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A Relva por Travesseiro – Lian Hearn

S hirakawa Kaede dormia profundamente, naquele estado próximo à inconsciência que os Kikuta conseguem provocar com o olhar. A noite chegava ao fim, com a aproximação da aurora as estrelas empalideciam, os sons do templo se elevavam e pairavam à sua volta, mas ela não se abalava. Não ouvia sua acompanhante, Shizuka, chamá-la ansiosamente, de tempos em tempos, tentando despertála. Não sentia a mão de Shizuka em sua testa. Não ouvia os homens do Senhor Arai Daiichi chegar à varanda cada vez mais impacientes, dizendo que o capitão estava esperando para falar com a Senhorita Shirakawa. Sua respiração era serena e calma, suas feições imóveis como uma máscara. Ao entardecer, seu sono pareceu alterar-se. Suas pálpebras tremiam e seus lábios pareciam sorrir. Seus dedos, até então ligeiramente fechados, se abriram. “Tenha paciência. Ele virá ao seu encontro.” Kaede estava sonhando que se transformara em gelo. As palavras ecoavam-lhe nitidamente no cérebro. No sonho não havia medo, só a sensação de estar sendo sustentada por alguma coisa fria e branca, num mundo silencioso, congelado e encantado. Seus olhos se abriram. Ainda estava claro. As sombras lhe diziam que era o entardecer. Um sininho movido pelo vento tocou uma vez e depois o ar se imobilizou. O dia, do qual não tinha nenhuma lembrança, decerto fora quente. Sua pele estava úmida sob os cabelos. Pássaros chilreavam nos beirais, e ela ouvia as bicadas das andorinhas que ciscavam os últimos insetos do dia. Logo elas voariam para o sul. Já era outono. O som dos pássaros lembrou-lhe a pintura que Takeo lhe dera, pouco mais de um mês antes, naquele mesmo lugar, a imagem de um pássaro da floresta que a tinha feito pensar na liberdade. Kaede perdera a pintura, com todas as outras coisas que possuía, seu vestido de casamento, todas as suas roupas, no incêndio do castelo de Inuyama.


Agora estava sem nada. Shizuka arranjara umas roupas velhas para ela na casa em que ficaram e pedira emprestados pentes e outras coisas. Kaede nunca estivera num lugar como aquele, uma loja, cheirando a soja fermentada, cheia de gente, de quem ela tentava manter-se afastada, embora volta e meia as criadas viessem espiá-la pelas frestas. Ela achava que todos queriam ver o que lhe havia acontecido depois daquela noite em que o castelo fora arrasado. Tinha matado um homem, deitado com outro e lutado a seu lado empunhando a espada do morto. Ela mesma não acreditava que tivesse feito tudo aquilo. Às vezes achava que estivesse enfeitiçada, como as pessoas diziam. Diziam que todo homem que a desejava morria, e era verdade. Alguns tinham morrido. Mas não Takeo. Desde que fora atacada pelo guarda no castelo Noguchi, temia todos os homens. O pavor que tinha de Iida a levara a defender-se dele; mas nunca tivera medo de Takeo. Seu único desejo sempre fora tê-lo mais perto. Desde o primeiro encontro que tiveram em Tsuwano, seu corpo ansiara pelo corpo dele. Queria que ele a tocasse, queria sentir a pele de Takeo na sua. Agora, ao lembrar aquela noite, ela entendia com maior clareza que não poderia se casar com ninguém que não fosse ele. “Vou ter paciência”, prometeu. Mas de onde teriam vindo aquelas palavras? Virou a cabeça e viu a silhueta de Shizuka, na beira da varanda. Por trás da moça erguiam-se as velhas árvores do santuário. O ar cheirava a cedro e poeira. O sino do templo bateu a hora do entardecer. Kaede não dizia nada. Não queria falar com ninguém nem ouvir voz nenhuma. Queria voltar àquele lugar gelado em que estivera dormindo. Então, para além dos grãos de poeira que flutuavam nos últimos raios de sol, ela viu alguma coisa: um espírito, pensou, embora não fosse apenas um espírito, pois tinha substância; estava ali, incontestável e real, cintilando como neve recém-caída.

