessoal”. Desse modo, dando início às considerações contidas neste volume, parto do princípio de que todos os fenômenos básicos de nossas faculdades mentais — consciência, emoções, personalidade, afetividade, sentimentos religiosos e experiências místicas ou transcendentais — deverão, primeiro, passar por todas as vias neurais de nosso sistema nervoso, tendo o cérebro como sede, antes de se atualizarem em nossa consciência. Nenhuma filosofia, ciência ou psicologia consegue, ainda, provar a existência de entidades complementares a esses fenômenos, como alma e espírito, nem a existência de uma divindade ou de um demiurgo. Também, até hoje, por meio da razão, não se conseguiu provar sua não-existência. É nesse ponto que as neurociências poderão considerar sua humildade e sua pobreza, tentando enriquecer-se cientificamente com o conhecimento que os Escritos sagrados proporcionam por meio da fé, da graça e da revelação, hoje aceitos como a “ciência da teologia”. O primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, afirmava que “a religião é tão necessária à razão como a razão é necessária à religião, uma não podendo existir sem a outra”. Segundo a teologia, a fé, como resposta intelectual afirmativa à revelação, é também uminstrumento de conhecimento da verdade, superior a nossa limitada razão ou raciocínio. Ela é uma sabedoria revelada pelo espírito, e não pela razão (I Coríntios, 2). A teologia representa a fé como razão perfeita, plena, completa e consumada, uma racionalidade culminante e suprema, particularíssima e trans-racional, situando-se acima da razão humana. A fé é a ausência de dúvida, é uma abertura para o sobrenatural enquanto a razão se fecha apenas em torno do natural. Já é tempo, portanto, de tomarmos emprestados alguns desses conhecimentos a fim de enriquecer e suplementar os poucos que já temos sobre as funções mais superiores desse órgão ainda misterioso de que fomos dotados — o cérebro. Ken Wilber (1998), um dos modernos cientistas que têm procurado integrar ciência e religião, menciona que “os antigos místicos da religião, como São Boaventura e Hugo de São Vitor, afirmavam que todo ser humano possui três tipos básicos de conhecimento: o olho da carne, o olho da mente e o olho da contemplação — o olho da carne seria o empirismo da ciência; o da mente, o conhecimento racional e lógico; e o da contemplação, o olho da gnose ou do conhecimento espiritual”. Durante muitos anos a ciência tem negado a existência da gnose do espírito ou de qualquer tipo de inteligência que transcenda o domínio material, mostrando-nos os fatos unicamente pelos sentidos (olhos da carne).

Isso não quer dizer que a espiritualidade começa onde a ciência termina, pois, como veremos, ambas concorrem para uma busca do real, em que ciência e religião se completarão em um abraço grande e íntimo, em uma nova visão do mundo. Ainda segundo Wilber (1998), “quando o olho da contemplação é abandonado, a religião fica só com o olho da mente e é retalhada em postas pela filosofia moderna e pelo olho da carne, e é crucificada pela ciência moderna. Se a religião possui algo que é exclusivamente seu, é a contemplação, que é a sua força (…) uma ciência de experiência espiritual”. Assim, ciência e religião começam a assemelhar-se mais a gêmeos fraternos que a inimigos seculares. Talvez um dia, após esses estudos, possamos repetir com o próprio Einstein, quando dizia: “A ciência sem religião é paralítica; a religião sem ciência é cega”. Ou, então, lançando mão do lirismo do poeta inglês Alfred Noyes (1880-1958), repetir com ele: “O que é a ciência senão pura religião, procurando por toda parte os verdadeiros mandamentos?”

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