Resplandecia, meio rósea, mas, no momento em que Kaede a reconheceu, a Deusa Branca se foi, ela que era toda piedade e generosidade. – O que foi? – Shizuka ouviu o movimento e correu para seu lado. Kaede olhou para Shizuka e notou sua expressão de profunda preocupação. Percebeu o quanto aquela mulher se tornara preciosa para ela, sua mais íntima, sua única amiga. – Nada. Uma espécie de sonho. – A senhorita está bem? Como está se sentindo? – Não sei. Estou sentindo… – a voz de Kaede esmaeceu. Ficou olhando para Shizuka por alguns instantes. -Dormi o dia todo? O que aconteceu comigo? – Ele não devia ter feito isso com a senhorita – disse Shizuka, com a voz áspera de preocupação e aborrecimento. – Foi Takeo? Shizuka meneou a cabeça, confirmando: – Eu não sabia que ele tinha essa habilidade. É uma característica da família Kikuta. – A última coisa de que me lembro é de seus olhos. Olhamos um para o outro e adormeci. Shizuka viu-a franzir o cenho. Depois de uma pausa, Kaede continuou: – Ele foi embora, não é? – Muto Kenji, meu tio, e Kotaro, o mestre Kikuta, vieram buscá-lo ontem à noite – respondeu Shizuka. – E nunca mais o verei? Kaede relembrou seu desespero na noite anterior, antes do sono longo e profundo. Havia implorado a Takeo que não fosse embora. Tinha pavor do futuro sem ele; estava zangada e magoada por ele rejeitá-la. Mas toda aquela turbulência se acalmara. – A senhorita precisa esquecê-lo – disse Shizuka, tomando a mão de Kaede nas suas e afagandoa suavemente. – De agora em diante a vida dele e a sua não podem se tocar. Kaede sorriu levemente. “Não posso esquecê-lo”, ela pensava. “Ele nunca poderá ser tirado de mim.

Eu dormi no gelo. Eu vi a Deusa Branca.” Sob a luz que se extinguia Shizuka tinha a impressão de que o rosto de Kaede flutuava e vacilava como se estivesse se dissolvendo e mudando de forma. – A senhorita está bem? – Shizuka voltou a perguntar, ansiosa. – Não são muitas as pessoas que sobrevivem ao sono Kikuta. Não sei que efeito ele teve no seu caso. – Não me prejudicou. Mas, de certo modo, me alterou. Sinto como se eu não soubesse nada. Como se tivesse que aprender tudo de novo. Shizuka ajoelhou-se diante dela, confusa, seus olhos perscrutando o semblante de Kaede. – O que vai fazer agora? Para onde vai? Pretende voltar a Inuyama com Arai? – Acho que deveria ir para a casa de meus pais. Preciso ver minha mãe. Receio que ela tenha morrido enquanto permanecemos em Inuyama durante todo aquele tempo. Vou embora de manhã. Acho que você deveria informar ao Senhor Arai. – Compreendo sua ansiedade – respondeu Shizuka -, mas Arai decerto irá relutar em deixá-la ir. – Então terei que convencê-lo – disse Kaede, calmamente. – Primeiro preciso comer. Poderia pedir-lhes que me preparem alguma coisa? E traga-me chá, por favor. – Senhorita – Shizuka fez uma reverência e saiu pela varanda. Enquanto Shizuka se afastava, Kaede ouviu o som queixoso de uma flauta, que vinha do jardim atrás do templo. Pensou conhecer a pessoa que tocava, um dos jovens monges, mas não se lembrava de seu nome. Ele lhes mostrara as famosas pinturas de Sesshu quando visitaram o templo pela primeira vez. A música lhe dizia que sofrimento e perda eram inevitáveis.

As árvores se agitavam com o vento e corujas começaram a piar na montanha. Shizuka voltou com o chá e o serviu a Kaede. A moça bebeu como se estivesse experimentando chá pela primeira vez, sentindo na língua o sabor distinto de cada gota fumegante. E, quando a velha que cuidava dos hóspedes trouxe arroz e legumes cozidos com coalhada de soja, era como se nunca tivesse comido aquilo antes. Deliciou-se em silêncio com as novas energias que haviam sido despertadas em seu interior. – O Senhor Arai quer lhe falar antes do fim do dia -disse Shizuka. – Disse-lhe que a senhorita não estava bem, mas ele insistiu. Se não estiver disposta a encontrá-lo agora, poderei voltar a falar com ele. – Creio que não podemos tratar o Senhor Arai dessa maneira – disse Kaede. – Se ele ordenou, devo ir. – Está muito zangado – disse Shizuka, em voz baixa. – Está ofendido e injuriado com o desaparecimento de Takeo. Vê nisso a perda de duas alianças importantes. Está quase certo de que agora deverá lutar contra os Otori, uma vez que Takeo não está do seu lado. Esperava um rápido casamento entre vocês… – Não fale nisso – interrompeu Kaede. Terminou de comer o arroz, pousou os pauzinhos na bandeja e se inclinou, agradecendo a comida. Shizuka suspirou. – Arai não conhece realmente a Tribo, a maneira como funciona, as exigências que se fazem aos que lhe pertencem. – Ele nunca soube que você pertence à Tribo? – Ele sabia que eu tinha meios de saber das coisas, de passar mensagens. Ficou satisfeito emusar minhas habilidades para aliar-se ao Senhor Shigeru e à Senhora Maruyama. Tinha ouvido falar da Tribo, porém, como a maioria das pessoas, imaginou que fosse pouco mais do que uma associação. Ao saber que estavam envolvidos na morte de Iida, ficou profundamente chocado, apesar de ter tirado proveito disso – ela fez uma pausa e depois disse, baixinho: – Ele perdeu toda a confiança em mim. Tenho a impressão de que se pergunta como dormiu tantas vezes comigo e não foi assassinado. Bem, certamente nunca mais vamos dormir juntos. Acabou-se.

– Tem medo dele? Ele a maltratou? – Está furioso comigo – respondeu Shizuka. – Pensa que o traí, pior do que isso, que o fiz de bobo. Acho que nunca vai me perdoar – havia uma nota de amargura em sua voz. – Fui sua mais íntima confidente, sua amante, sua amiga, quando eu era pouco mais do que uma criança. Dei-lhe dois filhos. Se não fosse pela presença da senhorita, ele teria me matado num instante. – Se algum homem tentar fazer mal a você, eu o matarei – disse Kaede. Shizuka sorriu. – A senhorita parece uma fera ao falar assim! – Os homens morrem facilmente – disse Kaede, com voz insípida. – Basta a picada de uma agulha, o golpe de um punhal. Foi você quem me ensinou isso. – Mas a senhorita ainda não usou essa tática, espero – replicou Shizuka. – Embora tenha lutado bem em Inuyama. Takeo lhe deve a vida. Kaede ficou em silêncio por um momento. Depois disse em voz baixa: – Fiz mais do que lutar com a espada. Você não sabe da história toda. Shizuka a encarou, espantada. – O que está me dizendo? Que foi a senhorita que matou Iida? – ela sussurrou. Kaede confirmou. – Takeo pegou a cabeça, mas Iida já estava morto. Fiz o que você me ensinou. Ele ia me estuprar. Shizuka tomou-lhe as mãos. – Ninguém pode saber disso! Nenhum desses guerreiros, nem mesmo Arai a deixaria viva.

– Não sinto culpa nem remorso – disse Kaede. – Nunca fiz nada que fosse menos vergonhoso. Não só me protegi como, também, muitas mortes foram vingadas: a do Senhor Shigeru, a de minha parenta, Senhora Maruyama, a de sua filha, e as de todos os outros inocentes que Iida torturou e assassinou. – Mesmo assim, se isso for do conhecimento geral, a senhorita será punida. Os homens pensariam que o mundo virou de ponta-cabeça, porque as mulheres começaram a pegar em armas e buscar vingança. – Meu mundo já está de ponta-cabeça – disse Kaede. – O fato é que preciso ir, para falar com o Senhor Arai. Mas ele insistiu. Se não estiver disposta a encontrá-lo agora, poderei voltar a falar com ele. – Creio que não podemos tratar o Senhor Arai dessa maneira – disse Kaede. – Se ele ordenou, devo ir. – Está muito zangado – disse Shizuka, em voz baixa. – Está ofendido e injuriado com o desaparecimento de Takeo. Vê nisso a perda de duas alianças importantes. Está quase certo de que agora deverá lutar contra os Otori, uma vez que Takeo não está do seu lado. Esperava um rápido casamento entre vocês… – Não fale nisso – interrompeu Kaede. Terminou de comer o arroz, pousou os pauzinhos na bandeja e se inclinou, agradecendo a comida. Shizuka suspirou. – Arai não conhece realmente a Tribo, a maneira como funciona, as exigências que se fazem aos que lhe pertencem. – Ele nunca soube que você pertence à Tribo? – Ele sabia que eu tinha meios de saber das coisas, de passar mensagens. Ficou satisfeito emusar minhas habilidades para aliar-se ao Senhor Shigeru e à Senhora Maruyama. Tinha ouvido falar da Tribo, porém, como a maioria das pessoas, imaginou que fosse pouco mais do que uma associação. Ao saber que estavam envolvidos na morte de Iida, ficou profundamente chocado, apesar de ter tirado proveito disso – ela fez uma pausa e depois disse, baixinho: – Ele perdeu toda a confiança em mim. Tenho a impressão de que se pergunta como dormiu tantas vezes comigo e não foi assassinado. Bem, certamente nunca mais vamos dormir juntos.

Acabou-se. – Tem medo dele? Ele a maltratou? – Está furioso comigo – respondeu Shizuka. – Pensa que o traí, pior do que isso, que o fiz de bobo. Acho que nunca vai me perdoar – havia uma nota de amargura em sua voz. – Fui sua mais íntima confidente, sua amante, sua amiga, quando eu era pouco mais do que uma criança. Dei-lhe dois filhos. Se não fosse pela presença da senhorita, ele teria me matado num instante. – Se algum homem tentar fazer mal a você, eu o matarei – disse Kaede. Shizuka sorriu. – A senhorita parece uma fera ao falar assim! – Os homens morrem facilmente – disse Kaede, com voz insípida. – Basta a picada de uma agulha, o golpe de um punhal. Foi você quem me ensinou isso. – Mas a senhorita ainda não usou essa tática, espero – replicou Shizuka. – Embora tenha lutado bem em Inuyama. Takeo lhe deve a vida. Kaede ficou em silêncio por um momento. Depois disse em voz baixa: – Fiz mais do que lutar com a espada. Você não sabe da história toda. Shizuka a encarou, espantada. – O que está me dizendo? Que foi a senhorita que matou Iida? – ela sussurrou. Kaede confirmou. – Takeo pegou a cabeça, mas Iida já estava morto. Fiz o que você me ensinou. Ele ia me estuprar. Shizuka tomou-lhe as mãos.

– Ninguém pode saber disso! Nenhum desses guerreiros, nem mesmo Arai a deixaria viva. – Não sinto culpa nem remorso – disse Kaede. – Nunca fiz nada que fosse menos vergonhoso. Não só me protegi como, também, muitas mortes foram vingadas: a do Senhor Shigeru, a de minha parenta, Senhora Maruyama, a de sua filha, e as de todos os outros inocentes que Iida torturou e assassinou. – Mesmo assim, se isso for do conhecimento geral, a senhorita será punida. Os homens pensariam que o mundo virou de ponta-cabeça, porque as mulheres começaram a pegar em armas e buscar vingança. – Meu mundo já está de ponta-cabeça – disse Kaede. – O fato é que preciso ir, para falar com o Senhor Arai. Traga-me… – ela se deteve e deu risada. – Eu ia dizer traga-me umas roupas, mas não tenho nenhuma. Não tenho nada! – Tem um cavalo – replicou Shizuka. – Takeo deixou o cinza para a senhorita. – Deixou Raku para mim? – Kaede deu um sorriso de verdade, que lhe iluminou o rosto. Fitou a distância, com seus olhos negros e pensativos. – Senhorita? – Shizuka tocou-lhe o ombro. – Penteie meu cabelo e mande dizer ao Senhor Arai que irei vê-lo pessoalmente. A escuridão já era quase total quando elas deixaram o alojamento das mulheres dirigindo-se à sala de hóspedes, onde estavamArai e seus homens. Luzes se irradiavam do templo e, mais ao longe, homens carregando tochas acesas rodeavam o túmulo do Senhor Shigeru. Até aquela hora chegava gente para visitá-lo, trazendo incenso e oferendas, colocando lanternas e velas no chão em torno da lápide, buscando a ajuda do homem morto que, cada vez mais, ia se tornando um deus para aquelas pessoas. “Ele dorme sob uma coberta de chamas”, Kaede pensou, fazendo uma prece silenciosa, pedindo que o espírito de Shigeru a guiasse, enquanto ponderava sobre o que dizer a Arai. Era a herdeira de Shirakawa e Maruyama, sabia que Arai procurava uma forte aliança com ela, provavelmente um casamento que a comprometesse com o poder que ele vinha acumulando. Tinham conversado algumas vezes durante a permanência dela em Inuyama, e também durante a viagem, mas as preocupações principais de Arai eram a defesa das regiões interioranas e suas estratégias para o futuro. Isso ele não havia compartilhado com Kaede, limitando-se a expressar seu desejo de que o casamento comOtori se realizasse. Havia um tempo, que agora lhe parecia muito longínquo, em que ela quisera ser mais do que um joguete nas mãos dos cavalheiros que comandavam seu destino. Agora, com as novas forças que o sono gelado lhe tinha dado, resolveu retomar o controle de sua vida.

“Preciso de tempo”, pensou, “não posso fazer nada com precipitação. Preciso voltar para casa antes de tomar qualquer decisão.” Um dos homens de Arai – Kaede lembrava que seu nome era Niwa – cumprimentou-a da varanda e levou-a até a porta de entrada. Todas as janelas estavam abertas. Arai estava sentado no fundo da sala e três de seus homens postavam-se perto dele. Niwa anunciou a moça e o comandante levantou os olhos para ela. Por um momento, eles se estudaram. Ela sustentou seu olhar e sentiu a energia vibrar em suas veias. Então ajoelhou-se e fez uma reverência, a contragosto mas sabendo que deveria aparentar submissão. Ele retribuiu a reverência e ambos se sentaram ao mesmo tempo. Kaede sentia que Arai a olhava. Ergueu a cabeça e lançou-lhe o mesmo olhar inflexível. Ele não a faria ceder. O coração da moça batia forte sob o efeito de sua própria audácia. No passado, depositara estima e confiança no homem que tinha à sua frente. Agora percebia mudanças em seu rosto. As linhas que lhe marcavam o contorno da boca e dos olhos haviam se aprofundado. Antes ele era pragmático e flexível, agora estava tomado por um intenso desejo de poder. Não muito longe da casa de seus pais, os Shirakawa percorriam imensas cavernas de calcário, em que a água formara colunas e estátuas. Quando criança, ela era levada todos os anos até lá, para cultuar a deusa que vivia numa daquelas colunas sob a montanha. A estátua tinha uma forma fluida e viva, como se o espírito que a habitava tentasse irromper da camada de calcário que a revestia. Agora Kaede pensava naquele revestimento de pedra. Seria o poder um rio calcário que petrificasse os que ousassem nadar nele? O tamanho e a força física de Arai fizeram-na fraquejar por dentro, lembrando-lhe o momento de impotência entre os braços de Iida, a força dos homens capazes de obrigar as mulheres a fazer o que eles quisessem. “Nunca os deixe usar essa força”, pensou, e depois: “Esteja sempre armada.” Sentiu na boca um sabor doce como caqui, forte como sangue, a consciência e o sabor do poder.

Era aquilo que levava os homens a entrar sempre em luta uns contra os outros, a escravizar e destruir uns aos outros? Por que uma mulher não poderia ter aquilo também? Ela localizou no corpo de Arai os lugares em que a agulha e o punhal tinham perfurado Iida, abrindo-o para o mundo que ele tentara dominar e deixando seu sangue vital se escoar. “Não posso esquecer-me disso”, ela pensou. “Os homens também podem ser mortos pelas mulheres. Matei o cavalheiro mais poderoso dos Três Países.” Fora educada para respeitar os homens, para submeter-se à vontade deles e à sua maior inteligência. Seu coração batia com tanta força que ela achou que fosse desmaiar. Respirou fundo, empregando as técnicas que Shizuka lhe ensinara, e sentiu o sangue serenar em suas veias. – Senhor Arai, amanhã partirei para Shirakawa. Ficaria muito grata se o senhor pudesse providenciar alguns homens para me escoltar até em casa. – Prefiro que permaneça no leste – ele disse, lentamente. – Mas não é sobre isso que desejo falar-lhe primeiro – e seus olhos se apertaram ao fitá-la. – O sumiço de Otori. Poderia esclarecer alguma coisa sobre esse acontecimento espantoso? Acredito ter confirmado meu direito ao poder. Já havia me aliado aos Shigeru. Como pôde o jovem Otori ignorar suas obrigações para comigo e comseu falecido pai? Como pôde desobedecer e ir embora? E para onde ele foi? Durante todo o dia meus homens vasculharam a região, até Yamagata. Ele se evaporou. – Não sei onde ele está – ela respondeu. – Disseram-me que ele falou com a senhorita ontem à noite, antes de partir. – Falou – ela disse, com simplicidade. – Deve pelo menos ter explicado… – Estava comprometido com outras obrigações – Kaede sentiu-se invadir pela mágoa à medida que falava. -Ele não tinha intenção de insultá-lo. Na verdade, ela não se lembrava de que Takeo tivesse mencionado Arai, mas não o disse. – Obrigações com a tal Tribo? – até então Arai controlara sua cólera, porém agora ela irrompia em sua voz, em seus olhos. Moveu a cabeça lentamente e Kaede percebeu que ele estava olhando por sobre seus ombros, para Shizuka, ajoelhada na sombra da varanda. – O que sabe sobre eles? – Muito pouco – ela respondeu.

– Foi com a ajuda deles que o Senhor Takeo chegou a Inuyama. Acho que todos nós lhes devemos gratidão por isso. Ao pronunciar o nome de Takeo, ela estremeceu. Reviveu a sensação do corpo dele contra o dela, no momento em que ambos esperavam morrer. Seus olhos tornaram-se sombrios, sua expressão se suavizou. Arai o percebeu, sem no entanto saber o motivo da alteração, e, quando ele voltou a falar, Kaede ouviu mais do que raiva em sua voz. – Pode-se arranjar outro casamento para a senhorita. Há outros rapazes entre os Otori, primos de Shigeru. Enviarei mensageiros a Hagi. – Estou de luto pelo Senhor Shigeru – ela respondeu. – Não posso pensar em me casar comninguém. Irei para casa recuperar-me do meu pesar. “Será que alguém irá querer casar-se comigo, conhecendo minha reputação?”, a moça indagou a si mesma, e não pôde deixar de dar continuidade a seu pensamento. “Takeo não morreu.” Achou que Arai fosse discutir, mas depois de um momento ele concordou. – Talvez então seja melhor ir até seus pais. Mandarei buscá-la quando eu voltar para Inuyama. Então falaremos sobre seu casamento. – O senhor fará de Inuyama a sua sede? – Sim, pretendo reconstruir o castelo – sob a luz tênue, sua expressão se fechou e ele parecia ensimesmado. Kaede não disse nada. De repente, Arai voltou a falar: – Mas para voltar à Tribo! Eu não imaginava que a influência dessa gente fosse tão forte, a ponto de fazer Takeo abandonar um casamento como esse, uma herança como essa, e depois escondê-lo completamente. Para falar a verdade, eu não tinha idéia do que tinha diante de mim – e ele olhou de novo para o lado de Shizuka. “Ele vai matá-la”, Kaede pensou. “Não está apenas com raiva pela desobediência de Takeo. Sua auto-estima foi profundamente atingida.

Deve estar suspeitando de que Shizuka o espionou durante anos.” Ela se perguntava o que fora feito do amor e do desejo que um tinha pelo outro. Será que tudo se dissolvera da noite para o dia? Será que os anos de favores, a confiança e a lealdade, tudo se acabara? – Vou fazer todo o possível para descobri-los – continuou, como se estivesse falando consigo mesmo. – Deve haver quem saiba, quem fale. Não posso deixar que uma organização como essa continue existindo. Eles vão minar meu poder como os cupins corroem a madeira. Kaede disse: – Creio que foi o senhor que enviou Muto Shizuka até mim, para me proteger. Devo a vida a essa proteção. E creio que cumpri a promessa que lhe fiz no castelo Noguchi. Entre nós existem laços fortes, que não devem se romper. Quem se casar comigo irá jurar lealdade ao senhor. Shizuka continuará me prestando serviços e me acompanhará à casa de meus pais. Ele olhou para Kaede, e mais uma vez ela o encarou com gelo nos olhos. – Há quase quinze meses matei um homem pela senhorita, que era então pouco mais que uma criança – ele disse. – A senhorita mudou muito… – Tornei-me – ela replicou. Fez um esforço para não pensar em suas roupas emprestadas, sua absoluta falta de posses. “Sou herdeira de um grande domínio”, ela disse a si mesma. Continuou sustentando seu olhar, até que, relutante, ele baixou a cabeça. – Muito bem, mandarei alguns homens com a senhorita a Shirakawa, e pode levar a mulher Muto. – Senhor Arai – só então ela baixou os olhos e fez uma reverência. Arai chamou Niwa para tomar as providências para o dia seguinte, e Kaede lhe desejou boa noite, falando com muita deferência. Sentiu que tinha se saído bem do encontro; conseguira fingir que todo o poder estava com ele. Voltou para os aposentos das mulheres com Shizuka, as duas em silêncio. A velha já tinha arrumado as camas. Então ajudou Shizuka a despir Kaede e trouxe-lhes trajes de dormir.

Desejandolhes boa noite, retirou-se para o quarto ao lado. Shizuka estava pálida e Kaede nunca a tinha visto tão abatida. Ela tocou na mão de Kaede e sussurrou apenas: – Obrigada. Quando as duas estavam deitadas sob os acolchoados de algodão, os mosquitos revoando emtorno de suas cabeças e as traças batendo de encontro às lanternas, Kaede, sentindo o corpo rígido de Shizuka próximo ao seu, percebeu que ela estava mergulhada em pesar, embora não estivesse chorando. Kaede envolveu Shizuka com seus braços, estreitando-a, sem falar nada. Ela compartilhava a mesma tristeza profunda, mas não tinha uma lágrima nos olhos. Não permitiria que nada enfraquecesse a energia que nascia dentro dela. 2. N a manhã seguinte, liteiras e uma escolta haviam sido preparadas para as duas mulheres. Partiramassim que o sol surgiu. Lembrando a advertência de sua parenta, a Senhora Maruyama, Kaede entrou suavemente na liteira, como se fosse tão frágil e fraca quanto a maioria das mulheres, mas assegurouse de que os cavalariços haviam trazido do estábulo o cavalo de Takeo. E, assim que tomaram a estrada, abriu as portas de papel de modo que pudesse ver o que acontecia no exterior. O fato de olhar para fora não evitou que ela tivesse náuseas. Não suportava o balanço da liteira e, na primeira parada que fizeram para descansar, ela estava tão tonta que quase não conseguia andar. Não agüentava olhar para a comida e, ao tomar um pouco de chá, vomitou na mesma hora. A fraqueza de seu corpo a enfureceu, pois era como se minasse sua recém-descoberta sensação de energia. Shizuka levou-a para um cômodo da estalagem, lavou-lhe o rosto com água fria e a fez deitar-se umpouco. O mal-estar passou tão depressa quanto chegara, e ela conseguiu tomar um pouco de sopa de feijão-vermelho e uma tigela de chá. No entanto, só de olhar a liteira, voltou a sentir-se enjoada. – Tragam-me o cavalo. Vou cavalgando. O cavalariço ajudou-a a subir em Raku e Shizuka montou na garupa, atrás dela. Assim, elas cavalgaram pelo resto da manhã, falando pouco, cada uma absorvida em seus próprios pensamentos, mas sentindo-se confortadas por estarem tão próximas. Depois de deixarem Yamagata, a estrada tornou-se uma subida íngreme. Em alguns trechos, era pavimentada com imensas pedras achatadas.

Já havia prenúncios do outono, apesar do céu claro e azul e do ar quente. As faias, as sumagreiras e os bordos já se tornavam dourados e vermelhos. Fileiras de gansos selvagens voavam alto. A floresta se adensava, silenciosa e abafada. O cavalo andava suavemente, de cabeça baixa, buscando com cuidado onde pisar. Os homens iam em alerta e apreensivos. Desde a derrubada de Iida e dos Tohan, aquela região estava repleta de homens sem comando, de todas as categorias, que em vez de prestar juramento de lealdade a outros senhores desviavam-se para o banditismo. O cavalo era forte e elegante. Apesar do calor e do esforço da subida, seu pêlo trazia poucas marcas de suor quando voltaram a parar numa pequena estalagem no topo da trilha. Era um pouco mais de meio-dia. Os cavalos foram entregues para que lhes dessem alimento e água, os homens buscaram as sombras das árvores em torno do poço. Uma velha mulher abriu colchões no chão de umquarto forrado de esteiras para que Kaede e Shizuka descansassem por uma ou duas horas. Kaede se deitou, grata por poder repousar. A luz do quarto era pálida e esverdeada. Imensos cedros obstruíam grande parte da claridade. Ela ouvia a distância o suave respingar da fonte e vozes: os homens conversando tranqüilamente, de vez em quando uma risada, Shizuka conversando comalguém na cozinha. De início, Shizuka tagarelava com voz forte e Kaede ficou satisfeita, pois ela parecia estar recuperando o ânimo. Mas logo Shizuka baixou a voz e a pessoa com quem ela falava respondia no mesmo tom. Kaede já não conseguia distinguir o que diziam. Depois de algum tempo, a conversa cessou. Shizuka entrou silenciosamente no quarto e deitouse perto de Kaede. – Com quem estava falando? Shizuka se virou para falar no ouvido de Kaede: – Tenho uma prima que trabalha aqui. – Você tem primos em todo lugar. – Na Tribo é assim. Kaede ficou calada por um momento.

Depois disse: – Os outros não desconfiam de quem você é e não ficam querendo… – Querendo o quê? – Bem, livrar-se de você? – Ninguém ousa – Shizuka riu. – Temos muito mais meios de nos livrar deles. E ninguém nunca sabe nada de nós, pode estar certa. Alguns têm suas suspeitas. Mas a senhorita deve ter notado que tanto meu tio Kenji como eu podemos adquirir muitas aparências diferentes. Os da Tribo são difíceis de reconhecer e, além disso, têm várias outras artes. – Pode me falar mais a respeito deles? – Kaede estava fascinada por aquele mundo que havia por baixo do que ela conhecia. – Posso falar um pouco, não tudo. Mais tarde, quando ninguém nos puder ouvir. Um corvo passou voando, dando um grito estridente. – Fiquei sabendo de duas coisas por minha prima -disse Shizuka. – A primeira é que Takeo não saiu de Yamagata. Arai tem grupos de busca atuando e guardas na estrada. Vão escondê-lo dentro da cidade. O corvo gritou de novo. “Aah! Aah!” “Talvez eu tenha passado por seu esconderijo hoje”, pensou Kaede. Depois de um longo tempo, ela disse: -Qual é a segunda coisa? – Um acidente poderá ocorrer na estrada. – Que tipo de acidente? – Comigo. Parece que Arai quer se livrar de mim, como a senhorita pode imaginar. Mas está planejando para acontecer como se fosse um acidente, um assalto de bandidos, algo assim. Ele não suporta que eu continue viva, porém não quer ofendê-la diretamente. – Você precisa ir embora – a voz de Kaede se levantou diante da urgência. – Enquanto estiver comigo, ele saberá onde encontrá-la. – Psss – Shizuka advertiu. – Só estou lhe contando para que não cometa nenhuma loucura.

– Que tipo de loucura? – Usar seu punhal para tentar me defender. – Isso eu faria, mesmo – disse Kaede.

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